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Animais, humanos e o bicho que deu – terceiro (e último?)

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Humanos entre as formas inferiores de vida

“Animais, humanos e o bicho que deu” – terceiro (e último?) texto da saga “sobre” pesquisas em animais (ou “descobrindo os neurônios, estes simpáticos desconhecidos”).

No primeiro texto houve uma tentativa de diminuir a hipocrisia acerca da discussão: tudo foi testado em animais. Até você foi testado em animais. Sim, meu caro: converse com seu avô sobre aquela vaquinha solitária no campo, dia nublado… Antes da sua avó, numa época onde não existiam redtube e xvideos, parece que o treino era outro… Segundo Luis Fernando Veríssimo, o termo é “barranquear”. Mas bora deixar isso quieto, né? (…e vc achando que o Porta dos Fundos estava inovando com o iogurte grego, né?)

Exploração do mundoNo segundo texto, houve uma tentativa de discutir um problema de MODELO. Yeap: o tal modelo cultural (sócio-econômico) que nos leva a um consumo que não tem como ser sustentado, em qualquer área abordada. Loooooonge de ser um especialista em história, mas neste modelo precisamos de “reboots” esporádicos, sejam eles naturais, “naturais” (chuuuuuuupem, céticos da conspiração) e guerras. Destrói-se parte do mundo vigente e o modelo de consumo sobrevive na (re)construção obrigatória e nos espólios de guerra. Os mais conservadores vão dizer que vivemos assim desde a revolução industrial. Os menos conservadores dirão que vivemos assim desde, “tipo”, sempre.

…e aqui, no “sempre” do parágrafo anterior, é que embarcamos no terceiro texto. Vamos lá…

Boa parte do mundo tem o hábito de olhar para a natureza – essa entidade bonita, mágica e divina (“ó mãe, amém”) – e dizer “o homem é um BICHO mesmo! A natureza vive em harmonia, olha só que Munito”. Normalmente isso acontece com uma paisagem ninja como pano de fundo. Sendo pôr do sol, em algumas praias do Rio, rolam palmas, ervas e duas lágrimas…

Não, não discordo da harmonia. Só não sei se há harmonia no conceito de harmonia proposto pelos saudadores do sol…

Bora PENSAR juntos: evolutivamente, salvo se você acreditar em adão e eva (e aí é melhor parar de ler o texto por aqui e er… sei lá, desistir da vida) uma das bases sobre as quais a vida se estabeleceu foi a COMPETIÇÃO. Gênica, individual ou em grupo, a palavra chave pode ser esta: competição. Competir para sobreviver e continuar no jogo. Aquele papo brabo, mas verdadeiro: adaptar, migrar ou morrer.

Parece radical – e é. Mas temos toneladas de exemplos por aí de estratégias evolutivas cujo objetivo é OBLITERAR a competição direta e atrapalhar a indireta. Google it: amensalismo. Eu espero. … … Isso aê. Quanto mais recursos EXCLUSIVOS, melhor. E, idealmente, para o INDIVÍDUO.

Exemplo de amensalismo

Salto obrigatório: como saímos do indivíduo para o social? “Bichinhos são bons! Os humanos são os malvados das história!” Veja bem… Dois problemas. O primeiro é a premissa de que os animais são bonzinhos. Não são. Esse conceito é HUMANO. Animais têm sentimentos. Mas a definição dos sentimentos que eles têm é nossa, humana também.

Antes que você tire a cueca ou a calcinha pela cabeça: pense na sua cadelinha. Isso. Pense nos filhotinhos dela. Beleza. Espere um ano e coloque-os juntos, enquanto ela estiver no cio e espere para ver o que vai acontecer… Separe KY, pode ser necessário.

Passando da fase “animais bonzinhos”, vem o segundo problema: socio-biologia evolutiva é um tema complicado. Mas uma abordagem possível é a de que comportamentos sociais surgiram como benefício onde os individuais falharam.

Cara de WTF e a pergunta “Hein?” (ou “Cuma?”, versão brasileira – Herbert Richards)

…tá. Exemplo: se um lobo/leoa/escolha-seu-animal tenta caçar, sozinho, uma presa que tem mais de 10x o seu próprio peso, o risco de falhar é alto. E, falhando, pode morrer. E suas crias também. E a espécie vai pro saco. Fim.caça cooperativa

Foram os primeiros indivíduos que surgiram com o comportamento SOCIAL de caça que adquiriram uma vantagem frente aos demais solitários e, com isso, a característica foi selecionada. Nem sempre precisa ser assim: há espécies sociais e outras solitárias. Mas, para algumas espécies, ser bom para a espécie é, boa parte das vezes, bom para o indivíduo. Ainda vale o de sempre: dentro daquele grupo/matilha só furunfa o mais “forte”. Genes “duplamente” selecionados – social e individual.

…ok, comportamento social básico já foi. E os mais complexos? E o altruísmo? Mais complicado ainda – e, talvez, igualmente simples. A troca de posições no V das aves migratórias, o suricato de vigilia “pelo grupo” ou ajudar a tiazinha de 7329 anos a atravessar a rua podem ter o mesmo princípio básico: suportar em grupo o que, sozinho, é impossível. Migrar com todo o atrito do vento por milhares de quilômetros na “lata” pode ser mortal para UM indivíduo. Mas não para vários… Aparece então a lógica do revezamento de buchas: “bota um bucha lá na frente e deixe-o ali por um tempo, depois a gente troca de bucha”. Altruísmo? Nope. Sobrevivência.

E onde entra o atravessar da velhinha? No mesmo lugar combinado, possível, do uso de ferramentas e do comportamento social…

Senhora idosa atravessando a rua? Pontos de bônus triplos.

Cara de “WTF” de novo, eu sei. Mas vamos lá: desde antes dos primatas, aprendemos por imitação. Os primatas (não apenas), no entanto, levaram isso a outro nível: além da imitação, rolou a tal “empatia”. E, fazendo uma história longa curta, ao ajudarmos a tiazinha de 9231 anos a atravessar a rua, geramos um viés para o aprendizado de um comportamento de imitação nos demais membros do grupo, sobretudo nos mais jovens. Assim, quando estivermos tão velhinhos quanto a tiazinha, este comportamento pode vir a ser “pago” e nossa vida estendida mais uns dias/meses (bem como nossa chance de passar adiante nossos genes). Sim, PODE vir. Não é uma ciência EXATA e vc pode morrer antes pela mordida de um urso ou, hoje, porque saiu voando com a explosão de um bueiro embaixo de você. Tempos modernos… Mas de um jeito ou de outro, a “genética social” foi selecionada e vige até hoje.

“…mas que volta bizarra para falar de… de que mesmo? Esqueci.” Meu caro amigo amnético, o foco é “o bicho que (a evolução) deu”. Se a evolução teve como base a competição, foram os bichos mais bem adaptados (dããã) que sobreviveram. Somos nós, humanos, se você ainda não notou. Não temos a força dos nossos amigos primatas, ou os sentidos dos felinos. Mas inventamos a pólvora. E a vaselina. Daí, né, abraço…

O fato é que se você deixar uma colônia de bactérias crescer, ela vai dominar o mundo até que comece a parar de se reproduzir POR FALTA DE RECURSOS NATURAIS. Mais ou menos a mesma coisa para formigas ou cupins. Ou ratos. Yeap, deduziu, né? Humanos TAMBÉM. E estamos tentando, com ódio e fúria no coração, exaurir os recursos do planeta.

leão orando

Imagem de leão orando para desmentir o autor

…e esse é o ponto. Essa pressão evolutiva-competitiva-destrutiva é FORTE. Quase determinista. É por ela que a cadeia alimentar se estabelece, que animais “se comem uns aos outros”, sem culpa (mais uma vez, presumo. Nunca vi um leão “orando” antes de comer). Há exemplos surreais de larvas comedoras de vísceras, entre insetos, que fazem muitos rituais humanos de torturas parecerem brincadeira da Disney… Isso é “a natureza”. Só que sem palmas no pôr do sol…

Mas, como eu disse ali no início do parágrafo anterior, essa pressão evolutiva é QUASE determinista. Porque, salvo engano, dadas as limitações que temos na comunicação com os animais, eu suponho que sejamos a única espécie deste planeta que REFLETE sobre sua própria existência. Vou complicar: temos consciência do eu (self) e do coletivo – em relação não apenas ao self mas também ao próprio coletivo.

“Poooooooorra….”

Não, não desista, não acenda o orégano, nem pegue a pílula azul! (Kansas is going bye-bye anyway). A tradução mais fácil é: humanos pensam no que são: entre si, no que as outras espécies são, na relação entre elas e os humanos e na relação apenas entre elas. E isso, no nível que fazemos e até que se prove o contrário, é inédito.

Posto desta forma, usamos animais na panela e nos laboratórios porque evolutivamente nos tornamos superiores a todos eles. Felizmente ou infelizmente, isto é um fato.

“Os seres humanos são uma doença. Um câncer neste planeta. Vocês são uma praga”. (Agente Smith)

E é por isso TUDO que eu tenho perdido um bom tempo no intuito de fazê-los pensar. Porque acredito que está na hora de, como disse antes, refletir sobre este papel evolutivo destrutivo como único caminho. Não, eu não sou bonzinho. Eu acho que, “a la” agente Smith, os humanos estão agindo como um câncer bizarramente agressivo para o planeta. Se a gente matar o hospedeiro, morre. Simples assim. Há muitos exemplos de organismos que agem da mesma forma. Mas há exemplos de organismos que agem de outras maneiras, menos “burras”.

O uso de animais na panela e na pesquisa vai seguir por muito tempo… Mas a gente precisa começar a mudança por algum ponto: minimizar sofrimentos dos animais é um começo necessário, em qualquer “utilização”. E os desperdicios de alimentos – vida animal e vegetal (“conheço tomates que discordariam do sr”) – também precisam ser BEM revistos…

PenseNADA do que eu falei é verdade absoluta. É só um convite por REFLEXÃO. Uma reflexão acerca de nossa natureza biológica e de onde esta natureza nos levou… Foi a algum lugar tão atípico que muitos humanos simplesmente desconsideram esta evolução e nos atribuem um status diferente – Humano – (maiúscula obrigatória) alheio ao mundo natural e às influências óbvias que nos trouxeram onde chegamos…

…entender quem somos é como montar um quebra-cabeças: sem todas as peças, devidamente dispostas, não saberemos qual a figura final…

Abraço ou beijo segundo o par de cromossomos.

Leia as partes iniciais:  Vamos lá: pesquisa em animais… e  Pesquisa em animais parte 2, a revanche.

Leia também Pesquisa com animais, sim ou não?

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4 comentários sobre “Animais, humanos e o bicho que deu – terceiro (e último?)

  1. O texto está muito convidativo. É impossível não ler até o fim. Este é, sem dúvida, é um dos melhores que vi sobre o assunto. Um merge de humor com seriedade na dose certa.

  2. andréia disse:

    É muita pretensão dos cristãos achar que Deus só privilégiou os humanos com sentimentos. Ele pode ter só criado uma bactéria no universo e ter deixado rolar. Bem, eu sei que o tema não é esse, mas foi o que fiquei refletindo, sobre a gnt achar que somos o máximo do universo pq temos empatia, o que segundo o texto é só evolucionismo!

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