democracia, ideologia, política

Quantas mortes cabem a Bolsonaro?*

Bolsonaro cumprimenta apoiadores em ato no Palácio do Planalto
Caronte, de Gustave Doré

Morto! Não pertencia mais àquele lugar. Era preciso atravessar Aqueronte, o rio da dor, e singrar do mundo dos vivos para o dos mortos. Apenas Caronte, barqueiro dos mortos, fazia a viagem entre as margens, atravessando as almas. Pôs-se a caminho. Chegou ao rio da dor, vislumbrou imensidão de almas em sofrimento. Gemiam e se contorciam, enquanto fitavam com olhos taciturnos a outra margem, o mundo dos mortos. Sofriam, mas não atravessavam. Não atinou com a razão, sequer pensou no fato. Como ingressavam as últimas almas para mais uma travessia, acelerou o ritmo e buscou embarcar. Não conseguiu. Viu-se bloqueado, antes que seus pés tocassem o interior da embarcação. Fora impedido por Caronte que lhe cobrava o óbolo, a moeda de pagamento. Lembrou que os vivos, temendo que as almas voltassem para atormentar, colocavam moedas na boca dos mortos para o pagamento do barqueiro da morte. Explorou em vão a própria boca, não havia óbolo, apenas o vazio. Crivado de espanto, entendeu, de súbito, seu destino. Graças à mesquinhez de Caronte, eternamente preocupado com o dinheiro, seria mais uma das pobres almas que, não podendo pagar a travessia, vagaria e agonizaria por eras às margens do rio da dor.

Muitas almas sairão do mundo dos vivos durante a pandemia do Covid-19. Quantas destas mortes cabem a Bolsonaro? Seria justo colocar na conta do presidente todas as almas brasileiras que atravessarão o Aqueronte? Seria correto ignorar que diversas mortes terão relação direta com a política de morte (necropolítica) do presidente? Consideremos essas questões detalhadamente.

Todas as mortes decorrentes do Covid-19 podem ser atribuídas a Bolsonaro? Todas, não! O vírus não tem relação direta com o presidente, apareceu no mundo e segue produzindo mortes globalmente. Mas a política de enfrentamento ao vírus, que cabe ao presidente, vai resultar em mais ou menos mortes, dependendo do acerto das medidas adotadas. A OMS e todos os países ao redor do mundo têm trabalhado com o isolamento social horizontal buscando “achatar a curva” com resultados importantes na prevenção de mortes. Países que pensaram diferente, como Itália, Reino Unido e Estados Unidos, se curvaram à realidade e acabaram por adotar o isolamento social.

Bolsonaro, por sua vez, insiste em salvaguardar apenas as pessoas do grupo de risco e incentiva o contágio acelerado, sob a equivocada premissa de que isso preservará a economia. A política adotada pelo presidente provoca um pico acentuado de internações e mortes que extrapolará a capacidade de atendimento do sistema de saúde. Assim, todas as mortes que vierem a ocorrer em razão do número de pacientes exceder a capacidade do sistema caem na conta da necropolítica do governo. Sem mas, nem meio mas, as mortes decorrentes da incapacidade de atendimento, são mortes que cabem a Bolsonaro!

Ah, e o PT? Questão válida! Podemos culpar a fragilidade do sistema de saúde decorrente de governos anteriores? Sim, podemos e devemos, pois há muito o SUS agoniza com políticas de baixo investimento. Críticas merecidas foram feitas aos presidentes anteriores por investir pouco e sucatear o SUS quando governavam o país. Agora, temos outro presidente e são as políticas dele, sem desconsiderar o país que recebeu, que reduzirão ou ampliarão o número de mortes. Contudo, é necessário lembrar que a atuação do governo Bolsonaro desde que assumiu não se direcionou a resolver os problemas existentes e fortalecer o SUS, ao contrário, sempre buscou reduzir ainda mais os investimentos em saúde.

Para Bolsonaro e Guedes, se gasta demais com a máquina pública, incluída a saúde. A política neoliberal de enxugamento do Estado, reduzindo o investimento em saúde (equipamentos, insumos, pessoal…), limitando os gastos com a área social (conforme a malfadada Emenda Constitucional 95), entre outras ações, mostram que a política deste governo pegou um sistema frágil e o fragilizou ainda mais. O ministro da Saúde, Nelson Teich, alinhado com o presidente, ao falar da compra de respiradores para o período de crise, disparou: “O que você vai fazer com eles depois?” Ou seja, salvar vidas não é importante, evitar gastos com equipamentos, é. Então, sim, há culpa de governos anteriores, mas este governo, ao avançar em sua política neoliberal, destruindo o SUS e reduzindo profissionais e recursos, limita ainda mais a capacidade de atendimento da saúde. Então, as mortes que ocorrerem por exceder a capacidade de atendimento do sistema de saúde são mortes que cabem a Bolsonaro.

É preciso considerar ainda as ações de Bolsonaro que auxiliaram a dispersar o vírus, fazendo a curva acelerar e o número de casos estar acima da capacidade do sistema de saúde. O presidente atuou como dispersor do vírus através dos atos e marchas que convocou e apoiou; do incentivo permanente para que as pessoas fossem para as ruas; do espetáculo midiático quase cotidiano de não cumprir as recomendações do ministério da Saúde e da OMS; dos discursos direcionados aos autônomos e pequenos empresários de que deveriam voltar ao trabalho. Além disso, é razoável considerar a hipótese, muito provável, de que estando e se sabendo contaminado (nunca permitiu a divulgação do resultado do seu exame para a Covid-19), Bolsonaro tenha dispersado direta e intencionalmente o vírus ao contatar pessoas, incluindo apoiadores e membros do governo. Todas essas ações do presidente contribuíram para a aceleração da curva de contágio e, assim, as mortes que vierem a ocorrer porque o contágio foi acelerado, ultrapassando a capacidade de suporte, cabem a Bolsonaro!

Apenas as mortes do Covid-19 podem ser atribuídas a Bolsonaro? Não, afinal quando a capacidade de suporte do sistema tiver sido ultrapassada, qualquer pessoa em qualquer emergência (acidente de trabalho, atropelamento, fratura, avc…) não poderá ser atendida prontamente pela falta de leitos, equipamentos e profissionais. Portanto, Bolsonaro é culpado por todas as mortes, mesmo aquelas não oriundas do Covid-19, decorrentes da falta de atendimento que venha a ocorrer nos momentos em que a demanda ultrapassar a capacidade de suporte do sistema.

Além disso, é necessário recordar que, junto com Guedes, Bolsonaro é o dono do cofre da União. Cofre que eles buscam manter fechado para o povo, embora fique escancarado para o capital rentista (ao qual destinaram mais de 1 trilhão de reais logo no início da epidemia). Para a população, liberações a conta-gotas e a contragosto associadas às ameaças de que, sem o suporte da União, estados e municípios irão quebrar enquanto tentam salvar vidas. Bolsonaro ameaça deixar os gestores estaduais e municipais em condição de penúria, em vez de assumir políticas de resgate econômico para que possam funcionar em tempos de crise e salvar vidas.

O saldo desse cômputo é o número de mortes que cabe a Bolsonaro e aos bolsonaristas que apoiam a política de morte. Não importa que diga “E daí?”, “Não sou coveiro”, “Quer que faça o quê?” ou “Eu sou Messias, mas não faço milagres”, qualquer pessoa que venha a morrer porque o colapso do sistema não permitiu o atendimento adequado, morreu porque o presidente implantou uma necropolítica onde a economia e o interesse dos grandes rentistas está acima da vida humana. Tal qual Caronte em sua mesquinhez, Bolsonaro, preocupado apenas com o dinheiro, condenará muitos a sofrerem às margens do rio da morte. Então, durante a pandemia, qualquer um que venha a perder um parente ou um amigo por conta da saturação do sistema de saúde pode dizer sem medo de errar: “Essa morte cabe ao presidente Bolsonaro!”

* Publicado originalmente no portal EOL em 06/05/2020: https://esquerdaonline.com.br/2020/05/06/quantas-mortes-cabem-a-bolsonaro/

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Para quem serve o Ensino a Distância em tempos de pandemia?*

Eblin Farage**, de Niterói, RJ

EaD na USP

As razões que nos levam a apontar críticas ao ensino a distância (EaD), quando proposto em substituição ao ensino presencial, emergem das análises realizadas sobre o projeto de educação sugerido pelos organismos internacionais e executado pelos governos a serviço do capital. Como aponta o Banco Mundial (BM), esse projeto tem por objetivo a implantação de uma educação terciária aligeirada e, exatamente por isso, vem sendo debatido e criticado pelas entidades e profissionais da educação há pelo menos três décadas. Embora os contrapontos a essa proposta de ensino tenham sido já longamente debatido, neste momento em que vivemos o distanciamento social, o EaD aparece, novamente, como a alternativa capaz de proporcionar educação àqueles que se encontram impedidos de ir ao espaço formal da escola/ Universidade. Assim, neste momento, o que queremos e debater os motivos para defender a EaD em tempos de pandemia.

Para debater o EaD neste momento de pandemia, escolhi um caminho orientado por três perguntas:

  • O que este momento da pandemia gera para o(a)s professore(a)s?
  • O que este momento gera para o(a)s aluno(a)s?
  • Qual a dimensão pedagógica deste momento de pandemia?

Ao nos debruçarmos sobre a primeira questão, é necessário atentar para o fato de que vivemos um isolamento social imposto. Sim, imposto! E a dimensão da imposição gera duas grandes questões para refletirmos sobre nossa realidade cotidiana. Primeiro, a imposição não nos permitiu preparo prévio. Sendo inesperada, não abriu lacuna temporal para que realizássemos qualquer planejamento. Resulta desta imediaticidade de demanda uma segunda dimensão, que é a absorção de novas tarefas em nossos trabalhos cotidianos. Atividades não previstas, muitas vezes para as quais não possuímos formação nem estamos preparados, e as quais somos, de uma hora para outra, demandados a responder. E, em adendo, há uma leitura de que temos tempo para nos dedicar a estas atividades e às aprendizagens necessárias, pois, como estamos em casa, estamos de férias curtindo um repouso.

Não, não estamos de férias! Não planejamentos viagens e divertimentos, assim como não planejamos acumular ao trabalho doméstico, o cuidado com crianças, idosos e pessoas com deficiência. O isolamento, sem preparação prévia, nos colocou frente a limitações materiais as mais variadas e a imposições de demandas emocionais e organizacionais para as quais não estávamos preparados e, em alguns casos, não desejávamos. Assim, um conjunto de novos e velhos conflitos passa a permear nosso cotidiano e, agora, cobrados sob a alegação de que não há a desculpa de que não temos tempo para tratá-los, mesmo que saibamos que, para algumas dessas questões, não temos respostas.     

O impacto material e emocional gerado pela imposição de uma rotina não planejada e, muitas vezes sem as condições materiais necessárias para enfrentá-la, pode gerar boas surpresas e novas experiências, mas também frustrações, sobrecarga e desgaste emocional e físico. Por isso o período de isolamento social não pode ser considerado: a) férias; b) cotidiano de normalidade e rotina e c) tempo de trabalho regular. 

Sim, é preciso afirmar, não estamos em nosso trabalho regular. O trabalho remoto não substitui plenamente o trabalho presencial, não temos condições de responder às mesmas demandas e assegurar o mesmo desempenho. Quando preparamos aulas na “normalidade” da vida cotidiana, o fazemos sem criança para olhar, sem casa para arrumar, sem comida para fazer, sem idoso para cuidar ou pelo menos com esses elementos já plenamente inseridos em nossa organização cotidiana. Por isso, não acredito que o isolamento social imposto de maneira imediata possa ser comparado com o trabalho regular sem isolamento, daí não ser possível exigir o mesmo “desempenho”. 

Mas por que falar em desempenho? Porque somos cobrados através da lente da eficácia das ações. Assim, acima de tudo, o volume de atividades que nos acomete durante o isolamento faz com que a impossibilidade de estudar, preparar aulas, escrever artigos, ler livros ou mesmo ver filmes ou séries gere frustração. Por isso vemos muitas pessoas, pelas redes sociais, perguntando como outras arrumam tempo para fazer tantas coisas? Como brincam tanto com os filhos, escrevem tantos textos, acessam tanto as redes sociais, assistem a tantos filmes, cozinham tantas coisas, dão conta de tantas atribuições domésticas? Confinadas em suas casas, as pessoas parecem se envolver em um turbilhão de atividades. A sensação é a de que lá na frente estarão esgotadas, estafadas. É tanta demanda que, como dizem alguns, após a pandemia será necessário férias!

Agregado às novas atribuições e às frustrações que a situação provoca, temos o sofrimento dos diferentes distanciamentos que a pandemia nos impõe. Distância de amigos, familiares, amores, atividades físicas, passeios, festas, bares, religião (em especial as que não são neopentecostais e estão seguindo o isolamento social), e até (por curioso que seja) tratamentos de saúde. 

Neste contexto, como conseguir focar no que se é demandado a fazer? Como manter ou quiçá elevar (sério que esperam isso?) o conclamado “desempenho”? Como estar com a cabeça boa para trabalhar?

Mas se nós professore(a)s estamos assim, olhemos para a segunda questão que norteia nosso caminho e questionemos, como estão nosso(a)s aluno(a)s? Estão muito próximos da nossa situação material e emocional no que tange as condições para o processo de ensino-aprendizagem. Alienados, em muitos casos, das condições objetivas materiais por estarem e/ou terem seus parentes desempregados e sem qualquer fonte de renda. 

Nesse sentido, nosso(a)s aluno(a)s, assim como nós, estão agregando trabalho e tendo que se envolver em rotinas de cuidados que antes não eram sua responsabilidade. Para muitos de nosso(a)s aluno(a)s a situação é muito pior que a do(a)s professore(a)s, pois em muitos casos não dispõem de internet e, muitas vezes, nem de computador. Indo além, muitos não têm sequer uma casa ou um cômodo confortável, com espaço silencioso para estudar, até porque, nas favelas as incursões policiais e as guerras entre facções rivais, apesar de terem diminuído, continuam. E nosso(a)s aluno(a)s com deficiência que, em muitos casos, precisam de mediadores e material adaptado, serão atendidos em suas necessidades? 

Há muitas especificidades, há muitas desigualdades, e não se pode nem deve pensar a educação só para alguns, ou em privilégio de alguns. O EaD, nesse contexto, como substituição ao ensino presencial, é uma forma de elitizar a educação e aprofundar a desigualdade, o fosso entre ricos e pobres. Em um país tão desigual, direitos se tornam privilégios. A educação presencial, nas instituições públicas de ensino, garante a possibilidade de amenizar essa desigualdade. Assim, as condições desiguais entre nosso(a)s aluno(a)s, por si só, justificam a impossibilidade do EaD ser assumido como substituto ao presencial. Durante a pandemia, o ensino a distância aprofunda a desigualdade e inviabiliza qualquer possibilidade de isonomia no processo de ensino-aprendizagem. 

Mas há mais elementos. Muito(a)s do(a)s nosso(a)s aluno(a)s estão buscando formas de cadastrar suas famílias para a renda emergencial do governo, pois com a pandemia, uma grande parcela de subempregados/as foi descartada. Nosso(a)s aluno(a)s, filho(a)s de empregadas domésticas, motoristas de Uber, pedreiros, faxineiras, diaristas, cozinheiras, vendedores de hambúrgueres e cachorro-quente, salgadeiras, manicures e de toda a sorte de subempregos que a reforma trabalhista e o capitalismo chamam de empreendedorismo, precisam sobreviver. E a luta não é só contra a Covid-19, mas é também contra a fome e o despejo por não conseguir pagar o aluguel. Parte de nosso(a)s aluno(a)s, em especial aquele(a)s que ingressaram no ensino superior pelas cotas sociais e raciais, hoje estão apreensivo(a)s pela aprovação de medidas que inviabilizem os despejos e o corte de energia, água, luz e gás. Estão atentos às ações do presidente e prontos para criticá-lo, não porque nós, professore(a)s “comunistas e doutrinadore(a)s” ensinamos, como afirma o desgoverno. Assim estão porque essas medidas são condição para sua existência, hoje. Então, poderíamos repetir aqui quase as mesmas perguntas, saídas agora das bocas dos estudantes: Como focar no que se é demandado a fazer? Como manter o “desempenho”? Como estar com a cabeça boa para estudar?

Diante desses elementos que vislumbra as condições em que se encontram professore(a)s e aluno(a)s, temos que ir a nossa terceira questão e nos perguntarmos, qual a dimensão pedagógica neste momento de pandemia? Será necessário o EaD?

Considerando todos os argumentos políticos consistentes que acumulamos nos últimos trinta anos sobre o ensino a distância. Considerando todos os estudos que mostram que vivemos no século XXI uma das principais fases da mercantilização da educação. Considerando a compreensão de educação que permeia uma prática emancipadora. Considerando os elementos que já apontamos, a conclusão que se apresenta nos diz que, por agora, em tempo de isolamento social, a imposição do EaD é a banalização de um instrumento pedagógico, que em certas situações e em determinadas realidades, pode vir a ser um recurso tecnológico importante.  

A banalização do EaD, neste momento, é uma estratégia alinhada à ação voluntarista de administrações que a todo custo querem justificar recursos e garantir o calendário escolar. Nem sabem quanto(a)s estudantes terão após a pandemia, mas querem garantir o fechamento do ciclo escolar de 2020, mesmo que seja sem aluno(a)s e professore(a)s.

Essa tentativa desesperada de buscar manter certa normalidade, em meio a evidente situação de anormalidade; ao ineditismo de uma situação sem precedente para boa parte da humanidade; ao desespero de contar dias e horas aulas para evitar uma possível, quem sabe, reposição; explicita a desvalorização mais profunda do ensino presencial, do processo de ensino-aprendizagem e da condição humana do(a)s professore(a)s e aluno(a)s. As métricas, as aparências e as regularidades são colocadas como referências. Pouco importam, nessa lógica, professore(a)s, aluno(a)s, familiares e demais envolvidos com o processo. Implantar o EaD e, nesse processo, esquecer o elemento humano em prol da tecnicalidade sendo uma inversão que destrói a essência do que é a educação.

Podemos e devemos manter contato com nosso(a)s aluno(a)s nesse momento. Mas não para “passar” conteúdos que depois vão valer como atividade regular. Podemos e devemos ser solidários, sugerir leituras de cultura geral, lives que contribuam para a formação humana, trocar percepções sobre a conjuntura e a pandemia. Mas sem imposição de conteúdos, notas, carga horária. Curiosamente, a pandemia nos oferece a oportunidade de escaparmos do regramento dos calendários letivos e educar no sentido mais amplo do termo. 

E, neste momento de pandemia, o que de mais importante temos a ensinar? Certamente não são os conteúdos de nossos programas de graduação e pós-graduação, por mais maravilhosos, inovadores e geniais que sejam. Educar, então, tem que estar centrado na preocupação com o outro, no respeito à vida, na percepção de que é possível construir um mundo de maior igualdade, de que nossos esforços contam, de que a luta coletiva constrói. Nosso maior ensinamento deve ser o da SOLIDARIEDADE de classe. Nosso esforço deve ser o de dizer que a vida deve estar acima dos lucros e, por isso, nossa solidariedade é de classe. Os empresários e banqueiros, os ricos de forma geral, já contam com a “solidariedade” ativa do Estado, com o dinheiro público arrecadado do(a)s trabalhadore(a)s pronto para lhes “salvar”. Afinal, aquele que se acha o chefe da nação, que nesta crise já liberou mais de um trilhão de reais para o capital rentista, diz e repete que a economia não pode parar. Mas as vidas do(a)s trabalhadore(a)s, podem parar? Quem vai salvar as vidas dos/as moradore(a)s das periferia, do(a)s ribeirinho(a)s, dos povos indígenas? 

Agora é hora, mais uma vez, de demonstrar que a classe trabalhadora pode e deve ser solidária e só com ela pode contar. É hora de arrumar armários e fazer doações, de colaborar nas diversas campanhas de solidariedade com as periferias, de exigir equipamentos para os profissionais da saúde, de bater panelas nas nossas janelas, de exigir um programa emergencial. Isso tudo podemos ensinar para nossos filhos e filhas, em casa, sem que eles ao menos saibam escrever. Afinal, ler e escrever letras e palavras, a escola ensina e terá todo o tempo, após a pandemia, para fazê-lo. Mas nesse momento, estamos tendo uma grande oportunidade de ensinar nosso(a)s filho(a)s a lerem o mundo, como dizia Paulo Freire. Ensinar a ler o mundo é nossa principal tarefa como educadore(a)s, e isso, só podemos fazer presencialmente!

*Publicado originalmente no EOL em 15/04/2020: https://esquerdaonline.com.br/2020/04/15/para-quem-serve-o-ensino-a-distancia-em-tempos-de-pandemia/

**Eblin Farage é assistente Social, professora da Escola de Serviço Social da UFF, mestre e doutora em Serviço Social e militante do movimento sindical docente.

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Patriota ou Patriotagem?

Autores: Edson Teixeira[i], Marco Lamarão[ii].

            Tem sido uma constante a autoproclamação do patriotismo, sobretudo pelos setores vinculados ao “bolsonarismo”. Embora reverenciem a bandeira norte-americana com indisfarçável submissão. Entre nós, alguns setores ostentam o verde-amarelo nas suas manifestações. Fato que esteve presente nas mobilizações antipetistas, que culminaram no impeachment. Muitos parlamentares legitimaram o golpe evocando a pátria e outras ridicularidades bestiais. Serão, todos eles, patriotas ou exercem uma espécie de “patriotagem”?

            Um dos pilares do anticomunismo, ou seja, uma das formas de atacar quem tem simpatia pelo comunismo sempre foi o estigma de “traidor”. Patto Sá explica essa perseguição: “os comunistas seriam agentes de uma potência estrangeira, a URSS, sua pátria real, o que os tornava traidores da pátria” [iii]. Como se sabe, os comunistas – ou todo aquele e aquela que se opõe as desigualdades sociais de forma crítica e contundente – não têm fronteiras. Partilham de uma concepção de mundo internacionalista. Dialogam com uma carta de despedida que um médico deixou aos seus filhos: “sobretudo, sejam capazes sempre de sentir profundamente qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte lugar do mundo. É a qualidade mais bela de um revolucionário” [iv]. No entanto, e sobretudo, os internacionalistas não descuidam daquilo que denominam de “questão nacional”, em especial, naqueles países que sofrem mais agudamente as agruras do imperialismo dos países centrais e, neste sentido, são legítimos patriotas.

            No Brasil, o patriotismo sempre foi um recurso para legitimar atrocidades. Em defesa da pátria, mais de 20 mil seguidores de Antônio Conselheiro foram trucidados pelo Exército[v], na Guerra de Canudos (1893-1897), na Bahia. Em defesa da pátria, militares ceifaram mais de 15 mil vidas dos que se revoltaram na Guerra do Contestado (1912-1916), na divisa entre o Paraná e Santa Catarina. É bom lembrar que os camponeses de Canudos e do Contestado não conheciam nada dessa coisa de comunismo. Desejavam igualdade social, fortemente influenciados pela religiosidade.

            Em 1917, em São Paulo, milhares de trabalhadores e trabalhadoras – sobretudo do setor de tecelagem – construíram um movimento grevista de grandes proporções. Suas reivindicações, entre outros pontos, eram: a carga horária diária de 8h de trabalho (a carga horária era, em média, de 12h/dia); a abolição do trabalho noturno das mulheres; a abolição do trabalho de menores de 14 anos; além de melhorais salariais e o direito de se organizarem, politicamente. Foram reprimidos pelas forças policiais daquele estado. Segundo José Luiz Del Roio: “há indícios de várias covas, as quais estariam sepultados mais de uma centena de corpos, levados clandestinamente pelas forças de segurança ao cemitério do Araçá, um dos mais tradicionais de São Paulo” [vi]. Esta repressão também fora feita “em nome da pátria”.

É Importante lembrar que, no Brasil, um nacionalismo de esquerda sempre fora um importante elemento na luta anti-imperialista, luta esta encampada, inclusive, pelo “partidão” quando em meados do século passado auxiliava, dentre erros e acertos, a construção de um projeto nacional-desenvolvimentista. Isso ocorria mesmo quando este partido se encontrava na ilegalidade, o que na nossa história não foi nada incomum.

            A lista de truculências é longa. Abreviaremos. Durante a Ditadura Empresarial Militar (1964-1985), foram “anos de chumbo” para quem resistiu: houve tortura, assassinato, ocultação de cadáveres, censura, banimento de cidadãos ao exílio, cassação de mandatos e registros políticos, a suspensão do habeas corpus, até a pena de morte foi implantada no país. “Anos de glória” para empresários – nacionais e estrangeiros -, militares das Forças Armadas, agentes policiais civis/militares e setores expressivos da grande mídia, que implantaram um terrorismo de estado mantido intacto na redemocratização. Basta lembrar o assassinato – pelo Exército – de três operários na greve metalúrgica, em Volta Redonda (1988); o Massacre do Carandiru (1992), o Massacre da Candelária (1993), o Massacre de Eldorado dos Carajás (1996) e o recente assassinato da vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes, entre outras barbaridades perpetradas.

            Para “os de cima” e seus aliados, defender a pátria é implantar uma autêntica guerra psicológica manipuladora. Nessa guerra, o alvo são os inimigos internos ou os sobrantes do mercado: “a carne mais barata do mercado é a carne negra”. Nessa guerra, disseminam o ódio, impulsionam comportamentos coletivos possessivos e fundamentalistas. Muitas vezes associados a consigna: deus, pátria e família.   Em nada coexiste fé, nem patriotismo e muito menos modelo familiar decente. Instaura-se a “patriotagem”. Muitas vezes associadas as passeatas e carreatas da morte. Por detrás da máscara, esta “defesa da pátria” encobre, na realidade, a submissão dos interesses nacionais aos ditames dos países centrais, algo do tipo “um patriotismo em defesa da pátria alheia”

É preciso desconstruir e ressignificar a narrativa do patriotismo. Implodir as suas amarras. Esse fenômeno insuflou a xenofobia, legitimou a dominação imperialista, gerou guerras fraticidas e horrendas, corroborou a emergência de regimes tirânicos – como o fascismo e o nazismo – e é um recurso de explícita violência política nas frágeis democracias. A rigor, a cultura de um povo e seu caráter nacional não são opostos aos valores universais, a diversidade e a convivência com o contraditório.

Nesse sentido, há um legado dos quilombolas do passado e do presente, entre mocambos, favelas e periferias; dos camponeses que lutaram e lutam por terra livre; dos que desenvolveram e irão desenvolver inúmeras greves; dos que lutam por moradia digna; dos que ousaram enfrentar a Ditadura Empresarial Militar, entre outras contendas. Tais formas de luta conjugam valores nacionais e universais, enfatizando a defesa dos direitos humanos no seu sentido mais amplo.

Afinal, aqueles que labutam de sol a sol, os invisíveis do nosso país, os trabalhadores informais, os pretos e pobres, a classe trabalhadora em geral carregam consigo a insígnia da pátria, construindo-a dia-a-dia, sem a necessidade de se autoproclamar patriota. Pois que, em tempos tão turvos, os verdadeiros patriotas não soerguem a camisa da CBF.

Como cantou o poeta [vii], é possível acreditar “na rapaziada, que segue em frente e segura o rojão”. Na “fé da moçada, que não foge da fera e enfrenta o leão”. É imperativo “ir à luta com essa juventude, que não foge da raia a troco de nada”. Seguir “o bloco dessa mocidade, que não está na saudade e constrói a manhã desejada”. Partilhar com “aquele que sabe o sufoco de um jogo tão duro”, que “apesar dos pesares ainda se orgulha de ser brasileiro”. É imprescindível acompanhar “a batucada com a cerva gelada”. Afinal, “o resto é besteira”.


[i] Professor Dr. da Faculdade de Serviço Social do CURO- UFF- Rio das Ostras.

[ii] Professor Dr. da Faculdade de Licenciatura em História IFF-Macaé

[iii] MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Em Guarda contra o perigo vermelho: o anticomunismo no Brasil. São Paulo: Perspectiva: FAPESP, 2002. URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, extinta em 1991).

[iv] GUEVARA, Che. Cartas. São Paulo: Edições Populares, 1980.

[vi] ROIO, José Luiz Del. A greve de 1917: os trabalhadores entram em cena. São Paulo: Alameda, 2017. Ver também: BANDEIRA, Moniz. MELO, Clovis. ANDRADE, A.T. A Revolução Russa e seus reflexos no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.

[vii] Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, o Gonzaguinha: “E vamos à luta” (1980).

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E se não houvesse pandemia?

Autor: Edson Teixeira

Situações complexas exigem análises complexas. Tenho escutado e visto muitas análises fundamentadas na pandemia que assola a humanidade. Algumas sugerem que o mundo irá mudar. Outras insistem que haverá outra forma de ser e relacionar. Entretanto: e se não houvesse pandemia?

No Brasil, será que continuaríamos a conviver, de forma apassivada, com o culto a tortura e todas as formas de violência que a Ditadura Empresarial-Militar (1964-1985) impôs à sociedade? Será que continuaríamos a aceitar o negacionismo e sua forma estúpida de desqualificar a pesquisa científica? Será que continuaríamos a vivenciar o ataque a educação pública (Básica e Superior), laica, socialmente referenciada e autônoma, tal como expele o atual Ministro da Educação? Será que continuaríamos a aceitar as manifestações racistas, homofóbicas e misóginas do atual Presidente da República? Será que continuaríamos a tolerar o papel articulado do Congresso Nacional, do Judiciário e do Executivo – com seus aliados midiáticos e templos fundamentalistas – na rapinagem e retirada dos direitos dos trabalhadores? Será que continuaríamos a aceitar a proeminência de um juiz curitibano que queria aprovar a pena de morte, através de um pacote anticrime? São indagações que, diante da essência e aparência da realidade, indicam a permanência desse espetáculo de horrores.

De repente, o país “descobre” que existem milhões de pessoas que não podem deixar de sair de casa, justamente porque não têm moradia digna. Sequer reúnem condições dignas de existência social. Uma multidão massacrada pela negação de direitos básicos, exposta às feridas da batalha cotidiana. De repente, descobrimos que tem muita gente sem Cadastro de Pessoa Física (CPF), sobrevivendo na invisibilidade social. De repente, descobrimos que o Sistema Único de Saúde (SUS) – aquele que vivenciou a expulsão dos médicos cubanos sob a tutela do ministro Mandetta – é a salvação para o atendimento de baixa, média e alta complexidade. Os planos de saúde não passam de uma roubalheira legalizada. De repente, a Emenda Constitucional do “Teto dos Gastos” – aprovada no governo golpista de Michel Temer – revelou-se uma desonestidade dos de cima. Como também são desonestas a Reforma da Previdência e a Reforma Trabalhista.

De repente, entrou na pauta o direito à vida. Em 2019, tivemos 41.635 pessoas assassinadas, conforme dados oficiais do país. No mesmo ano, no estado do Rio de Janeiro, as polícias assassinaram 1.810 pessoas. Uma delas com a desumana comemoração do Governador. A fórmula imposta, sem a pandemia, é de matar ou prender: em julho de 2019, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) anunciou que temos mais de 800 mil pessoas presas. Em sua maioria, o extermínio e a prisão têm cor, endereço e gênero: negros e negras, mulheres, LGBt’s, habitantes das periferias e das favelas, são os alvos preferenciais desse genocídio e encarceramento em massa.

No ano de 2019, o lucro de quatro bancos – Banco do Brasil, Santander, Itaú e Bradesco – passou da cifra de R$ 69,1 bilhões para R$ 81,5 bilhões. Uma verdadeira balbúrdia financeira. As maiores empresas brasileiras seguem a mesma lógica de acumulação, entupindo seus caixas. Ao que tudo indica, esses setores ficarão intocáveis em tempos de pandemia.

Logo, a pandemia desnuda a narrativa dominante de que estamos no caminho de “Deus acima de todos”, do “Brasil acima de tudo” e da verborragia do “Estado Mínimo”. Na verdade, a pandemia revela o inferno a que nos submetem e escancara o Brasil que de fato existe: o Estado – e seus governantes – é máximo para os de cima, e é mínimo para os de baixo.

Esse discurso dominante que glorifica o cada um por si, materializado na figura do infeliz motorista da Uber, é um modelo fracassado. A ideologia da prosperidade, vendida entre cultos e empreendedorismo, é uma farsa covarde. E a pandemia revela a necessidade imponderável de rompermos com esse modelo.

De fato, algo tem que mudar e não é para pior. O pior está aí, diante de nossos olhos, escancarado. Mudanças não são paliativos individuais e isolados. Requer, sobretudo, um mergulho nas nossas contradições e a continuidade de ações coletivas organizadas, ofensivas e opostas a barbárie que nos ameaça. Que a pandemia impulsione a nossa capacidade de organização. Serão duros os enfrentamentos por vir. Cuidemos “um do outro”!

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democracia, ideologia, política

Vidas ou economia, o que salvar?

 

Ao final do texto está o belíssimo e elucidativo vídeo “A vida ou a economia?”, uma das peças da campanha “Fique em casa” organizada pelo Consórcio dos estados do Nordeste. Assista! Vale a pena!

“O presidente do país (…), em momentos difíceis, deve pensar as alternativas disponíveis, definir com precisão (mesmo em meio às incertezas) um caminho a seguir e definir a política que permita avançar na direção definida. Em meio a decisões e ações, como no momento atual, espera-se que ele consiga ser humano e cuide das pessoas na crise sanitária que ora se instala; que seja um gestor, e assegure o funcionamento do país na crise econômica instalada e na que se seguirá”.

O trecho acima, escrito em “Bolsonaro, a palavra convence, o exemplo arrasta!”, aponta a necessidade de termos, para enfrentar a pandemia do Covid-19, um líder que seja, ao mesmo tempo, gestor e humano ao lidar tanto com as questões econômicas atuais e vindouras quanto com as vidas das pessoas. Há, entretanto, quem polemiza, entendendo que nas circunstâncias atuais ou é uma coisa ou outra. Bolsonaro, ao apontar a defesa da economia em detrimento da vida, embora receba ovações em seus grupos de WhatsApp, acaba por desidratar sua aprovação, ampliar seus opositores e perder apoiadores. A posição pouco humana de Bolsonaro intensifica seu isolamento.

A contração do suporte ao presidente se faz sentir, inclusive, entre seus apoiadores de primeira hora. Bolsonaro colidiu com os governadores, em especial os do Rio e São Paulo, alegando que estão, em histeria, usando medidas restritivas demais e que suas ações vão quebrar o país. A partir dessas alegações, impôs legislações para quebrar as ações de governadores e prefeitos. Os desmandos são tantos contra os entes federados que Ronaldo Caiado, governador de Goiás, um dos que sempre estiveram ao lado de Bolsonaro, afirmou: “Não posso admitir que venha um presidente da República, lavar as mãos, e responsabilizar outras pessoas pela falência da economia e de empregos. Não faz parte da postura de um governante. Estadistas têm de assumir dificuldades do momento que passam”.

Os enfrentamentos e distanciamentos não se resumem aos prefeitos e governadores. Outros atores sociais também têm feito alegações que se distanciam das falas presidenciais, mesmo entre aqueles que lhe são diretamente subordinados. Preocupado com a tropa e a família militar, o general Leal Pujol, comandante do Exército, referindo-se à pandemia e sem citar o presidente, fez um pronunciamento distinto daquele do comandante em chefe. Explicitando o conjunto de medidas tomadas no Exército para impedir a dispersão do contágio, afirmou que o enfrentamento da pandemia do coronavírus “Talvez seja a missão mais importante de nossa geração. Assim, estamos implementando medidas para salvaguardar a saúde e a higidez de todos nós… soldados!”.

Mesmo o presidente do Itaú, representante do capital rentista que deu suporte a eleição de Bolsonaro, explicitou suas críticas: “Sinto falta de um administrador da crise, de alguém que coordene todos os esforços do Governo e possa administrar o arsenal variado de medidas para combater a crise”. Assim como estes, outros tantos ex-apoiadores de Bolsonaro durante a eleição estão distanciando-se do presidente ou de suas posições e, por conta disso, sendo considerados “comunistas” aos olhos da turba que continua a segui-lo aos gritos de “Mito! Mito!” Nos grupos de WhatsApp bolsonaristas, qualquer um que não lamba o chão onde pisaram as botas do capitão, é prontamente taxado de “vermelho” e tratado como alguém que não merece consideração.

Mas, quais as razões para tantos distanciamentos, oposições e críticas que Bolsonaro tem enfrentado? Não estaria o presidente agindo corretamente ao apontar o caminho que o Brasil deve trilhar para enfrentar o inimigo que devassa nosso território? Quando ele libera recursos para reduzir a crise financeira e defende o que propõe o ministro da Saúde, não está correto? Quando nos lembra que haverá duas ondas de choque, a da epidemia e a da crise econômica e conclama as pessoas a retornar à rotina, não está agindo como cabe a um líder?

O primeiro elemento a tratar é a alternância de posições do presidente. Ora perfila-se ao lado do ministro da Saúde e acena concordância com as ações pautadas nas diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), na sequência critica o ministro com o qual acabara de concordar, diz que não se bicam, ameaça-o de demissão e busca desqualifica-lo. Usa todo o espaço midiático que tem para vociferar que, segundo ele, a estratégia acertada seria a de fazer isolamentos pontuais e deixar a economia funcionando. Aos que se opõem a esta estratégia, argumentando que haverá grande número de mortes, Bolsonaro faz arminha, e dispara: “Todo mundo vai morrer um dia!”.

Para oferecer razão às suas tresloucadas proposições, o presidente se agarra a afirmação de que haverá duas crises: primeiro a epidemiológica, depois a recessão econômica. Baseado nisso, defende que se deixe rapidamente alastrar o contágio, pois é melhor infectar logo as pessoas e deixar morrer alguns, mas preservar a economia. O estulto presidente nos diz que as mortes são um pequeno preço a pagar, pois o mais importante é salvar a economia do país. E insiste, destemperado, que as mortes de agora são uma onda de problemas, mas que a crise econômica será uma segunda onda que nos atingirá se mantivermos as práticas difundidas pelo mundo.

Apesar do destempero, ele não está errado quanto ao fato de que teremos duas ondas. Primeiro seremos atravessados pela pandemia, o que traz um conjunto relevante de consequências. Os que defendem o presidente têm tentado apresentar números que minimizam a importância do impacto da covid-19. Afirmam que é uma gripe, que o número de mortos será pequeníssimo, que só morrerão os muito velhos ou que já estão à espera da próxima gripe para morrer (sim, essa sandice foi dita!) e que, portanto, devemos seguir com nossas vidas normalmente. Devemos todos sair de casa, descuidar de nossos parentes e amigos que estão no grupo de risco e ir trabalhar (e se morrer, morreu, segundo Bolsonaro, seus seguidores e gurus), pois a roda da economia não pode parar. Ou seja, Bolsonaro quer, mais que tudo, garantir que seus principais apoiadores (não aqueles que gritam “mito!”, vão às passeatas de verde e amarelo e recebem  informações distorcidas em grupos de WhatsApp), os grandes rentistas e donos das grandes empresas, assegurem seus lucros, não importa quantas mortes isso venha a custar.

A segunda onda, a econômica, trará os mais diversos problemas. Haverá quebradeira de empresas, desemprego, aumento da pobreza, fome, doenças, sofrimento psicológico, mortes, por isso não pode e nem deve ser escamoteada. Não será uma onda pequena, afetará pesadamente o Brasil e o mundo, pois a pandemia se espraia por todos os continentes. Muitos falam que será a segunda grande recessão, talvez tão ou mais impactante quanto a do início do século XX. Mas se assim ocorrerá, Bolsonaro não está certo em propor que esqueçamos o distanciamento social, saiamos às ruas, voltemos à normalidade?

Não! Em oposição a Bolsonaro, há estudos científicos, inclusive um realizado por economistas do FED (Banco Central americano) e do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusets), cujas conclusões apontam que localidades que agem cedo e forte achatando a curva de contágio da epidemia, se comparados com aqueles que utilizam medidas de controle mais brandas, podem ter, no início, uma recessão mais forte, mas a recuperação é mais rápida e vigorosa. Portanto, teremos, sim, duas ondas, e a segunda trará quebradeira na economia, desemprego, sofrimento e mortes. Mas há dois elementos a considerar. Primeiro, estes problemas ocorrerão por conta da epidemia e seus impactos e não por conta das ações de distanciamento social usadas para a contenção de sua propagação. Segundo, usar medidas intensas de isolamento social protege mais a economia do que deixar a contaminação grassar entre a população. Ou seja, a melhor estratégia para salvar vidas e a economia é utilizar um intenso e amplo isolamento social horizontal.

Nesta linha, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) soltaram nota conjunta sobre a aparente dicotomia entre vidas e empregos em tempos de Covid-19. A nota explicita: “Parece uma escolha difícil: salvar vidas ou salvar empregos. Trata-se de um falso dilema – controlar a propagação do vírus é antes de tudo um pré-requisito para salvar as economias. (…) Combater a pandemia é uma condição necessária para a recuperação econômica. (…) Nosso apelo conjunto é para que, num dos momentos mais sombrios da humanidade, os líderes dos países emergentes façam o que for preciso para proteger seus cidadãos.”

É preciso salvar vidas e economias, o que se faz com isolamento social horizontal vigoroso, mas Bolsonaro segue em oposição ao mundo, privilegiando a economia em sacrifício da vida. Parece não caber no tosco raciocínio do presidente que a segunda onda, a crise econômica, virá, independente da estratégia utilizada. Ao insistir em sua posição de salvar a economia em detrimento da vida humana, Bolsonaro sacrifica a humanidade. Isso é sintoma de uma doença em que há outros contagiados e que precisa ser intensamente combatida. Nossa sociedade está sofrendo uma severa epidemia de baixa humanidade!

Acima o belíssimo e elucidativo vídeo “A vida ou a economia?”, uma das peças da campanha “Fique em casa” organizada pelo Consórcio dos estados do Nordeste. Vale a pena assistir!

Nota conjunta FMI e OMS : Alguns dizem que é preciso escolher: salvar vidas ou salvar empregos – este é um falso dilema. (Clique para ler).

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