democracia, ideologia, política

Vidas ou economia, o que salvar?

 

Ao final do texto está o belíssimo e elucidativo vídeo “A vida ou a economia?”, uma das peças da campanha “Fique em casa” organizada pelo Consórcio dos estados do Nordeste. Assista! Vale a pena!

“O presidente do país (…), em momentos difíceis, deve pensar as alternativas disponíveis, definir com precisão (mesmo em meio às incertezas) um caminho a seguir e definir a política que permita avançar na direção definida. Em meio a decisões e ações, como no momento atual, espera-se que ele consiga ser humano e cuide das pessoas na crise sanitária que ora se instala; que seja um gestor, e assegure o funcionamento do país na crise econômica instalada e na que se seguirá”.

O trecho acima, escrito em “Bolsonaro, a palavra convence, o exemplo arrasta!”, aponta a necessidade de termos, para enfrentar a pandemia do Covid-19, um líder que seja, ao mesmo tempo, gestor e humano ao lidar tanto com as questões econômicas atuais e vindouras quanto com as vidas das pessoas. Há, entretanto, quem polemiza, entendendo que nas circunstâncias atuais ou é uma coisa ou outra. Bolsonaro, ao apontar a defesa da economia em detrimento da vida, embora receba ovações em seus grupos de WhatsApp, acaba por desidratar sua aprovação, ampliar seus opositores e perder apoiadores. A posição pouco humana de Bolsonaro intensifica seu isolamento.

A contração do suporte ao presidente se faz sentir, inclusive, entre seus apoiadores de primeira hora. Bolsonaro colidiu com os governadores, em especial os do Rio e São Paulo, alegando que estão, em histeria, usando medidas restritivas demais e que suas ações vão quebrar o país. A partir dessas alegações, impôs legislações para quebrar as ações de governadores e prefeitos. Os desmandos são tantos contra os entes federados que Ronaldo Caiado, governador de Goiás, um dos que sempre estiveram ao lado de Bolsonaro, afirmou: “Não posso admitir que venha um presidente da República, lavar as mãos, e responsabilizar outras pessoas pela falência da economia e de empregos. Não faz parte da postura de um governante. Estadistas têm de assumir dificuldades do momento que passam”.

Os enfrentamentos e distanciamentos não se resumem aos prefeitos e governadores. Outros atores sociais também têm feito alegações que se distanciam das falas presidenciais, mesmo entre aqueles que lhe são diretamente subordinados. Preocupado com a tropa e a família militar, o general Leal Pujol, comandante do Exército, referindo-se à pandemia e sem citar o presidente, fez um pronunciamento distinto daquele do comandante em chefe. Explicitando o conjunto de medidas tomadas no Exército para impedir a dispersão do contágio, afirmou que o enfrentamento da pandemia do coronavírus “Talvez seja a missão mais importante de nossa geração. Assim, estamos implementando medidas para salvaguardar a saúde e a higidez de todos nós… soldados!”.

Mesmo o presidente do Itaú, representante do capital rentista que deu suporte a eleição de Bolsonaro, explicitou suas críticas: “Sinto falta de um administrador da crise, de alguém que coordene todos os esforços do Governo e possa administrar o arsenal variado de medidas para combater a crise”. Assim como estes, outros tantos ex-apoiadores de Bolsonaro durante a eleição estão distanciando-se do presidente ou de suas posições e, por conta disso, sendo considerados “comunistas” aos olhos da turba que continua a segui-lo aos gritos de “Mito! Mito!” Nos grupos de WhatsApp bolsonaristas, qualquer um que não lamba o chão onde pisaram as botas do capitão, é prontamente taxado de “vermelho” e tratado como alguém que não merece consideração.

Mas, quais as razões para tantos distanciamentos, oposições e críticas que Bolsonaro tem enfrentado? Não estaria o presidente agindo corretamente ao apontar o caminho que o Brasil deve trilhar para enfrentar o inimigo que devassa nosso território? Quando ele libera recursos para reduzir a crise financeira e defende o que propõe o ministro da Saúde, não está correto? Quando nos lembra que haverá duas ondas de choque, a da epidemia e a da crise econômica e conclama as pessoas a retornar à rotina, não está agindo como cabe a um líder?

O primeiro elemento a tratar é a alternância de posições do presidente. Ora perfila-se ao lado do ministro da Saúde e acena concordância com as ações pautadas nas diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), na sequência critica o ministro com o qual acabara de concordar, diz que não se bicam, ameaça-o de demissão e busca desqualifica-lo. Usa todo o espaço midiático que tem para vociferar que, segundo ele, a estratégia acertada seria a de fazer isolamentos pontuais e deixar a economia funcionando. Aos que se opõem a esta estratégia, argumentando que haverá grande número de mortes, Bolsonaro faz arminha, e dispara: “Todo mundo vai morrer um dia!”.

Para oferecer razão às suas tresloucadas proposições, o presidente se agarra a afirmação de que haverá duas crises: primeiro a epidemiológica, depois a recessão econômica. Baseado nisso, defende que se deixe rapidamente alastrar o contágio, pois é melhor infectar logo as pessoas e deixar morrer alguns, mas preservar a economia. O estulto presidente nos diz que as mortes são um pequeno preço a pagar, pois o mais importante é salvar a economia do país. E insiste, destemperado, que as mortes de agora são uma onda de problemas, mas que a crise econômica será uma segunda onda que nos atingirá se mantivermos as práticas difundidas pelo mundo.

Apesar do destempero, ele não está errado quanto ao fato de que teremos duas ondas. Primeiro seremos atravessados pela pandemia, o que traz um conjunto relevante de consequências. Os que defendem o presidente têm tentado apresentar números que minimizam a importância do impacto da covid-19. Afirmam que é uma gripe, que o número de mortos será pequeníssimo, que só morrerão os muito velhos ou que já estão à espera da próxima gripe para morrer (sim, essa sandice foi dita!) e que, portanto, devemos seguir com nossas vidas normalmente. Devemos todos sair de casa, descuidar de nossos parentes e amigos que estão no grupo de risco e ir trabalhar (e se morrer, morreu, segundo Bolsonaro, seus seguidores e gurus), pois a roda da economia não pode parar. Ou seja, Bolsonaro quer, mais que tudo, garantir que seus principais apoiadores (não aqueles que gritam “mito!”, vão às passeatas de verde e amarelo e recebem  informações distorcidas em grupos de WhatsApp), os grandes rentistas e donos das grandes empresas, assegurem seus lucros, não importa quantas mortes isso venha a custar.

A segunda onda, a econômica, trará os mais diversos problemas. Haverá quebradeira de empresas, desemprego, aumento da pobreza, fome, doenças, sofrimento psicológico, mortes, por isso não pode e nem deve ser escamoteada. Não será uma onda pequena, afetará pesadamente o Brasil e o mundo, pois a pandemia se espraia por todos os continentes. Muitos falam que será a segunda grande recessão, talvez tão ou mais impactante quanto a do início do século XX. Mas se assim ocorrerá, Bolsonaro não está certo em propor que esqueçamos o distanciamento social, saiamos às ruas, voltemos à normalidade?

Não! Em oposição a Bolsonaro, há estudos científicos, inclusive um realizado por economistas do FED (Banco Central americano) e do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusets), cujas conclusões apontam que localidades que agem cedo e forte achatando a curva de contágio da epidemia, se comparados com aqueles que utilizam medidas de controle mais brandas, podem ter, no início, uma recessão mais forte, mas a recuperação é mais rápida e vigorosa. Portanto, teremos, sim, duas ondas, e a segunda trará quebradeira na economia, desemprego, sofrimento e mortes. Mas há dois elementos a considerar. Primeiro, estes problemas ocorrerão por conta da epidemia e seus impactos e não por conta das ações de distanciamento social usadas para a contenção de sua propagação. Segundo, usar medidas intensas de isolamento social protege mais a economia do que deixar a contaminação grassar entre a população. Ou seja, a melhor estratégia para salvar vidas e a economia é utilizar um intenso e amplo isolamento social horizontal.

Nesta linha, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) soltaram nota conjunta sobre a aparente dicotomia entre vidas e empregos em tempos de Covid-19. A nota explicita: “Parece uma escolha difícil: salvar vidas ou salvar empregos. Trata-se de um falso dilema – controlar a propagação do vírus é antes de tudo um pré-requisito para salvar as economias. (…) Combater a pandemia é uma condição necessária para a recuperação econômica. (…) Nosso apelo conjunto é para que, num dos momentos mais sombrios da humanidade, os líderes dos países emergentes façam o que for preciso para proteger seus cidadãos.”

É preciso salvar vidas e economias, o que se faz com isolamento social horizontal vigoroso, mas Bolsonaro segue em oposição ao mundo, privilegiando a economia em sacrifício da vida. Parece não caber no tosco raciocínio do presidente que a segunda onda, a crise econômica, virá, independente da estratégia utilizada. Ao insistir em sua posição de salvar a economia em detrimento da vida humana, Bolsonaro sacrifica a humanidade. Isso é sintoma de uma doença em que há outros contagiados e que precisa ser intensamente combatida. Nossa sociedade está sofrendo uma severa epidemia de baixa humanidade!

Acima o belíssimo e elucidativo vídeo “A vida ou a economia?”, uma das peças da campanha “Fique em casa” organizada pelo Consórcio dos estados do Nordeste. Vale a pena assistir!

Nota conjunta FMI e OMS : Alguns dizem que é preciso escolher: salvar vidas ou salvar empregos – este é um falso dilema. (Clique para ler).

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6 comentários sobre “Vidas ou economia, o que salvar?

  1. Eronilde Guimarães Barbosa disse:

    nada é mais importante que a vida, o povo brasileiro ainda não amadureceu democraticamente o suficiente para escolher seus governantes, agora precisarão fazer novamente outra escolha e, esta pode custar muitas vidas.

    • Exatamente! Essa resposta deveria ser óbvia. Nossa sociedade está doente demais para não enxergar que qualquer outra escolha é contrária a nós enquanto indivíduos e sociedade. Lamentável!

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