Entrelinhas, ideologia, manifestações, mídia, movimentos sociais, política, sindicato

#VemPraRua, menos você!

Rocky Balboa, aposentado como lutador e em dificuldades financeiras, é procurado por Tommy Gunn, um boxeador iniciante. O rapaz, com potencial para o pugilismo, é “adotado” por Balboa que passa a ser seu treinador. Rocky se realiza com o desenvolvimento, as lutas e as vitórias do aprendiz e lhe dedica todo seu esforço. As atenções dispensadas são tantas que causam ciúmes no filho do ex-campeão. Apesar de repleta de vitórias, a carreira do pupilo não avança rumo à riqueza. Assediado por um grande empresário com promessas de fortuna e reconhecimento, acaba por aceitar. Sob a tutela do empresário, vêm os resultados importantes e o “garoto do Rocky” se torna campeão. Na entrevista após a conquista do título, Tommy tece um discurso onde agradece aquele que esteve ao seu lado desde o início, que lhe ensinou tudo, que fez dele um campeão e, então, cita nominalmente… o empresário. Rocky, que se dedicara em construir Tommy como lutador e assistira a luta pela TV, esperava ouvir seu nome e obviamente sente-se triste, traído e desiludido. Ele que auxiliara o surgimento daquele campeão viu-se, de uma hora para outra, excluído daquele momento histórico.
O #VemPraRua é um movimento democrático, histórico e de proporções estupendas. Será que estamos reconhecendo adequadamente aqueles que a ele se dedicaram antes de seu crescente participativo e midiático? Observado em sua caracterização mais recente, é possível localizar a emergência do #VemPraRua nas ações do Movimento Passe Livre. O massacre que a população vem sofrendo nos últimos anos com o desmonte de toda a estrutura pública fermentou a indignação da população e ecoou nas redes sociais que fizeram o movimento crescer exponencialmente em número de participantes. Entretanto, apesar do discurso da mídia reproduzido por muitos, o #VemPraRua não é fruto de interações aleatórias ocorridas no âmbito das redes sociais. Movimentos são construídos e, em geral, possuem uma história que remonta a um longo processo. A origem está ligada aos movimentos sociais, sindicatos e partidos políticos, em suma, aos lutadores abnegados que historicamente colocam suas pautas de contestação e reivindicação contra a estrutura do sistema que beneficia o capital enquanto explora a maioria de nós. Estes manifestantes, mesmo em pequeno número, militam ano após ano defendendo pautas que ora ecoam no #VemPraRua tais como a melhoria dos serviços públicos de educação, saúde, segurança e transporte e o combate à corrupção entre tantas outras. A partir da ideologia defendida por seus partidos, sindicatos ou movimentos, estes militantes fazem cartazes e faixas, vão para a rua, panfleteiam, carregam bandeiras, reivindicam mudanças, gritam palavras de ordem e frases de protesto, são criminalizados e atacados pelo aparato de repressão do Estado. Exatamente como estamos vivenciando agora.
Curiosamente, os que historicamente militam defendendo estes ideais estão sendo excluídos do #VemPraRua. Agora que o movimento cresceu e a mídia começou a chamar os participantes de manifestantes, não mais de baderneiros, um discurso apartidário se espraia a partir da mídia e é incorporado pelos manifestantes que ora engrossam as reivindicações. Alimentado pela caótica estrutura política que temos atualmente, esse discurso se traduz em acusações contra militantes históricos. Estes, quando chegam aos eventos com camisas ou bandeiras de seus partidos (como sempre fizeram ao longo dos anos), são acusados de “oportunistas” e obrigados a livrar-se dos sinais de filiação, sob pena de sofrerem, inclusive, agressões físicas. Curiosamente algumas das pessoas que pedem paz e criticam atos de vandalismo, são as mesmas que se julgam no direito de arrancar roupas, tomar bandeiras e agredir fisicamente quem ostenta símbolos partidários. As cenas desta restrição tem se configurado quase como linchamentos. Uma ojeriza tão forte que permite questionar: Se a sigla do partido estivesse tatuada, a pele teria que ser arrancada como nos Jogos Mortais?
Temos, então, uma forte contradição. Estamos dizendo “#VemPraRua, menos você (que milita há anos e quer vir com a identificação do partido)”. O movimento que permite qualquer ideal, já que cada pessoa pode levar o cartaz, a camisa, a bandeira com a mensagem que bem lhe aprouver, é o mesmo movimento que agride verbal e fisicamente pessoas cujas ações estão na origem do movimento, apenas porque estampam suas filiações partidárias. Precisamos cuidar para que incompreensão, autoritarismo e neonazismo não se expressem nos movimentos sociais disfarçados sob o discurso de apartidarismo. É bom lembrar que o apartidarismo nos movimentos sociais favorece apenas os partidos de direita, aqueles que não militam. Esta lógica apartidária impede a expressão dos partidos de esquerda, pois os partidos com militância nos movimentos sociais atualmente são preferencialmente PSOL e PSTU. Por fim, é bom lembrar que a exclusão de militantes via apartidarismo significa desconsiderar pessoas que estiveram na origem deste e de outros movimentos e faz com que repitamos a ingratidão de Tommy Gunn ao desprezar a importância de Rocky Balboa. Temos que diferir do incauto pugilista e destacar cada qual segundo sua importância. E, neste caso, reconhecer a participação dos valorosos companheiros que auxiliaram a emergência da atual efervescência política deste Brasil é, sob qualquer ângulo, a melhor estratégia que podemos adotar.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 354, 29 de junho de 2013.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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#VemPraRua

Macapá, a exemplo de outros estados, atendeu o chamado do #VemPraRua. Pessoas com as mais diversas crenças, ideologias e razões de protesto transformadas de uma hora para outra em manifestantes. Empunharam cartazes, pintaram o próprio corpo, gritaram seus desejos. E os gritos ecoaram. A onda de manifestações pressiona governantes por todo o Brasil. O governo federal resolveu se mexer e adotou medidas que podem ser utilizadas para a redução das tarifas do transporte urbano.

O movimento por todo o Brasil e no Amapá está lindo, milhares de manifestantes nas ruas. Histórico, dizem alguns. E, realmente, assim tem sido! Nunca se viu neste Amapá, movimento que agregasse tanta gente reivindicando direitos e se autodenominando manifestante. Este termo foi sempre utilizado para a vanguarda, em geral, vinculada a partidos políticos ou a movimentos sociais organizados, que milita cotidianamente defendo e reivindicando seus ideais. Aqueles de nós que fomos às ruas, nos vimos manifestantes e ficamos com a maravilhosa sensação de ter participado de algo grandioso, muito além de cada um. Nos demos conta que a reclamação não avança se ficarmos falando apenas com as pessoas que nos são próximas ou através das redes sociais. É preciso se movimentar e lutar pelos direitos. Foi isso que fizemos. Mas fica uma pergunta: Saímos da frente dos computadores: E agora?

Duas grandes visões emergem após os eventos. A primeira compara o #VemPraRua com a Primavera Árabe (onda revolucionária de manifestações que desde 2010 vem ocorrendo no Oriente Médio e norte da África). A outra afirma que o ato foi uma grande festa que não vai resultar em nada, salvo alguns centavos no valor do transporte urbano. Para além destas visões maniqueístas, é preciso pensar à frente. Ao fazermos isto, emergem questionamentos. Escolhemos as estratégias corretas? Estamos fazendo com que o movimento ganhe força e nos dê mais força para transformar o país? Vejamos:  Optamos por não usar carro de som, impedimos a expressão de partidos políticos, decidimos reivindicar tudo e qualquer coisa, inclusive o uso de cerol na linha. Sim, no ato tinha gente defendo isto! Este é o caminho certo?

Um movimento como este não surge do nada. Não foi a rede social que construiu o #VemPraRua, embora o tenha ampliado para muito além de sua origem. Pessoas vinculadas ao Movimento Passe Livre e a outros movimentos sociais, a sindicatos como o dos rodoviários e a partidos políticos como PSTU e PSOL lutam há anos, organizando atos e movimentos pelo passe livre e redução das tarifas do transporte. Manifestantes que cotidianamente se colocam também contra a corrupção, as mudanças na legislação (PEC 37, PEC 111…) e tantas outras coisas que prejudicam os brasileiros. A lista de coisas que merecem defesa é enorme e estas pessoas lutam cotidianamente por nossos direitos. Foram as faíscas destas lutas que, em determinado momento, as redes sociais, como gasolina, transformaram em fogo. Portanto, retirar estes lutadores do processo, impedí-los de mostrar suas filiações é um ato simplesmente absurdo. O movimento não é apartidário, é suprapartidário, está para além dos partidos e isso não significa impedir a participação dos partidos, mas reconhecer que as diferentes cores partidárias podem e devem participar pelo fato de,  historicamente lutarem pelas bandeiras que ora o #VemPraRua levanta.

Além disso, a ausência de carro-som, impede a possibilidade de aproximar os discursos. Cada um chega com sua ideia, seu pensamento, mostra sua indignação em faixas e cartazes e depois vai embora. Perder a chance do debate em momentos como estes, é matar o que de mais belo este movimento tem no seu nascedouro. Sem que vislumbremos e discutamos as diferentes vozes trazidas ao evento e sem estipular as conexões do mar de reivindicações que se apresenta com a política de exploração do capital é assegurar que o movimento permita defender tudo e, por consequência, absolutamente nada. É transformar um levante do povo brasileiro contra os absurdos que vivemos em uma grande festa que não fomenta a conscientização e que serão apenas histórias de nosso passado quando formos mais velhos.

Não creio que possamos comparar nosso movimento com a Primavera Árabe como querem alguns, tampouco é um oba-oba inconsequente como defendem outros. É possível dizer que entramos em nossa Primavera, mas faltam as flores da conscientização. Para que desabrochem, é preciso que ouçamos as várias vozes, que respeitemos os lutadores vanguardistas que historicamente estão envolvidos no processo, sejam de movimentos sociais, sindicatos ou partidos, que organizemos os atos de forma a municiar as pessoas com informações (intervenções no carro de som, panfletos, cartazes…). Se fizermos isso, as flores da consciência vão aparecer em todo seu esplendor e, quando florescerem… Ah! Quando florescerem, o Brasil será transformado por nossa retumbante primavera.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, nº 363, 22 de junho de 2013.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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