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Educação formal ou informal?

Preciso, contundente, perspicaz! Impecável, como sempre! O CuriosoRealista é um blog cuja leitura é obrigatória para quem possui interesse em ciência.

Abaixo está disponível o trecho inicial do artigo. Se quiser lê-lo na íntegra, basta clicar no link para o Blog CuriosoRealista que se encontra no final da página. Boa leitura!

CuriosoRealista

Nem pense nisso!

É provável que você tenha ouvido comentários como “A educação formal mata a criatividade” ou “As grandes mentes não tiveram educação formal“. É possível ainda que você tenha sido convencido sobre a verdade dessas afirmações e as tenha propagado por aí. Aqui pretendo mostrar o quão equivocado é este pensamento e como sua propagação é perniciosa.

Há tantos problemas com esse modo de pensar que é difícil decidir por onde começar a crítica. O primeiro grande erro é pensar que alguém se forma por conta própria, sem qualquer tipo de treinamento. Mesmo os aclamados autodidatas recebem alguma forma de treinamento em alguma fase da vida para aprimorar habilidades, caso contrário não avançam. O segundo problema, e talvez mais perverso, é o alinhamento com o mito do gênio. Muitas pessoas acham que as “grandes mentes” não tiveram educação formal e atribuem à educação formal…

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O que é o Método Científico? É pra comer?

Organograma sobre o método científico

Texto de Marcelo Mazocco publicado neste post com a devida autorização.

Senhores, sentindo um pouco de ausência de conhecimento científico de algumas pessoas nessa tal de internetz, resolvi escrever esse pequeno (juro que a intenção era boa, de ser pequeno mesmo, mas é resumido anyways) manual sobre a importância da base científica na sua argumentação.

Àqueles cujas almas podem ser salvas da ignorância (porque tem uns, que vou te contar…), como diria o Chapolin, sigam-me os bons:

O que é o Método Científico? É pra comer?

Bom, pra começar nossa viagem (inveje-me, Sagan), iremos à Europa da Idade Média. Muita coisa estava mudando, uma quantidade considerável de conhecimento emergia de mentes brilhantes. Descartes, Newton, Kepler, Galilei.

Mas não havia, ainda, uma separação clara, uma demarcação objetiva, do que poderia ser alvo de estudo científico. Newton era alquimista. Kepler tentava provar a inteligência de Deus através das órbitas dos planetas comparando-as a sólidos platônicos. Ainda haviam, misturados, estudos a respeito de almas, fluidos vitais e tudo mais o que se possa imaginar. Qualquer ideia aleatória podia ser igualmente válida.

Foi precisamente nessa época que detectaram uma grande necessidade de separar categoricamente aquilo passível de estudo do que não dava pra ser estudado. Eis que surge o MÉTODO CIENTÍFICO (importante notar que isso não tem nem 400 anos).

Basicamente, tudo que não podia ser testado, tudo que era fundamentado em crenças e opiniões pessoais e tudo que não era sustentado por evidências teve de ser igualmente deixado de lado ao objetivo de estudo.

Então, surgiram diretrizes, pilares do pensamento científico. São elas:

– Princípio da Falseabilidade. Hipóteses científicas devem ser sempre TESTÁVEIS com o objetivo de prová-las falsas (falseá-las). Um único teste é o suficiente pra reprovar toda uma teoria científica e hipóteses só se tornam teorias após aprovações em diversos testes. Segundo Karl Popper, a ciência é um exercício contínuo de refutação. Cada experimento e observação pretende contradizer a teoria aceita. É daí que surge o famoso Problema da demarcação.

– Problema da Demarcação. Dado que ciência só estuda o que pode ser falseado, ela NÃO SE PROPÕE A ESTUDAR O SOBRENATURAL.

– Princípio da generalidade e simplicidade. Também conhecido como Navalha de Occam, ela diz: “se em tudo o mais forem idênticas as várias explicações de um fenômeno, a mais simples é a melhor” (William de Ockham).

Agora que você já sabe o que o método científico faz e em que buraco não enfiá-lo, irei lhe contar o sensacional segredo de como ele funciona: MÁGICA!

Não, pera! Você vai precisar de (momento canal de culinária):

– Uma observação. Sistemática e controlada, de modo a evitar contaminação experimental por qualquer que seja o fator.
– Uma hipótese! Pois é! Uma possível explicação ao fenômeno observado.
– Previsões. A hipótese precisa prever o que acontecerá a seguir. Momento de suspense!
– Um teste controlado e reprodutível. Assim outros cientistas podem verificar os resultados.

Caso a hipótese seja aprovada em diversos desses testes, por cientistas independentes (o que chamamos de revisão por pares), ela pode finalmente ascender ao status de teoria.

Não, teorias não são “apenas” teorias. Elas são explicações que em alguns casos sobreviveram a MILHARES de testes. As vezes são a última palavra em conhecimento científico, dado que esse conhecimento SEMPRE deverá estar aberto a testes.

TEORIA CIENTÍFICA, CORROBORA-SE OU É CONTRADITA, POR FATOS CIENTÍFICOS. JAMAIS SE PROVA UMA TEORIA CIENTÍFICA.

Obviamente, ainda existem fronteiras no conhecimento científico. A curiosidade científica é movida por elas, inclusive. Algumas pessoas, geralmente movidas por suas crenças, costumam explorar essas fronteiras de modo a validar tais crenças com explicações “científicas” cuja ciência jamais se propôs a dar, como vimos por todos os motivos acima. Minha forte recomendação, que um dia ainda vai te fazer muito rico, é que adote a postura científica mais adequada: “Não sabemos. Portanto, nada podemos dizer a partir daqui, por enquanto”.

Mas se quer a resposta definitiva para a vida, o universo e tudo mais, ela já foi fornecida à humanidade:

42.

Para ler (coisa leve. Se quiser ir mais a fundo, tem uma vastidão do espaço virtual acessível através do Google te esperando):
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ciência
http://pt.wikipedia.org/wiki/Método_científico
http://pt.wikipedia.org/wiki/Problema_da_demarcação
http://pt.wikipedia.org/wiki/Navalha_de_Occam
http://pt.wikipedia.org/wiki/Sólido_platónico
http://www.wfsj.org/course/pt/pdf/mod_5.pdf

Por Marcelo Mazocco.

Leia também:  Metodologia de pesquisaComo escrever um artigo para uma revista científica

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Pergunte à formiga!

Como escrever um artigo científico? Essa questão, quase uma angústia, ecoa permanentemente no universo acadêmico. A primeira coisa a fazer é escolher uma boa pergunta a partir do qual construir todo o trabalho científico. Este texto originalmente publicado por Alison Chaves no blog CuriosoRealista tece considerações importantes sobre como construir uma boa pergunta.

Alison permitiu que eu disponibilizasse o texto no meu blog. Então, divirtam-se com:

Pergunte à formiga!

Há um tempo, uma conversa esclarecedora com um amigo me fez pensar se compreendemos o que é uma pergunta científica. A conversa, como de costume, inicia num tom não convencional sobre a relação mutualística entre formigas e plantas. O caso é algo assim:

a) A planta oferece à formiga alimento e local para nidificar, direta ou indiretamente (neste caso, o ninho é na própria planta);
b) Em troca, a formiga defende o ninho e, consequentemente, a planta;

Meu amigo, como o bom naturalista que é, passou algum tempo observando o comportamento dessas formigas e sua relação com a planta hospedeira. Ele notou que aquelas formigas realizavam a ação de poda da planta que lhes fornecia abrigo. Um comportamento estranho, já que diminui a área fotossintética da folha e parecia prejudicar a planta. Poderia este comportamento reduzir o valor adaptativo da planta? É tentadora e quase automática a atitude de lançar a pergunta “Por que esta formiga faz isso?”, “Qual o motivo por trás do comportamento?” Meu amigo tinha algumas hipóteses bastante razoáveis para explicar o evento. Contudo, antes de pô-las à prova, queria testar a força de sua pergunta. Seria a pergunta adequada? Seria uma pergunta formulada corretamente? A resposta a estas perguntas é um categórico “não.” A natureza não faz planos, não possui objetivos ou finalidades. Assim, falar de um motivo por trás de um comportamento só faz algum sentido se estivermos falando de entidades capazes de racionalizar (i. e., tomar decisões complexas baseadas em julgamento prévio).

Você pode pensar que uma formiga ou mesmo um organismo mais simples como um fungo são capazes de responder de maneira “programada” a um estímulo e isto seria tomar uma decisão. Se um fungo produz esporos (uma forma de resistência ao estresse) quando submetido ao tratamento com um agente estressor ele teve que experimentar um evento e tomar uma decisão sobre como agir. É um algoritmo simples de se imaginar. Você recebe um dado de entrada e deve emitir alguma resposta. Independente da resposta emitida, ela é produto de uma decisão, consciente ou não.

Mas este tipo de capacidade de tomar decisões poderia ser chamado de racionalização? A resposta é “não”. Vamos exercitar a imaginação: você projeta um robô simples dentro de um campo com postes de cores distintas. Seu robô está equipado com um sensor de cores e é capaz de tomar a decisão de virar à esquerda ou à direita dependendo da cor do poste com o qual se depara enquanto se move pelo campo. Se o poste é azul ele vira à direita, se é vermelho ele vira à esquerda. Está claro que o algoritmo envolve a tomada de decisão, mas você diria que o robô realizou um julgamento? Em termos objetivos, sim. Ele precisou julgar se o poste era vermelho ou azul para tomar uma decisão.

É claro que você, sabiamente, notou o fato de que projetamos nosso robô com um algoritmo e ferramentas que lhe permitissem distinguir entre as duas cores. Este algoritmo de tomada de decisão é tão simples que parece inimaginável que este robô cometa um erro no julgamento de que poste é azul ou vermelho. Infortunadamente, talvez, na natureza o algoritmo nem sempre é tão eficiente. Erros de julgamento são bem frequentes. Nós, humanos, somos também embutidos de ferramentas que nos permitem distinguir entre cores ou demais características. Estas ferramentas que nos capacitam a tomar decisões também nos fazem cometer erros com bastante frequência, o daltonismo é um exemplo deste tipo de problema com nosso, digamos, algoritmo genético. Assim, está claro que um julgamento não precisa ser sempre correto para gerar uma decisão.

Sabemos que nosso robô projetado é capaz de tomar decisões baseadas em julgamentos, assim como uma formiga ou um fungo. Os dois últimos, por sua vez, se permitem tomar decisões baseadas em erros de julgamento. Mas se você está atento à leitura, notou que tratei o ato de racionalizar como a capacidade de tomar uma decisão complexa. Para explicar, voltemos ao caso da interação formiga-planta. Para admitir que a formiga deve realizar uma ação para atingir um determinado objetivo, teríamos que supor algo como a seguinte ordem de coisas:

1. que a formiga recebe uma dica química da planta;
2. que a dica química a faz podar as folhas;
3. que a formiga perceba algum benefício para si ou para sua colônia no ato de podar;
4. que ela julgue o benefício como digno de perpetuar a ação de poda.

Esta ordem de coisas que se seguem é compatível com um processo de racionalização e envolve uma decisão complexa. Nós somos capazes de tomar decisões complexas baseadas em julgamentos e, por isso, faz sentido dizer que algumas de nossas ações tem propósitos definidos, ainda que ocultos. É mais ou menos como na situação descrita pelo físico Weinberg:

“O romance “Where Angels Fear to Tread”, de E.M. Forster, dá um bom exemplo de teleologia ao traçar a diferença entre descrição e explicação. Philip está tentando descobrir por que sua amiga Caroline ajudou a consumar um casamento entre a irmã de Philip e um jovem italiano a quem a família de Philip não vê com bons olhos. Depois de Caroline relatar todas as conversas que teve com a irmã de Philip, Philip diz: “O que você me deu é uma descrição, não uma explicação”. Todos sabem o que Philip quer dizer com isso: ao pedir uma explicação, ele quer saber dos propósitos de Caroline (Weinberg, 2001).”

É este o sentido de propósito que penso não fazer sentido na natureza, a menos que estejamos falando de seres como Philip, um típico Homo sapiens detentor de capacidades cognitivas notoriamente bem desenvolvidas.

Naturalmente, há um problema que envolve a capacidade de detectar racionalização em indivíduos de outras espécies. Você teria que inquirir a formiga sobre seu propósito (em termos de causa final) ao realizar uma determinada ação. Confesso não ter certezas a respeito da capacidade cognitiva de formigas ou plantas. Contudo, suspeito que este comportamento faça parte de um repertório complexo, o qual é produto de uma mistura genética sob rígido controle epigenético de milhares de anos e não de uma ação deliberada.

Teria a formiga, deliberadamente, decidido podar as folhas para obter algum benefício ou seria o comportamento parte de um repertório mais complexo e não deliberado que garantiria a sobrevivência da colônia? É possível demonstrar experimentalmente se há correlação ou não entre 1. a ação de poda e 2. o aumento do valor adaptativo. Com experimentos auxiliares e alguns controles é possível ainda observar se esta correlação implica causalidade. Contudo, nenhum experimento é capaz de demonstrar que a formiga decidiu realizar a ação de poda para elevar o valor adaptativo de sua planta ninho.

Se algo não pode ser testado, claramente não pode ser objeto de ciência. O que não significa que não possa vir a ser, mas enquanto não o é interessa apenas à filosofia. Richard Dawkins já foi vitimado pelo uso do termo propósito ao falar sobre o que chamou “fenótipo estendido” no capítulo final do livro “O gene egoísta.”

“Não está inteiramente claro qual é o propósito Darwiniano, mas deve haver um, para os castores dispenderem tanto tempo e energia para construir isso. A represa criada por eles provavelmente serve para proteger os castores dos predadores…” (Dawkins em O Gene Egoísta).

Ambos os livros “O fenótipo estendido” e “O gene egoísta” sofreram fortes críticas por conter erros ou confusões conceituais, como a causada pelo termo “propósito Darwiniano“. É uma afirmação forte sobre o comportamento dos castores, tal como seria sobre as formigas. E se o comportamento de poda realizado pelas formigas fosse correlacionado com um aumento do valor adaptativo da planta? Isso autorizaria a conclusão de que a planta, deliberadamente, produz um sinal químico que induz a formiga a elevar seu valor adaptativo? Que a formiga, deliberadamente, poda a planta pela mesma razão? Penso mesmo que ambas as respostas sejam “não.” A planta, possivelmente, produz algum sinal químico. Contudo, não se trata de uma ação deliberada, mas de um evento que acabou por mostrar-se benéfico para a planta ao longo do tempo.

Tal como em Dawkins, falta em muitos pesquisadores a leitura filosófica necessária para discernir entre perguntas científicas e filosóficas. A filosofia permite-nos aventurar em meio a perguntas do tipo “por quê?”, enquanto a ciência valoriza mais perguntas do tipo “como?”. Devemos ser responsáveis quando falamos sobre ciência. A ciência empírica, aquela que exige testes, não é capaz de responder perguntas do tipo “por quê?”. Isso, sem dúvida, retira muito da magia da ciência e revela seus limites. Ao mesmo tempo, é o que nos permite apreender a realidade objetiva e entender mecanismos ou processos que ocorrem na natureza. O motivo pelo qual esses mecanismos se desencadeiam fica por conta de nossa imaginação. Como meu amigo sabiamente percebeu ao analisar a força da pergunta “qual o motivo?”, a natureza não possui motivações.

Referências

Steve Davis. The Extended Phenotype – How Richard Dawkins Got It Wrong Twice. In Science 2.0, February 16th, 2009, 01:44 AM.
Richard Dawkins. O gene egoísta. Companhia das Letras. 1976.
Karl Popper. A lógica da pesquisa científica. Cultrix, 1958.
Steven Weinberg. Os limites da explicação científica. Folha de São Paulo. 24 de junho de 2001.

Agradecimentos

À Paulo Sergio Mendes Pacheco Junior e João Henrique Coelho Campos pela leitura crítica.

Licença Creative Commons
Este texto de Alison Felipe Alencar Chaves, foi licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

Se você gosta de ciência e divulgação científica não deixe de ler o blog CuriosoRealista.

Se você buscava uma resposta mais direta, leia Como escrever um artigo para uma revista científica.

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Animais, humanos e o bicho que deu – terceiro (e último?)

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Humanos entre as formas inferiores de vida

“Animais, humanos e o bicho que deu” – terceiro (e último?) texto da saga “sobre” pesquisas em animais (ou “descobrindo os neurônios, estes simpáticos desconhecidos”).

No primeiro texto houve uma tentativa de diminuir a hipocrisia acerca da discussão: tudo foi testado em animais. Até você foi testado em animais. Sim, meu caro: converse com seu avô sobre aquela vaquinha solitária no campo, dia nublado… Antes da sua avó, numa época onde não existiam redtube e xvideos, parece que o treino era outro… Segundo Luis Fernando Veríssimo, o termo é “barranquear”. Mas bora deixar isso quieto, né? (…e vc achando que o Porta dos Fundos estava inovando com o iogurte grego, né?)

Exploração do mundoNo segundo texto, houve uma tentativa de discutir um problema de MODELO. Yeap: o tal modelo cultural (sócio-econômico) que nos leva a um consumo que não tem como ser sustentado, em qualquer área abordada. Loooooonge de ser um especialista em história, mas neste modelo precisamos de “reboots” esporádicos, sejam eles naturais, “naturais” (chuuuuuuupem, céticos da conspiração) e guerras. Destrói-se parte do mundo vigente e o modelo de consumo sobrevive na (re)construção obrigatória e nos espólios de guerra. Os mais conservadores vão dizer que vivemos assim desde a revolução industrial. Os menos conservadores dirão que vivemos assim desde, “tipo”, sempre.

…e aqui, no “sempre” do parágrafo anterior, é que embarcamos no terceiro texto. Vamos lá…

Boa parte do mundo tem o hábito de olhar para a natureza – essa entidade bonita, mágica e divina (“ó mãe, amém”) – e dizer “o homem é um BICHO mesmo! A natureza vive em harmonia, olha só que Munito”. Normalmente isso acontece com uma paisagem ninja como pano de fundo. Sendo pôr do sol, em algumas praias do Rio, rolam palmas, ervas e duas lágrimas…

Não, não discordo da harmonia. Só não sei se há harmonia no conceito de harmonia proposto pelos saudadores do sol…

Bora PENSAR juntos: evolutivamente, salvo se você acreditar em adão e eva (e aí é melhor parar de ler o texto por aqui e er… sei lá, desistir da vida) uma das bases sobre as quais a vida se estabeleceu foi a COMPETIÇÃO. Gênica, individual ou em grupo, a palavra chave pode ser esta: competição. Competir para sobreviver e continuar no jogo. Aquele papo brabo, mas verdadeiro: adaptar, migrar ou morrer.

Parece radical – e é. Mas temos toneladas de exemplos por aí de estratégias evolutivas cujo objetivo é OBLITERAR a competição direta e atrapalhar a indireta. Google it: amensalismo. Eu espero. … … Isso aê. Quanto mais recursos EXCLUSIVOS, melhor. E, idealmente, para o INDIVÍDUO.

Exemplo de amensalismo

Salto obrigatório: como saímos do indivíduo para o social? “Bichinhos são bons! Os humanos são os malvados das história!” Veja bem… Dois problemas. O primeiro é a premissa de que os animais são bonzinhos. Não são. Esse conceito é HUMANO. Animais têm sentimentos. Mas a definição dos sentimentos que eles têm é nossa, humana também.

Antes que você tire a cueca ou a calcinha pela cabeça: pense na sua cadelinha. Isso. Pense nos filhotinhos dela. Beleza. Espere um ano e coloque-os juntos, enquanto ela estiver no cio e espere para ver o que vai acontecer… Separe KY, pode ser necessário.

Passando da fase “animais bonzinhos”, vem o segundo problema: socio-biologia evolutiva é um tema complicado. Mas uma abordagem possível é a de que comportamentos sociais surgiram como benefício onde os individuais falharam.

Cara de WTF e a pergunta “Hein?” (ou “Cuma?”, versão brasileira – Herbert Richards)

…tá. Exemplo: se um lobo/leoa/escolha-seu-animal tenta caçar, sozinho, uma presa que tem mais de 10x o seu próprio peso, o risco de falhar é alto. E, falhando, pode morrer. E suas crias também. E a espécie vai pro saco. Fim.caça cooperativa

Foram os primeiros indivíduos que surgiram com o comportamento SOCIAL de caça que adquiriram uma vantagem frente aos demais solitários e, com isso, a característica foi selecionada. Nem sempre precisa ser assim: há espécies sociais e outras solitárias. Mas, para algumas espécies, ser bom para a espécie é, boa parte das vezes, bom para o indivíduo. Ainda vale o de sempre: dentro daquele grupo/matilha só furunfa o mais “forte”. Genes “duplamente” selecionados – social e individual.

…ok, comportamento social básico já foi. E os mais complexos? E o altruísmo? Mais complicado ainda – e, talvez, igualmente simples. A troca de posições no V das aves migratórias, o suricato de vigilia “pelo grupo” ou ajudar a tiazinha de 7329 anos a atravessar a rua podem ter o mesmo princípio básico: suportar em grupo o que, sozinho, é impossível. Migrar com todo o atrito do vento por milhares de quilômetros na “lata” pode ser mortal para UM indivíduo. Mas não para vários… Aparece então a lógica do revezamento de buchas: “bota um bucha lá na frente e deixe-o ali por um tempo, depois a gente troca de bucha”. Altruísmo? Nope. Sobrevivência.

E onde entra o atravessar da velhinha? No mesmo lugar combinado, possível, do uso de ferramentas e do comportamento social…

Senhora idosa atravessando a rua? Pontos de bônus triplos.

Cara de “WTF” de novo, eu sei. Mas vamos lá: desde antes dos primatas, aprendemos por imitação. Os primatas (não apenas), no entanto, levaram isso a outro nível: além da imitação, rolou a tal “empatia”. E, fazendo uma história longa curta, ao ajudarmos a tiazinha de 9231 anos a atravessar a rua, geramos um viés para o aprendizado de um comportamento de imitação nos demais membros do grupo, sobretudo nos mais jovens. Assim, quando estivermos tão velhinhos quanto a tiazinha, este comportamento pode vir a ser “pago” e nossa vida estendida mais uns dias/meses (bem como nossa chance de passar adiante nossos genes). Sim, PODE vir. Não é uma ciência EXATA e vc pode morrer antes pela mordida de um urso ou, hoje, porque saiu voando com a explosão de um bueiro embaixo de você. Tempos modernos… Mas de um jeito ou de outro, a “genética social” foi selecionada e vige até hoje.

“…mas que volta bizarra para falar de… de que mesmo? Esqueci.” Meu caro amigo amnético, o foco é “o bicho que (a evolução) deu”. Se a evolução teve como base a competição, foram os bichos mais bem adaptados (dããã) que sobreviveram. Somos nós, humanos, se você ainda não notou. Não temos a força dos nossos amigos primatas, ou os sentidos dos felinos. Mas inventamos a pólvora. E a vaselina. Daí, né, abraço…

O fato é que se você deixar uma colônia de bactérias crescer, ela vai dominar o mundo até que comece a parar de se reproduzir POR FALTA DE RECURSOS NATURAIS. Mais ou menos a mesma coisa para formigas ou cupins. Ou ratos. Yeap, deduziu, né? Humanos TAMBÉM. E estamos tentando, com ódio e fúria no coração, exaurir os recursos do planeta.

leão orando

Imagem de leão orando para desmentir o autor

…e esse é o ponto. Essa pressão evolutiva-competitiva-destrutiva é FORTE. Quase determinista. É por ela que a cadeia alimentar se estabelece, que animais “se comem uns aos outros”, sem culpa (mais uma vez, presumo. Nunca vi um leão “orando” antes de comer). Há exemplos surreais de larvas comedoras de vísceras, entre insetos, que fazem muitos rituais humanos de torturas parecerem brincadeira da Disney… Isso é “a natureza”. Só que sem palmas no pôr do sol…

Mas, como eu disse ali no início do parágrafo anterior, essa pressão evolutiva é QUASE determinista. Porque, salvo engano, dadas as limitações que temos na comunicação com os animais, eu suponho que sejamos a única espécie deste planeta que REFLETE sobre sua própria existência. Vou complicar: temos consciência do eu (self) e do coletivo – em relação não apenas ao self mas também ao próprio coletivo.

“Poooooooorra….”

Não, não desista, não acenda o orégano, nem pegue a pílula azul! (Kansas is going bye-bye anyway). A tradução mais fácil é: humanos pensam no que são: entre si, no que as outras espécies são, na relação entre elas e os humanos e na relação apenas entre elas. E isso, no nível que fazemos e até que se prove o contrário, é inédito.

Posto desta forma, usamos animais na panela e nos laboratórios porque evolutivamente nos tornamos superiores a todos eles. Felizmente ou infelizmente, isto é um fato.

“Os seres humanos são uma doença. Um câncer neste planeta. Vocês são uma praga”. (Agente Smith)

E é por isso TUDO que eu tenho perdido um bom tempo no intuito de fazê-los pensar. Porque acredito que está na hora de, como disse antes, refletir sobre este papel evolutivo destrutivo como único caminho. Não, eu não sou bonzinho. Eu acho que, “a la” agente Smith, os humanos estão agindo como um câncer bizarramente agressivo para o planeta. Se a gente matar o hospedeiro, morre. Simples assim. Há muitos exemplos de organismos que agem da mesma forma. Mas há exemplos de organismos que agem de outras maneiras, menos “burras”.

O uso de animais na panela e na pesquisa vai seguir por muito tempo… Mas a gente precisa começar a mudança por algum ponto: minimizar sofrimentos dos animais é um começo necessário, em qualquer “utilização”. E os desperdicios de alimentos – vida animal e vegetal (“conheço tomates que discordariam do sr”) – também precisam ser BEM revistos…

PenseNADA do que eu falei é verdade absoluta. É só um convite por REFLEXÃO. Uma reflexão acerca de nossa natureza biológica e de onde esta natureza nos levou… Foi a algum lugar tão atípico que muitos humanos simplesmente desconsideram esta evolução e nos atribuem um status diferente – Humano – (maiúscula obrigatória) alheio ao mundo natural e às influências óbvias que nos trouxeram onde chegamos…

…entender quem somos é como montar um quebra-cabeças: sem todas as peças, devidamente dispostas, não saberemos qual a figura final…

Abraço ou beijo segundo o par de cromossomos.

Leia as partes iniciais:  Vamos lá: pesquisa em animais… e  Pesquisa em animais parte 2, a revanche.

Leia também Pesquisa com animais, sim ou não?

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Pesquisa em animais parte 2, a revanche

O texto abaixo foi escrito por Aydamari Faria Jr., professor da Universidade Federal Fluminense – UFF. Originalmente o material foi disponibilizado em um post do facebook e gerou uma discussão fantástica.  O conteúdo e a forma do material são ambos impressionantes e envolventes e decidi divulgá-lo um pouco mais. Com a devida autorização, ei-lo aqui.

Essa é a parte 2, você pode lê-la de forma independente, mas acho melhor começar pelo texto inicial: Vamos lá: pesquisa em animais…

Pesquisa em animais parte 2, a revanche.
…depois de considerar os aspectos culturais não específicos, bora brincar com algumas especificidades do tema.

Primeiro, vamos brincar com as premissas dos ecochatos e dos cientistas super-cools.

ecochatoEcochato version:
1) “(mimimi)….é um absurdo usar estes animais para pesquisa, torturando-os, fazendo-os sofrer, colando dentes! São vidas! Cientistas são todos cruéis, desalmados, filhos da $#*@, *@/$/!, vão pro !@&$*!£€£¥!₩”

Algumas destas pessoas vão comemorar os resgates com churrasco no fim de semana…

Comentário 1:
“_então você acha que todos os defensores dos animais têm que ser vegetarianos???”.
R: Não, eu só acho que os defensores não vegetarianos acreditam que a carne apareça por geração espontânea na prateleira do mercado, ou que o Mxyztplk coloque-as por lá, antes que alguém o faça falar seu nome ao contrário.

No nosso ATUAL modelo de produção de (carne), não apenas pela demanda da matéria, mas pela demanda de LUCRO ESTRATOSFÉRICO, a indústria de (processamento de produtos animais) CAUSA maus tratos (aos animais). Direto e indiretamente.

*oa parênteses serão esclarecidos adiante.

Comentário 2:
“_então você acha que os defensores vegetarianos são/estão mais certos?”
R: Não. Salvo engano, conheci poucos ecochatos que não matassem mosquitos, baratas, lacraias, aranhas e demais fauna invertebrada – ou até vertebrada, desde que viscosa (cobra, rã-sapo-perereca). Boa parte, quando não mata, não o faz por frouxidão retro-furicular e não por ideologia.

Se os animais devem ser ninja-bizarramente respeitados endeusados e glorificados (ó pai, amém), não faz muito sentido estabelecer castas… Mas quem precisa de sentido e coerência no mundo, né não?

Tá ficando complicado. Eu sei. Vai piorar.

Cientista coolCientistas super-cool version:
“Todos os animais são bem tratados, respeitados e os níveis de sofrimento são os mínimos. Só usamos animais quando absolutamente necessário e respeitamos sempre seu bem estar.”

Nope. É quase a mesma coisa que ouvir um político ANTES da campanha… Metade é diarréia verbal e a outra é “só” mentira.

…quem já esteve ou trabalhou com pesquisa com experimentação animal sabe que os níveis de respeito variam MUITO de laboratório para laboratório e de pessoa para pessoa. Ratos e camundongos sendo mortos com éter, por exemplo, são parte comum de MUITOS laboratórios por aí. Tem técnicas bem piores. Acreditem.

Aliás, muitos labs – MUITOS – que não têm janela. Nem exaustão. Então tem muita coisa errada, muito antes de chegar na experimentação animal… Por exemplo, pesquisadores que lidam com 5 a 10 vezes a quantidade de carcinógenos e/ou radiação recomendada, além das instalações físicas bizarras. Não, não é por escolha ou burrice. É por não ter outra alternativa: PRODUTIVIDADE ou OSTRACISMO.

Percebeu o problema? Não? Eu ajudo. Vou copiar o trecho ali de cima:

No nosso ATUAL modelo de produção de (“ciência”), não apenas pela demanda da matéria, mas pela demanda de LUCRO ESTRATOSFÉRICO, a indústria de (artigos) CAUSA maus tratos (aos alunos e cientistas). Direta e indiretamente.

Perceberam os parênteses? Deu pra entender? Eu “desenho”, por via das dúvidas:

É o MODELO social, econômico e cultural que tá BEM corrompido. Pelo que tudo indica, vamos PROIBIR a experimentação com modelos animais por conta dos desdobramentos deste caso e ABSOLUTAMENTE NADA vai mudar para os animais. Simplesmente pq o modelo CULTURAL segue o mesmo… Retrocesso para pesquisa, morte de milhares de ratos e camundongos e porcos e cães que estão em centros de pesquisa neste momento por um fenômeno MIDIÁTICO sem reflexões maiores.

Comentário 3:
“então qual é o modelo que você sugere, “biduzão”?
R: Menor idéia, meu caro péla!! Mas tô tentando sugerir uma reflexão para vermos a merda que estamos fazendo. Estamos “errando feio, errando rude…”, já há um tempo…

Pense…e por hora é só. Bora pensar mais um cadin! xD

Em tempo: há defensores de animais, vegetarianos ou não, que não entram entre os ecochatos. Há pesquisadores/cientistas que devotam o MAIOR respeito aos animais que usam em suas pesquisas e não entram entre os super-cools.

Em tempo (2): Nenhum animal foi ferido durante a produção deste texto. Só mosquitos, talvez. Mas foi sem querer, ele estava embaixo da minha perna e eu só vi a mancha de sangue depois… (não, não foi [só] outra piadinha sem graça. Foi outro convite para reflexão: sabe quantas formigas vc mata por dia, sem nem saber?)

“…so long and thanks for all the fish!”

Leia a primeira parte deste texto Vamos lá: pesquisa em animais… e a continuação Animais, humanos e o bicho que deu – terceiro (e último?)

Leia também Pesquisa com animais, sim ou não?

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