democracia, ideologia, política

Covid-19, a presidência e os trabalhadores

Autor: Dileno Souza

Em tempos de Covid-19, venho pensando na falsa dicotomia apontada entre saúde e emprego. Esse texto pode ser um monólogo, mas pode ser também a abertura de um diálogo sobre a temática. Vejamos…

Fazendo um resgate histórico, vemos que durante o período ditatorial o Brasil elevou os empréstimos junto aos credores internacionais, em especial ao FMI. Além do crescimento da dívida, ao ponto de asfixiar a economia do país, houve aumento considerável da corrupção sem que nada pudesse ser falado, seja entre as pessoas ou através da mídia. A coerção andava solta aos que ousassem pensar e discutir os rumos do país em discordância da política implantada a partir dos presidentes militares.

Após o processo de democratização, com a Constituição Federal de 1988 e de governos chamados de transição, o país passa a eleger seus presidentes. Nos anos 1990 tivemos um governo “inovador” que apresentou a ideia de modernizar a nação, ou seja, reduzir o Estado e privatizar o aparato público para viabilizar o que a sociedade precisava. A sociedade aceitou o engodo de que o trabalhador seria enfim beneficiado. As pessoas pensaram: “Ufa! Chegou nossa vez!” Mas qual o resultado da política liberal da “modernização”, do enxugamento estatal? Saúde de qualidade? Educação de qualidade? Serviços públicos de qualidade? Não! A proposta de deixar tudo ser ajustado pela regulação do mercado diminuiu a frágil rede de proteção social que o país tinha. Não, a vez das pessoas não havia chegado e, para piorar, foram ainda mais espoliadas em seus direitos e segurança social.

Passado esse período vieram os governos da frente popular que, segundo sua principal liderança, era uma composição do capital com o trabalho. Contudo, essa composição também não foi benéfica ao trabalhador. As políticas implantadas asseguraram altos lucros ao setor financeiro e deixaram aos trabalhadores conquistas insuficientes, embora importantes. A forma dessas políticas, associadas a cooptação de algumas centrais sindicais, em vez de elevar a consciência e a luta, acabou por apassivar a classe, lançando os trabalhadores em um modo de espera. O protagonismo que coloca os trabalhadores como sujeitos de suas próprias conquistas para transformar a condição e a estrutura social seguia inerte.

O achatamento da condição social da classe média e a insatisfação de uma fração da burguesia com os rumos da economia do país foram os pilares da construção de uma oposição ferrenha aos governos de conciliação de classe. Sob denúncia de corrupção, houve um golpe que elevou o grau de perda dos trabalhadores. Estes, meio anestesiados e vendo a banda passar, foram às ruas, gritaram “Fora conde Drácula!”, mas tudo se manteve. Drácula resgata o receituário liberal e, entre outras maldades, aprova a Emenda Constitucional 95, estipulando teto de gastos para investimentos na área social, mas completamente livre para movimentar a dívida e ampliar os ganhos dos investidores.

Em seguida, com todo esforço da lava jato elevou-se o grau de esquecimento do povo e de uma parte dos jovens filhos do neoliberalismo que se encantou com a retórica do ódio. Outra vez o discurso do enxugamento estatal e de atendimento dos desígnios do mercado sentava à cadeira da presidência. Dessa vez, com um Messias que entregava ao ministro da Economia poderes totais. Sob este governo, embora os indicadores econômicos sigam pífios, o saque aos direitos sociais dos trabalhadores segue avançando com Congresso, com Supremo, com tudo.

O coronavírus, então, desembarca em terras tupiniquins e coloca toda a gestão em xeque. O mercado, por meio dos megaempresários, desconsidera os consensos e argumentos científicos em defesa do isolamento social, e martela que o país tem que continuar produzindo, que os trabalhadores não podem parar. Gritam também, no que são plenamente acolhidos pelo governo, que os trabalhadores devem pagar a conta dessa crise mais uma vez, assim como ocorreu em outras crises.

No pós segunda guerra, os países aliados pagaram a conta com a promessa de que em seguida seriam beneficiados, mas isso não aconteceu. A crise foi colocada na costa dos trabalhadores, com um processo de esgarçamento do tecido social (redução de direitos sociais) e significativo aumento do desemprego pela substituição do trabalho vivo pelo trabalho morto (mecanização de postos do trabalho, reduzindo a necessidade de trabalhadores) que no Brasil foi amplamente financiada com recursos públicos do BNDES. A ácida ironia é que o banco de desenvolvimento social invista na economia em detrimento do social.

Para além do desemprego, o nível de precariedade dos empregos teve significativo aumento. A terceirização, que vinha sendo denunciada na Europa como um perigo para os trabalhadores, chegou com a força da ideologia da inovação, empreendedorismo e liberdade. Muitos migraram de empregos formais para empregos informais, como empreendedores de si mesmo, e hoje aproximadamente 30% dos trabalhadores estão nessa situação, sem garantias sociais e tendo que correr cotidianamente atrás de sua subsistência.

O que temos agora? Na realidade, o que já tínhamos, mas que se explicita com a chegada da pandemia? Um grupo de “megaempresários” que vivem agarrados nas tetas de um Estado burguês, o qual só existe para servi-los, e que não querem saber da saúde do trabalhador. Na verdade não estão preocupados com o trabalhador e sim com a reprodução do capital, com a manutenção de seus ganhos. Pelo fato desse espírito sanguessuga ter sido explicitado e estar sendo combatido, dado que o enfrentamento da pandemia exige um esforço coletivo, muitos tem se colocado contra ele e apontado que a solidariedade se sobreporá aos interesses individuais. Por ora, ao longo do isolamento social, mesmo com interesses contrários, isso vem ocorrendo.

Alguns, contudo, falam que a partir da Covid-19 o mundo ficará mais solidário. Há, entretanto, dúvidas quanto a isso. A burguesia, em sua história, nunca demonstrou solidariedade com o trabalhador e não parece que será esse o caso quando parte dela não estiver mais sob o risco da pandemia. Historicamente, o trabalhador só obteve conquistas reais em direitos e condição de vida por meio de sua luta. Por isso, encerrando os devaneios, a análise que faço é que o capital localiza no trabalhador, o problema. É esse o fator que ele quer extirpar. Ou seja, mais uma vez, o trabalhador que quase não faz mais greve é visto como estorvo, porque adoece em um trabalho cada vez mais espoliador. Não luta, mas ainda assim vai sendo colocado de lado, distante do trabalho formal, e precisa empresariar a si mesmo em uma informalidade “empreendedora”. Expulso de onde há o trabalho formal, o que se pretende, embora não se possa conseguir, é sua completa substituição pelas máquinas. Dessa forma mais uma vez o trabalhador será sacrificado por um processo tecnológico articulado ao mercado e a reprodução do capital. Pós-Covid-19, mais que nunca, a luta será necessária!

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2 comentários sobre “Covid-19, a presidência e os trabalhadores

  1. Marilene disse:

    Ótimo retrospecto de como chegamos até aqui. Difícil visualizar um possível virar de mesa a essa altura dos acontecimentos. Pelo fraco desempenho dos trabalhadores em suas lutas por direitos no Brasil e pelo grau de desmantelamento dos poderes da república efetuados pelo atual desgoverno, difícil vislumbrar uma estratégia que ponha por terra, aqui, a curto e médio prazos, o modelo neoliberal na economia e o conservadorismo direitista na política. O exemplo disso é a dificuldade dos partidos de oposição se unirem numa proposta de afastamento do “presidente destruidor da república”. Pós pandemia, quem viver verá!!!

    • Há muito o que fazer, de fato! Embora o pós-pandemia seja o horizonte, melhor seria se conseguíssemos, apesar das condições, iniciar um processo de resistência já. Grato pela contribuição, Marilene! Abraços!

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