ciência, Conhecimento, democracia, discriminação, divulgação, divulgação cientifica, movimentos sociais, pesquisa, política

De quem é a ciência?

Autor: Phillipe Linhares[i]

Quero comentar uma frase aparentemente despretensiosa que vi no meu Facebook outro dia (original na imagem abaixo). Confesso que a atual conjuntura e meu cansaço não me permitiram naquele momento fazer mais do que entender aquela frase como um meme, soltar muitas risadas no mural da pessoa que a tinha escrito e fazê-la uma piada com alguns amigos, no entanto…

No entanto quero poder dar uma nova oportunidade pra mim mesmo e tentar rever aquela frase com o máximo de seriedade com que posso refletir e tentar avaliar o que pode ser retirado dessa mensagem, ainda que talvez seja mais referente a conteúdos de fora do que necessariamente algum conhecimento da própria mensagem.

Eu não vou me furtar a comentar a polarização política exprimida nesse comentário que diz mais sobre pra qual time alguém torce do que quanto e como esta pessoa se preocupa com alguns problemas que nem sempre vão ter resolução aparente. Essa questão acima aparece na segunda sentença e sozinha já poderia ilustrar o governo atual, mas não vou retirá-la do contexto (apesar de ser perfeita e gramaticalmente possível que isso seja feito) e ela não é o foco desse texto.

O foco desse texto é sobre a frase – e a ideia que a fundamenta – que o governo de uma ou outra pessoa faria uma descoberta científica. Pra começar é importante comentar que o governo investiu menos de 1,3% do PIB em desenvolvimento da ciência através de pesquisas em 2017 (segundo o relatório mais recente disponível [ii]). Isso faz com que não seja Bolsonaro o vilão da história (ao menos nesse caso ele  só acompanhou – e deu uma mãozinha – ao corte à ciência). 

Não vou analisar o porquê e os contextos para o início do corte, mas o fato que temos é que agora estamos colhendo o plantio dessa colheita maldita (com o perdão do trocadilho com o filme de terror, que a bem da verdade dá menos medo que a nossa vida real) e já com esse atual cenário digno de Stephen King não adianta mais incitar a população contra qualquer “demônio” que nossa história possa nos mostrar. O factual é que devemos tomar alguma atitude em relação a isso. Mas o que fazer?

A pandemia dá uma característica singular – a cereja do bolo, como se diz no popular – e ela traz à tona o que de pior poderia se ver com relação aos cortes. As desigualdades que estruturam nossas relações sociais estão completamente nuas e somos forçados a relembrar desde a promulgação da lei 8080/1990 (lei que consolida o SUS mas que também deixa clara a posição que nossos pais, avós ou alguns de vocês tinham sobre o fenômeno) que um vírus pode não fazer mais distinções do que genes, células e moléculas, mas que a doença, essa sim, é um fenômeno social assim como a saúde. 

Estão mais expostas as trabalhadoras que tem que sustentar o lar sozinhas na ocupação da sobrevivência. As pessoas, em sua “esmagada” maioria negras que vivem em condições precárias de oferta de assistência a saúde, condições básicas de higiene e garantia de acesso a serviços básicos[iii] (importante usar esmagada e não esmagadora já que é constituinte desse cenário a frase de que “as ‘minorias’ têm que se curvar à maioria”[iv] – atente aqui pro uso da palavra curvar). Tudo isso explicita que gênero, raça e classe ainda são determinantes e condicionantes em saúde – e portanto indicadores de que o Brasil é um país doente – e o tratamento seriam políticas econômicas e sociais que garantiriam equidade à população.

Outra coisa a ser considerada é o desequilíbrio trabalhista desse cenário em que pessoas devem fazer jornadas duplas, triplas e algumas vezes quádruplas de trabalho onde são pesquisadoras-professoras (condição indissociável no Brasil), trabalham informalmente em prol de uma renda extra e ainda cuidam dos espaços familiares – não vou refletir sobre o fato de professores terem de ser pesquisadores mas deixo aqui registrado o questionamento do porquê pesquisadores tem de ser necessariamente professores dentro do sistema público. Isso aliado ao fato de que não conseguimos consolidar políticas públicas em esfera federal que sejam regularmente respeitadas faz com que o Brasil seja um país instável à educação, tendo flutuações relativas a esse ou aquele governo.

Por último, o ambiente e a prática científica, longe de um purismo que já fora anteriormente defendido, guarda uma certa distância do que infelizmente hoje nós vemos e nomeamos como partidarismo. Veja bem, a ciência que é estudada hoje tem uma característica diferente da maior parte daquela que todo o estudante de início de graduação vê com os gregos clássicos. Ela é ativa, não contemplativa. Ela visa resolver problemas cotidianos e não refletir sobre o sentido deles no cosmos. Isso tudo faz com que ela se distancie de uma política da morte e da exploração que se vê hoje no Brasil e que alguns autores nomeiam como necropolítica. No entanto ela não se distancia da concepção clássica da política como o agir com relação ao outro e nesse campo se faz importante convocar todos para reocupar esse espaço e tomá-lo de volta para que possamos utilizar a ciência de forma ética para resolver desigualdades e promover direitos humanos, assim como tinha sido proposto na lei de 1990. A ciência é feita por pessoas e deve ser feita para pessoas.


[i] Phillipe Linhares é psicólogo de formação. Trabalhador da saúde mental no município do Rio de Janeiro, acredita que toda a saúde só pode ser pública. Atua como divulgador de saúde e práticas de cuidado em grupo com a iniciativa Hashtag Psi. https://linktr.ee/hashtagpsi

[ii] https://www.mctic.gov.br/mctic/opencms/indicadores/detalhe/recursos_aplicados/RecursosAplicados-CeT.html, em 04/05/2020;

[iii] https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/04/11/coronavirus-e-mais-letal-entre-negros-no-brasil-apontam-dados-do-ministerio-da-saude.ghtml, em 04/05/2020;

[iv] https://youtu.be/BCkEwP8TeZY,  em 04/05/2020.

Padrão
democracia, discriminação, ideologia, movimentos sociais, política

Patriota ou Patriotagem?

Autores: Edson Teixeira[i], Marco Lamarão[ii].

            Tem sido uma constante a autoproclamação do patriotismo, sobretudo pelos setores vinculados ao “bolsonarismo”. Embora reverenciem a bandeira norte-americana com indisfarçável submissão. Entre nós, alguns setores ostentam o verde-amarelo nas suas manifestações. Fato que esteve presente nas mobilizações antipetistas, que culminaram no impeachment. Muitos parlamentares legitimaram o golpe evocando a pátria e outras ridicularidades bestiais. Serão, todos eles, patriotas ou exercem uma espécie de “patriotagem”?

            Um dos pilares do anticomunismo, ou seja, uma das formas de atacar quem tem simpatia pelo comunismo sempre foi o estigma de “traidor”. Patto Sá explica essa perseguição: “os comunistas seriam agentes de uma potência estrangeira, a URSS, sua pátria real, o que os tornava traidores da pátria” [iii]. Como se sabe, os comunistas – ou todo aquele e aquela que se opõe as desigualdades sociais de forma crítica e contundente – não têm fronteiras. Partilham de uma concepção de mundo internacionalista. Dialogam com uma carta de despedida que um médico deixou aos seus filhos: “sobretudo, sejam capazes sempre de sentir profundamente qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte lugar do mundo. É a qualidade mais bela de um revolucionário” [iv]. No entanto, e sobretudo, os internacionalistas não descuidam daquilo que denominam de “questão nacional”, em especial, naqueles países que sofrem mais agudamente as agruras do imperialismo dos países centrais e, neste sentido, são legítimos patriotas.

            No Brasil, o patriotismo sempre foi um recurso para legitimar atrocidades. Em defesa da pátria, mais de 20 mil seguidores de Antônio Conselheiro foram trucidados pelo Exército[v], na Guerra de Canudos (1893-1897), na Bahia. Em defesa da pátria, militares ceifaram mais de 15 mil vidas dos que se revoltaram na Guerra do Contestado (1912-1916), na divisa entre o Paraná e Santa Catarina. É bom lembrar que os camponeses de Canudos e do Contestado não conheciam nada dessa coisa de comunismo. Desejavam igualdade social, fortemente influenciados pela religiosidade.

            Em 1917, em São Paulo, milhares de trabalhadores e trabalhadoras – sobretudo do setor de tecelagem – construíram um movimento grevista de grandes proporções. Suas reivindicações, entre outros pontos, eram: a carga horária diária de 8h de trabalho (a carga horária era, em média, de 12h/dia); a abolição do trabalho noturno das mulheres; a abolição do trabalho de menores de 14 anos; além de melhorais salariais e o direito de se organizarem, politicamente. Foram reprimidos pelas forças policiais daquele estado. Segundo José Luiz Del Roio: “há indícios de várias covas, as quais estariam sepultados mais de uma centena de corpos, levados clandestinamente pelas forças de segurança ao cemitério do Araçá, um dos mais tradicionais de São Paulo” [vi]. Esta repressão também fora feita “em nome da pátria”.

É Importante lembrar que, no Brasil, um nacionalismo de esquerda sempre fora um importante elemento na luta anti-imperialista, luta esta encampada, inclusive, pelo “partidão” quando em meados do século passado auxiliava, dentre erros e acertos, a construção de um projeto nacional-desenvolvimentista. Isso ocorria mesmo quando este partido se encontrava na ilegalidade, o que na nossa história não foi nada incomum.

            A lista de truculências é longa. Abreviaremos. Durante a Ditadura Empresarial Militar (1964-1985), foram “anos de chumbo” para quem resistiu: houve tortura, assassinato, ocultação de cadáveres, censura, banimento de cidadãos ao exílio, cassação de mandatos e registros políticos, a suspensão do habeas corpus, até a pena de morte foi implantada no país. “Anos de glória” para empresários – nacionais e estrangeiros -, militares das Forças Armadas, agentes policiais civis/militares e setores expressivos da grande mídia, que implantaram um terrorismo de estado mantido intacto na redemocratização. Basta lembrar o assassinato – pelo Exército – de três operários na greve metalúrgica, em Volta Redonda (1988); o Massacre do Carandiru (1992), o Massacre da Candelária (1993), o Massacre de Eldorado dos Carajás (1996) e o recente assassinato da vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes, entre outras barbaridades perpetradas.

            Para “os de cima” e seus aliados, defender a pátria é implantar uma autêntica guerra psicológica manipuladora. Nessa guerra, o alvo são os inimigos internos ou os sobrantes do mercado: “a carne mais barata do mercado é a carne negra”. Nessa guerra, disseminam o ódio, impulsionam comportamentos coletivos possessivos e fundamentalistas. Muitas vezes associados a consigna: deus, pátria e família.   Em nada coexiste fé, nem patriotismo e muito menos modelo familiar decente. Instaura-se a “patriotagem”. Muitas vezes associadas as passeatas e carreatas da morte. Por detrás da máscara, esta “defesa da pátria” encobre, na realidade, a submissão dos interesses nacionais aos ditames dos países centrais, algo do tipo “um patriotismo em defesa da pátria alheia”

É preciso desconstruir e ressignificar a narrativa do patriotismo. Implodir as suas amarras. Esse fenômeno insuflou a xenofobia, legitimou a dominação imperialista, gerou guerras fraticidas e horrendas, corroborou a emergência de regimes tirânicos – como o fascismo e o nazismo – e é um recurso de explícita violência política nas frágeis democracias. A rigor, a cultura de um povo e seu caráter nacional não são opostos aos valores universais, a diversidade e a convivência com o contraditório.

Nesse sentido, há um legado dos quilombolas do passado e do presente, entre mocambos, favelas e periferias; dos camponeses que lutaram e lutam por terra livre; dos que desenvolveram e irão desenvolver inúmeras greves; dos que lutam por moradia digna; dos que ousaram enfrentar a Ditadura Empresarial Militar, entre outras contendas. Tais formas de luta conjugam valores nacionais e universais, enfatizando a defesa dos direitos humanos no seu sentido mais amplo.

Afinal, aqueles que labutam de sol a sol, os invisíveis do nosso país, os trabalhadores informais, os pretos e pobres, a classe trabalhadora em geral carregam consigo a insígnia da pátria, construindo-a dia-a-dia, sem a necessidade de se autoproclamar patriota. Pois que, em tempos tão turvos, os verdadeiros patriotas não soerguem a camisa da CBF.

Como cantou o poeta [vii], é possível acreditar “na rapaziada, que segue em frente e segura o rojão”. Na “fé da moçada, que não foge da fera e enfrenta o leão”. É imperativo “ir à luta com essa juventude, que não foge da raia a troco de nada”. Seguir “o bloco dessa mocidade, que não está na saudade e constrói a manhã desejada”. Partilhar com “aquele que sabe o sufoco de um jogo tão duro”, que “apesar dos pesares ainda se orgulha de ser brasileiro”. É imprescindível acompanhar “a batucada com a cerva gelada”. Afinal, “o resto é besteira”.


[i] Professor Dr. da Faculdade de Serviço Social do CURO- UFF- Rio das Ostras.

[ii] Professor Dr. da Faculdade de Licenciatura em História IFF-Macaé

[iii] MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Em Guarda contra o perigo vermelho: o anticomunismo no Brasil. São Paulo: Perspectiva: FAPESP, 2002. URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, extinta em 1991).

[iv] GUEVARA, Che. Cartas. São Paulo: Edições Populares, 1980.

[vi] ROIO, José Luiz Del. A greve de 1917: os trabalhadores entram em cena. São Paulo: Alameda, 2017. Ver também: BANDEIRA, Moniz. MELO, Clovis. ANDRADE, A.T. A Revolução Russa e seus reflexos no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.

[vii] Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, o Gonzaguinha: “E vamos à luta” (1980).

Padrão
andes, Conhecimento, democracia, educação, Entrelinhas, greve, ideologia, manifestações, movimentos sociais, PNE, política, reuni, sindicato, trabalho, universidade

O bebedouro, o reitor e o governo – parte 3

Cobrar mensalidades dos alunos das universidades federais justamente quando os alunos com maior renda começam a migrar para as entidades privadas (ou no atual discurso do governo, para as públicas não estatais), assim encerramos a parte 2 de O bebedouro, o reitor e o governo. Qual a vantagem e quais os interesses econômicos que levam o Banco Mundial a defender essa proposta?

O interesse maior por trás do Banco Mundial é a geração de renda e lucro. A política de colocar a educação como uma mercadoria e não como direito, gera a capacidade de usar a educação como fonte de recursos para o capital financeiro. Basta visualizarmos o seguinte, nos Estados Unidos, onde o modelo de colocar sobre os ombros da população os custos do ensino superior é mais antigo, o endividamento familiar para que as pessoas possam cursar uma graduação atingiu a astronômica cifra de um trilhão de dólares. Parte dessa dívida já é reconhecida como impagável. No Reino Unido esse valor alcança os duzentos bilhões, dos quais cerca de 40% não serão pagas, pois as famílias não têm condições de sair da inadimplência.

Então, vejamos! Estamos falando que os governos abrem mão de manter a educação como direito, colocam-na como mercadoria, favorecem a iniciativa privada por meio de vários mecanismos (no Brasil, os mais evidentes são FIES e PROUNI), fazem a população endividar-se para ter acesso à educação superior e os bancos que deveriam ganham rios de dinheiro fazendo empréstimos acabam por arcar com os custos da inadimplência, é isso? Não, é claro que não! Os bancos não ficam com os problemas econômicos, apenas com os lucros. Quando esse problema se estabelece, o poder público, ou seja, o governo e, por consequência, todo contribuinte, acaba arcando com a inadimplência para assegurar os ganhos do capital financeiro. A desculpa de que ao incentivar a iniciativa privada a assumir a educação superior, o governo reduziria seus gastos, não se sustenta quando analisada a forma como a financeirização da educação se desenrola. Os lucros ficam com os grandes conglomerados da educação com ativos nas bolsas de valores, gerando renda para os investidores, e com os bancos e seus associados que apostam no endividamento familiar. Os prejuízos, os calotes da inadimplência, recaem sobre os ombros de todos, são pagos pela população, inclusive pelos endividados. Política cruel, não?

Esse movimento não ocorre de uma hora para outra, há um desgaste do modelo. Nesse sentido, este parece ser o momento para olharmos como anda o Chile, país considerado modelo na implantação da proposta do BM. O Brasil está seguindo os mesmos passos, mas em uma velocidade menor. O Chile, apontado no documento do BM como exemplo de avanço no ensino superior, é o que vivencia nos últimos anos a maior crise na educação superior, com as famílias indo às ruas expressar toda sua indignação contra a política implantada. Lá, adotou-se a lógica de endividamento familiar para manutenção do ensino superior, assim as famílias fazem poupança desde (ou mesmo antes de) o nascimento do filho, ou fazem empréstimos, endividando-se ou ao futuro graduado por muitos anos. Os custos do ensino superior tornaram-se proibitivos, gerando inadimplência e sufoco financeiro, portanto, no Chile, que segue à risca a cartilha do BM, a população tem ido às ruas protestar por não mais aguentar os custos da educação superior.

Como alternativa para minimizar esses problemas, o BM propõe que além das cobranças aos estudantes, as instituições de ensino superior diversifiquem sua fonte de financiamento. Primeiro que deixem de ser sustentadas pelo Estado como política. E que busquem mecanismos variados para obter recursos para seu funcionamento. Cobrança de taxas diversas para os alunos que estão estudando, mesmo entendendo que com o atual movimento, uma parcela considerável dos estudantes que permanecerão nas públicas estatais será de alunos com dificuldades financeiras. Outra forma seria buscar apoio financeiro entre os alunos bem sucedidos economicamente, solicitar-lhes que façam doações. Acontece que no Brasil, o sistema de doações não tem as vantagens em termos de redução de imposto que ocorrem nos Estados Unidos, portanto, a menos que a legislação seja mudada, esta estratégia resultará inócua.

Por fim, buscar mecanismos que tragam recursos para o interior das instituições. Nesse caso, incluem-se venda de cursos diversos e serviços de extensão e pesquisa, além do estabelecimento de parcerias público-privadas. Qualquer que seja o mecanismo adotado, isso significa uma perda significativa da autonomia da universidade e de sua preocupação com a estrutura social. Toda a preocupação passa a ser a de busca de recursos financeiros, a sociedade só importa se tiver dinheiro para pagar pelos serviços das universidades. Destruímos assim, de uma só leva, o ensino, a pesquisa e a extensão, modelo interessante, não? Mas não se preocupem, que ainda há mais um pouco de informação para relacionarmos essa política ao problema do bebedouro. A gente se encontra no próximo texto, até lá!

O bebedouro, o reitor e o governo – parte 1, parte 2, parte 4, parte 5.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 469, 22 de agosto de 2015.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

Padrão
andes, Conhecimento, democracia, educação, Entrelinhas, greve, ideologia, manifestações, movimentos sociais, política, reuni, sindicato, trabalho, universidade

O bebedouro, o reitor e o governo – parte 2

Falávamos, durante a primeira parte deste texto (Ver parte 1), de como os problemas que ora as universidades enfrentam não são questões pontuais, mas que se inserem em um contexto mais amplo que relaciona o bebedouro quebrado com as ações dos reitores, do governo e mesmo com organizações internacionais como o Banco Mundial. Assim, agora buscaremos enxergar como a política apresentada no documento do Banco Mundial (BM) intitulado “La enseñanza superior: las lecciones derivadas de la experiencia” relaciona-se com os problemas do bebedouro e a atual crise que impede o início do semestre nas universidades federais.

Vários elementos são relevantes no processo de análise. Um aspecto central diz respeito ao volume de recursos que pode ser gerado pelo ensino superior. Os interesses, como os recursos, são enormes, assim, uma mudança sugerida pelo documento do BM é a redefinição da função do Estado. Esse deveria abrir mão de exercer um controle direto e passar a ser um gerenciador de políticas e fiscalizador do sistema de ensino fornecido pelas instituições privadas. Praticamente uma reconfiguração do Estado para ser uma agência nacional de ensino superior, como tem sido feito nos últimos anos para outros serviços que antes eram fornecidos pelo governo como água, energia e telecomunicações. O governo seria, então, responsável por instituir um marco político e fiscalizar o serviço prestado pelas instituições de ensino.

Nesse processo de mudança proposto pelo BM é necessário estabelecer mecanismos que permitam às instituições privadas ser vistas sistematicamente como melhores e mais eficientes do que foram até hoje. O Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (ENADE) é parte importante desse processo. Nos últimos anos, o governo federal, independente do partido e do presidente, tem reduzido o montante de recursos por aluno nas universidades federais e alavancado cada vez mais recursos para as instituições privadas. Enquanto as universidades federais perderam mais de 10 bilhões de reais esse ano, políticas que injetam recursos do Estado nas instituições privadas foram ampliadas, mesmo com a crise.

Junto com isso, os mecanismos quantitativos de avaliação das instituições de ensino superior, que muitas particulares burlam de variadas formas, favorecem que estas subam posições, enquanto as federais vão minguando e despencando. Assim, avaliações como o ENADE servem para alavancar o interesse das particulares entre os consumidores do serviço educação. O ENADE, portanto, embora o governo negue, é um mecanismo de ordenação para que as instituições privadas possam vender sua qualidade com lastro, um selo de qualidade fornecido pelo próprio governo. Este, por sua vez, responsável que é pelas instituições federais, sabe quais os problemas e demandas existentes, mas não entra com os recursos financeiros, de infraestrutura ou pessoais para resolvê-los. Assim, é possível identificar como a política adotada sob os ditames do BM tem a finalidade precípua de empurrar as pessoas para o mercado das instituições privadas com apoio de recursos do Estado.

O governo, no afã de facilitar a utilização de recursos estatais para favorecer a ampliação do mercado da iniciativa privada em educação, mudou, inclusive, a nomenclatura utilizada para designar as instituições. Agora, para o governo, não há mais instituições de ensino superior públicas e privadas, o que há são entidades públicas, sendo que dividem-se em estatais e não estatais. Contudo, sendo entidades públicas, ambas passam a ter a mesma condição de receber recursos da união. Não há mais diferenças. O curioso é que no caso das públicas não estatais (antigas privadas) estamos falando de instituições que estão sob controle de grandes conglomerados organizados a partir de megainvestidores, inclusive internacionais. Então, o governo federal estabelece mecanismos que retiram recursos públicos que deveriam atender a população mais pobre e os destina para os investidores do mercado financeiro.

Acoplado à linha de reduzir recursos das instituições públicas e de injetá-los nas privadas, o documento do BM sugere que as instituições públicas devem buscar outras fontes de financiamento. Embora reconheça que em todo o mundo, o ensino superior dependa de financiamento público, o BM indica a diversificação das fontes de recursos. Entre as alternativas estão a cobrança de taxas, venda de serviços de pesquisa e extensão, obtenção de recursos no mercado e, principalmente, colocar o aluno como responsável pela manutenção dos custos. As universidades federais passariam, então, no momento em que os mais abastados migrariam para as particulares, a exigir que os alunos bancassem a manutenção dos serviços de educação superior estatal. Sobre esse processo de colocar os custos da educação superior sobre os ombros do estudante e suas famílias, voltaremos no próximo texto. Momento em que continuaremos a entender a lógica dos interesses do mercado financeiro sobre os problemas do bebedouro da universidade pública. Até lá!

O bebedouro, o reitor e o governo – parte 1

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 468, 15 de agosto de 2015.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

 

Padrão
andes, Conhecimento, democracia, educação, Entrelinhas, greve, ideologia, manifestações, movimentos sociais, política, reuni, sindicato, universidade

O bebedouro, o reitor e o governo

Eleição para o Diretório dos Estudantes correndo solta. Duas chapas com conformações e pensamentos muito distintos sobre os problemas institucionais rivalizam e buscam apoio entre os universitários. Uma vê no bebedouro quebrado um problema de gestão do reitor, apenas o desconhecimento da situação que tão logo seja informada será solucionada. Ou no máximo um problema pontual de repasse de verbas por parte do governo, algo que será resolvido assim que passar a crise que ora assola o país. A outra chapa parte de uma perspectiva absolutamente diferente. Entende que os problemas que aparecem pontualmente na instituição, como o caso do bebedouro, estão imbricados em uma rede maior de interesses econômicos e disputas políticas. Falam em internacionalização da luta de classes, do apetite voraz do capitalismo e entendem que as questões pontuais só serão realmente solucionadas na medida em que uma forma radicalmente nova de compreender o ensino superior seja estabelecida, embora isso não signifique abrir mão de resolver problemas de gestão e informação. O duelo estende-se e as votações previstas para ocorrer no começo do período letivo.

Passa julho, vem agosto, o segundo semestre nas universidades federais deveria estar começando, deveria, mas… não está! A mídia, quando cobre o assunto, repete a antiga cantilena de prejuízo ao aluno e coloca como razão dessa postergação a greve que alcança quase todas as instituições federais, se consideradas as paralisações de docentes, servidores técnico-administrativos e alunos. O movimento da comunidade acadêmica é parte relevante do processo, mas há outra causa, também relevante, que vem sendo absolutamente desconsiderada no processo, as dificuldades orçamentárias e de pessoal que vinham atingindo as universidades há algum tempo, tornaram-se incontornáveis em 2015. Não é, portanto, algo novo.

As entrevistas concedidas pela esmagadora maioria dos reitores ou de membros da gestão fornecem o material que a mídia tem divulgado, de apontar a greve pelo atraso do início do semestre. Contudo, as entrevistas não fazem críticas ao governo nem relacionam o retardo do calendário com os problemas de recurso e de pessoal existentes. Apontam apenas que há algumas dificuldades operacionais pragmaticamente solucionáveis, embora afirmem sem alarde para a mídia que, se começarem o período letivo, não haverá verba suficiente para a conclusão do mesmo sem que haja suplementação orçamentária. Não enfatizam essa parte das carências conjunturais e estruturais que são centrais para a compreensão do momento pelo qual passam as universidades. Assim, os reitores, os mesmos que deveriam ser os primeiros a denunciar as dificuldades para solucioná-las, escondem-se atrás das greves e as culpam para não se indispor com o governo federal.

Então, resta-nos uma pergunta: como as universidades federais que são referência de ensino e pesquisa de qualidade no Brasil e mesmo internacionalmente chegaram nessa calamitosa situação de não conseguir iniciar o semestre por falta de condições de concluí-lo? Como um serviço público que é estupidamente melhor que a iniciativa privada sob todos os aspectos encontra-se em uma condição dessas? Essas perguntas levam-nos de volta a questão do bebedouro nas eleições do Diretório dos Estudantes apresentados no início do texto. As dificuldades existentes que vão refletir-se, inclusive, no problema do bebedouro e na falta de papel higiênico são elementos de gestão, da crise vigente ou estão relacionadas aos interesses de pessoas e entidades relevantes nos cenários nacional e internacional?

Alguns pensam que é uma questão mais imediata, resultado da crise econômica que atingiu o país com mais força no final de 2014, mas o fato é que as origens desse problema remontam a algo maior e mais longínquo. Se não nos debruçarmos sobre essa questão, acabaremos por não enxergar o quadro geral e ficaremos a buscar soluções pontuais e imediatas que de forma alguma serão capazes de alterar o quadro de penúria e desmonte que vem se estabelecendo.

A educação mostrou-se um mercado excepcional, fonte de lucros estratosféricos. Essa referência fez com que os interesses comerciais e de obtenção de lucros voltassem-se para a educação com um apetite voraz. A ordem liberalizante que norteia o atual momento do capitalismo faz com que o Estado seja criticado em todo e qualquer espaço onde este atua e interfere com a possibilidade de auferir lucros. Elaboram-se proposições e projetos de enxugamento do Estado com transferência dessas atividades para a iniciativa privada. Há um concerto internacional que baliza essas questões e que se faz presente em organizações relevantes. O Banco Mundial, por exemplo, apresenta toda uma conformação de como deve ser a educação no Brasil, América Latina e Caribe. O documento intitulado “La enseñanza superior: las lecciones derivadas de la experiencia” afirma claramente o projeto liberal de redução do Estado.

Curioso para saber como o documento do Banco Mundial se relaciona com os problemas do bebedouro e com a atual crise que impede o início do semestre nas universidades? A gente dialoga sobre essas questões na parte 2 desse texto. Até lá!

O bebedouro, o reitor e o governo – parte 2

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 467, 08 de agosto de 2015.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

Padrão