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Pesquisa com animais, sim ou não?

Defensores dos animais resgatam cães maltratados em instituto de pesquisa. Há várias formas de fazer essa afirmação segundo a ideologia de quem redige. Outra forma possível seria: Invasão de instituto e retirada de cães por ativistas prejudica pesquisa anticâncer. Duas manchetes distintas sobre o mesmo tema. Variações dessa última foram escolhidas massivamente pela mídia tradicional. Mas, afinal, como enxergar esse fenômeno? Como se posicionar com relação ao que ocorreu?

O assunto dos cães do instituto de pesquisa incendiou as redes sociais e, lamentavelmente, os ânimos. Muita agressão de parte a parte com acusações as mais diversas. Há muita desinformação e, por incrível que pareça, o desenlace desta questão vai para além de defender a ciência ou ser contrário às pesquisas com animais. Está em jogo, o tipo de sociedade que queremos e a relação com as demais espécies.

Compreender que os outros animais são inferiores e se prestam a servir aos humanos é o pilar do especismo e é defendido pela religião cristã. O uso de animais como alimento, transporte, força de trabalho, cobaia experimental ou qualquer outra função é tão somente uma expressão dessa compreensão. Outra corrente defende que os animais teriam direitos como seres vivos e, portanto, devem ser respeitados em sua existência. Veganos são a expressão mais radical desta corrente e, por suas convicções, evitam explorar os animais sob qualquer ótica. Não consomem carne, ovos ou leite, não usam couro, lã, seda ou pérolas. Não utilizam animais não-humanos, segundo sua designação, como transporte nem para trabalho ou entretenimento. Existem variantes entre esses exemplos da relação entre os humanos e os demais animais, mas os extremos são elucidativos.

A questão que se coloca após o evento dos animais do instituto de pesquisa é: Qual posição nós, como sociedade, temos e queremos com relação aos animais? Caso entendamos que somos todos seres vivos e, portanto, detentores de direitos, trataremos todos os organismos da mesma forma. Se assim for, posições como a dos veganos se fortalecerão e evitaremos sobrepujar os animais sob qualquer forma. Mudaremos para uma dieta vegetariana e a pesquisa científica com animais passa a ser terminantemente proibida.

Por outro lado, podemos entender que a manutenção de 7 bilhões de indivíduos da espécie humana  gera demandas, como a produção de alimentos, que só serão atendidas com a exploração de outras espécies. Os humanos dominaram os animais e os utilizam para sustentar o modelo de sociedade vigente. A ciência e os avanços tecnológicos derivados foram pródigos em aproveitar os animais segundo os interesses da humanidade. Consumimos os animais e seus derivados e utilizamo-los das mais variadas formas. O uso de animais em testes é parte importante desse processo. Praticamente tudo que consumimos foi testado em animais e não estamos falando apenas de medicamentos e cosméticos. Tintas, agrotóxicos, corantes, acidulantes, aromatizantes, estabilizantes, que estão em praticamente todos os alimentos processados, e mesmo frutas e verduras alteradas geneticamente também passaram por testes com animais antes de serem ingeridos por seres humanos.

Testes com animais passaram a ser usados pela indústria químico-farmacêutica desde o início do século XIX. Abrir mão dos mesmos antes que estratégias alternativas viáveis estejam consolidadas romperia com a estrutura de sustentação do atual modelo que demanda apresentação de novos produtos numa velocidade astronômica. A ausência de testes pode produzir problemas com o uso ou consumo de produtos que podem ir de alergias à morte, passando por câncer e danos ao feto de mulheres grávidas. Basta que nos lembremos dos efeitos perniciosos do uso de chumbo em cosméticos e da talidomida como medicamento sobre a saúde das pessoas e fetos.

Defender a pesquisa com animais não significa automaticamente desejar o mal dos mesmos. Os pesquisadores, em geral, são os primeiros a tentar evitar sofrimento desnecessário dos organismos em seus laboratórios. Isso significa buscar zerar a pesquisa científica com animais, mas enquanto esse objetivo não é alcançado, o caminho é reduzir o desconforto, garantir a integridade do animal e desenvolver métodos alternativos.  De outro lado, nem todos aqueles que se compadeceram dos animais desejam ser veganos ou defender uma postura de igualdade entre humanos e demais animais, tanto que os ratos não foram resgatados do instituto, só os cães e coelhos.

Essas informações pretendem, minimamente, iluminar o tema sem que haja polarização entre maus e bons. Precisamos reconhecer que estão em jogo concepções distintas de sociedade e da relação com os animais. Então, devemos todos parar de apenas acompanhar a mídia e chamar de vândalo qualquer um que se posicione contra a ordem instituída ou sair defendendo o cachorrinho por seus olhinhos tristonhos. Pensemos sobre a sociedade que queremos, analisemos os fatos e decidamos a questão que ora se apresenta: Pesquisa com animais, sim ou não?

Leia “Vamos lá: pesquisa em animais…“. Texto maravilhoso sobre o tema escrito por Aydamari Faria Jr.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 370, 19 de outubro de 2013.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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