Entrelinhas, ideologia, manifestações, mídia, movimentos sociais, política

Eventuais abusos serão apurados

Qual o significado desse ato?

A agressão ao oficial da PM de São Paulo chocou muita gente. De fato, a agressão a um policial, a agressão a um servidor público no exercício da função, a agressão a um pai de família, a agressão a uma pessoa não deve ocorrer! Não se defende agressão, não é a forma como devemos nos comportar, não é o modo como as coisas devem ocorrer. Mas às vezes acontece assim.

A agressão do Estado, por exemplo, corre solta. É assim sempre que há manifestações por direitos sociais. É assim cotidianamente contra estudantes e trabalhadores das áreas pobres das metrópoles de nosso país. Nos últimos 5 anos a PM de São Paulo matou uma pessoa por dia, o equivalente ao de todas as polícias dos EUA juntas (e eles não são referência de cordialidade!). As PMs de outros estados possuem proporcionalmente índices parecidos com os de São Paulo e em todos os lugares, os mortos são sempre pobres, pretos e favelados. Aceitamos isso com extrema naturalidade e agimos como se estivesse tudo bem! Mas não está nada bem! Se começasse a morrer uma pessoa das classes A e B por dia, teríamos uma convulsão social no país. Portanto, precisamos atentar para o fato de que há algo errado!

A agressão não é aceitável! Mas a presidente aceita que todos sejamos agredidos. A mesma presidente que veio a público dizer que a agressão ao oficial da PM era inadmissível e que todos os recursos da união estavam à disposição do governador para que isso não mais acontecesse. Qual o significado dessa ação? A Chefe de Estado assegura que a PM pode bater, humilhar, cegar e matar que está tudo certo. As polícias podem bater em pobres, em estudantes secundaristas, em universitários, em professores, em bombeiros, em qualquer um. Mas na hora em que alguém perde a cabeça e há um revide contra o aparato do Estado… Não pode!

Curiosamente esse não é o maior problema. O fundo do poço está no fato de Dilma deixar claro que se disponibiliza a ajudar “com o que for preciso”. O que é preciso na ótica de Dilma e do governador? É preciso mais aparato repressor. Disponibilizar o Exército cuja preparação não é para o enfrentamento da população do país em manifestação. Alocar a Guarda Nacional para mais repressão. Ofertar instrumentos para massacrar ainda mais a população como balas de borracha, bombas de gás, spray de pimenta, cassetetes (tonfas) e mais caveirões. É, talvez seja exatamente isso que Dilma quer, mais Amarildos e Douglas, mais caveiras sob seu governo.

Dilma, a oferta deveria ser a de recursos para que os governos estaduais levassem o Estado à população. Recursos para subir o valor do salário mínimo, das pensões e aposentadorias. Recursos para que os profissionais de educação, saúde e segurança (sim, estou falando dos PM, sim) sejam melhor remunerados. Recursos para que a PM tenha uma ação mais cordial com as pessoas que vão às ruas manifestar contra os desmandos do Estado e, principalmente, com aquelas que moram em áreas de pobreza e são tratados indistintamente como criminosos. Recursos para que sejam construídas creches, escolas, hospitais, unidades de saúde, praças e espaços para a cultura e a prática de esportes. Recursos para que estes lugares, depois de construídos, sejam mantidos de forma decente. Recursos para que funcionem todas as áreas de atuação do Estado. Afinal, a população quer saúde, educação, segurança, cultura, esporte e lazer, não apenas UPP (Polícia).

Então, Dilma, como presidente de todos desse país e não apenas dos que se locupletam da estrutura de dinheiro e poder, se proponha a defender a população e ofertar ao país, o que é necessário para que as pessoas não tenham que se espremer em ônibus e trens lotados, caros, quebrados, sufocantes no verão e gélidos no inverno. A população não merece mais viver com um salário mínimo miserável, muito abaixo daquele proposto pelo DIEESE (cerca de R$ 2.800,00) que o PT tanto defendeu antes de ser governo. Com uma educação que, apesar de todo o discurso oficial, segue com problemas seriíssimos. Com uma saúde onde é preciso marcar consulta antes de ficar doente, pois a demora é interminável (e isso não é só no SUS, não! Os planos de saúde pagos estão do mesmo jeito). Sem opção de diversão que não seja assistir a TV cujas concessões defendem um mesmo pacote ideológico para manter o povo assustado e achando que se manifestar é errado, coisa de baderneiro, quando a realidade é outra, bem outra. A manifestação de rua é a expressão de que as pessoas se engajaram em uma ideia, que conseguiram pensar para além do mundinho bitolado da TV e saíram a reivindicar seus direitos. Mas ao fazerem isso são massacrados, humilhados, mutilados e mortos pelo aparelho repressor do Estado. Mas para esses não há solidariedade nem defesa. Nesses pode bater, não é, Dilma?

Em tempo: Os envolvidos com a agressão ao oficial da PM informaram próximo do fechamento do jornal que “eventuais abusos serão apurados”.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 382, 2 de novembro de 2013.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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