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Voa, canarinho, voa

“Voa, canarinho, voa / Mostra pra esse povo que és um rei / Voa, canarinho, voa / Mostra na Espanha o que eu já sei / Verde, amarelo, azul e branco / Forma o pavilhão do meu país / O verde toma conta do meu canto / O amarelo, azul e branco / Fazem o meu povo feliz / E o meu povo toma conta do cenário / Faz vibrar o meu canário / Enaltece o que ele faz / Bola rolando e o mundo se encantando / Com a galera delirando / Tô aí e quero mais”.

A música “Voa, canarinho, voa”, cuja autoria é de Junior – ex-jogador do Flamengo e da seleção brasileira, embalou o Brasil durante a copa de 1982 na Espanha. Uma seleção que jogava por mágica, encantava pessoas de todo o mundo, deixava a galera delirando e pedindo mais. Foi de fato uma seleção maravilhosa que voou e fez o povo feliz, até que, por ironia do destino, em um tropeço diante da Itália saiu do torneio. Com a eliminação, o Brasil quedou inconsolável, a copa ficou mais triste, o futebol agonizou!

É curioso que a música de Junior tenha preconizado tanto sobre o futebol. Mesmo eliminado, o Brasil mostrou o que sabia e que era o rei do futebol. A Espanha, esperta, aprendeu. Apropriou-se da filosofia de jogo daquela seleção brasileira e começou uma reformulação na sua forma de jogar. O tic tac espanhol, atualmente tão decantado no futebol do Barcelona e da seleção espanhola, é uma extensão do que a seleção brasileira de 1982 fazia em campo. Toque de bola refinado, jogadores habilidosos em todas as posições e um jogo envolvente. A Espanha, sem fazer-se de rogada, aprendeu a lição e melhorou-a, passou a compreender a posse de bola como uma estratégia e sagrou-se campeã do mundo em 2010.

O imediatismo brasileiro fez com que adotássemos a estratégia inversa – abandonamos o futebol bonito e passamos a implantar a filosofia do futebol de resultados. E deu resultados! Ganhamos mais duas copas. Mas convenhamos, ganhamos com um futebolzinho horroroso, retranqueiro, dependente da genialidade de um ou outro jogador. A seleção brasileira passou a jogar para não tomar gol e tentar fazer pelo menos um para assegurar a vitória.

Em razão das escolhas feitas  após a derrota na copa de 1982, o Brasil deixou de ser diferente, deixou de encantar, deixou de ser o país do futebol. Com isso, o Brasil deixou de ser o Brasil e tornamo-nos uma caricatura da nossa própria história. Uma camisa que ostenta peso, mas que é absolutamente oca e, portanto, leve. Jogamos com times pequenos, sofremos para ganhar e iludimo-nos com as vitórias. Com times grandes, o embate ainda se dá, mas a canarinho não voa mais, não se destaca e ficamos a nos contentar com as vitórias que aparecem, pois no fundo sabemos que não podemos mais nos orgulhar do nosso futebol. Seguimos assim a iludir-nos, até o momento em que fizemos uma copa em casa e descobrimo-nos fragilizados ao ponto de levar de sete em uma semifinal.

O que fazemos após levar uma surra dessas? Apesar do discurso de mudança, decidimos fazer mais do mesmo. Chamamos outro técnico com a mesma filosofia, a da retranca, a dos resultados. Pelo visto não aprendemos com nossos erros, pois continuaremos a jogar como um time que não faz jus às estrelas que carrega no peito.  Espero, sinceramente, que o processo de reformulação, tão presente no discurso dos dirigentes do futebol brasileiro, realmente ocorra. Reformulação que deveria começar com os próprios dirigentes para ser de fato efetiva. Como esperar que algo mude se os caciques perpetuam-se no poder e o lucro é um objetivo maior que o próprio futebol? Mesmo assim torcemos para que a reformulação ocorra, que com com ela venha a mudança de filosofia, que voltemos a buscar um futebol alegre, que mostra o que sabe, que voa, que encanta, que faz delirar. O futebol dos campinhos de areia, da molecada irreverente que joga pelo puro prazer de se divertir com a bola.

As vitórias? Os títulos? Estes serão consequências de uma seleção que sabe jogar e que ocasionalmente poderá perder e ser eliminada de torneios e copas. Mas teremos uma seleção dona de um futebol memorável, uma seleção que voa. Como diz o Junior, quando a seleção brasileira jogar, o que eu quero é “Bola rolando e o mundo se encantando / Com a galera delirando / Tô aí e quero mais”.

Para conhecer mais sobre a seleção de 1982, dê uma olhada nos vídeos: Brasil 1982 – um tributo à arte do futebol (acima); O time mais habilidoso da história (abaixo); O time que perdeu a copa e conquistou o mundoDocumentário da FIFA sobre a copa de 1982.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 420, 02 de agosto de 2014.

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Prisões e previsões

Imagine este fato acontecendo com o seu time do coração. Os campeões das fases classificatórias, após jogos duríssimos, chegaram àquela final para disputar o título. Times em campo, começa o jogo, Pedrinho rola a bola à frente, Diego toca-a e… o árbitro apita. Um sobressalto ocorre entre jogadores, comissões técnicas e torcidas: O que o árbitro estaria marcando antes que decorresse sequer um segundo de partida? Mão no bolso, o árbitro caminha rumo aos dois zagueiros, poucos metros antes de chegar a eles, eleva o cartão vermelho, uma vez, depois outra. Expulsos! Atônitos, questionam junto ao árbitro a expulsão, a eles se juntam o capitão, vários jogadores e a comissão técnica a invadir o campo. Por que expulsar dois jogadores antes que houvesse sequer uma falta? O que justificava aquela ação, se nada ocorrera? Qual a razão para tamanho absurdo?

O árbitro, então, do alto de sua autoridade afirma ser de seu conhecimento que aqueles jogadores fariam faltas, algumas delas violentas. Sabia disso porque em jogos anteriores eles haviam cometido faltas com excesso de vigor, inclusive deixando um ou outro adversário com lesões sérias. Além disso, argumenta, ouvira os dois conversando antes do início da partida. Falavam em levar os filhos para passear em carrinhos de bate-bate até que os moleques cansassem e pedissem para voltar para casa. E marcaram o encontro para as 10 horas. Tudo isso, dizia o árbitro, era claramente um relato de que bateriam no adversário de camisa 10 até que esse saísse do campo. Portanto, concluía o árbitro, sua ação era correta por expulsar preventivamente os zagueiros antes que o pior acontecesse. Fruto dessa decisão, o time com os jogadores expulsos perde o jogo e o título. O esforço e investimento de todo um ano escorreram pelo ralo porque uma autoridade ultrapassou os limites de sua competência e resolveu prever o futuro.

Qualquer torcedor que visse seu time garfado dessa maneira ficaria enlouquecido e clamaria por… Justiça! O curioso é que estão fazendo isso no Brasil, hoje, com a vida de pessoas e uma boa parte da população acha normal, inclusive defendendo tal arbitrariedade e argumentando que manifestantes são criminosos e que é preciso prendê-los antes (isso mesmo, por absurdo que pareça, antes!) que façam qualquer coisa. Na tentativa desesperada de deixar imaculada a imagem da copa, (como se isso fosse possível após remoções, internações compulsórias e descumprimento de princípios constitucionais), vários manifestantes foram presos preventivamente na véspera da final, aquela da qual ficamos de fora porque levamos de 7 a 1 da Alemanha.

As alegações para a prisão dos manifestantes beiram as raias do ridículo e padecem do mesmo mal de nossa historieta inicial, pois também são preventivas, ou seja, pessoas foram presas pela suposição de que pudessem vir a cometer um crime. Nossas leis não permitem esse absurdo, pois enterram, por exemplo, a presunção da inocência. A ilegalidade é enorme e, por isso, várias organizações e pessoas ligadas ao mundo jurídico estão criticando o fato e apontando o risco de enveredarmos definitivamente no estado de exceção que vivenciamos durante a copa.

Já imaginou ser preso sem uma acusação concreta? Ah, mas eu não me meto em crime nem nessas histórias de manifestações! – você diz. Tudo bem, mas imagine que possa ser confundido com alguma outra pessoa, preso sem maiores explicações, ir para a delegacia para só então começar a tomar conhecimento da acusação. Isso não existe em um estado democrático de direito. Isso simplesmente não pode ser tolerado! Distorções da verdade também compõem o cenário atual. O pai (não ativista) de um dos manifestantes possuía uma arma em casa obedecendo toda a legislação nacional. Não há prova de que a arma tenha sido ou de que seria usada em qualquer ação criminosa, mas os responsáveis pelas prisões saíram afirmando haver “armas de fogo” (atenção para o plural) com os “criminosos”. Outras provas consistentes da intenção criminosa foram os computadores, celulares, jornais e bandeiras apreendidos com os manifestantes. Cuidado! A maioria de nós possui esses artefatos criminosos em casa e pode, portanto, ser preso preventivamente por qualquer razão!

Ah, mas havia fogos de artifício! – alguns de nós podemos argumentar numa última tentativa de assegurar que estamos em país que preza pela democracia. Mas o uso de fogos de artifício não é crime. E, se fosse uma infração legal, a população estaria quase toda presa, pois usa fogos em jogos, propaganda política, shows, festas juninas, natal, virada de ano e outras datas comemorativas. O próprio Estado utiliza fogos de artifícios em situações diversas, inclusive ao comemorar a Independência do Brasil. Se, porventura, o uso dos fogos resultar em morte ou for intencionalmente usado para este fim, aqueles que desvirtuaram a função do objeto devem ser, aí sim, penalizados.

Felizmente o Desembargador Siro Darlan concedeu Habeas Corpus aos manifestantes em razão de não haver razão que justifique a detenção. Mas apesar dessa ação que ajuda a recolocar um pouco de justiça em todo esse processo, cabe perguntar: O que fica da copa 2014? Numa análise rápida, violência policial e jurídica para abafar manifestações e calar indignados, ou seja, a implosão do estado democrático de direito e a indicação dos passos iniciais de uma ditadura. Isso respinga diretamente na chefe maior da nação, mas alguns estão se valendo do fato de que a atuação policial diz respeito ao estado para desvincular a presidente de qualquer relação com o fato. Entretanto, a inação da presidente deixa claro que a mesma oferece respaldo para as injustiças perpetradas. Para quem gosta de lembrar que foi vítima da ditadura, assistir calada e inerte todo esse absurdo acontecer, significa, no mínimo, soterrar a própria história e a de todos aqueles que lutaram pela redemocratização do Brasil.

Qual o resultado final do jogo e dessas ações? Perde o time, perde o futebol: a essência do esporte perde o sentido. No dia a dia, perdem as pessoas, perde a justiça: a essência do Estado Democrático de Direito. Rompeu-se a igualdade por pressuposições, definiu-se, pela discrepância de jogadores e atores sociais, o resultado final da partida e da vida. Simplesmente não faz sentido jogar pelas leis ou investir esforços ou recursos, se ações arbitrárias e autoritárias fazem pender injustamente a balança para um dos lados. Esse é um caminho perigoso. Cartão vermelho para quem arbitra “preventivamente”, seja dentro ou fora dos campos de futebol.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 419, 26 de julho de 2014.

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O crack e os megaeventos

O autor deste texto é Andrew Costa, bacharel em Comunicação Social pela UFF, fundador do coletivo antiproibicionista Cultura Verde e membro da coordenação estadual Drogas e Diretos Humanos do Rio de Janeiro.

A política de proibição e repressão aos usuários de drogas, além de não ser eficiente na prática, tem levantado números preocupantes no último período. Em 2011 o tráfico de drogas passou a ocupar o primeiro lugar entre os crimes que mais encarceram pessoas no Brasil. Segundo o Ministério da Justiça essa tipificação penal já corresponde a 24% das prisões no país e o aumento deste foi de 284% só durante a última década.

Mais precisamente, nos últimos 16 anos o Brasil triplicou o seu número de encarceramento e 40% dessa massa (cerca de 500.000 pessoas) são negros, pobres e estão na faixa de 18 a 24 anos. Outro dado contrastante é a escolaridade das pessoas encarceradas: 46% destas não completaram o ensino fundamental enquanto os indivíduos com ensino superior completo correspondem a menos de 0,5% do total de presos.

O Núcleo de Estudos da Violência da USP constatou que o perfil do traficante mais reprimido pela ação policial é o pequeno traficante, o traficante pobre. A partir do estudo de 667 autos de flagrante percebeu-se que mais da metade (57%) não possuíam antecedentes criminais, 87% dos presos foram encarcerados sem qualquer tipo de assistência jurídica e em 55% dos casos foram presas pessoas que não estavam envoltas em nenhum tipo de violência em seu cenário de apreensão. Em resumo, a atual política proibicionista tem prendido prioritariamente os traficantes pobres de maneira arbitrária e sem correlação razoável entre sua atividade real e a pena a que é submetido.

Política de drogas e encarceramento

No período que antecede os Mega-Eventos Esportivos nas principais cidades brasileiras, a política de drogas tem se intensificado e a guerra às drogas já tem legitimado o encarceramento de cerca de 500 moradores em situação de rua na região de Pinheiros em São Paulo e 600 no centro do Rio de Janeiro, só para citar dois exemplos. Sem somar a essa conta as diversas outras cidades onde a problemática também se instala, já contamos mais de 1.000 pessoas presas pelo fato de serem pobres e sob a chancela e legitimação de um processo de proibição seletiva às drogas.

O recorte de classe dado na proibição parece ser claro; basta enxergarmos quem está sendo preso e visualizar um cenário claro de qual é o setor social que está sendo encarcerado em cifras de grande magnitude enquanto o uso de drogas continua sendo prática comum e sem repressão entre as elites de nossa sociedade.

Em meio a este processo é importante destacar o fenômeno de higienização urbana que os grandes centros, em especial as cidades-sede da Copa e Olimpíadas, vêm recebendo e irão receber para os mega-eventos. Além da política proibicionista, a necessidade de “limpar” as cidades de sua população pobre também tem legitimado o retorno de uma política manicomial preocupante: a internação compulsória.

O Rio de Janeiro tem sido pioneiro nesta política de criar estruturas que tem representado a volta da lógica manicomial e um grande retrocesso para a reforma psiquiátrica brasileira conquistada pelos movimentos sociais no campo da saúde, que há anos rompeu com a prática de encarcerar pessoas com problemas psicológicos e consolidou práticas mais humanas em um campo de saúde mental.

Autorizados a apreender e “tratar”

Em síntese, as comunidades terapêuticas e outras organizações não governamentais são organismos de administração privada ligados a grupos religiosos que recebem verbas do Estado para capturar usuários de crack em situação de rua e “tratá-los” em seus abrigos. A relação econômica entre grupos religiosos e o Estado também nos alerta para uma lógica preocupante que é a do lucro com o encarceramento de pessoas.

Um relatório recente do Conselho Federal de Psicologia também afirma que essas comunidades terapêuticas estão recolhendo crianças e jovens e dopando-as com uma mesma dosagem de medicação para todas sem avaliação médica ou qualquer outro tipo de triagem. Vale lembrar ainda que poucas vezes direitos humanos foram tão fortemente violados em fenômenos tão legitimados pela sociedade sob o discurso de que a internação compulsória é um mal necessário.

A internação compulsória não só não é necessária, como a prática manicomial é contraditória com a Política Nacional de Saúde Mental, apoiada na lei 10.216, que busca consolidar um método de atenção à saúde mental aberto e comunitário que garanta a livre circulação dos “doentes mentais” pelos serviços, pela comunidade e pela cidade.

Esse programa conta com o que é o modelo defendido pelos movimentos sociais da saúde mental com Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) ou CAPS – AD (Álcool e Drogas) para casos específicos de usuários com problemas de drogas. Para além desses projetos, as clínicas de rua e a redução de danos também são alternativas à guerra que tem se travado contra os usuários de crack e aos fenômenos das cracolândias.

A ideia dessas medidas é ressocializar usuários a partir de um processo onde o paciente esteja convencido de que precise ser tratado e com a utilização de métodos terapêuticos diversos, sempre voltados a pensar os indivíduos como resultado de anos de desassistência e segregação  por parte do estado e não com a leitura simplista de que apenas a opção pelo uso de drogas é a raiz de todo problema e que podemos resolve-lo apenas obrigando o usuário à abstinência. A violenta política manicomial deve ser respondida com a alternativa da música, da arte e dos direitos humanos.

O “combate” enquanto lógica de guerra
Apesar das experiências de repressão aos usuários de drogas serem falidas e os movimentos sociais apresentarem política de atenção a essas problemáticas pelo viés da saúde, da recuperação dos usuários e respeitando os direitos humanos, a Secretaria Nacional Anti-Drogas parece mesmo estar convencida de que a solução não é acolher e tratar usuários, mas investir em mais repressão e violência junto ao seu tratamento inadequado.

A materialização do que se argumenta é o fato de estar chegando pelo programa do Governo Federal “Crack é possível vencer!” mais de 250 armas taser (pistola de choque que pode chegar a 5 mil volts e que recentemente a polícia utilizou para matar um jovem na Austrália), 750 sprays de pimenta, bases de monitoramento e câmeras de vigilância para combater os usuários de crack no Rio de Janeiro. A política de drogas de nosso país, hoje, dá ordem clara de que a solução para a problemática do tráfico e das cracolândias é mais guerra.

Em meio a todo esse preocupante cenário que está apontado como política federal para o Brasil nos próximos anos, vale lembrar ainda que Felipe Calderón, quando resolveu assumir a postura de guerra ostensiva às drogas como resposta à dinâmica dos narcóticos em seu país, colheu uma das estatísticas mais assombrosas de que se tem notícia em nossa história mundial recente: desde 2006 o México já conta com mais de 50.000 mortos e, hoje, das 10 cidades mais violentas no mundo 5 são mexicanas.

Em São Paulo, a intensificação da repressão policial pela política de repressão seletiva às drogas foi tamanha que a cidade já chega à marca de mais de uma centena de homicídios só no ano de 2012, a pobreza largamente assassinada tem respondido com novos homicídios e ataques a policiais fazendo com que o ciclo vicioso de violência tenha saído do controle do Estado enquanto as mortes não param. Mesmo assim, a guerra proibicionista continua e é reafirmada por autoridades das mais diversas a todo momento.

Posto esses elementos, fica claro compreendermos como a proibição seletiva e a lógica manicomial são políticas que tem se intensificado fortemente em nosso país por meio da política de drogas. A proibição é uma política de Estado que vem legitimando a criminalização da pobreza e a internação compulsória vem limpando a cidade dos pobres que insistem em continuar ocupando os centros urbanos.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 418, 19 de julho de 2014.

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Brasil, ame-o ou deixe-o!

Copa de 2014 no Brasil. A seleção brasileira entra em campo para a semifinal contra a Alemanha. A torcida, empolgada, lota o Mineirão e imagina o adversário apenas como mero contratempo antes da final, partida em que pretende vencer sua maior rival, a Argentina. Começa o jogo, o Brasil vai ao ataque e tenta abafar o selecionado alemão, mas sofre um gol aos 10 minutos. Aos 22, Klose faz o segundo e torna-se o maior goleador da história das copas, superando Ronaldo. Logo após a saída da bola, a Alemanha faz o terceiro e a transmissão mostra uma torcedora incrédula cuja expressão resume a pergunta de todos os brasileiros: O que está acontecendo? Após o quarto e o quinto gols, que ocorrem ainda antes dos 30 minutos, as imagens de brasileiros em prantos deixam claro que a festa virou desastre. A semifinal da copa 2014 transformara-se em uma pelada do tipo vira em 5 e termina em 10 (gols). A Alemanha só não chegou aos dez gols porque diminuiu o ritmo e passou jogar como quem fazia um treino de luxo para a final. Mesmo com a nova cadência, o placar final exibiu um expressivo 7 a 1, a maior goleada já sofrida por qualquer seleção em uma semifinal. A pior derrota da seleção canarinho em copas do mundo é, na visão dos torcedores brasileiros, um pesadelo denominado como vexame, vergonha, humilhação. Queríamos expurgar o fantasma da copa de 1950, mas apenas conseguimos acrescentar o espectro de 2014. O mineiratzen superara com folgas o maracanazo!

Houve um apagão! – disse o técnico. Mas a constatação é de que ruíra emocional e taticamente o selecionado comandado por Felipão. Tecnicamente havia bons jogadores, mas sem a organização necessária, a obra desfez-se antes de concluída. Do mesmo modo, embora as belezas naturais do país e o acolhimento inerente dos brasileiros tenham agradado aos visitantes, lamentavelmente é preciso dizer que o legado da copa, assim como a seleção, desmorona ao menor confronto. Contra os desmandos e gastos excessivos da copa, enquanto direitos sociais como educação, saúde e segurança sobrevivem com parcos recursos, muitos se levantaram antes e durante a copa (e continuarão a lutar depois). Esses expuseram e expõem os problemas à crítica porque amam o Brasil e querem-no um país melhor, assim como querem uma seleção jogando bonito e sagrando-se hexacampeã.

Há, entretanto, uma parcela dos brasileiros, em geral aqueles ligados mais umbilicalmente ao atual governo federal e partidos aliados, que estão, a exemplo do que fizeram os governos autoritários durante a ditadura, afirmando aos críticos: Brasil, ame-o ou deixe-o! E hasteiam esse brado contra qualquer um que tenha criticado algum elemento da copa, sejam os gastos e superfaturamentos com as arenas; as obras de mobilidades retiradas dos projetos iniciais; as remoções que deixaram tantos sem teto, as mortes de operários durante a construção dos estádios; os viadutos que, antes mesmo de ficarem prontos, caíram matando aqueles a quem deveriam servir; ou ao desempenho de uma seleção brasileira que conseguiu sofrer a mais vexatória derrota de todos os tempos em uma copa que jogávamos em casa. Complementam, assim, os massacres impetrados pelo braço do Estado contra todos os que tentaram mostrar que, além da copa, o Brasil deveria atuar mais seriamente e com maiores investimentos em educação, saúde, segurança…

Detratam os críticos afirmando que esses suspenderam as manifestações para torcer pelo Brasil e ficaram esperando apenas a seleção perder para voltar às críticas com mais força. Cumpre lembrar que as manifestações continuaram ocorrendo, embora em menor volume durante a copa e que estas foram reprimidas com mais vigor do que nunca porque a copa não podia ser maculada. Além disso, os manifestantes são brasileiros e têm todo o direito de torcer por sua seleção, se assim o desejarem. Brasileiros, não lesas-pátrias como querem alguns, que têm o direito de lutar por um Brasil melhor!

Mas alguém entendeu errado o grito das massas! Reivindicávamos elevar educação, saúde, segurança e condição de vida ao nível do nosso futebol, mas fizeram o contrário e rebaixaram a qualidade do nosso futebol ao nível dos nossos direitos sociais. O desempenho de nossa seleção na semifinal contra a Alemanha equivaleu ao confronto dos resultados internacionais em leitura, matemática e ciências. Enquanto eles estão sempre entre os 15 primeiros e jogaram como uma seleção, nós que ficamos constantemente abaixo da 50ª posição jogamos como um time de várzea. Mas para ser realista, com tal desempenho, se houvesse uma copa da educação, nós brasileiros sequer passaríamos das eliminatórias.

Assim, se o resultado das semifinais na copa 2014 deixa alguém indignado, essa indignação deve se voltar não apenas ao futebol, mas às condições de todo o povo brasileiro. Somos 200 milhões, se fizermos todos nossa parte e jogarmos juntos por educação, saúde, segurança e outros direitos sociais, podemos nos tornar uma potência não apenas no futebol. Então… às ruas! Às ruas lutar pelo país que queremos, eis a principal ação que devemos executar.

Por fim, a frase de Alexandre Pessoa sobre a tragédia da semifinal: “Não se festeja sobre escombros! Seremos vencedores, sim, quando tivermos saúde, educação, moradia, direitos! Essa tarefa é da classe trabalhadora!” E que fique bem claro, os que reclamam e criticam têm todo o direito, como brasileiros apaixonados pelo seu país, de aqui permanecer enquanto continuam a criticar sejam os problemas relacionados à organização da copa, seja o mineiratzen da semifinal. Amamos! Criticamos porque amamos!

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 417, 12 de julho de 2014.

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Copa do mundo, xingamentos e intolerância

Abertura da segunda copa do mundo no Brasil, o país do futebol. A figura que representa o poder executivo da nação encontra-se encolhida no fundo da tribuna de honra ao lado da companhia do presidente da FIFA. Esquiva-se de fazer o discurso de abertura do evento que é substituído pela liberação de duas pombas simbolizando a paz. A esquiva, entretanto, foi insuficiente para evitar o que já se sabia que ocorreria, confronto com uma parcela da população que ocupava a arena São Paulo, embora o estádio pertença ao Corinthians e seja vulgarmente denominado Itaquerão. O rechaço à presidente ocorreu na forma de vaias e, em alguns momentos, xingamentos.

Há explicações diversas sobre quem vaiou e xingou a presidente, a chefe de Estado da nação brasileira. Alguns afirmam ser o povo insatisfeito com os desmandos do executivo federal que arrecada muito em impostos e devolve pouco na forma de serviços. Outros, ecoando os brados oriundos do próprio governo e do PT, dizem que era a elite burguesa de São Paulo atrelada ao PSDB que controla o governo do estado e faz oposição ferrenha às ações do executivo federal, a quem denominam Petralhas, na tentativa de aumentar as chances de seu candidato nas eleições de outubro próximo. Entre essas possibilidades polarizadas, há os que supõem ser autora das ofensas a classe média composta de empreendedores que enlouquecem na tentativa de construir uma condição econômica que lhes assegure os privilégios ora negados, enquanto veem o governo afagar outros grupos. Seja a parcela da população que está na miséria, com auxílios como o bolsa família, ou os grandes detentores do capital como banqueiros, investidores e megaempresários, que recebem na forma de benesses, uma parte considerável de todo o esforço fiscal feito pela população.

A origem dos palavrões dentro do estádio parece uma incógnita, pois a resposta tende ora para um lado ora para outro segundo quem faz a análise. Muitos criticam como intolerantes os que estavam na Arena São Paulo por terem criado dissabores e sido ofensivos com a presidente. Ofensas e uso de palavras de baixo calão devem ser sempre evitados, mas algumas vezes acontecem. Embora pareça contraditório com a frase anterior, é necessário dizer que ainda bem que pelo menos esses puderam gritar, pois a repressão encontrada pelos manifestantes na frente da sede dos metroviários foi digna da ditadura.

Ainda no processo de organização da manifestação, na frente do sindicato dos metroviários, a polícia militar iniciou o cerco do quarteirão e o comando da PM informou que o acesso dos sindicalistas à Radial Leste, avenida que dá acesso ao Itaquerão, estava vetado e que qualquer tentativa de acesso resultaria em confronto e prisão. Ainda durante essa conversa, a polícia começou a reduzir o espaço dos manifestantes e a soltar bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e as conhecidas balas de borracha. Os sindicalistas, para evitar o confronto, foram para dentro da sede dos metroviários e a polícia, após cercar a instituição, lançou, sob ameaça de invasão do sindicato, a imposição de que a manifestação fosse encerrada, embora nada houvesse ocorrido. Como o processo ainda estava na fase da organização, a única razão evidente para a ação policial que afronta o estado democrático de direito é a de impedir que houvesse manifestação contra os gastos da copa, e não contra a copa como insistem alguns.

O grito no estádio do Corinthians contra a presidente, embora desrespeitoso, foi o que pôde ecoar em época de Copa do Mundo. E ecoou porque era impossível massacrar as pessoas que estavam na arena São Paulo, em frente à imprensa de todo mundo, da mesma forma que o foram os trabalhadores organizados em sindicatos que estavam na sede dos metroviários querendo gritar suas insatisfações e desejos. Quando observamos a partir de um foco mais macro, fica claro que o grito está ecoando das elites, mas também de outros grupos sociais, inclusive de grande parte destes milhões que, alegam alguns, saíram da pobreza. Os gritos e as razões de cada grupo são diferentes, mas mostra que há insatisfações de pessoas com visões e posicionamentos políticos distintos.

Por fim, alguns alegam que as ofensas à presidente eram machistas. Acontece que o grito não foi direcionado à Dilma por ela ser mulher, mas por ela ser uma figura política. Fosse Lula, FHC, Collor ou qualquer outro, o grito seria o mesmo, apenas o nome do político seria modificado. Portanto, colocar o fato como uma questão de gênero é apenas outro discurso ideológico para mascarar o óbvio, qual seja, calar o grito de manifestantes pacíficos com policiamento exacerbado e ameaças de prisão dentro da sede de um sindicato à revelia da estrutura do estado democrático de direito é uma intolerância muito, mas muito maior, que os xingamentos reverberados.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 414, 21 de junho de 2014.

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