Conhecendo os insetos na escola*

“O entendimento de um inseto é, em um certo sentido, um pré-requisito para um entendimento mais amplo da vida”.

(Matthews et al., 1997)

Desde as duas últimas décadas, é notável o aumento das discussões presentes na literatura em educação científica nas quais os educadores ressaltam a necessidade da transformação do saber científico em objetos de ensino, isto é, em conteúdos  curriculares que possam ser aprendidos pelos alunos.

Tal necessidade decorre da insatisfação com um modelo idealizado de ensino, que perdurou por muito tempo na história da educação, centrado num processo passivo de transmissão e recepção do conhecimento científico, onde a memorização e a repetição dos conteúdos tornaram-se sinônimos de aprendizagem.

Todavia, para que os conhecimentos científicos possam ser transformados em objetos de ensino é preciso levar em conta o universo sócio-cultural dos alunos e da própria escola.

Isto porque não há como negar que os aprendizes já trazem para o ambiente escolar, para os momentos que envolvem a aprendizagem, um conjunto de informações fortemente influenciadas pela sociedade e cultura na qual se encontram inseridos.

Neste contexto, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira (Lei No 9.394/96) aponta para a importância de uma educação básica mais humanizada que considere a escola como um espaço multicultural quando diz em seu Artigo 1º: ‘A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade e nas manifestações culturais’.

À transformação do saber científico em objetos de ensino damos o nome de Transposição Didática. Para fazer uma transposição didática é necessário que o professor tenha domínio sólido sobre os conceitos-chave de sua área de ensino para, então, selecionar e organizar os conteúdos de acordo com as realidades presentes em salas de aula.

De posse disso, deve aplicar técnicas de ensino que estejam adequadas à abordagem desses conteúdos, levando em conta os seguintes fatores: universo afetivo e cognitivo dos alunos; expectativas da comunidade; tempo letivo disponível em sua escola;  recursos disponíveis para ensinar; entre outros.

No que diz respeito à seleção de conteúdo, no ensino de Ciências e Biologia, os insetos talvez sejam o grupo animal que melhor permita ao professor oferecer aos alunos oportunidades para a construção de conceitos concretos.

E isto porque esses animais são extremamente abundantes e diversificados, podendo ser encontrados nas mais variadas regiões do planeta (são conhecidas um milhão de  espécies de um total de 2,5 milhões que provavelmente possam existir).

Tal fato é um forte indicativo de que as relações que a espécie humana estabelece com os insetos são múltiplas e, ao mesmo tempo, ambíguas.

A influência cultural dos insetos pode ser sentida em diversas áreas da vida humana, como literatura (oral e escrita), língua, música, artes plásticas e gráficas, culinária, medicina, história representativa, religião e recreação.

Com base nessa perspectiva, acredita-se que os alunos, ao entrarem na escola, já possuem conhecimentos e experiências sobre aspectos da biologia desses organismos. Matthews et al. (1997) questionam porquê os insetos não estão mais ativamente presentes nas salas de aulas, uma vez que muitos conceitos básicos podem ser ensinados através da observação de insetos.

Algumas espécies possuem ciclos de vida relativamente curtos e apresentam mudanças físicas tremendas durante o desenvolvimento (lagartas, borboletas e mariposas).

Muitas vezes, porém, o ensino sobre insetos em Ciências e Biologia não é conduzido de forma apropriada devido às atitudes, instruções e experiências tanto dos professores quanto dos alunos. No mundo natural, os insetos (e demais artrópodes e alguns invertebrados) que mais notamos são aqueles associados com desconforto e perigo.

Tal atitude é freqüentemente transmitida pela mídia, que nos ensina que esses organismos são perigosos, nojentos, causadores de doenças e daninhos às plantações.

Os professores que assim desejarem utilizar os insetos como ferramentas de ensino devem refletir os seguintes pontos: Por que devemos usar insetos na sala de aula? O que se pode ensinar e aprender a partir deles? Quais insetos devem ser usados e de que forma? Onde devem ser procurados? Como começar o processo?

Sendo assim, é importante selecionar obras da literatura que contemplem os insetos, pontuando nestas as relações existentes entre as linguagens científica e literária que, por sua vez, podem relacionar-se aos contextos sócio-culturais dos nossos alunos.

As características básicas dos insetos, sua classificação e interações ecológicas serão discutidas durante o curso. Partindo das nossas experiências enquanto docentes, selecionaremos quais itens poderiam ser trabalhados em sala de aula.

Serão observadas algumas estratégias de ensino que utilizem os textos literários selecionados como co-auxiliares no processo de transformação do saber científico em objetos de ensino.


* Baptista, G.C.S. & Costa Neto, E.M. Reunião de Feira de Santana:Conhecendo os insetos na escola. JC e-mail, 2660, 03 dez. 2004.


Geilsa Costa Santos Baptista é pesquisadora do Grupo de Pesquisa em História, Filosofia e Ensino de Ciências Biológicas, Instituto de Biologia-UFBA e do Núcleo de Estudos e Pesquisas Sobre Formação de Professores – Depto. de Educação – UEFS (geilsa@uefs.br).


Eraldo Medeiros Costa Neto é pesquisador do Laboratório de Etnobiologia – Depto. de Ciências Biológicas – UEFS (eraldont@uefs.br).

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