Entrelinhas, ideologia, manifestações, mídia, movimentos sociais, política

Mídia partidária

Os canais de comunicação da mídia convencional, atrelados aos interesses do capital, distorcem e criminalizam os atos reivindicatórios que ocupam as ruas e, quando não conseguem fazê-lo, organizam a informação segundo seus interesses. Assim tem sido historicamente e não foi diferente com o #VemPraRua, movimento que agregou as massas como há tempos não se via no Brasil. Sob o slogan da imparcialidade, ocultam os vieses que norteiam seus posicionamentos e oprimem a sociedade com a ideologia dos dominantes. Ao agir desta forma, os meios de comunicação de massa defendem seus interesses e difundem uma forma de pensar que resulta em benefício próprio. A força desse processo ideológico é tão intensa que muitos consideramos as informações apresentadas nos telejornais como verdades absolutas. Não poderíamos estar mais enganados!

As principais bandeiras erguidas pelo #VemPraRua resultam das lutas empreendidas há anos por movimentos sociais, sindicatos e partidos de esquerda. Entretanto, ao veicular o movimento, a mídia convencional tem enfatizado a ideia de que o movimento surgiu a partir de interações causais nas redes sociais e que é apartidário e independente de sindicatos e movimentos sociais. Ao assumir esta postura, a mídia convencional isola os lutadores envolvidos com o tema e não permite que se tornem referência para o movimento. Ou seja, impede que aqueles que historicamente se posicionam contrário às posturas ideológicas dos dominadores e, consequentemente, da mídia tradicional tenham suas ideias veiculadas. Como há uma disputa por corações e mentes e a mídia assume partido, é normal que assim seja!
Anormal, dentro desta lógica, é encontrar material publicado pela mídia alternativa, como a dos jornais sindicais de postura crítica, reproduzir em suas reportagens sobre o #VemPraRua os princípios ideológicos defendidos pela mídia convencional. Quando isto ocorre temos motivos para ficar preocupados, pois aqueles que se propõem a fazer uma análise contra-hegemônica das informações estão a reproduzir os interesses dos detentores do capital. A mídia alternativa precisa estar atenta para as consequências que podem advir de não manter seu papel de desvelar as ideologias envolvidas.
Óbvio que há um claro rechaço aos políticos e às instituições partidárias, pois existe um acentuado descrédito na classe política. Este posicionamento se traduz dentro do movimento que, acentuado pela informação midiática, alega que os partidos não podem se expressar no #VemPraRua. Mas os partidos, apesar da crença comum, não são todos iguais. Defendem ideias e posturas distintas e, pelo menos alguns deles, se comportam de forma muito diferente. Enquanto alguns partidos políticos estão engajados em beneficiar os detentores do grande capital, há aqueles que cotidianamente estão nas ruas, junto com sindicatos e movimentos sociais lutando contra a corrupção, por melhores condições em educação, saúde, segurança e transportes. Lutas não apenas no sentido abrangente, mas se colocando contrários às propostas governamentais subservientes aos interesses do grande capital que se apresentam como Medidas Provisórias, Projetos de Lei e Propostas de Emenda à Constituição, entre outras formas.
Desconsiderar a luta cotidiana destes partidos de esquerda e apresentar o movimento como emergindo das redes sociais é apagar todo o processo histórico que fomentou a ocorrência deste fervilhar de atos nas ruas. É verdade que as redes potencializaram, e muito, as ações dos militantes de esquerda, mas foram estas e não aquelas a origem do movimento. Assim, fomentar a ideia da irrupção casuística do #VemPraRua e desvalorizar pessoas, movimentos sociais, sindicatos e partidos que estão na luta, fortalece a concepção de que nenhum partido ou político presta e que qualquer organização de pessoas seja em partidos, movimentos ou sindicatos é obrigatoriamente ruim. Isto significa dizer que estamos aceitando a ideia de que não podemos nos organizar, que não podemos tomar partido e que devemos ficar à mercê da irrupção de movimentos não coordenados como tentativa de conseguir qualquer mecanismo de combate aos problemas que vivenciamos. Isto significa estagnar qualquer possibilidade de mudança e transformação social.
A quem interessa que assumamos esta posição? Aos que pretendem manter tudo como está! Àqueles que se organizam em partidos à serviço do capital e que não estão na luta por trabalhadores e estudantes! Fiquemos atentos, combatamos nossa própria postura de simplificar as coisas, não aceitemos os processos midiáticos hegemônicos, distingamos os partidos, reconheçamos e valorizemos aqueles que estão na luta! Desta forma nossas insatisfações hão de encontrar estruturas organizadas que potencializem nossas reivindicações e com as quais poderemos transformar nosso mundo para melhor!

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 356, 13 de julho de 2013.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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