democracia, ideologia, política

Quantas mortes cabem a Bolsonaro?*

Bolsonaro cumprimenta apoiadores em ato no Palácio do Planalto
Caronte, de Gustave Doré

Morto! Não pertencia mais àquele lugar. Era preciso atravessar Aqueronte, o rio da dor, e singrar do mundo dos vivos para o dos mortos. Apenas Caronte, barqueiro dos mortos, fazia a viagem entre as margens, atravessando as almas. Pôs-se a caminho. Chegou ao rio da dor, vislumbrou imensidão de almas em sofrimento. Gemiam e se contorciam, enquanto fitavam com olhos taciturnos a outra margem, o mundo dos mortos. Sofriam, mas não atravessavam. Não atinou com a razão, sequer pensou no fato. Como ingressavam as últimas almas para mais uma travessia, acelerou o ritmo e buscou embarcar. Não conseguiu. Viu-se bloqueado, antes que seus pés tocassem o interior da embarcação. Fora impedido por Caronte que lhe cobrava o óbolo, a moeda de pagamento. Lembrou que os vivos, temendo que as almas voltassem para atormentar, colocavam moedas na boca dos mortos para o pagamento do barqueiro da morte. Explorou em vão a própria boca, não havia óbolo, apenas o vazio. Crivado de espanto, entendeu, de súbito, seu destino. Graças à mesquinhez de Caronte, eternamente preocupado com o dinheiro, seria mais uma das pobres almas que, não podendo pagar a travessia, vagaria e agonizaria por eras às margens do rio da dor.

Muitas almas sairão do mundo dos vivos durante a pandemia do Covid-19. Quantas destas mortes cabem a Bolsonaro? Seria justo colocar na conta do presidente todas as almas brasileiras que atravessarão o Aqueronte? Seria correto ignorar que diversas mortes terão relação direta com a política de morte (necropolítica) do presidente? Consideremos essas questões detalhadamente.

Todas as mortes decorrentes do Covid-19 podem ser atribuídas a Bolsonaro? Todas, não! O vírus não tem relação direta com o presidente, apareceu no mundo e segue produzindo mortes globalmente. Mas a política de enfrentamento ao vírus, que cabe ao presidente, vai resultar em mais ou menos mortes, dependendo do acerto das medidas adotadas. A OMS e todos os países ao redor do mundo têm trabalhado com o isolamento social horizontal buscando “achatar a curva” com resultados importantes na prevenção de mortes. Países que pensaram diferente, como Itália, Reino Unido e Estados Unidos, se curvaram à realidade e acabaram por adotar o isolamento social.

Bolsonaro, por sua vez, insiste em salvaguardar apenas as pessoas do grupo de risco e incentiva o contágio acelerado, sob a equivocada premissa de que isso preservará a economia. A política adotada pelo presidente provoca um pico acentuado de internações e mortes que extrapolará a capacidade de atendimento do sistema de saúde. Assim, todas as mortes que vierem a ocorrer em razão do número de pacientes exceder a capacidade do sistema caem na conta da necropolítica do governo. Sem mas, nem meio mas, as mortes decorrentes da incapacidade de atendimento, são mortes que cabem a Bolsonaro!

Ah, e o PT? Questão válida! Podemos culpar a fragilidade do sistema de saúde decorrente de governos anteriores? Sim, podemos e devemos, pois há muito o SUS agoniza com políticas de baixo investimento. Críticas merecidas foram feitas aos presidentes anteriores por investir pouco e sucatear o SUS quando governavam o país. Agora, temos outro presidente e são as políticas dele, sem desconsiderar o país que recebeu, que reduzirão ou ampliarão o número de mortes. Contudo, é necessário lembrar que a atuação do governo Bolsonaro desde que assumiu não se direcionou a resolver os problemas existentes e fortalecer o SUS, ao contrário, sempre buscou reduzir ainda mais os investimentos em saúde.

Para Bolsonaro e Guedes, se gasta demais com a máquina pública, incluída a saúde. A política neoliberal de enxugamento do Estado, reduzindo o investimento em saúde (equipamentos, insumos, pessoal…), limitando os gastos com a área social (conforme a malfadada Emenda Constitucional 95), entre outras ações, mostram que a política deste governo pegou um sistema frágil e o fragilizou ainda mais. O ministro da Saúde, Nelson Teich, alinhado com o presidente, ao falar da compra de respiradores para o período de crise, disparou: “O que você vai fazer com eles depois?” Ou seja, salvar vidas não é importante, evitar gastos com equipamentos, é. Então, sim, há culpa de governos anteriores, mas este governo, ao avançar em sua política neoliberal, destruindo o SUS e reduzindo profissionais e recursos, limita ainda mais a capacidade de atendimento da saúde. Então, as mortes que ocorrerem por exceder a capacidade de atendimento do sistema de saúde são mortes que cabem a Bolsonaro.

É preciso considerar ainda as ações de Bolsonaro que auxiliaram a dispersar o vírus, fazendo a curva acelerar e o número de casos estar acima da capacidade do sistema de saúde. O presidente atuou como dispersor do vírus através dos atos e marchas que convocou e apoiou; do incentivo permanente para que as pessoas fossem para as ruas; do espetáculo midiático quase cotidiano de não cumprir as recomendações do ministério da Saúde e da OMS; dos discursos direcionados aos autônomos e pequenos empresários de que deveriam voltar ao trabalho. Além disso, é razoável considerar a hipótese, muito provável, de que estando e se sabendo contaminado (nunca permitiu a divulgação do resultado do seu exame para a Covid-19), Bolsonaro tenha dispersado direta e intencionalmente o vírus ao contatar pessoas, incluindo apoiadores e membros do governo. Todas essas ações do presidente contribuíram para a aceleração da curva de contágio e, assim, as mortes que vierem a ocorrer porque o contágio foi acelerado, ultrapassando a capacidade de suporte, cabem a Bolsonaro!

Apenas as mortes do Covid-19 podem ser atribuídas a Bolsonaro? Não, afinal quando a capacidade de suporte do sistema tiver sido ultrapassada, qualquer pessoa em qualquer emergência (acidente de trabalho, atropelamento, fratura, avc…) não poderá ser atendida prontamente pela falta de leitos, equipamentos e profissionais. Portanto, Bolsonaro é culpado por todas as mortes, mesmo aquelas não oriundas do Covid-19, decorrentes da falta de atendimento que venha a ocorrer nos momentos em que a demanda ultrapassar a capacidade de suporte do sistema.

Além disso, é necessário recordar que, junto com Guedes, Bolsonaro é o dono do cofre da União. Cofre que eles buscam manter fechado para o povo, embora fique escancarado para o capital rentista (ao qual destinaram mais de 1 trilhão de reais logo no início da epidemia). Para a população, liberações a conta-gotas e a contragosto associadas às ameaças de que, sem o suporte da União, estados e municípios irão quebrar enquanto tentam salvar vidas. Bolsonaro ameaça deixar os gestores estaduais e municipais em condição de penúria, em vez de assumir políticas de resgate econômico para que possam funcionar em tempos de crise e salvar vidas.

O saldo desse cômputo é o número de mortes que cabe a Bolsonaro e aos bolsonaristas que apoiam a política de morte. Não importa que diga “E daí?”, “Não sou coveiro”, “Quer que faça o quê?” ou “Eu sou Messias, mas não faço milagres”, qualquer pessoa que venha a morrer porque o colapso do sistema não permitiu o atendimento adequado, morreu porque o presidente implantou uma necropolítica onde a economia e o interesse dos grandes rentistas está acima da vida humana. Tal qual Caronte em sua mesquinhez, Bolsonaro, preocupado apenas com o dinheiro, condenará muitos a sofrerem às margens do rio da morte. Então, durante a pandemia, qualquer um que venha a perder um parente ou um amigo por conta da saturação do sistema de saúde pode dizer sem medo de errar: “Essa morte cabe ao presidente Bolsonaro!”

* Publicado originalmente no portal EOL em 06/05/2020: https://esquerdaonline.com.br/2020/05/06/quantas-mortes-cabem-a-bolsonaro/

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democracia, mídia, política

O bom jornalismo não cala a boca!

Autor: Andrew Costa[*]

Hoje pela manhã, perguntado sobre os indícios de interferência na Polícia Federal para proteger seus filhos e aliados políticos de serem investigados e punidos por seus crimes, Bolsonaro perdeu a cabeça, deu chilique e gritou com jornalistas no Palácio da Alvorada repetindo por várias vezes de forma agressiva: “cala a boca”.

Para quem conhece um pouco de história, o fato lembra muito o dia em que o general Newton Cruz não só mandou calar a boca como agrediu fisicamente o jornalista Honório Dantas da Rádio Planalto durante a ditadura militar. As cenas revoltantes de violência e autoritarismo aconteceram diante de câmeras e estão hoje disponíveis na internet para quem quiser ver.

No último domingo, o jornalista Dida Sampaio e toda a equipe do seu jornal também foram covardemente agredidos por fanáticos bolsonaristas em uma manifestação inconstitucional e anti-democrática contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal apoiada pelo presidente em Brasília.

Minha solidariedade aos jornalistas agredidos física e moralmente diariamente por Bolsonaro e seus seguidores alucinados desde que esse pária assumiu o poder. A ditadura militar, que o presidente defende, torturou e assassinou muitos de nós. A memória de Vladimir Herzog está presente e não vai morrer. Não vamos tolerar o ascenso da violência contra profissionais do jornalismo novamente. 

Jornalista Vladimir Herzog.

O brilhante Millôr Fernandes dizia: “Jornalismo é oposição”. E é isso mesmo. É fiscalizar o poder, é a busca por tornar a verdade pública. Até mesmo o empresário conservador e anti-comunista William R. Hearst, alguém por quem não tenho qualquer admiração, já dizia no século passado: “Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade”.

A liberdade de expressão e a prática do jornalismo são fundamentais para qualquer sociedade democrática. Não à toa jornalistas são um dos primeiros a serem perseguidos e assassinados na implementação de ditaduras e regimes ditatoriais. Procura no Google o que o ditador da Arábia Saudita fez com o jornalista Jamal Khashoggi em sua embaixada na Turquia agora mesmo em 2018.

O jornalismo e a liberdade de expressão precisam ser defendidas e protegidas. Hoje mais do que nunca. Sem elas as democracias morrem. Não se cale enquanto jornalistas são atacados. Lembre das palavras de Brecht. Se importe! Porque amanhã pode ser você o perseguido. E pior: pode ser que não tenha mais ninguém para se importar.

#EuNãoMeCalo

[*] Andrew Costa é jornalista formado pela Universidade Federal Fluminense.

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Para quem serve o Ensino a Distância em tempos de pandemia?*

Eblin Farage**, de Niterói, RJ

EaD na USP

As razões que nos levam a apontar críticas ao ensino a distância (EaD), quando proposto em substituição ao ensino presencial, emergem das análises realizadas sobre o projeto de educação sugerido pelos organismos internacionais e executado pelos governos a serviço do capital. Como aponta o Banco Mundial (BM), esse projeto tem por objetivo a implantação de uma educação terciária aligeirada e, exatamente por isso, vem sendo debatido e criticado pelas entidades e profissionais da educação há pelo menos três décadas. Embora os contrapontos a essa proposta de ensino tenham sido já longamente debatido, neste momento em que vivemos o distanciamento social, o EaD aparece, novamente, como a alternativa capaz de proporcionar educação àqueles que se encontram impedidos de ir ao espaço formal da escola/ Universidade. Assim, neste momento, o que queremos e debater os motivos para defender a EaD em tempos de pandemia.

Para debater o EaD neste momento de pandemia, escolhi um caminho orientado por três perguntas:

  • O que este momento da pandemia gera para o(a)s professore(a)s?
  • O que este momento gera para o(a)s aluno(a)s?
  • Qual a dimensão pedagógica deste momento de pandemia?

Ao nos debruçarmos sobre a primeira questão, é necessário atentar para o fato de que vivemos um isolamento social imposto. Sim, imposto! E a dimensão da imposição gera duas grandes questões para refletirmos sobre nossa realidade cotidiana. Primeiro, a imposição não nos permitiu preparo prévio. Sendo inesperada, não abriu lacuna temporal para que realizássemos qualquer planejamento. Resulta desta imediaticidade de demanda uma segunda dimensão, que é a absorção de novas tarefas em nossos trabalhos cotidianos. Atividades não previstas, muitas vezes para as quais não possuímos formação nem estamos preparados, e as quais somos, de uma hora para outra, demandados a responder. E, em adendo, há uma leitura de que temos tempo para nos dedicar a estas atividades e às aprendizagens necessárias, pois, como estamos em casa, estamos de férias curtindo um repouso.

Não, não estamos de férias! Não planejamentos viagens e divertimentos, assim como não planejamos acumular ao trabalho doméstico, o cuidado com crianças, idosos e pessoas com deficiência. O isolamento, sem preparação prévia, nos colocou frente a limitações materiais as mais variadas e a imposições de demandas emocionais e organizacionais para as quais não estávamos preparados e, em alguns casos, não desejávamos. Assim, um conjunto de novos e velhos conflitos passa a permear nosso cotidiano e, agora, cobrados sob a alegação de que não há a desculpa de que não temos tempo para tratá-los, mesmo que saibamos que, para algumas dessas questões, não temos respostas.     

O impacto material e emocional gerado pela imposição de uma rotina não planejada e, muitas vezes sem as condições materiais necessárias para enfrentá-la, pode gerar boas surpresas e novas experiências, mas também frustrações, sobrecarga e desgaste emocional e físico. Por isso o período de isolamento social não pode ser considerado: a) férias; b) cotidiano de normalidade e rotina e c) tempo de trabalho regular. 

Sim, é preciso afirmar, não estamos em nosso trabalho regular. O trabalho remoto não substitui plenamente o trabalho presencial, não temos condições de responder às mesmas demandas e assegurar o mesmo desempenho. Quando preparamos aulas na “normalidade” da vida cotidiana, o fazemos sem criança para olhar, sem casa para arrumar, sem comida para fazer, sem idoso para cuidar ou pelo menos com esses elementos já plenamente inseridos em nossa organização cotidiana. Por isso, não acredito que o isolamento social imposto de maneira imediata possa ser comparado com o trabalho regular sem isolamento, daí não ser possível exigir o mesmo “desempenho”. 

Mas por que falar em desempenho? Porque somos cobrados através da lente da eficácia das ações. Assim, acima de tudo, o volume de atividades que nos acomete durante o isolamento faz com que a impossibilidade de estudar, preparar aulas, escrever artigos, ler livros ou mesmo ver filmes ou séries gere frustração. Por isso vemos muitas pessoas, pelas redes sociais, perguntando como outras arrumam tempo para fazer tantas coisas? Como brincam tanto com os filhos, escrevem tantos textos, acessam tanto as redes sociais, assistem a tantos filmes, cozinham tantas coisas, dão conta de tantas atribuições domésticas? Confinadas em suas casas, as pessoas parecem se envolver em um turbilhão de atividades. A sensação é a de que lá na frente estarão esgotadas, estafadas. É tanta demanda que, como dizem alguns, após a pandemia será necessário férias!

Agregado às novas atribuições e às frustrações que a situação provoca, temos o sofrimento dos diferentes distanciamentos que a pandemia nos impõe. Distância de amigos, familiares, amores, atividades físicas, passeios, festas, bares, religião (em especial as que não são neopentecostais e estão seguindo o isolamento social), e até (por curioso que seja) tratamentos de saúde. 

Neste contexto, como conseguir focar no que se é demandado a fazer? Como manter ou quiçá elevar (sério que esperam isso?) o conclamado “desempenho”? Como estar com a cabeça boa para trabalhar?

Mas se nós professore(a)s estamos assim, olhemos para a segunda questão que norteia nosso caminho e questionemos, como estão nosso(a)s aluno(a)s? Estão muito próximos da nossa situação material e emocional no que tange as condições para o processo de ensino-aprendizagem. Alienados, em muitos casos, das condições objetivas materiais por estarem e/ou terem seus parentes desempregados e sem qualquer fonte de renda. 

Nesse sentido, nosso(a)s aluno(a)s, assim como nós, estão agregando trabalho e tendo que se envolver em rotinas de cuidados que antes não eram sua responsabilidade. Para muitos de nosso(a)s aluno(a)s a situação é muito pior que a do(a)s professore(a)s, pois em muitos casos não dispõem de internet e, muitas vezes, nem de computador. Indo além, muitos não têm sequer uma casa ou um cômodo confortável, com espaço silencioso para estudar, até porque, nas favelas as incursões policiais e as guerras entre facções rivais, apesar de terem diminuído, continuam. E nosso(a)s aluno(a)s com deficiência que, em muitos casos, precisam de mediadores e material adaptado, serão atendidos em suas necessidades? 

Há muitas especificidades, há muitas desigualdades, e não se pode nem deve pensar a educação só para alguns, ou em privilégio de alguns. O EaD, nesse contexto, como substituição ao ensino presencial, é uma forma de elitizar a educação e aprofundar a desigualdade, o fosso entre ricos e pobres. Em um país tão desigual, direitos se tornam privilégios. A educação presencial, nas instituições públicas de ensino, garante a possibilidade de amenizar essa desigualdade. Assim, as condições desiguais entre nosso(a)s aluno(a)s, por si só, justificam a impossibilidade do EaD ser assumido como substituto ao presencial. Durante a pandemia, o ensino a distância aprofunda a desigualdade e inviabiliza qualquer possibilidade de isonomia no processo de ensino-aprendizagem. 

Mas há mais elementos. Muito(a)s do(a)s nosso(a)s aluno(a)s estão buscando formas de cadastrar suas famílias para a renda emergencial do governo, pois com a pandemia, uma grande parcela de subempregados/as foi descartada. Nosso(a)s aluno(a)s, filho(a)s de empregadas domésticas, motoristas de Uber, pedreiros, faxineiras, diaristas, cozinheiras, vendedores de hambúrgueres e cachorro-quente, salgadeiras, manicures e de toda a sorte de subempregos que a reforma trabalhista e o capitalismo chamam de empreendedorismo, precisam sobreviver. E a luta não é só contra a Covid-19, mas é também contra a fome e o despejo por não conseguir pagar o aluguel. Parte de nosso(a)s aluno(a)s, em especial aquele(a)s que ingressaram no ensino superior pelas cotas sociais e raciais, hoje estão apreensivo(a)s pela aprovação de medidas que inviabilizem os despejos e o corte de energia, água, luz e gás. Estão atentos às ações do presidente e prontos para criticá-lo, não porque nós, professore(a)s “comunistas e doutrinadore(a)s” ensinamos, como afirma o desgoverno. Assim estão porque essas medidas são condição para sua existência, hoje. Então, poderíamos repetir aqui quase as mesmas perguntas, saídas agora das bocas dos estudantes: Como focar no que se é demandado a fazer? Como manter o “desempenho”? Como estar com a cabeça boa para estudar?

Diante desses elementos que vislumbra as condições em que se encontram professore(a)s e aluno(a)s, temos que ir a nossa terceira questão e nos perguntarmos, qual a dimensão pedagógica neste momento de pandemia? Será necessário o EaD?

Considerando todos os argumentos políticos consistentes que acumulamos nos últimos trinta anos sobre o ensino a distância. Considerando todos os estudos que mostram que vivemos no século XXI uma das principais fases da mercantilização da educação. Considerando a compreensão de educação que permeia uma prática emancipadora. Considerando os elementos que já apontamos, a conclusão que se apresenta nos diz que, por agora, em tempo de isolamento social, a imposição do EaD é a banalização de um instrumento pedagógico, que em certas situações e em determinadas realidades, pode vir a ser um recurso tecnológico importante.  

A banalização do EaD, neste momento, é uma estratégia alinhada à ação voluntarista de administrações que a todo custo querem justificar recursos e garantir o calendário escolar. Nem sabem quanto(a)s estudantes terão após a pandemia, mas querem garantir o fechamento do ciclo escolar de 2020, mesmo que seja sem aluno(a)s e professore(a)s.

Essa tentativa desesperada de buscar manter certa normalidade, em meio a evidente situação de anormalidade; ao ineditismo de uma situação sem precedente para boa parte da humanidade; ao desespero de contar dias e horas aulas para evitar uma possível, quem sabe, reposição; explicita a desvalorização mais profunda do ensino presencial, do processo de ensino-aprendizagem e da condição humana do(a)s professore(a)s e aluno(a)s. As métricas, as aparências e as regularidades são colocadas como referências. Pouco importam, nessa lógica, professore(a)s, aluno(a)s, familiares e demais envolvidos com o processo. Implantar o EaD e, nesse processo, esquecer o elemento humano em prol da tecnicalidade sendo uma inversão que destrói a essência do que é a educação.

Podemos e devemos manter contato com nosso(a)s aluno(a)s nesse momento. Mas não para “passar” conteúdos que depois vão valer como atividade regular. Podemos e devemos ser solidários, sugerir leituras de cultura geral, lives que contribuam para a formação humana, trocar percepções sobre a conjuntura e a pandemia. Mas sem imposição de conteúdos, notas, carga horária. Curiosamente, a pandemia nos oferece a oportunidade de escaparmos do regramento dos calendários letivos e educar no sentido mais amplo do termo. 

E, neste momento de pandemia, o que de mais importante temos a ensinar? Certamente não são os conteúdos de nossos programas de graduação e pós-graduação, por mais maravilhosos, inovadores e geniais que sejam. Educar, então, tem que estar centrado na preocupação com o outro, no respeito à vida, na percepção de que é possível construir um mundo de maior igualdade, de que nossos esforços contam, de que a luta coletiva constrói. Nosso maior ensinamento deve ser o da SOLIDARIEDADE de classe. Nosso esforço deve ser o de dizer que a vida deve estar acima dos lucros e, por isso, nossa solidariedade é de classe. Os empresários e banqueiros, os ricos de forma geral, já contam com a “solidariedade” ativa do Estado, com o dinheiro público arrecadado do(a)s trabalhadore(a)s pronto para lhes “salvar”. Afinal, aquele que se acha o chefe da nação, que nesta crise já liberou mais de um trilhão de reais para o capital rentista, diz e repete que a economia não pode parar. Mas as vidas do(a)s trabalhadore(a)s, podem parar? Quem vai salvar as vidas dos/as moradore(a)s das periferia, do(a)s ribeirinho(a)s, dos povos indígenas? 

Agora é hora, mais uma vez, de demonstrar que a classe trabalhadora pode e deve ser solidária e só com ela pode contar. É hora de arrumar armários e fazer doações, de colaborar nas diversas campanhas de solidariedade com as periferias, de exigir equipamentos para os profissionais da saúde, de bater panelas nas nossas janelas, de exigir um programa emergencial. Isso tudo podemos ensinar para nossos filhos e filhas, em casa, sem que eles ao menos saibam escrever. Afinal, ler e escrever letras e palavras, a escola ensina e terá todo o tempo, após a pandemia, para fazê-lo. Mas nesse momento, estamos tendo uma grande oportunidade de ensinar nosso(a)s filho(a)s a lerem o mundo, como dizia Paulo Freire. Ensinar a ler o mundo é nossa principal tarefa como educadore(a)s, e isso, só podemos fazer presencialmente!

*Publicado originalmente no EOL em 15/04/2020: https://esquerdaonline.com.br/2020/04/15/para-quem-serve-o-ensino-a-distancia-em-tempos-de-pandemia/

**Eblin Farage é assistente Social, professora da Escola de Serviço Social da UFF, mestre e doutora em Serviço Social e militante do movimento sindical docente.

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De quem é a ciência?

Autor: Phillipe Linhares[i]

Quero comentar uma frase aparentemente despretensiosa que vi no meu Facebook outro dia (original na imagem abaixo). Confesso que a atual conjuntura e meu cansaço não me permitiram naquele momento fazer mais do que entender aquela frase como um meme, soltar muitas risadas no mural da pessoa que a tinha escrito e fazê-la uma piada com alguns amigos, no entanto…

No entanto quero poder dar uma nova oportunidade pra mim mesmo e tentar rever aquela frase com o máximo de seriedade com que posso refletir e tentar avaliar o que pode ser retirado dessa mensagem, ainda que talvez seja mais referente a conteúdos de fora do que necessariamente algum conhecimento da própria mensagem.

Eu não vou me furtar a comentar a polarização política exprimida nesse comentário que diz mais sobre pra qual time alguém torce do que quanto e como esta pessoa se preocupa com alguns problemas que nem sempre vão ter resolução aparente. Essa questão acima aparece na segunda sentença e sozinha já poderia ilustrar o governo atual, mas não vou retirá-la do contexto (apesar de ser perfeita e gramaticalmente possível que isso seja feito) e ela não é o foco desse texto.

O foco desse texto é sobre a frase – e a ideia que a fundamenta – que o governo de uma ou outra pessoa faria uma descoberta científica. Pra começar é importante comentar que o governo investiu menos de 1,3% do PIB em desenvolvimento da ciência através de pesquisas em 2017 (segundo o relatório mais recente disponível [ii]). Isso faz com que não seja Bolsonaro o vilão da história (ao menos nesse caso ele  só acompanhou – e deu uma mãozinha – ao corte à ciência). 

Não vou analisar o porquê e os contextos para o início do corte, mas o fato que temos é que agora estamos colhendo o plantio dessa colheita maldita (com o perdão do trocadilho com o filme de terror, que a bem da verdade dá menos medo que a nossa vida real) e já com esse atual cenário digno de Stephen King não adianta mais incitar a população contra qualquer “demônio” que nossa história possa nos mostrar. O factual é que devemos tomar alguma atitude em relação a isso. Mas o que fazer?

A pandemia dá uma característica singular – a cereja do bolo, como se diz no popular – e ela traz à tona o que de pior poderia se ver com relação aos cortes. As desigualdades que estruturam nossas relações sociais estão completamente nuas e somos forçados a relembrar desde a promulgação da lei 8080/1990 (lei que consolida o SUS mas que também deixa clara a posição que nossos pais, avós ou alguns de vocês tinham sobre o fenômeno) que um vírus pode não fazer mais distinções do que genes, células e moléculas, mas que a doença, essa sim, é um fenômeno social assim como a saúde. 

Estão mais expostas as trabalhadoras que tem que sustentar o lar sozinhas na ocupação da sobrevivência. As pessoas, em sua “esmagada” maioria negras que vivem em condições precárias de oferta de assistência a saúde, condições básicas de higiene e garantia de acesso a serviços básicos[iii] (importante usar esmagada e não esmagadora já que é constituinte desse cenário a frase de que “as ‘minorias’ têm que se curvar à maioria”[iv] – atente aqui pro uso da palavra curvar). Tudo isso explicita que gênero, raça e classe ainda são determinantes e condicionantes em saúde – e portanto indicadores de que o Brasil é um país doente – e o tratamento seriam políticas econômicas e sociais que garantiriam equidade à população.

Outra coisa a ser considerada é o desequilíbrio trabalhista desse cenário em que pessoas devem fazer jornadas duplas, triplas e algumas vezes quádruplas de trabalho onde são pesquisadoras-professoras (condição indissociável no Brasil), trabalham informalmente em prol de uma renda extra e ainda cuidam dos espaços familiares – não vou refletir sobre o fato de professores terem de ser pesquisadores mas deixo aqui registrado o questionamento do porquê pesquisadores tem de ser necessariamente professores dentro do sistema público. Isso aliado ao fato de que não conseguimos consolidar políticas públicas em esfera federal que sejam regularmente respeitadas faz com que o Brasil seja um país instável à educação, tendo flutuações relativas a esse ou aquele governo.

Por último, o ambiente e a prática científica, longe de um purismo que já fora anteriormente defendido, guarda uma certa distância do que infelizmente hoje nós vemos e nomeamos como partidarismo. Veja bem, a ciência que é estudada hoje tem uma característica diferente da maior parte daquela que todo o estudante de início de graduação vê com os gregos clássicos. Ela é ativa, não contemplativa. Ela visa resolver problemas cotidianos e não refletir sobre o sentido deles no cosmos. Isso tudo faz com que ela se distancie de uma política da morte e da exploração que se vê hoje no Brasil e que alguns autores nomeiam como necropolítica. No entanto ela não se distancia da concepção clássica da política como o agir com relação ao outro e nesse campo se faz importante convocar todos para reocupar esse espaço e tomá-lo de volta para que possamos utilizar a ciência de forma ética para resolver desigualdades e promover direitos humanos, assim como tinha sido proposto na lei de 1990. A ciência é feita por pessoas e deve ser feita para pessoas.


[i] Phillipe Linhares é psicólogo de formação. Trabalhador da saúde mental no município do Rio de Janeiro, acredita que toda a saúde só pode ser pública. Atua como divulgador de saúde e práticas de cuidado em grupo com a iniciativa Hashtag Psi. https://linktr.ee/hashtagpsi

[ii] https://www.mctic.gov.br/mctic/opencms/indicadores/detalhe/recursos_aplicados/RecursosAplicados-CeT.html, em 04/05/2020;

[iii] https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/04/11/coronavirus-e-mais-letal-entre-negros-no-brasil-apontam-dados-do-ministerio-da-saude.ghtml, em 04/05/2020;

[iv] https://youtu.be/BCkEwP8TeZY,  em 04/05/2020.

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Patriota ou Patriotagem?

Autores: Edson Teixeira[i], Marco Lamarão[ii].

            Tem sido uma constante a autoproclamação do patriotismo, sobretudo pelos setores vinculados ao “bolsonarismo”. Embora reverenciem a bandeira norte-americana com indisfarçável submissão. Entre nós, alguns setores ostentam o verde-amarelo nas suas manifestações. Fato que esteve presente nas mobilizações antipetistas, que culminaram no impeachment. Muitos parlamentares legitimaram o golpe evocando a pátria e outras ridicularidades bestiais. Serão, todos eles, patriotas ou exercem uma espécie de “patriotagem”?

            Um dos pilares do anticomunismo, ou seja, uma das formas de atacar quem tem simpatia pelo comunismo sempre foi o estigma de “traidor”. Patto Sá explica essa perseguição: “os comunistas seriam agentes de uma potência estrangeira, a URSS, sua pátria real, o que os tornava traidores da pátria” [iii]. Como se sabe, os comunistas – ou todo aquele e aquela que se opõe as desigualdades sociais de forma crítica e contundente – não têm fronteiras. Partilham de uma concepção de mundo internacionalista. Dialogam com uma carta de despedida que um médico deixou aos seus filhos: “sobretudo, sejam capazes sempre de sentir profundamente qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte lugar do mundo. É a qualidade mais bela de um revolucionário” [iv]. No entanto, e sobretudo, os internacionalistas não descuidam daquilo que denominam de “questão nacional”, em especial, naqueles países que sofrem mais agudamente as agruras do imperialismo dos países centrais e, neste sentido, são legítimos patriotas.

            No Brasil, o patriotismo sempre foi um recurso para legitimar atrocidades. Em defesa da pátria, mais de 20 mil seguidores de Antônio Conselheiro foram trucidados pelo Exército[v], na Guerra de Canudos (1893-1897), na Bahia. Em defesa da pátria, militares ceifaram mais de 15 mil vidas dos que se revoltaram na Guerra do Contestado (1912-1916), na divisa entre o Paraná e Santa Catarina. É bom lembrar que os camponeses de Canudos e do Contestado não conheciam nada dessa coisa de comunismo. Desejavam igualdade social, fortemente influenciados pela religiosidade.

            Em 1917, em São Paulo, milhares de trabalhadores e trabalhadoras – sobretudo do setor de tecelagem – construíram um movimento grevista de grandes proporções. Suas reivindicações, entre outros pontos, eram: a carga horária diária de 8h de trabalho (a carga horária era, em média, de 12h/dia); a abolição do trabalho noturno das mulheres; a abolição do trabalho de menores de 14 anos; além de melhorais salariais e o direito de se organizarem, politicamente. Foram reprimidos pelas forças policiais daquele estado. Segundo José Luiz Del Roio: “há indícios de várias covas, as quais estariam sepultados mais de uma centena de corpos, levados clandestinamente pelas forças de segurança ao cemitério do Araçá, um dos mais tradicionais de São Paulo” [vi]. Esta repressão também fora feita “em nome da pátria”.

É Importante lembrar que, no Brasil, um nacionalismo de esquerda sempre fora um importante elemento na luta anti-imperialista, luta esta encampada, inclusive, pelo “partidão” quando em meados do século passado auxiliava, dentre erros e acertos, a construção de um projeto nacional-desenvolvimentista. Isso ocorria mesmo quando este partido se encontrava na ilegalidade, o que na nossa história não foi nada incomum.

            A lista de truculências é longa. Abreviaremos. Durante a Ditadura Empresarial Militar (1964-1985), foram “anos de chumbo” para quem resistiu: houve tortura, assassinato, ocultação de cadáveres, censura, banimento de cidadãos ao exílio, cassação de mandatos e registros políticos, a suspensão do habeas corpus, até a pena de morte foi implantada no país. “Anos de glória” para empresários – nacionais e estrangeiros -, militares das Forças Armadas, agentes policiais civis/militares e setores expressivos da grande mídia, que implantaram um terrorismo de estado mantido intacto na redemocratização. Basta lembrar o assassinato – pelo Exército – de três operários na greve metalúrgica, em Volta Redonda (1988); o Massacre do Carandiru (1992), o Massacre da Candelária (1993), o Massacre de Eldorado dos Carajás (1996) e o recente assassinato da vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes, entre outras barbaridades perpetradas.

            Para “os de cima” e seus aliados, defender a pátria é implantar uma autêntica guerra psicológica manipuladora. Nessa guerra, o alvo são os inimigos internos ou os sobrantes do mercado: “a carne mais barata do mercado é a carne negra”. Nessa guerra, disseminam o ódio, impulsionam comportamentos coletivos possessivos e fundamentalistas. Muitas vezes associados a consigna: deus, pátria e família.   Em nada coexiste fé, nem patriotismo e muito menos modelo familiar decente. Instaura-se a “patriotagem”. Muitas vezes associadas as passeatas e carreatas da morte. Por detrás da máscara, esta “defesa da pátria” encobre, na realidade, a submissão dos interesses nacionais aos ditames dos países centrais, algo do tipo “um patriotismo em defesa da pátria alheia”

É preciso desconstruir e ressignificar a narrativa do patriotismo. Implodir as suas amarras. Esse fenômeno insuflou a xenofobia, legitimou a dominação imperialista, gerou guerras fraticidas e horrendas, corroborou a emergência de regimes tirânicos – como o fascismo e o nazismo – e é um recurso de explícita violência política nas frágeis democracias. A rigor, a cultura de um povo e seu caráter nacional não são opostos aos valores universais, a diversidade e a convivência com o contraditório.

Nesse sentido, há um legado dos quilombolas do passado e do presente, entre mocambos, favelas e periferias; dos camponeses que lutaram e lutam por terra livre; dos que desenvolveram e irão desenvolver inúmeras greves; dos que lutam por moradia digna; dos que ousaram enfrentar a Ditadura Empresarial Militar, entre outras contendas. Tais formas de luta conjugam valores nacionais e universais, enfatizando a defesa dos direitos humanos no seu sentido mais amplo.

Afinal, aqueles que labutam de sol a sol, os invisíveis do nosso país, os trabalhadores informais, os pretos e pobres, a classe trabalhadora em geral carregam consigo a insígnia da pátria, construindo-a dia-a-dia, sem a necessidade de se autoproclamar patriota. Pois que, em tempos tão turvos, os verdadeiros patriotas não soerguem a camisa da CBF.

Como cantou o poeta [vii], é possível acreditar “na rapaziada, que segue em frente e segura o rojão”. Na “fé da moçada, que não foge da fera e enfrenta o leão”. É imperativo “ir à luta com essa juventude, que não foge da raia a troco de nada”. Seguir “o bloco dessa mocidade, que não está na saudade e constrói a manhã desejada”. Partilhar com “aquele que sabe o sufoco de um jogo tão duro”, que “apesar dos pesares ainda se orgulha de ser brasileiro”. É imprescindível acompanhar “a batucada com a cerva gelada”. Afinal, “o resto é besteira”.


[i] Professor Dr. da Faculdade de Serviço Social do CURO- UFF- Rio das Ostras.

[ii] Professor Dr. da Faculdade de Licenciatura em História IFF-Macaé

[iii] MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Em Guarda contra o perigo vermelho: o anticomunismo no Brasil. São Paulo: Perspectiva: FAPESP, 2002. URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, extinta em 1991).

[iv] GUEVARA, Che. Cartas. São Paulo: Edições Populares, 1980.

[vi] ROIO, José Luiz Del. A greve de 1917: os trabalhadores entram em cena. São Paulo: Alameda, 2017. Ver também: BANDEIRA, Moniz. MELO, Clovis. ANDRADE, A.T. A Revolução Russa e seus reflexos no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.

[vii] Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, o Gonzaguinha: “E vamos à luta” (1980).

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