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O bebedouro, o reitor e o governo – parte 3

Cobrar mensalidades dos alunos das universidades federais justamente quando os alunos com maior renda começam a migrar para as entidades privadas (ou no atual discurso do governo, para as públicas não estatais), assim encerramos a parte 2 de O bebedouro, o reitor e o governo. Qual a vantagem e quais os interesses econômicos que levam o Banco Mundial a defender essa proposta?

O interesse maior por trás do Banco Mundial é a geração de renda e lucro. A política de colocar a educação como uma mercadoria e não como direito, gera a capacidade de usar a educação como fonte de recursos para o capital financeiro. Basta visualizarmos o seguinte, nos Estados Unidos, onde o modelo de colocar sobre os ombros da população os custos do ensino superior é mais antigo, o endividamento familiar para que as pessoas possam cursar uma graduação atingiu a astronômica cifra de um trilhão de dólares. Parte dessa dívida já é reconhecida como impagável. No Reino Unido esse valor alcança os duzentos bilhões, dos quais cerca de 40% não serão pagas, pois as famílias não têm condições de sair da inadimplência.

Então, vejamos! Estamos falando que os governos abrem mão de manter a educação como direito, colocam-na como mercadoria, favorecem a iniciativa privada por meio de vários mecanismos (no Brasil, os mais evidentes são FIES e PROUNI), fazem a população endividar-se para ter acesso à educação superior e os bancos que deveriam ganham rios de dinheiro fazendo empréstimos acabam por arcar com os custos da inadimplência, é isso? Não, é claro que não! Os bancos não ficam com os problemas econômicos, apenas com os lucros. Quando esse problema se estabelece, o poder público, ou seja, o governo e, por consequência, todo contribuinte, acaba arcando com a inadimplência para assegurar os ganhos do capital financeiro. A desculpa de que ao incentivar a iniciativa privada a assumir a educação superior, o governo reduziria seus gastos, não se sustenta quando analisada a forma como a financeirização da educação se desenrola. Os lucros ficam com os grandes conglomerados da educação com ativos nas bolsas de valores, gerando renda para os investidores, e com os bancos e seus associados que apostam no endividamento familiar. Os prejuízos, os calotes da inadimplência, recaem sobre os ombros de todos, são pagos pela população, inclusive pelos endividados. Política cruel, não?

Esse movimento não ocorre de uma hora para outra, há um desgaste do modelo. Nesse sentido, este parece ser o momento para olharmos como anda o Chile, país considerado modelo na implantação da proposta do BM. O Brasil está seguindo os mesmos passos, mas em uma velocidade menor. O Chile, apontado no documento do BM como exemplo de avanço no ensino superior, é o que vivencia nos últimos anos a maior crise na educação superior, com as famílias indo às ruas expressar toda sua indignação contra a política implantada. Lá, adotou-se a lógica de endividamento familiar para manutenção do ensino superior, assim as famílias fazem poupança desde (ou mesmo antes de) o nascimento do filho, ou fazem empréstimos, endividando-se ou ao futuro graduado por muitos anos. Os custos do ensino superior tornaram-se proibitivos, gerando inadimplência e sufoco financeiro, portanto, no Chile, que segue à risca a cartilha do BM, a população tem ido às ruas protestar por não mais aguentar os custos da educação superior.

Como alternativa para minimizar esses problemas, o BM propõe que além das cobranças aos estudantes, as instituições de ensino superior diversifiquem sua fonte de financiamento. Primeiro que deixem de ser sustentadas pelo Estado como política. E que busquem mecanismos variados para obter recursos para seu funcionamento. Cobrança de taxas diversas para os alunos que estão estudando, mesmo entendendo que com o atual movimento, uma parcela considerável dos estudantes que permanecerão nas públicas estatais será de alunos com dificuldades financeiras. Outra forma seria buscar apoio financeiro entre os alunos bem sucedidos economicamente, solicitar-lhes que façam doações. Acontece que no Brasil, o sistema de doações não tem as vantagens em termos de redução de imposto que ocorrem nos Estados Unidos, portanto, a menos que a legislação seja mudada, esta estratégia resultará inócua.

Por fim, buscar mecanismos que tragam recursos para o interior das instituições. Nesse caso, incluem-se venda de cursos diversos e serviços de extensão e pesquisa, além do estabelecimento de parcerias público-privadas. Qualquer que seja o mecanismo adotado, isso significa uma perda significativa da autonomia da universidade e de sua preocupação com a estrutura social. Toda a preocupação passa a ser a de busca de recursos financeiros, a sociedade só importa se tiver dinheiro para pagar pelos serviços das universidades. Destruímos assim, de uma só leva, o ensino, a pesquisa e a extensão, modelo interessante, não? Mas não se preocupem, que ainda há mais um pouco de informação para relacionarmos essa política ao problema do bebedouro. A gente se encontra no próximo texto, até lá!

O bebedouro, o reitor e o governo – parte 1, parte 2, parte 4, parte 5.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 469, 22 de agosto de 2015.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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O bebedouro, o reitor e o governo – parte 2

Falávamos, durante a primeira parte deste texto (Ver parte 1), de como os problemas que ora as universidades enfrentam não são questões pontuais, mas que se inserem em um contexto mais amplo que relaciona o bebedouro quebrado com as ações dos reitores, do governo e mesmo com organizações internacionais como o Banco Mundial. Assim, agora buscaremos enxergar como a política apresentada no documento do Banco Mundial (BM) intitulado “La enseñanza superior: las lecciones derivadas de la experiencia” relaciona-se com os problemas do bebedouro e a atual crise que impede o início do semestre nas universidades federais.

Vários elementos são relevantes no processo de análise. Um aspecto central diz respeito ao volume de recursos que pode ser gerado pelo ensino superior. Os interesses, como os recursos, são enormes, assim, uma mudança sugerida pelo documento do BM é a redefinição da função do Estado. Esse deveria abrir mão de exercer um controle direto e passar a ser um gerenciador de políticas e fiscalizador do sistema de ensino fornecido pelas instituições privadas. Praticamente uma reconfiguração do Estado para ser uma agência nacional de ensino superior, como tem sido feito nos últimos anos para outros serviços que antes eram fornecidos pelo governo como água, energia e telecomunicações. O governo seria, então, responsável por instituir um marco político e fiscalizar o serviço prestado pelas instituições de ensino.

Nesse processo de mudança proposto pelo BM é necessário estabelecer mecanismos que permitam às instituições privadas ser vistas sistematicamente como melhores e mais eficientes do que foram até hoje. O Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (ENADE) é parte importante desse processo. Nos últimos anos, o governo federal, independente do partido e do presidente, tem reduzido o montante de recursos por aluno nas universidades federais e alavancado cada vez mais recursos para as instituições privadas. Enquanto as universidades federais perderam mais de 10 bilhões de reais esse ano, políticas que injetam recursos do Estado nas instituições privadas foram ampliadas, mesmo com a crise.

Junto com isso, os mecanismos quantitativos de avaliação das instituições de ensino superior, que muitas particulares burlam de variadas formas, favorecem que estas subam posições, enquanto as federais vão minguando e despencando. Assim, avaliações como o ENADE servem para alavancar o interesse das particulares entre os consumidores do serviço educação. O ENADE, portanto, embora o governo negue, é um mecanismo de ordenação para que as instituições privadas possam vender sua qualidade com lastro, um selo de qualidade fornecido pelo próprio governo. Este, por sua vez, responsável que é pelas instituições federais, sabe quais os problemas e demandas existentes, mas não entra com os recursos financeiros, de infraestrutura ou pessoais para resolvê-los. Assim, é possível identificar como a política adotada sob os ditames do BM tem a finalidade precípua de empurrar as pessoas para o mercado das instituições privadas com apoio de recursos do Estado.

O governo, no afã de facilitar a utilização de recursos estatais para favorecer a ampliação do mercado da iniciativa privada em educação, mudou, inclusive, a nomenclatura utilizada para designar as instituições. Agora, para o governo, não há mais instituições de ensino superior públicas e privadas, o que há são entidades públicas, sendo que dividem-se em estatais e não estatais. Contudo, sendo entidades públicas, ambas passam a ter a mesma condição de receber recursos da união. Não há mais diferenças. O curioso é que no caso das públicas não estatais (antigas privadas) estamos falando de instituições que estão sob controle de grandes conglomerados organizados a partir de megainvestidores, inclusive internacionais. Então, o governo federal estabelece mecanismos que retiram recursos públicos que deveriam atender a população mais pobre e os destina para os investidores do mercado financeiro.

Acoplado à linha de reduzir recursos das instituições públicas e de injetá-los nas privadas, o documento do BM sugere que as instituições públicas devem buscar outras fontes de financiamento. Embora reconheça que em todo o mundo, o ensino superior dependa de financiamento público, o BM indica a diversificação das fontes de recursos. Entre as alternativas estão a cobrança de taxas, venda de serviços de pesquisa e extensão, obtenção de recursos no mercado e, principalmente, colocar o aluno como responsável pela manutenção dos custos. As universidades federais passariam, então, no momento em que os mais abastados migrariam para as particulares, a exigir que os alunos bancassem a manutenção dos serviços de educação superior estatal. Sobre esse processo de colocar os custos da educação superior sobre os ombros do estudante e suas famílias, voltaremos no próximo texto. Momento em que continuaremos a entender a lógica dos interesses do mercado financeiro sobre os problemas do bebedouro da universidade pública. Até lá!

O bebedouro, o reitor e o governo – parte 1

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 468, 15 de agosto de 2015.

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O bebedouro, o reitor e o governo

Eleição para o Diretório dos Estudantes correndo solta. Duas chapas com conformações e pensamentos muito distintos sobre os problemas institucionais rivalizam e buscam apoio entre os universitários. Uma vê no bebedouro quebrado um problema de gestão do reitor, apenas o desconhecimento da situação que tão logo seja informada será solucionada. Ou no máximo um problema pontual de repasse de verbas por parte do governo, algo que será resolvido assim que passar a crise que ora assola o país. A outra chapa parte de uma perspectiva absolutamente diferente. Entende que os problemas que aparecem pontualmente na instituição, como o caso do bebedouro, estão imbricados em uma rede maior de interesses econômicos e disputas políticas. Falam em internacionalização da luta de classes, do apetite voraz do capitalismo e entendem que as questões pontuais só serão realmente solucionadas na medida em que uma forma radicalmente nova de compreender o ensino superior seja estabelecida, embora isso não signifique abrir mão de resolver problemas de gestão e informação. O duelo estende-se e as votações previstas para ocorrer no começo do período letivo.

Passa julho, vem agosto, o segundo semestre nas universidades federais deveria estar começando, deveria, mas… não está! A mídia, quando cobre o assunto, repete a antiga cantilena de prejuízo ao aluno e coloca como razão dessa postergação a greve que alcança quase todas as instituições federais, se consideradas as paralisações de docentes, servidores técnico-administrativos e alunos. O movimento da comunidade acadêmica é parte relevante do processo, mas há outra causa, também relevante, que vem sendo absolutamente desconsiderada no processo, as dificuldades orçamentárias e de pessoal que vinham atingindo as universidades há algum tempo, tornaram-se incontornáveis em 2015. Não é, portanto, algo novo.

As entrevistas concedidas pela esmagadora maioria dos reitores ou de membros da gestão fornecem o material que a mídia tem divulgado, de apontar a greve pelo atraso do início do semestre. Contudo, as entrevistas não fazem críticas ao governo nem relacionam o retardo do calendário com os problemas de recurso e de pessoal existentes. Apontam apenas que há algumas dificuldades operacionais pragmaticamente solucionáveis, embora afirmem sem alarde para a mídia que, se começarem o período letivo, não haverá verba suficiente para a conclusão do mesmo sem que haja suplementação orçamentária. Não enfatizam essa parte das carências conjunturais e estruturais que são centrais para a compreensão do momento pelo qual passam as universidades. Assim, os reitores, os mesmos que deveriam ser os primeiros a denunciar as dificuldades para solucioná-las, escondem-se atrás das greves e as culpam para não se indispor com o governo federal.

Então, resta-nos uma pergunta: como as universidades federais que são referência de ensino e pesquisa de qualidade no Brasil e mesmo internacionalmente chegaram nessa calamitosa situação de não conseguir iniciar o semestre por falta de condições de concluí-lo? Como um serviço público que é estupidamente melhor que a iniciativa privada sob todos os aspectos encontra-se em uma condição dessas? Essas perguntas levam-nos de volta a questão do bebedouro nas eleições do Diretório dos Estudantes apresentados no início do texto. As dificuldades existentes que vão refletir-se, inclusive, no problema do bebedouro e na falta de papel higiênico são elementos de gestão, da crise vigente ou estão relacionadas aos interesses de pessoas e entidades relevantes nos cenários nacional e internacional?

Alguns pensam que é uma questão mais imediata, resultado da crise econômica que atingiu o país com mais força no final de 2014, mas o fato é que as origens desse problema remontam a algo maior e mais longínquo. Se não nos debruçarmos sobre essa questão, acabaremos por não enxergar o quadro geral e ficaremos a buscar soluções pontuais e imediatas que de forma alguma serão capazes de alterar o quadro de penúria e desmonte que vem se estabelecendo.

A educação mostrou-se um mercado excepcional, fonte de lucros estratosféricos. Essa referência fez com que os interesses comerciais e de obtenção de lucros voltassem-se para a educação com um apetite voraz. A ordem liberalizante que norteia o atual momento do capitalismo faz com que o Estado seja criticado em todo e qualquer espaço onde este atua e interfere com a possibilidade de auferir lucros. Elaboram-se proposições e projetos de enxugamento do Estado com transferência dessas atividades para a iniciativa privada. Há um concerto internacional que baliza essas questões e que se faz presente em organizações relevantes. O Banco Mundial, por exemplo, apresenta toda uma conformação de como deve ser a educação no Brasil, América Latina e Caribe. O documento intitulado “La enseñanza superior: las lecciones derivadas de la experiencia” afirma claramente o projeto liberal de redução do Estado.

Curioso para saber como o documento do Banco Mundial se relaciona com os problemas do bebedouro e com a atual crise que impede o início do semestre nas universidades? A gente dialoga sobre essas questões na parte 2 desse texto. Até lá!

O bebedouro, o reitor e o governo – parte 2

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 467, 08 de agosto de 2015.

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Reitores têm que escolher o que não pagar!

As universidades federais, apesar de toda a enorme contribuição para o desenvolvimento do Brasil, há tempos sofrem um processo de desmonte. No governo de Fernando Henrique Cardoso a técnica envolveu um torniquete nos recursos e na contratação de docentes e servidores técnico-administrativos. Depois, aproveitando o sufoco provocado pelo estrangulamento anterior, os governos de Lula e Dilma estipularam uma nova metodologia, desta vez disfarçada de expansão. Oferecendo como contrapartida a reforma ou construção de alguns prédios e o aumento de 20% dos recursos de custeio (não no total dos recursos), exigiram uma modificação na relação professor aluno, o que significou, em números gerais, dobrar o número de alunos nas universidades federais.

Os reitores, desesperados com as carências e o caos vivenciado nas instituições, correram a aceitar a proposta que parecia gerar um alento, mas que, de fato, ampliava os problemas existentes. Com volume de recursos por aluno diminuído e contratação de docentes e servidores técnico-administrativos em número insuficiente para suportar a ampliação do número de estudantes, não havia forma de suportar a expansão promovida de forma desregrada por meio da nefasta política implantada, cinicamente intitulada de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). Ao caos instalado, somou-se a crise econômica. E, sob o slogan “Brasil: Pátria Educadora”, o governo Dilma retirou 10 bilhões de reais da educação federal, enquanto ampliou os recursos para as instituições privadas sob a égide do FIES e do PROUNI.

Sob os corte, as dificuldades viram crise generalizada. Várias instituições, como a UFRJ, adiaram o início das aulas como meio de contornar a falta de recursos, mas a estratégia foi insuficiente. Os problemas e cortes orçamentários sistematicamente atacam a graduação, em especial aqueles que não possuem parcerias público-privada, venda de serviços ou outros mecanismos de captura de recursos. A alegação é a de que esses cursos sofrem dificuldades por serem de baixa produtividade e são, portanto, a causa de seus próprios problemas. Culpa-se a vítima, enquanto o governo, (ir)responsável e algoz, destina cada vez menos recurso por aluno para as universidades. Mas eis que os cortes chegaram aos programas de pós-graduação (foram retirados 75% dos recursos PROAP) e não escaparam sequer aqueles com nota máxima e considerados de altíssima produtividade e inserção internacional. Caiu por terra o discurso da produtividade e competência.

A expectativa, diante de tal quadro, era a de que a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino (ANDIFES), que congrega os reitores das universidades federais, se posicionasse de forma contundente contra os problemas e cortes instituídos. Alternativamente, poderiam apelar gentil e solicitamente para que recursos e soluções fossem disponibilizados. Poder-se-ia esperar que tivessem suas solicitações acatadas por gozar de algum prestígio junto a presidente, pois durante a eleição de 2014, declararam apoio à candidata Dilma nada menos que 54 dos 59 reitores. Apoio, destaque-se, fartamente divulgado na campanha.

Dilma eleita, caos nas universidades, crise econômica e corte de 10 bilhões nos recursos da educação pública. Ato contínuo, ANDES, FASUBRA, SINASEFE e movimento estudantil agitam greves e manifestações buscando soluções para o problema. Após longo silêncio, o governo apresenta respostas, tremendamente insatisfatórias, e focadas apenas nas questões remuneratórias. Descarta as reivindicações sobre a questão das organizações sociais (OS), da carreira docente, da contratação de pessoal e, por fim, o representante do MEC afirma com todas as letras que os problemas existentes não dizem respeito às ações do governo, mas que são dificuldades de gestão dos reitores. Leia-se, portanto, nas palavras do governo, que os reitores são incompetentes, já que não faltam os elementos necessários para que as universidades funcionem a contento.

Às reivindicações dos grevistas, o governo diz que os reitores possuem vagas autorizadas pelo MEC para efetivar as contratações necessárias e que, portanto, não há carência real de pessoal, apenas problema de gestão. Alega ainda serem os recursos recebidos suficientes e que os reitores devem resolver seus problemas de gestão. Afinal, o governo não possui problemas de gestão, certo? Ao ser questionado na mesa de negociação, por ANDES, FASUBRA, SINASEFE e movimento estudantil (não pela ANDIFES) sobre as dificuldades de funcionamento das universidades que se tornaram ainda mais agudas com os cortes orçamentários, o representante do ministério soltou uma pérola. Disse com todas as letras que cabe aos reitores escolher o que pagar e o que não pagar! Surreal! Não há outra forma de qualificar essa expressão! Ainda mais surreal é saber que os reitores e a ANDIFES, como um todo, diante de tal impropério, silenciam!

Sepucral, o silêncio ressoa quando várias universidades demonstram estar com dificuldades para retomar as aulas em agosto se o problema financeiro não for resolvido pelo governo e pretendem apoiar-se na greve para não dar evidência ao caos. Temos, então, problemas enormes de um lado, os quais justificam mais que nunca a ocorrência de greves em defesa da universidade, e críticas do governo aos reitores de outro. Mas, curiosamente, os reitores têm desaparecido de suas respectivas comunidades universitárias e não vêm a público esclarecer quantas vagas cada universidade realmente têm, pois o governo se nega (isso mesmo, se nega) a fornecer essa informação. Os ônus, portanto, ficam com os reitores, mas estes, como aparentemente não querem indispor-se com o governo, aceitam ser os culpados no processo. Depois dos reitores terem assinado a carta de apoio à Dilma durante o processo eleitoral e do descompromisso reiterado do MEC em sustentar a expansão precária promovida pelo governo federal via Reuni, mesmo para as universidades que cumpriram rigorosamente as metas e atenderam todas as demandas governamentais, era de se esperar que os dirigentes das universidades fossem tratados com um pouco mais de respeito. Mas o respeito não veio, pois barganhar respeito com subserviência exagerada nunca dá bons resultados.

Aos reitores que pensaram que a subserviência do apoio político garantiria recursos para suas universidades só resta a conclusão de que… se ferraram! Os pires continuam estendidos e vazios, enquanto o governo afirma que estão vazios porque os reitores não sabem mantê-los cheios. Mas talvez haja um resquício de esperança! Na manhã da última quarta-feira, 29 de julho, noticiou-se que a Andifes pediria audiência com Dilma e ministros para se manifestar contra os cortes nos recursos das Instituições Federais de Ensino. É aguardar pra ver o tom dessa manifestação e as respostas do governo. Se o posicionamento não for novamente de subserviência extrema, então, representará um primeiro passo, tímido, muito tímido, é verdade, mas talvez, só talvez, signifique que as entidades vinculadas à produção e difusão de conhecimento no Brasil voltem à proatividade e atuação política que tiveram no passado em defesa da universidade e da ciência. É esperar pra ver!

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 466, 01 de agosto de 2015.

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O carnaval e a beleza das greves

A Beija-flor, campeã do carnaval 2015 do Rio de Janeiro, já levou à passarela do samba diversos enredos, entre eles o Amapá (2008), o mundo mágico das maravilhas (1980) e a importância da contestação e da luta coletiva com “O povo conta sua história: ‘saco vazio não pára em pé’ – a mão que faz a guerra faz a paz” (2003). Em 1989, com “Ratos e urubus, larguem minha fantasia”, um desfile impactante e inovador, Joãosinho Trinta construiu uma belíssima apresentação que entrou para a história dos carnavais ao fazer um desfile a partir da miséria do lixo e dos restos. O enredo mostrou que o grande rei da folia é o trabalhador cotidianamente explorado que durante o período momesco transforma-se, transcende as misérias da vida e faz a festa acontecer.

Em 2014, o lixo voltou à cena como elemento central do carnaval no Rio de Janeiro, não cantado no samba, mas empilhado em ruas e avenidas. A fortíssima greve dos garis daquele ano fez com que toneladas de lixo estivessem espalhadas pela cidade sem que a coleta fosse feita. Os odores das ruas incomodavam as narinas e o espaço tomado pelos detritos fazia com que os brincantes ficassem ainda mais amontoados. Apesar disso, o carnaval seguiu e os foliões divertiam-se enquanto criticavam ora os garis em greve, ora os governantes que não atendiam as reivindicações dos trabalhadores nem conseguiam resolver a situação por um caminho alternativo. Encerrados greve e carnaval, os garis conseguiram uma vitória significativa para seus vencimentos e condições de trabalho.

Um ano se passou e veio o carnaval de 2015, desta vez sem greve de garis. Entretanto, outras manifestações como o fechamento e travessia da ponte Rio-Niterói pelos funcionários do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (COMPERJ) e greves vem acontecendo dentro e fora do período do carnaval. Embates recorrentes vêm ocorrendo, por exemplo, entre governadores e prefeitos com os professores por questões salariais, condições de trabalho e de planos de carreira. No Amapá não foi diferente e a derrota do então governador nas últimas eleições é atribuída principalmente à posição de intransigência durante as negociações com os professores em greve.

Neste ano, as toneladas de lixo que se seguiram à passagem das escolas, blocos e brincantes eram, posteriormente recolhidas com maior ou menor rapidez, dependendo do lugar onde estavam largadas. Os garis voltaram a ser parte integrante do carnaval restabelecendo, na medida do possível, a condição de higiene das vias públicas. Mas o carnaval carioca de 2014, com suas montanhas de lixo, deixou marcas e era constantemente recordado por diversas pessoas. Alguns criticando, outros dizendo que “o carnaval da greve dos garis foi lindo!”. Mas como pode uma greve e um carnaval em meio ao lixo serem lindos?

Aqueles que denominam linda uma cidade com greve e carnaval entre montanhas de entulho e lixo são exatamente os que conseguem enxergar além da aparência. Rompendo a casca do ilusório, vão ao âmago, à essência das coisas. Conseguem enxergar que a greve, a manifestação, a tomada da ponte, o lixo não coletado são expressões da luta de quem decidiu combater a exploração a que está submetido. Essas pessoas rasgam a imagem imediata do transtorno e dos prejuízos, que a mídia hegemônica faz questão de repetir à exaustão para que vejamos apenas isso, e vislumbram um processo de transformação, de resgate de humanidade, de busca de uma vida que mereça ser vivida.

Enxergar movimentos de contestação como beleza não é fácil, pois somos criados (treinados mesmo!) para encará-los apenas como o furdunço de vândalos e baderneiros inconsequentes que não têm o que fazer. Os mais bem domesticados pela visão conservadora e retrógrada, ao passar por uma greve, gritam algo do tipo: “Vão trabalhar, bando de vagabundos!”. Os que berram torpemente tamanho impropério fingem não saber o que realmente ocorre ou, pior, estão tão cegos por todo o processo de dominação a que foram expostos que são incapazes de perceber que greves e manifestações são movimentos de quem trabalha (e muito!) pelo reconhecimento de seu esforço e labuta diária. Lutas que vêm justamente reivindicar a valorização de um trabalho permanentemente explorado e expropriado.

Ser capaz de romper com a ilusão das sombras e enxergar o real, como no mito da caverna de Platão, envolve um esforço considerável. Mas é possível fazê-lo e enxergar a beleza da luta, seus impactos e resultados. Na greve dos garis de 2014, algumas pessoas conseguiram enxergar as pilhas de lixo como instalações artísticas sensoriais capazes de promover intervenções urbanas. Uma ‘não-arte’ mais arte que a arte-arte capaz de chocar e interagir com o público. O lixo, a miséria e a luta vistos não como empecilhos, mas como eventos artísticos e belos capazes de fazer pensar e levar a um mundo melhor. Precisamos aprender com o histórico enredo “Ratos e urubus, larguem minha fantasia” e ver o que nos incomoda com outro olhar. Se rompermos com o aparente, seremos capazes de ver as greves em sua beleza, pois são, nas palavras do enredo da Beija-flor, alegria e manifestação.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 443, 21 de fevereiro de 2015.

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