democracia, mídia, política

O bom jornalismo não cala a boca!

Autor: Andrew Costa[*]

Hoje pela manhã, perguntado sobre os indícios de interferência na Polícia Federal para proteger seus filhos e aliados políticos de serem investigados e punidos por seus crimes, Bolsonaro perdeu a cabeça, deu chilique e gritou com jornalistas no Palácio da Alvorada repetindo por várias vezes de forma agressiva: “cala a boca”.

Para quem conhece um pouco de história, o fato lembra muito o dia em que o general Newton Cruz não só mandou calar a boca como agrediu fisicamente o jornalista Honório Dantas da Rádio Planalto durante a ditadura militar. As cenas revoltantes de violência e autoritarismo aconteceram diante de câmeras e estão hoje disponíveis na internet para quem quiser ver.

No último domingo, o jornalista Dida Sampaio e toda a equipe do seu jornal também foram covardemente agredidos por fanáticos bolsonaristas em uma manifestação inconstitucional e anti-democrática contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal apoiada pelo presidente em Brasília.

Minha solidariedade aos jornalistas agredidos física e moralmente diariamente por Bolsonaro e seus seguidores alucinados desde que esse pária assumiu o poder. A ditadura militar, que o presidente defende, torturou e assassinou muitos de nós. A memória de Vladimir Herzog está presente e não vai morrer. Não vamos tolerar o ascenso da violência contra profissionais do jornalismo novamente. 

Jornalista Vladimir Herzog.

O brilhante Millôr Fernandes dizia: “Jornalismo é oposição”. E é isso mesmo. É fiscalizar o poder, é a busca por tornar a verdade pública. Até mesmo o empresário conservador e anti-comunista William R. Hearst, alguém por quem não tenho qualquer admiração, já dizia no século passado: “Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade”.

A liberdade de expressão e a prática do jornalismo são fundamentais para qualquer sociedade democrática. Não à toa jornalistas são um dos primeiros a serem perseguidos e assassinados na implementação de ditaduras e regimes ditatoriais. Procura no Google o que o ditador da Arábia Saudita fez com o jornalista Jamal Khashoggi em sua embaixada na Turquia agora mesmo em 2018.

O jornalismo e a liberdade de expressão precisam ser defendidas e protegidas. Hoje mais do que nunca. Sem elas as democracias morrem. Não se cale enquanto jornalistas são atacados. Lembre das palavras de Brecht. Se importe! Porque amanhã pode ser você o perseguido. E pior: pode ser que não tenha mais ninguém para se importar.

#EuNãoMeCalo

[*] Andrew Costa é jornalista formado pela Universidade Federal Fluminense.

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atividade física, democracia, Entrelinhas, ideologia, manifestações, mídia, movimentos sociais, política

Uma copa diferente

Vai ter copa! Os humanos somos naturalmente competidores. Em um experimento, observadores que não tinham qualquer relação com crianças disputando uma gincana passaram a torcer por uma das equipes, apenas baseados na informação de que as crianças foram dividas segundo o semestre de nascimento. Óbvio que cada observador decidiu torcer pela equipe de nascidos no mesmo semestre que ele próprio. Gostamos de torcer e tomar partido e se isso envolve a paixão nacional, o futebol, é claro que haverá muita torcida. Um país que ama futebol não deixará de se envolver com o maior evento futebolístico do planeta, ainda mais considerando que a copa só ocorre de quatro em quatro anos e que dessa vez será no Brasil. Portanto, vai ter copa.

Fulecar: Perder, ao jogo, todo o dinheiro que se leva. Fonte: Dicionário Priberam da Língua Portuguesa http://www.priberam.pt/dlpo/fulecar

Os brasileiros vamos torcer pela copa, mas a festa não engrenou rapidamente. Apesar da publicidade massiva na mídia, faltando uma semana para o início do evento, quase não há bandeirolas penduradas ou ruas pintadas em verde e amarelo. Mesmo com uma seleção que agrada a maioria, a população não abraçou a copa, como normalmente ocorre. Mas o país vai se empolgar pouco a pouco à medida que a seleção for avançando. Passada a fase de grupos, o país incendiar-se-á e, se o Brasil for campeão, dissipar-se-á no ar o maracanaço infligido pelo Uruguai, e haverá uma festa como nunca se viu.

Mas mesmo que a festa venha, e a maioria deseja que assim seja, esta copa será diferente. O retardo em iniciar as festividades ocorre porque a população percebeu a política de pão e circo que impera nesse país há décadas, séculos dirão alguns. Os brasileiros, apesar da ignorância forçada pela péssima educação, sabemos cada vez mais! Sabemos que apesar do país ser penta e estar buscando o hexa, somos lanternas em questão de direitos sociais. Sabemos que educação, moradia, segurança e transporte estão mal e não melhorarão, mesmo que a seleção ganhe a copa. Sabemos que bilhões entrarão no país para a realização da copa, mas que isso não chegará à população porque é sempre uma pequena minoria que fica com tudo.

Então vai ter copa, mas copa para quem? Para quem ganha salário mínimo e se espreme cotidianamente em ônibus lotados? Para as comunidades “pacificadas”? Para quem foi expulso de uma residência por conta de obras faraônicas que não melhorarão a vida da população? Para aqueles que esperam por obras de mobilidade que são insuficientes ou simplesmente não aconteceram? Embora muito dinheiro tenha sido gasto, os benefícios não chegarão à população. Houve, por exemplo, um não cumprimento seletivo da Matriz de Responsabilidades da Copa. Obras consideradas relevantes para a melhoria da mobilidade como o monotrilho de Brasília e São Paulo e o metrô de Salvador, simplesmente não aconteceram. Além disso, quase todas as obras, incluindo os estádios, foram erguidas basicamente com o uso de recursos públicos, quando o prometido fora o investimento privado.  E a transparência dos custos… questionadíssima!

Os principais beneficiários desta copa são os empreiteiros e outros megaempresários. Aeroportos estão sendo reformados para serem, em seguida, privatizados. Construiu-se desnecessariamente um terceiro grande estádio em São Paulo e em localidades sem tradição no futebol nacional como Manaus e Brasília. Estádios, agora chamados arenas, onde os preços exorbitantes estão afastando as pessoas que tradicionalmente assistiam ao futebol à beira do campo. Exclusão que ocorre não apenas nas arenas, mas em todos os locais. Há assepsia das cidades por meio de intervenções e remodelagens nada preocupadas com o cidadão. Pessoas despejadas, manifestantes tratados com balas de borracha e gás lacrimogêneo em profusão, reclusão forçada de mendigos e usuários de drogas, entre outros considerados indesejáveis. Unidades de Polícia Pacificadora que, segundo muitos, existe menos para proteger a comunidade e mais para restringir o acesso da comunidade aos espaços “mais nobres” da cidade. O acesso em algumas comunidades, outrora denominadas favelas, está mais difícil e controlado, praticamente estabelecendo guetos, a exemplo da Alemanha nazista.

Essa será a copa das manifestações. A sensação de que algo está errado e de que é preciso fazer algo paira no ar. Se o Brasil jogar mal ou sair cedo da copa… pode haver uma insatisfação avassaladora a gerar manifestações e alterar resultados eleitorais. Talvez por isso, alguns falem que essa copa já é do Brasil, tendo sido definida a priori nos bastidores para evitar maiores problemas. Entretanto, independente de qual país venha a sagrar-se campeão, os brasileiros entenderam que o Brasil é o país do futebol porque até hoje não foi o da educação, saúde, justiça social…A copa correr bem ou não, o Brasil ganhar a copa ou não, por si não mudará o Brasil, mas o que fizermos com essa noção de que chegou a hora de parar de engolir nossos problemas sem fazer nada é que poderá fazer do Brasil um país melhor. As pessoas estão cansadas, querem outro tipo de sociedade e querem já! Por isso, vai ter copa, mas na copa… vai ter luta!

Chutes diferentes dentro e fora do gramado.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 412, 07 de junho de 2014.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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democracia, discriminação, educação, Entrelinhas, greve, ideologia, manifestações, mídia, movimentos sociais, sindicato, trabalho

Pedagogia do oprimido em ação

Caricatura e frase de Paulo Freire sobre o ensinar como intervenção no mundo

“A única coisa que está fazendo sentido nesse carnaval é a greve dos garis. Os garis sacam muito de intervenção urbana e instalações sensoriais. Instalação viva, onipresente que se multiplica com a interação do público! Olha que incrível! E nem precisam estar presentes para a performance acontecer. Aliás, a potência da performance está justamente no invisível. Performers do invisível! Olha que máximo! Garis dando aula aberta de performance urbana!! Estão mandando muito bem na composição da paisagem da cidade. A não-arte é mais arte que a arte-arte, já dizia Kaprow. Garis, amo vocês!”

O trecho acima, de autoria de Raphael Arah, com a qual encerrei o texto “Não tem gari no samba!” é também apropriado para a abertura deste, por dois motivos. De um lado por revelar a intervenção provocada na sociedade e, de outro, porque atribui aos garis um papel com o qual eles aparentemente não possuem qualquer vínculo: o educar. A greve dos garis, ora encerrada com uma estrepitosa vitória, é uma das mais importantes lições que alguém poderia aprender em um mundo de exploração. Uma aula de cidadania e luta por direitos, onde pessoas cuja profissão é uma das mais exploradas, humilhadas e invisíveis, simplesmente ousaram. Ousaram não agradecer as migalhas que lhes são lançadas. Ousaram não se subjugar aos desmandos e desaforos dos governantes. Ousaram não se dobrar às mentiras e deturpações da grande mídia. Ousaram lutar por salários e direitos. Ousaram, enchendo a cidade de lixo, angariar apoio da população. Ousaram sair da invisibilidade e mostrar-se importantes. Ousaram tornar vitoriosa uma greve. Ousaram ir além dos direitos e conquistar dignidade e respeito.

Toda essa ousadia traduziu-se em um forte poder de intervenção social. Além da performance do invisível, os garis alteraram a representação social que existe sobre o trabalho e o trabalhador de atividades consideradas braçais, bem como sobre a importância da luta. Sua ação mostrou que as pessoas com menores remunerações, aquelas que vivem de salário mínimo, não são lixo nem invisíveis. Que apesar de desenvolverem atividades que a maioria procura evitar, são benquistos pela população. Que mesmo com a ameaça de desemprego é possível ir às ruas lutar por direitos e contra a exploração. Com sua intervenção, os garis ensinaram, ou lembraram, para alguns de nós, que  com a luta é que se conquista e se muda a vida!

Decididamente os garis, com sua greve, deram uma aula de poder popular, uma aula sobre a força oriunda de trabalhadores unidos e organizados. O poder instituído, entretanto, não suporta que os dominados se expressem e busca sempre minimizar esses ensinamentos. Corre nas redes sociais que na tentativa de ironizar e desgastar a luta dos trabalhadores, via greves e paralisações, o prefeito atribuiu a greve dos garis aos professores. Nas palavras de Eduardo Paes, “A culpa é dos professores que estão fazendo escola com esse negócio de greve”. Se era para ser uma crítica, não funcionou. Os professores realmente comprometidos com a educação assumiram a afirmação como um elogio.

Os grandes teóricos da educação ensinam que os professores devem ir além dos conteúdos e ensinar para a vida e que, portanto, é papel da docência desvelar ideologias, revelar processos de exploração humana e auxiliar as pessoas a combater a opressão. Se os professores estão ensinando que há algo errado em alguém ganhar um salário miserável e que os trabalhadores devem lutar contra isso, então a educação está no caminho certo. Se o fato dos professores irem às ruas reclamar por seus salários está ensinando outros a fazer o mesmo, significa que esses, de fato, estão educando, pois educar é mediatizar a relação das pessoas com o mundo para que vejam além das aparências e transformem suas existências.

O pensar sobre a realidade envolve o estabelecimento de juízos, identificar o certo e o errado, discriminar o que se gosta e o que não se gosta, compreender as relações estabelecidas e invisíveis que asseguram o processo de exploração. O pensar, diferente do que muitos possam imaginar, não é passivo, é uma ação reflexiva sobre o mundo. O compromisso de todo educador está vinculado a essa reflexão dialógica que rompe com a estrutura de dominação e leva a agir, a lutar. Decorre desse vínculo uma famosa frase de Paulo Freire: Ser educador e não lutar é uma contradição pedagógica.

Os professores buscam ser os protagonistas de uma transformação social libertadora a partir de sua prática pedagógica. Construir sujeitos capazes de pensar e falar por si mesmos, donos de suas próprias ações, emancipados em um mundo de subjugações é o ápice e o objetivo dessa atuação. A prática e a luta de professores compromissados tem sido importante em desvelar vários processos ideológicos e transformar muitas realidades, mas dessa vez, é necessário admitir, foram os garis que, sobre esse tema, deram uma aula magistral. Paulo Freire ficaria orgulhoso ao olhar a greve dos garis e ver sua Pedagogia do Oprimido em ação.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 400, 15 de março de 2014.

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Não tem gari no samba!

Alcançada a dispersão, os foliões vibram com o desempenho da escola na Sapucaí. Julgam sua escola campeã e não veem a hora de acompanhar a apuração. Na concentração, os brincantes da próxima escola anseiam por mostrar o trabalho de todo um ano. Mas há um desfile antes. Em vestes laranja e armados de vassouras, um bloco cruza a passarela do samba. Entre as varridas, a malemolência é expressa em passos dignos dos mais extraordinários mestres-salas. Aparentemente impossíveis aos reles mortais, os passos contrariam as leis da física e deslizam no asfalto, até que o sambista se lança ao ar em um salto para em seguida voltar ao solo e continuar a mostrar o que é o samba no pé.

O gari e o samba no pé

Os brasileiros fomos acostumados à imagem dos garis no Sambódromo após a passagem de cada escola. Demonstravam ser tanto profissionais da limpeza quanto artistas do samba. Mas, curiosamente, ao sambar durante o trabalho, ocupavam um espaço que lhes era negado, pois ingressos caros e fantasias cujos preços ultrapassam em muito seus salários não permitiam que estivessem ali para assistir ao espetáculo ou desfilar por sua escola. Em uma sociedade onde tudo é guiado pelo dinheiro, as baixíssimas remunerações que lhes são pagas fazem com que praticamente tudo lhes seja negado. Decidiram que era necessário mudar. Assim, esse ano, em luta por reajuste salarial e melhores condições de trabalho, os garis resolveram se ausentar do carnaval do Rio de Janeiro, tanto do samba quando da limpeza. Iniciaram uma greve.

Garis limpando a Marquês de Sapucaí entre os desfiles das escolas de samba

Com a ausência dos garis, o desfile ficou triste e a cidade deprimente. Montes e montes de lixo se avolumaram por toda a cidade. Mais impressionante que as paredes de entulho erguidas, o mau cheiro exalado pela cidade nos fez sentir que algo estava muito errado com a cidade maravilhosa. A trilha da podridão conduz ao prédio da prefeitura por razões óbvias. Afinal, uma gestão pública que faz o que esta tem feito, fede! Há muito a se falar sobre a prefeitura do Rio, mas o mais importante nesse momento, e que possui equivalente em gestões municipais e estaduais de todo o país, é a forma como a população e os trabalhadores que lhes prestam serviço são tratados como lixo.

Acúmulo de lixo sob os Arcos da Lapa, cartão postal do Rio de Janeiro.

Mas por que tratar pessoas como lixo? Alan Greenspan, ex-presidente do Banco Central dos Estados Unidos, nos dá a resposta ao afirmar que uma das bases para o sucesso econômico é assegurar níveis elevados de insegurança nos trabalhadores. Quando a vida das pessoas é tão insegura que é literalmente um lixo, elas se submetem a qualquer coisa. Aceitam ganhar salários miseráveis, gastar quase tudo em transporte para o trabalho e, ainda assim, por medo do desemprego, se sujeitar à exploração daqueles que gastam em uma única refeição, mais do que ganham em um mês de trabalho para sustentar a família.

Greve dos garis – Charge do Latuff

É exatamente nesse ponto que reside a importância da greve dos garis. Apesar de toda a insegurança a que foram submetidos, do miserável salário pago, das insalubres condições de trabalho e da ameaça de desemprego, eles representam um exemplo para todos nós, pois ousaram não se submeter. Mostraram que seu serviço é relevante e primordial para nossa saúde e existência. O nosso modelo de sociedade é incapaz de existir sem pessoas que executem a limpeza urbana. E, se enxergarmos que os garis são importantes, seremos capazes de enxergar que as demais profissões também o são e que, portanto, nada justifica que alguns ganhem salários miseráveis enquanto outros acumulem rendas milionárias à custa da exploração daqueles. Uma greve com tal relevância merece que todos nos juntemos a ela. Todo apoio à luta dos garis.

Polícia Militar ciceroneando a atividade de limpeza urbana

Ah, para os que acham que estamos supervalorizando alguém que “apenas” recolhe lixo, vale um lembrete. Remover o lixo da cidade é tão importante que o prefeito utilizará escolta armada para assegurar que a limpeza seja feita. A pergunta que não quer calar é: Se a limpeza urbana é importante ao ponto de sua realização justificar uma escolta armada, então por que não se remunera melhor aos funcionários que exercem cotidianamente a atividade de gari?

Por fim, um comentário de Raphael Arah que olha para a reivindicação dos trabalhadores da limpeza como arte: “A única coisa que está fazendo sentido nesse carnaval é a greve dos garis. Os garis sacam muito de intervenção urbana e instalações sensoriais. Instalação viva onipresente que se multiplica com a interação do público! Olha que incrível! E nem precisam estar presente para a performance acontecer. Aliás, a potência da performance está justamente no invisível. Performers do invisível! Olha que máximo! Garis dando aula aberta de performance urbana!! Estão mandando muito bem na composição da paisagem da cidade. A não-arte é mais arte que a arte-arte, já dizia Kaprow. Garis, amo vocês!” Olhar para uma greve de garis como uma intervenção artística de performáticos invisíveis é simplesmente o máximo. Se seguirmos o exemplo, é possível que em meio a todo esse lixo aprendamos a ser mais poéticos!

PS: Os garis conquistaram uma vitória histórica com essa greve tendo uma parcela considerável de suas reivindicações atendidas.

PS-2: O ANDES-SN, sindicato dos professores universitários brasileiros, soltou uma bela nota de apoio a greve dos garis. Veja em https://www.facebook.com/photo.php?fbid=707956579226142&set=a.195501930471612.42328.100000354182051&type=1&theater

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 399, 08 de março de 2014.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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Nazismo à brasileira

Cena do filme “A onda” cujo tema é o nazismo em tempos atuais.

Há muitos motivos para preocupação no Brasil! Temos um governo pretensamente democrático, mas de caráter notadamente ditatorial, apoiado por uma parcela considerável da população que adota posicionamentos claramente nazifascistas em seus discursos cotidianos e postagens em redes sociais. Essa combinação é explosiva e significa que poderemos ter muita gente boa que defende e luta por um Brasil melhor sendo presa, ferida, torturada e morta sob os aplausos de muitos e a conivência de uma presidente que diz ser contra a ditadura, mas cujas ações contradizem o discurso.

Há quase uma unanimidade em criticar Hitler como uma excrescência na história da humanidade. Entretanto, o que se vê são inúmeros posicionamentos de brasileiros hoje em dia que, embora as pessoas não percebam, apresentam conteúdo nazista e, portanto, facilmente passíveis de ser associados ao ditador alemão. O nazifascismo se configura por um ultranacionalismo populista, bem aos moldes de certos parlamentares e apresentadores de televisão que fazem sucesso ao bradar e cuspir soluções simplistas que alimentam um imaginário inadequado. Para que o melhor dos mundos se instale, segundo esses iluminados oráculos do pós-modernismo, basta mandar a polícia baixar a porrada em manifestantes, pois são todos vândalos; acabar com partidos políticos, pois são todos sanguessugas; torturar e matar criminosos sob a lei de Talião (olho por olho, dente por dente) e acabar com essa história de direitos humanos. Segundo dizem, é só fazer isso que o Brasil será de primeiríssimo mundo! Mas se fizéssemos isso, tudo que conseguiríamos seria estabelecer um período histórico de pura barbárie como o foram o nazismo, as cruzadas, a inquisição e os golpes militares na América Latina. Períodos onde direitos, pessoas e vidas não valem absolutamente nada se não forem dóceis e subservientes ao poder tirânico que domina o Estado, atualmente representado pelos detentores do poder financeiro.

E qual a semelhança do Brasil de hoje com a Alemanha nazista? Como esse discurso se ajusta ao fascismo? Basicamente o nazifascismo difunde a ideia de que a esperança de um país melhor sem problemas e crimes reside em perseguir e punir os inimigos, extinguir partidos políticos, sindicatos e movimentos sociais, reduzir ou eliminar liberdades e direitos individuais (humanos) em favor do poder do Estado. É exatamente o que vivenciamos em muitos discursos de hoje, seja em rodas de bate-papo, nas mídias sociais ou nas grandes redes de rádio e televisão.

Após a mídia deturpar sistematicamente a informação pertinente às manifestações, criou-se um imaginário de que qualquer pessoa que esteja envolvida em um ato de rua é, por definição, um criminoso ou terrorista que irá destruir tudo e, portanto, que pode ser preso, levar porrada, ficar cego de um olho ou qualquer coisa que o valha. Sob tal lógica, essas pessoas perderam seus direitos quando foram às ruas (defender um Brasil melhor). Exatamente por isso, a polícia utilizou no ato contra a copa em São Paulo uma técnica de contenção de conflitos denominada Caldeirão de Hamburgo. A técnica é ilegal e criticada em âmbito internacional, entre outras coisas, porque ao fazer um cerco generalizado aos manifestantes, não discrimina quem estava ou não cometendo delitos, de forma que pessoas inocentes serão presas e incriminadas. O próprio Manual de Controle de Distúrbios Civis da Polícia Militar afirma que “A multidão não deve ser pressionada contra obstáculos físicos ou outra tropa, pois ocorrerá um confinamento de consequências violentas e indesejáveis”. É esse o país que queremos, onde as pessoas que buscam uma educação melhor, uma saúde de qualidade, que lutam por um Brasil decente e digno sejam presas e sofram agressões independente de terem cometido um crime? Instaurou-se a lógica de que não podemos mais reclamar nesse país defendendo direitos e existências, de que devemos todos ser submissos ao Grande Irmão que domina o Estado, de que podemos sofrer represálias mesmo sem cometer crime algum. Se isso não for ditadura, o que é? E para ter certeza de que poderão fazer todos esses absurdos sem sofrer críticas, o governo federal e alguns estaduais estão mudando legislações para tornar legal toda essa imoralidade aética.

Capa de DVD do filme “A onda” que mostra como o Fascismo pode surgir onde menos se espera. Clique na imagem para ver o clipe de A onda.

Costumamos olhar para o nazismo como se fosse algo do passado. Muitos julgam, inclusive, que o fato é inerente ao povo alemão e que não aconteceria em outro local ou com outros povos. Infelizmente, não há nada no nazismo que seja unicamente alemão, ele pode surgir repaginado em qualquer lugar. Vale a pena dar uma conferida no filme “A onda” que trata dessa questão. Para os que acham que de repente o nazifascismo não é tão deletério assim, é bom lembrar que, dependendo de quem controla o poder, o pacote de maldades pode voltar-se contra quaisquer alvos. Na Alemanha, as pessoas lembram basicamente dos judeus, mas foram também atingidas várias outras pessoas em razão de suas religiões como católicos e testemunhas de Jeová; profissões como jornalistas; grupos étnicos não-arianos como os negros e diversos outros imigrantes; posicionamentos políticos como comunistas e democratas; bem como os intelectuais e todos os que ousavam pensar e criticar o regime.

Felizmente algumas pessoas passaram a enxergar esses absurdos, o flerte de nosso Estado com o nazifascismo, as distorções apresentadas pela grande mídia, o ataque aos direitos sociais e humanos e começaram a ver os protestos com outros olhos. Esses perceberam que não é possível admitir tal universo de coisas e passaram a denunciar os absurdos, pois reconheceram que poderão ser as próximas vítimas. Claro que esse despertar ocorre contrariamente aos interesses das grandes corporações de comunicação. A mídia, de forma geral, e, de modo particular, aquelas figuras que ficam gritando absurdos, devem rever sua posição e atuar de forma a impedir que ideias nazistas ganhem força no Brasil. Aos que estão defendendo tais ideias e acham normal que as pessoas sejam espancadas na rua pelo braço do Estado, tenham seus direitos esquecidos e sejam criminalizadas apenas por reivindicar, é bom lembrar que muitos deles poderão vir a ser os próximos alvos. Não podemos admitir que cresça e se estabeleça um nazifascismo à brasileira!

Charge que ilustra o texto Fascismo em nome de Deus escrito por Drauzio Varella.

PS: Drauzio Varella escreveu um texto intitulado “Fascismo em nome de Deus”. Para ler o texto clique aqui!

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 398, 01 de março de 2014.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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