Entrelinhas, ideologia, manifestações, mídia, movimentos sociais, política

Apesar da TV, #VemPraRua!

Após intermináveis momentos no ônibus, seguidos de uma caminhada, finalmente entra em casa. Toma um banho, veste uma roupa limpa e prepara algo para comer. Prato à mão senta-se em frente à TV e com o controle busca os telejornais. Na noite anterior, atendera ao chamado do #VemPraRua, pintara a cara, levara cartazes e lutara por direitos. Estivera perto das câmaras de importantes canais de TV e é possível que apareça alguma imagem sua. Seria fantástico ver registrada sua participação em um evento que entrará para a história da democracia brasileira, pensa. Cobertura após cobertura, o roteiro se repete. Imagens de ruas cheias enquanto os repórteres rapidamente informam o número de pessoas e enfatizam o movimento como pacífico e apartidário. Depois destacam a existência de um pequeno número de vândalos e mostram à exaustão imagens de depredação. Patrimônio público quebrado, lojas saqueadas, incêndios, confronto com a polícia, pessoas feridas e até mortes. A destruição da cidade e da tranquilidade parece ser a essência do evento, pois inexistem explicações nos telejornais sobre as causas do movimento ou entrevistas com aqueles envolvidos com a organização do ato. Ao término dos telejornais, aliviado por não ver sua imagem em meio a tanta confusão, ele se pergunta se aquele é o ato do qual participara no dia anterior. Incrédulo, não consegue conceber como um movimento tão bonito, do qual se orgulhara tanto, se transformara, nas imagens da TV, em uma onda de destruição e terror inadequada para “pessoas de bem”.

O #VemPraRua é um movimento histórico que tem permitido a expressão de vozes as mais diversas, apresentado as inúmeras reivindicações do povo brasileiro, e levado às ruas algumas pessoas que nunca se prontificaram a efetivar qualquer luta social. Apesar de sua importância, o #VemPraRua  recebeu o tratamento padrão destinado a todos os movimentos sociais. Inicialmente foi tratado como irrisório, insignificante e desprezível. Nas palavras de alguns figurões da mídia nacional que tentavam desacreditar o ato: “Tudo isso por 20 centavos”? Ou seja, o levante da população contra a corrupção e a negação de direitos era tratado como a revolta injustificada de um grupo de pessoas que não precisava fazer aquilo. Em suma, a primeira análise midiática foi a de que o #VemPraRua, como qualquer movimento social que atenta contra o poder instituído, era absolutamente desprovido de razões que o justificassem.
Em um segundo momento, como o movimento conseguiu obter espaço no seio da população e agregou mais gente, passou a ser veiculado com considerações relativamente elogiosas, mas sempre acompanhado da ênfase na existência de grupos que se aproveitavam do momento para provocar depredação, destruição, vandalismo. Sob tal ótica midiática, o movimento, por mais belo e correto que seja, acaba por abrir espaço para elementos que só podem ser tratados em termos pejorativos. São eles os subversivos, revolucionários, arruaceiros, desordeiros, criminosos que prejudicam todo o ato daqueles que só querem o “bem”.
O que muitos de nós não percebemos é que acabamos por reproduzir o discurso da mídia. Ao nos reunirmos para falar sobre o #VemPraRua seguimos a mesma lógica, pois falamos do número de pessoas presentes nos atos, da necessidade do ato ser pacífico e apartidário, da importância de combater os vândalos infiltrados e a destruição resultante, dos constantes confrontos com a PM e de que seremos nós a pagar pelos danos causados. Sob esta batuta, esquecemo-nos de discutir as causas do movimento, as razões de estarmos na rua em tão grande número a bradar por direitos e dignidades obscureceram a relevância das reivindicações e a importância de tudo o que podemos conquistar. Ou seja, ficamos nós também, apesar da imensa relevância do que está ocorrendo, reproduzindo um discurso vazio que criminaliza aqueles que lutam, sem estar nas esferas institucionalizadas de poder, por um Brasil melhor.
A mídia, que deveria dar voz a quem luta por sobrevivência, vida digna, justiça, direitos e pasmem o direito de ter direitos, deturpa todo o processo. Ao apresentar intencionalmente um olhar focado na destruição, provoca medo e gera uma imagem criminalizada do movimento. Para os que veem o #VemPraRua, ou outros movimentos sociais, apenas pela TV, e mesmo para muitos daqueles que participaram dos eventos sem a exata compreensão do que a luta por direitos na rua e não nos tribunais significa, fica a sensação de medo.  E a intenção da mídia a serviço do capital é exatamente esta! Quem está com medo não sai de casa. Quem não sai de casa não luta por direitos. Quem não luta por direitos não muda o mundo. Assim, nós, seguros em nossa residência e na frente da televisão, nos imaginamos pessoas de bem, enquanto um bando de criminosos está a destruir nossa cidade e nosso país pelo simples prazer de fazê-lo. Não poderíamos estar mais equivocados. Os que estão na rua sendo taxados de criminosos pela mídia, são os inconformados com os desmandos, a corrupção, os ônibus lotados, os hospitais sem leitos e médicos, as escolas caindo aos pedaços e os salários aviltantes e indignos. Estes são, portanto, apesar das críticas, os heróis de nosso país.
Não podemos deixar que o Brasil continue como está. É inadmissível tanta corrupção, tantos impostos, tão poucos direitos e um país inteiramente voltado para atender o interesse de poucos. Não podemos aceitar que nos tornem expectadores do movimento em que somos protagonistas. Devemos sair da frente da televisão, devemos ir às ruas, pois ainda há muito que conquistar. Não desista! No próximo chamado, apesar da TV, #VemPraRua!

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 355, 06 de julho de 2013.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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Um comentário sobre “Apesar da TV, #VemPraRua!

  1. S agora parei pra ler e refletir! E, realmente, o que me angustia mais saber que muita gente ainda se prende a mdia e a esses telejornais de “merda”! ridculo como ela tenta abafar a real situao, e a populao no v porque falta conhecimento, a maioria que tem acesso a essa porcaria que transmitida na TV gente de pouca instruo, ento o que a gente faz? Porque a depois vem um burgueisinho de merda dizer que quem encabeou o movimento #vem pra rua, so as pessoas de uma “nvel social” mais instrudo: os universitrios!

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