Entrelinhas, ideologia, manifestações, mídia, movimentos sociais, política

#VemPraRua

Macapá, a exemplo de outros estados, atendeu o chamado do #VemPraRua. Pessoas com as mais diversas crenças, ideologias e razões de protesto transformadas de uma hora para outra em manifestantes. Empunharam cartazes, pintaram o próprio corpo, gritaram seus desejos. E os gritos ecoaram. A onda de manifestações pressiona governantes por todo o Brasil. O governo federal resolveu se mexer e adotou medidas que podem ser utilizadas para a redução das tarifas do transporte urbano.

O movimento por todo o Brasil e no Amapá está lindo, milhares de manifestantes nas ruas. Histórico, dizem alguns. E, realmente, assim tem sido! Nunca se viu neste Amapá, movimento que agregasse tanta gente reivindicando direitos e se autodenominando manifestante. Este termo foi sempre utilizado para a vanguarda, em geral, vinculada a partidos políticos ou a movimentos sociais organizados, que milita cotidianamente defendo e reivindicando seus ideais. Aqueles de nós que fomos às ruas, nos vimos manifestantes e ficamos com a maravilhosa sensação de ter participado de algo grandioso, muito além de cada um. Nos demos conta que a reclamação não avança se ficarmos falando apenas com as pessoas que nos são próximas ou através das redes sociais. É preciso se movimentar e lutar pelos direitos. Foi isso que fizemos. Mas fica uma pergunta: Saímos da frente dos computadores: E agora?

Duas grandes visões emergem após os eventos. A primeira compara o #VemPraRua com a Primavera Árabe (onda revolucionária de manifestações que desde 2010 vem ocorrendo no Oriente Médio e norte da África). A outra afirma que o ato foi uma grande festa que não vai resultar em nada, salvo alguns centavos no valor do transporte urbano. Para além destas visões maniqueístas, é preciso pensar à frente. Ao fazermos isto, emergem questionamentos. Escolhemos as estratégias corretas? Estamos fazendo com que o movimento ganhe força e nos dê mais força para transformar o país? Vejamos:  Optamos por não usar carro de som, impedimos a expressão de partidos políticos, decidimos reivindicar tudo e qualquer coisa, inclusive o uso de cerol na linha. Sim, no ato tinha gente defendo isto! Este é o caminho certo?

Um movimento como este não surge do nada. Não foi a rede social que construiu o #VemPraRua, embora o tenha ampliado para muito além de sua origem. Pessoas vinculadas ao Movimento Passe Livre e a outros movimentos sociais, a sindicatos como o dos rodoviários e a partidos políticos como PSTU e PSOL lutam há anos, organizando atos e movimentos pelo passe livre e redução das tarifas do transporte. Manifestantes que cotidianamente se colocam também contra a corrupção, as mudanças na legislação (PEC 37, PEC 111…) e tantas outras coisas que prejudicam os brasileiros. A lista de coisas que merecem defesa é enorme e estas pessoas lutam cotidianamente por nossos direitos. Foram as faíscas destas lutas que, em determinado momento, as redes sociais, como gasolina, transformaram em fogo. Portanto, retirar estes lutadores do processo, impedí-los de mostrar suas filiações é um ato simplesmente absurdo. O movimento não é apartidário, é suprapartidário, está para além dos partidos e isso não significa impedir a participação dos partidos, mas reconhecer que as diferentes cores partidárias podem e devem participar pelo fato de,  historicamente lutarem pelas bandeiras que ora o #VemPraRua levanta.

Além disso, a ausência de carro-som, impede a possibilidade de aproximar os discursos. Cada um chega com sua ideia, seu pensamento, mostra sua indignação em faixas e cartazes e depois vai embora. Perder a chance do debate em momentos como estes, é matar o que de mais belo este movimento tem no seu nascedouro. Sem que vislumbremos e discutamos as diferentes vozes trazidas ao evento e sem estipular as conexões do mar de reivindicações que se apresenta com a política de exploração do capital é assegurar que o movimento permita defender tudo e, por consequência, absolutamente nada. É transformar um levante do povo brasileiro contra os absurdos que vivemos em uma grande festa que não fomenta a conscientização e que serão apenas histórias de nosso passado quando formos mais velhos.

Não creio que possamos comparar nosso movimento com a Primavera Árabe como querem alguns, tampouco é um oba-oba inconsequente como defendem outros. É possível dizer que entramos em nossa Primavera, mas faltam as flores da conscientização. Para que desabrochem, é preciso que ouçamos as várias vozes, que respeitemos os lutadores vanguardistas que historicamente estão envolvidos no processo, sejam de movimentos sociais, sindicatos ou partidos, que organizemos os atos de forma a municiar as pessoas com informações (intervenções no carro de som, panfletos, cartazes…). Se fizermos isso, as flores da consciência vão aparecer em todo seu esplendor e, quando florescerem… Ah! Quando florescerem, o Brasil será transformado por nossa retumbante primavera.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, nº 363, 22 de junho de 2013.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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