democracia, ideologia, política

Bolsonaro, a palavra convence, o exemplo arrasta!

O soldado, recém-saído do treinamento, chega ao campo de batalha e se defronta com os horrores da guerra. Bombas explodem uma após outra, a munição inimiga risca o ar. Mortos e feridos por todos os lados, gemidos e gritos de socorro entrecortados por disparos. A missão, conquistar a posição elevada, ainda não foi cumprida. O superior tomba inerte ao seu lado. Há uma ordem hierárquica a ser obedecida, mas aquele que deveria assumir a liderança está catatônico, não sabe o que ordenar, o que fazer. Outro soldado assume o controle da situação. Lembra a cada um seu papel, delimita posições, define tarefas, comanda a situação. O risco é evidente, a morte, quase certa, mas o soldado que lidera, dando o exemplo, é o primeiro a avançar pelo terreno. Seguindo o exemplo, disparam todos rumo ao objetivo. Muitos morrem, mas a missão é cumprida. O soldado, pensando no que acabara de ocorrer, finalmente compreende a frase sobre liderança que tanto ouvira em seu treinamento: “A palavra convence, o exemplo arrasta!”

Há inúmeras formas de se compreender um líder. Alguns elementos podem ser destacados na tentativa de alcançar essa compreensão. Liderar exige, no mínimo, que haja relação grupal e de influência. Não é possível a condição ontológica do líder sem a existência de um grupo liderado, de pelo menos uma pessoa que se deixe influir. Ao atuar, o líder deve buscar saber o que precisam e esperam seus liderados; encontrar estratégias, recursos e mecanismos que permitam solucionar as demandas; e agir permanentemente no interesse daqueles que lhe concederam a condição de líder. Em situações difíceis, espera-se que seja capaz de escolher um rumo, explicar e convencer seus liderados de que aquela é a melhor escolha e, então, agir de forma coesa e consistente para que se alcancem os objetivos almejados. É, portanto, alguém em quem se confia, pois esclarece, decide e age com coerência e correção.  

Em meio à pandemia do Covid-19, duas preocupações estão presentes nas cabeças daqueles que devem ser os líderes de suas nações, os chefes de Estado, e de seu corpo de auxiliares: minimizar os impactos que a doença pode causar em termos de saturação do sistema de saúde e das mortes decorrentes; construir condições de reduzir a recessão econômica que advirá. Esses dois objetivos não podem ser tratados em separado. Nos estudos e modelagens matemáticas dos vários governos, quaisquer que sejam as estratégias adotadas, não se consegue evitar a totalidade de um problema ou de outro. Colocando todos em isolamento social horizontal (todos devem evitar o contato e não apenas grupos específicos), reduz-se o número de mortes, bem como o colapso do sistema de saúde, e há recessão econômica com redução de vários pontos do PIB. Pondo em isolamento vertical aqueles em condição de risco e deixando infectarem-se todos os demais, a economia e o PIB também sofrem impactos significativos, talvez menores, mas explodem os números de casos e de mortes.

Os cientistas têm realizado vários estudos e projeções, em todos, mostra-se que o caminho a causar menos impactos negativos é o do distanciamento social. O isolamento vertical não consegue sequer se estabelecer como alternativa factível. Embora presidentes e primeiros-ministros sejam conhecedores da recessão econômica que se seguirá, exatamente por conta dos estudos realizados, todos os países estão adotando o isolamento horizontal. Líderes de nações importantes como Boris Johnson, primeiro-ministro inglês, e Trump, presidente dos Estados Unidos, mudaram suas posições e começaram a adotar a política que a OMS determina e o conjunto das outras nações tem seguido.

Países que aventaram a possibilidade de seguir pelo caminho de minimizar a doença e utilizar isolamento vertical foram abandonando a ideia, na exata medida em que os números de contágios e mortes começaram a crescer vertiginosamente. O prefeito de Milão, Giuseppe Sala, que apoiou a campanha “Milão não para”, recentemente veio a público pedir desculpas, reconhecer que sua equivocada estratégia de manter a cidade funcionando foi responsável por muito sofrimento e morte. A ciência e o choque de realidade imposta pelo vírus determinaram o único caminho sensato a ser seguido.

Em meio ao caos do Covid-19, Bolsonaro é o último chefe de nação a insistir em uma postura negacionista, a minimizar a pandemia. Afirma ser apenas uma gripezinha, chama de covarde quem se salvaguarda, atua para desmontar as ações de prefeitos e governadores, expõe a população a riscos e, entre outras ações reprováveis, propõe uma campanha publicitária, paga com dinheiro do contribuinte, para que as pessoas se exponham ao vírus. Felizmente a campanha foi impedida pela justiça, demonstrando que nossas instituições democráticas ainda são capazes de alguma reação aos descalabros.

As posturas e proposições do presidente colidem com as de cientistas e médicos pelo mundo, chocam-se também com o que a realidade pragmaticamente tem demonstrado. As ações dos cientistas, na linha de frente para descobrir e implantar soluções, estão sendo guiadas por pesquisas, estatísticas e modelagens matemáticas. Se não é possível falar em certezas absolutas sobre o conhecimento produzido, apesar desse arsenal, há minimamente uma base assentada nas melhores práticas que a ciência nos deu para construir um caminho a trilhar.

Os estudos de impacto da Covid-19 no Brasil fizeram com que o ministro da Saúde, Mandetta, alertasse o presidente que, a ocorrer os cenários mais intensos, o número de mortes seria colossal. Ao alertá-lo, perguntou: “Estamos preparados para o pior cenário, com caminhões do Exército transportando corpos pela rua? Com transmissão pela internet?” Após o questionamento, Mandetta apelou que o presidente parasse de minimizar o contágio com a Covid-19 e fizesse um pacto com governadores, prefeitos e a iniciativa privada para unificar padrões de ação sob a lógica dos conhecimentos e resultados que a ciência tem fornecido.

Em suma, o ministro pediu que Bolsonaro se comportasse como um líder, que escolhesse um rumo, explicasse aos demais as razões desta escolha e agisse de forma a agregar todos em torno de objetivos precisos com ações coletivas, sincronizadas e coerentes. Mas não é o que o presidente tem feito. Pode-se dizer que Bolsonaro tem outra estratégia, deixar que brasileiros morram para salvar a economia de seu governo e, consequentemente do país. Mas, por mais que haja um rumo definido, o presidente não veio a público explicar sua estratégia ao ponto de convencer os brasileiros. Limitou-se a dar showzinhos em falas alucinadas, na frente do Alvorada ou em cadeia nacional, de que tinha que ser do jeito dele. Pior, não coordenou suas ideias e propostas com mais ninguém, nem de fora, nem (pasmem) de dentro do governo! Se por um lado libera recursos para enfrentar a crise, de outro fala em deixar morrer para salvar a economia, demonstrando estar mais preocupado com a economia do que com as pessoas. Se por um lado deixa que o ministro da Saúde trabalhe segundo as recomendações da OMS, por outro atrapalha as ações de seu próprio governo, vai a público minimizar a Covid-19, critica as ações de seu ministro e, dentre outras atrocidades, apoia as carreatas da morte que conclamam as pessoas a sair do isolamento social horizontal.

O presidente do país deve ser um líder e, para tanto, deve agir como tal. Um líder, em momentos difíceis, deve pensar as alternativas disponíveis, definir com precisão (mesmo em meio às incertezas) um caminho a seguir e estruturar a política que permita avançar na direção definida. Em meio a decisões e ações, como no momento atual, espera-se que consiga ser humano e cuide das pessoas na crise sanitária que ora se estabelece; que seja um gestor, e assegure o funcionamento do país na crise econômica instalada e na que se seguirá; que se preocupe com o país e não com as eleições de 2022, as quais parece já estar disputando. Não é o que Bolsonaro está fazendo, ele é o chefe da nação, mas não dá o exemplo, não lidera. Há tantas dúvidas, inclusive na cabeça dele, que recentemente teve que explicitar: “O presidente sou eu, pô!” Sim, Bolsonaro é o presidente, mas não é o líder! Pelo visto, ele não aprendeu o que Exército Brasileiro tentou ensiná-lo. Não custa repetir: Bolsonaro, a palavra convence, o exemplo arrasta!

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8 comentários sobre “Bolsonaro, a palavra convence, o exemplo arrasta!

  1. Gisele Franca disse:

    O NOSSO PR luta SOZINHO, com o apoio do povo, seus eleitores, por um Brasil livre de ideologias e corrupção. Ele LIDERA uma equipe de ministros como nunca tivemos. Sem acordos espúrios! Mas parece que a maldita tolerância de alguns brasileiros à corrupção é um eterno desafio! Mas VENCEREMOS! Deus é por nós! DEUS ACIMA DE TUDO!

    • Gisele, como você, sou avesso à corrupção, ponto. Dito isso, comecemos retificando um equívoco. Sua posição é ideológica, portanto, é um contrassenso você afirmar ideologicamente (a redundância foi intencional) que o Brasil se verá livre de ideologias. O presidente está, de fato, cada vez mais solitário. Ao enxergar conspirações e inimigos por todos os lados e assumir posições absolutamente estapafúrdias, ele está conseguindo reduzir a capilaridade que ele possuía em vários grupos. Mesmo nas forças armadas, a sanha negacionista dele está implodindo sua aceitação. Agora, um presidente cheio de idas e vindas, que aponta em uma direção e vai em outra, que concorda com seu subordinado para em seguida desacreditá-lo na frente da mídia, que investe em uma coisa e toma ações para desfazer o que foi feito, pode ser muitas coisas, mas com certeza, líder não é! Então, reitero que Bolsonaro nunca aprendeu o sentido da expressão “a palavra convence, o exemplo arrasta!”

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