Conhecimento, democracia, ideologia, política, psicologia

Bolsonaro, coronavírus e o programa espacial – parte 1

Três, dois, um… decolar! Acesos os motores, a Challenger avança rumo ao céu. É a partida de mais uma aeronave no glorioso histórico das viagens ao espaço. Viagens em que astronautas americanos e cosmonautas russos galgaram, sob acirrada disputa, o sonho humano de conquistar as estrelas. Olhos e câmeras registram a ascensão da nave por exatos 73 segundos, até que… labaredas reluzem no ar, chamas consomem a Challenger, rastros de fogo e fumaça imprimem, no contraste com o azul do céu, os derradeiros sinais do que outrora fora uma espaçonave. Milhões de pessoas testemunham ao vivo, o pior acidente das viagens espaciais. Sob a explosão da Challenger, explode também a pergunta: por quê?

O acidente da Challenger, que fez estacionar o programa espacial americano, é um exemplo clássico de pensamento de grupo. Embora o nome pareça indicar uma coletividade que se organiza de forma a obter os melhores resultados, pensamento de grupo é algo que se tenta evitar. No caso da espaçonave, os estudos mostraram que a explosão ocorreu por pensamento de grupo e pela falha nos anéis de borracha que fazem a vedação no tanque de combustível. Sim, uma pequena peça de borracha e um mecanismo psicológico foram os responsáveis pela explosão da nave, a morte dos astronautas e por imensos estragos no programa espacial.

A equipe responsável pela Challenger possuía dúvidas quanto ao funcionamento dos anéis de vedação naquela ocasião e deveria ter cancelado o voo. A NASA (agência espacial americana), para evitar acidentes, tem por princípio não realizar qualquer lançamento caso haja dúvidas quanto à segurança. Sendo esse o princípio, por que a Challenger foi lançada quando havia incertezas? Segundo Irving Janis, professor de Psicologia de Yale, o grupo de especialistas foi afetado pelo pensamento de grupo, uma busca por coesão grupal tão intensa que suprime qualquer fala ou posicionamento dissonante entre os integrantes. Grupos com figuras das quais não se pode discordar, com alta coesão grupal e pressionados de fora em sua tomada de decisão, costumam enveredar por pensamento de grupo.

Sintomas do pensamento de grupo envolvem assumir riscos extremos; ignorar informações que contradigam as crenças do grupo; crer que seus valores são superiores aos dos demais e assumir que os fins justificam os meios, ignorando a ética e a moral em suas decisões; membros externos são vistos de forma estereotipada ou como inimigos a serem eliminados, e com os quais não há negociação possível; o grupo é levado a pensar e agir em uníssono, com os membros internos sendo pressionados para que não haja discordâncias; os integrantes se autocensuram para que suas dúvidas e divergências não sejam percebidas e criticadas; há uma falsa ideia de que as decisões são unânimes, pois impera a censura e a autocensura; e a presença dos autodesignados vigilantes mentais que protegem o grupo de qualquer informação problemática ou contrária às posições do grupo.

Em suma, os membros do grupo se acham acima de tudo e de todos, de modo que qualquer divergente, interno ou externo, é um inimigo a ser destruído, e qualquer divergência é assumida como empecilho. Assim, as ideias passam a ser conservadoras, pois toda informação nova ou oriunda de outra fonte é perigosa e precisa ser recusada. Sob essa lógica, há pouca busca por informação, pois o grupo se basta; não se consideram alternativas; a análise das opções é tendenciosa, enviesada às posturas do grupo; há incapacidade de reconhecer erros e, portanto, de fazer ajustes; e não se elaboram planos de contingência, uma vez que, sendo perfeitos, estão sempre certos. O resultado: baixa probabilidade de que as ações sejam bem sucedidas. Sendo mais contundente: pavimenta-se o caminho para o desastre.

O caminho para o desastre sob a presidência de Bolsonaro “no que tange ao coronavírus” está mais que bem pavimentado. Por quê? Porque desde o início da sua organização, o agrupamento que dá sustentação ao capitão, como no caso da Challenger, organiza-se sob uma lógica que constrói o pensamento de grupo. Nascido em uma composição que alinhavou antipetismo, liberalismo econômico, neopentecostalismo fundamentalista, comportamento conservador, patriotismo, milícia e crítica à corrupção, o bolsonarismo assentou-se na lógica de que seus membros eram os ungidos para salvar o Brasil dos males que o afligiam. Fizeram uma cruzada (santa, segundo alguns de seus integrantes) contra o PT para retirá-lo do governo e para a eleição de Bolsonaro. Cruzada que, alimentada à custa de mentiras (sob o eufemismo fake news) e baseada em sistemas automatizados nas redes sociais, detratava todo e qualquer oponente, enquanto hiperestimava os feitos e competências do capitão.   

Qualquer um que tenha visto debates políticos recentes na internet ou tenha vislumbrado os grupos de WhatsApp bolsonaristas se deparou com mensagens repletas de bandeiras do Brasil; autoalegações de patriotismo e nacionalismo; expressões que revelam a autopercepção de que são os escolhidos e ungidos a combater e se possível eliminar (morte física) os opositores; ataques ferozes a todo aquele que discorda do grupo ou do presidente; exaltação do capitão como o líder que se sacrificou pelos brasileiros, o mito que está lutando sozinho contra o sistema; e a apresentação ininterrupta de inimigos que precisam ser enfrentados e derrotados, afinal sem superinimigo, não há super-herói!

Então, para dar sustentação ao mito do super-herói que chegara para salvar o Brasil de todos os males, várias foram as pessoas e entidades inseridas como inimigos do grupo bolsonarista e merecedores de ataques. Primeiro aqueles que lhe eram oposição direta como petistas (apelidados de petralhas), militantes do campo progressista (esquerdistas/comunistas) e ativistas de direitos humanos; depois as entidades cuja atuação de alguma forma pode limitar as ações totalitárias de Bolsonaro como o Legislativo (Congresso), o Judiciário (Supremo Tribunal Federal) e a imprensa livre (qualquer jornalismo que não se atenha a bajular o presidente); vieram então aqueles que eram próximos, mas que discordaram em algum momento como Alexandre Frota, Lobão, Janaína Paschoal, Kim Kataguiri e o MBL, bem como os governadores que se opuseram durante a pandemia, entre os quais, Caiado, Dória e Witzel; e não poderiam faltar as organizações internacionais, todas taxadas de anti-Bolsonaro e “comunistas” como a Organização Panamericana de Saúde (OPAS), Organização Munidal da Saúde (OMS) e mesmo a Organização das Nações Unidas (ONU). É realmente impressionante como a lista de opositores ao mito (leia-se inimigos mortais ou “comunistas” na visão bolsonarista) só cresce. Todos estes, colocados no rol de inimigos, receberam ataques raivosos e mentirosos de forma virulenta nos espaços onde atua a claque bolsonarista.

Mas, se para fora o ataque é evidente e raivoso, internamente aos grupos, outro tipo de política é adotada. Os vigilantes mentais protegem o grupo e o presidente de toda informação contrária às ações e decisões do governo. Toda e qualquer notícia ou informação apresentada contra o mito é seguida de um bombardeio de mensagens e imagens (normalmente distorcidas, mentirosas e ofensivas) contra a fonte, seja ela organização, empresa da mídia ou pessoa. A ideia central dos ataques é desacreditar a fonte para que ela não seja vista como merecedora de qualquer confiança. A destruição da imagem da fonte é seguida de outro bombardeio de imagens e mensagens (também distorcidas e mentirosas, mas agora elogiosas) à figura de Bolsonaro, suas falas e ações. O capitão é alçado à condição da divindade, o mito que não possui máculas, que não erra, aquele que, como Cristo, se sacrifica por todos. Esse, portanto, é aquele a quem se deve acreditar, defender, exaltar, glorificar.

A vigilância, contudo, é tão impiedosa que acaba por se voltar contra os interesses do próprio grupo. Os membros internos que apresentam argumentos contrários ou que apenas levantam suas inquietações com relação a algum elemento do bolsonarismo é prontamente coagido. Uma enxurrada de críticas despenca sobre o argumentador e a insistência é prontamente seguida de questionamentos de sua fidelidade e de alegações de que teria virado “comunista” (considerado o inimigo-mor pelos bolsonaristas). A insistência em pensar diferente faz com que o discordante seja eivado de críticas, defenestrado do grupo e, obviamente, seja atacado com o desmonte de sua imagem. Além disso, o defenestrado perde a condição messiânica que sustenta a crença na moralidade e na justeza da causa que é inerente ao grupo. Por conta dessas pressões objetivas e subjetivas, a maioria dos que têm dúvidas ou dissidências, mesmo que pontuais, se autocensura e não expõe suas posições. O receio de ser “comunista”, de ser defenestrado e de ser atacado faz com que apenas as posições sintonizadas ao grupamento sejam apresentadas, construindo a ilusão de conformidade e unanimidade. Esse conjunto de fatores ajuda a alimentar o pensamento de grupo que ocorre no interior dos aglomerados bolsonaristas, sendo mais evidente nos grupos de WhatsApp.

A compreensão do que é o pensamento de grupo está explicitado e foi possível ter um vislumbre de como se desenrola nos grupos bolsonaristas, mas ainda falta relacionar estes elementos com o coronavírus e retornar ao programa espacial. Fica o convite para darmos seguimento a estes elementos na parte 2 deste texto. Até lá!

Clique aqui para ler a parte 2

Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s