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Outras vozes

A voz e seu dono formam um casal. Ela, feminina e dedicada a um dono só. Ele, masculino, poderoso e entregue a diversas amantes. A voz gosta do dono e juntos estabelecem uma relação “de entrega e de abandono/ de guerra e paz, contras e prós”. Permanecem assim por certo tempo e comemoram bodas. Estas, de acetato, material usado na confecção dos antigos LP (long play),  precursores dos atuais CD (compact disc), como cabe a uma interação onde a voz se faz presente e será prensada na forma de disco “que gira para todos nós”. Sendo a voz de um dono e tendo  apenas seu dó, ela sofre com o fato dele ter tudo e de, sabidamente, andar “com outras doses”. Em meio ao desalento, ela sonha “se desatar de tantos nós/ nas cordas de outra garganta”. Chega, inclusive, “a sonhar amantes/ e, rouca, regalar os seus bemóis/ em troca de alguns brilhantes”. Decidida, abandona seu dono e, estabelecendo outro contrato, vai “morar com novo algoz”. O dono, então, vai perdendo a voz que, infiel, trocara de traqueia. Sobram-lhe outras perdas que, obviamente, não aceita. Assim, do auto de seu poder, o dono ameaça: “Minha voz, se vós não sereis minha/Vós não sereis de mais ninguém”.

Este romance entre a voz e seu dono está narrado na música “A voz do dono e o dono da voz”. Lançada em 1981 no disco Almanaque de Chico Buarque, a música, mais que uma brincadeira poética, mostra a conflituosa relação entre Chico e sua gravadora de então. Representa o dilema, daquele que tem apenas sua força de trabalho e precisa enfrentar  quem tem o capital. A distinção de poder entre os envolvidos fica evidente nas palavras do poeta, quando diz que ‘”Deus deu ao dono os dentes, Deus deu ao dono as nozes/Às vozes Deus só deu seu dó”. Portanto, a música remete ao confronto entre o trabalhador e o proprietário, entre aquele que tem somente a si, seus atributos, sua força de trabalho e o dono dos meios de produção.

A superação desta diferença, não ocorrerá apenas pela mudança para outro local, em ir trabalhar para outro dono. Chico ironiza essa concepção e diz claramente que ao se entregar a outro, a voz apenas “foi morar com novo algoz”. A transformação deste quadro de exploração e confronto entre forças absolutamente desiguais demanda alterações sensíveis na forma como pensamos e nos posicionamos no dia-a-dia. Esta alteração não é tarefa fácil, pois os processos ideológicos vigentes reproduzem os interesses do capital. Os meios de comunicação exercem poderosa influência sobre o modo como pensamos e tomamos nossas decisões. Portanto, funcionam como armas importantíssimas na manutenção desta conformação ideológica que se apresenta em nossos ideais, posicionamentos, desejos, medos, ações e inações.
A partir de seu imenso poder social, os meios de comunicação de massa, principalmente rádio e televisão, são capazes de difundir hábitos, preconceitos, opiniões e, portanto, de interferir decisivamente no funcionamento de instituições políticas e sociais. De outro lado, aqueles que não partilham do pensamento único, lastreado nos ideais da exploração de mais valia  veiculados pelos meios de comunicação de massa ligados ao capital, são claramente colocados fora do canal de divugação central e suas ideias são execradas como absurdas e, muitas vezes, insanas. Rádio e televisão são concessões públicas que têm sido sistematicamente entregues aos grandes grupos econômicos. Estes, portanto, são beneficiados com o poder de difundir suas próprias ideias e influir nos processos de formação de opiniões, costumes sociais e tomadas de decisão. Enquanto isso, os demais grupos e suas ideias são massacrados e criminalizados. O pensar diferente é apresentado como algo marginal e perigoso que merece ser controlado, se necessário, com o uso da força coercitiva do estado.
Emerge deste quadro uma única voz, forte, dominante, hegemônica. Mas a sociedade possui outras vozes que, fragilizadas, tornam-se quase inaudíveis. Espaços contra-hegemônicos, devem ser construídos para que estas sejam ouvidas e as ideias que defendem sejam minimamente difundidas e discutidas. É necessário mostrar a polissemia de nossa sociedade e dar vez a estas vozes que sonham em desatar nós, regalar bemóis e enfrentar as ameaças do dono da voz. Com o objetivo de conduzir entrevistas e apresentar notícias a partir de uma visão diversa daquela que ocorre na grande mídia e que majoritariamente se posiciona a favor do capital e contra os trabalhadores, estreia dia 29 de abril pela Rádio Universitária  (96,9 FM) o programa Outras Vozes. Produzido e apresentado por Arley Costa e Paulo Cambraia, ambos docentes da Univesidade Federal do Amapá, o programa irá ao ar todas as segundas-feiras a partir das 15 horas. O título do programa deriva da proposta de dar voz ao conjunto dos trabalhadores, às minorias, aos grupos sociais cujas ideias e interesses entram em choque com os interesses do capital.
Aqueles que quiserem ouvir o programa Outras Vozes podem sintonizar a 96,9FM no rádio ou no site da UNIFAP ((http://www.uni-fap.br/?pages=radio).

Arley José Silveira da Costa
Texto publicado no jornal Tribuna Amapaense (Ano VII, Nº 345, Macapá-AP, 27 de abril a 3 de maio de 2013) e disponibilizado em 26 de abril de 2013 no site http://tribunaamapaense.blogspot.com.br/2013/04/outras-vozes-voz-e-seu-dono-formam-um.html?q=arley.

Outros artigos da coluna podem ser acessados em Entrelinhas.

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