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Em tempos de covid-19, sacrifique-se o covard-38!

Chamas explodem no ar, a boca do vulcão expele magma reluzente e flamejante, porções de lava principiam a escorrer do alto da montanha rumo às pessoas que habitam no sopé. Aterrorizados, os moradores da ilha perguntam-se sobre os erros e pecados que teriam provocado a ira dos deuses. Oferendas são lançadas à cratera, mas as labaredas permanecem incólumes. Angustiados e temerosos, decidem pelo sacrifício humano. Uma pessoa, escolhida pelo líder para o ofício sagrado, é entregue às chamas para aplacar a fúria divina. Graças ao sacrificado, os desmandos são expiados, os deuses se acalmam, o desastre natural se esvai, todos respiram aliviados e a vida cotidiana retorna à normalidade.

Em tempos de covid-19 estamos todos sendo chamados ao sacrifício, a abrir mão dos prazeres da vida cotidiana e ficarmos enclausurados em nossas residências, limitados em deslocamentos e nas atividades com as quais podemos nos envolver. Tudo para que o coronavírus não se alastre rapidamente, trazendo caos ao sistema de saúde e, consequentemente, ampliando o número de mortes.

É bom que fique evidente que na crise não morrerão apenas os acometidos pelo novo vírus. Com os leitos totalmente ocupados em hospitais entupidos, morrerão também as pessoas que tiverem enfarto, acidente vascular, crise respiratória, se envolverem em acidente de automóvel, sofrerem corte profundo, que forem atropeladas, baleadas… Sim, independente das falas inconsequentes de alguns e das carreatas da morte clamando que as pessoas venham às ruas, deixar o vírus se espalhar significa condenar à morte também as pessoas não infectadas pelo coronavírus e que, em condições normais, seriam salvas. Em tempos de covid-19, as pessoas não encontrarão um leito de hospital vazio, independente do problema de saúde. Ou seja, para o bem de todos, o sistema de saúde simplesmente não pode entrar em colapso!

Todos estarão em risco, não apenas os infectados com o coronavírus! Isso é o que defendem as autoridades em epidemiologia de quase todos os países, presidentes e primeiro-ministros, governadores e prefeitos, a Organização Mundial da Saúde e, inclusive, o ministro da Saúde no Brasil. Por isso, mundo afora se há padronizado uma política que busca, de todas as formas, restringir a rápida contaminação. O distanciamento social, as quarentenas e as interdições aliadas à ampla testagem e ao controle dos infectados asseguram uma difusão mais lenta e gradual da doença, permitindo que o sistema dê conta dos casos graves de covid-19 e também daqueles com outras morbidades que necessitarem de cuidados intensivos.  

Avesso ao mundo, Bolsonaro critica as práticas de saúde difundidas e que têm assegurado os melhores resultados sob a pandemia. Discordando veemente do seu ministro da Saúde e das políticas que ele mesmo assinou, insiste que as pessoas devem voltar imediatamente à rotina e deixar-se infectar. O presidente quer que deixemos morrer parentes e amigos queridos aos montes em um sistema colapsado que não conseguirá atender nem aos contaminados pelo vírus, nem aos que buscarem socorro por outras razões.

Bolsonaro defende que sigamos ao trabalho, enquanto pilhas de corpos e caixões se acumulam diante de nossos olhos, a exemplo do que vem ocorrendo na Itália. Isso é ignominioso! A proposta é tão esdrúxula, que Bill Gates, magnata da informática, afirmou que não podemos “simplesmente retomar a economia e ignorar a pilha de cadáveres ao lado”. Falta humanidade na proposta de Bolsonaro, para dizer o mínimo. Para minimizar a podridão fétida de sua horrenda proposição, lembra de que haverá recessão, quebradeira de empresas, desemprego, fome e mortes na onda econômica negativa que se seguirá. Aviso inócuo! Bolsonaro fala o que é óbvio para todos. Estão todos sabendo disso e já estão pensando em como agir com o descalabro econômico futuro. Mas isso não significa, nem pode significar, entregar a população à morte nem sacrificar e enterrar, junto com os cadáveres, o que há de humano em nós.

O presidente do país deve ser um líder. Liderança se expressa em ações. Assim, espera-se de um líder em momentos como esse, que seja humano e cuide das pessoas na crise sanitária; que seja gestor, e assegure o funcionamento do país na crise econômica instalada e na que se seguirá; que se preocupe com o país e não com as eleições de 2022, as quais Bolsonaro parece já estar disputando. Cuidar das pessoas é assumir as melhores práticas sanitárias possíveis, aquelas que têm se mostrado frutíferas ao redor do globo (Sim, a terra não é plana!) e implantá-las de modo a reduzir, ao mínimo, mortes e sofrimento. Ser um gestor na crise instalada, é assegurar a sobrevivência dos trabalhadores informais e dos desempregados, é não permitir que um funcionário da iniciativa privada fique desempregado ou meses sem receber, é não cortar o salário dos servidores públicos, é assegurar a condição de existência de micro, pequenas e médias empresas, é descobrir que nessa hora os privilegiados, os super-ricos, podem e devem ser chamados a colaborar com uma sociedade que tanto os beneficia. Ser gestor da crise econômica futura é já começar a organizar o país para o pandemônio que se seguirá, pensando em abrir frentes de trabalho, assegurar renda mínima para os que estarão privados de ofertas de trabalho e da possibilidade de comer, diminuir as desigualdades sociais, ampliar o Estado como mecanismo garantidor de condições de sobrevivência, gerador de empregos e potencializador da economia.

Ser líder não pode significar, como nos sacrifícios de momentos passados, apenas escolher quem serão os lançados à cratera do vulcão. Bolsonaro está ensandecido, o Deus-Mercado está exigindo sacrifícios e ele busca de todas as formas atendê-lo. Antes da crise do covid-19 começar, buscava, junto com Paulo Guedes, ofertar recursos oriundos do corte dos ganhos e vencimentos dos trabalhadores e aposentados, dos servidores públicos e dos trabalhadores da iniciativa privada, dos pequenos empresários, dos pobres e da classe média. Agora que a pandemia se instalou, quer aproveitar a crise para aprofundar esses sacrifícios e decidiu ofertar vidas humanas. “Que morram alguns!”, diz desavergonhadamente. Em nome de salvar a economia do seu governo e sua própria pele, alucinado, Bolsonaro decidiu por sacrifícios humanos.

Sacrifícios humanos para apaziguar a ira dos deuses sempre estiveram presentes na história da humanidade. Virgens, crianças, populares, muitos vieram a cumprir o sacrifício. Aparentemente, nunca os líderes se dispuseram, eles próprios, a assumir o ofício sagrado de ser a oferenda. É fato que o atual presidente não é um líder, mas é possível que oferecer Bolsonaro (não sua morte, mas sua queda por renúncia, afastamento ou impeachment) tranquilize o Deus-Mercado. Então, já considerando Bolsonaro em seu futuro partido, o 38, devemos, para aplacar o Deus-Mercado, em época de covid-19, sacrificar o covard-38!

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