Conhecimento, democracia, discriminação, educação, ideologia, política, universidade

Para quem serve o Ensino a Distância em tempos de pandemia?*

Eblin Farage**, de Niterói, RJ

EaD na USP

As razões que nos levam a apontar críticas ao ensino a distância (EaD), quando proposto em substituição ao ensino presencial, emergem das análises realizadas sobre o projeto de educação sugerido pelos organismos internacionais e executado pelos governos a serviço do capital. Como aponta o Banco Mundial (BM), esse projeto tem por objetivo a implantação de uma educação terciária aligeirada e, exatamente por isso, vem sendo debatido e criticado pelas entidades e profissionais da educação há pelo menos três décadas. Embora os contrapontos a essa proposta de ensino tenham sido já longamente debatido, neste momento em que vivemos o distanciamento social, o EaD aparece, novamente, como a alternativa capaz de proporcionar educação àqueles que se encontram impedidos de ir ao espaço formal da escola/ Universidade. Assim, neste momento, o que queremos e debater os motivos para defender a EaD em tempos de pandemia.

Para debater o EaD neste momento de pandemia, escolhi um caminho orientado por três perguntas:

  • O que este momento da pandemia gera para o(a)s professore(a)s?
  • O que este momento gera para o(a)s aluno(a)s?
  • Qual a dimensão pedagógica deste momento de pandemia?

Ao nos debruçarmos sobre a primeira questão, é necessário atentar para o fato de que vivemos um isolamento social imposto. Sim, imposto! E a dimensão da imposição gera duas grandes questões para refletirmos sobre nossa realidade cotidiana. Primeiro, a imposição não nos permitiu preparo prévio. Sendo inesperada, não abriu lacuna temporal para que realizássemos qualquer planejamento. Resulta desta imediaticidade de demanda uma segunda dimensão, que é a absorção de novas tarefas em nossos trabalhos cotidianos. Atividades não previstas, muitas vezes para as quais não possuímos formação nem estamos preparados, e as quais somos, de uma hora para outra, demandados a responder. E, em adendo, há uma leitura de que temos tempo para nos dedicar a estas atividades e às aprendizagens necessárias, pois, como estamos em casa, estamos de férias curtindo um repouso.

Não, não estamos de férias! Não planejamentos viagens e divertimentos, assim como não planejamos acumular ao trabalho doméstico, o cuidado com crianças, idosos e pessoas com deficiência. O isolamento, sem preparação prévia, nos colocou frente a limitações materiais as mais variadas e a imposições de demandas emocionais e organizacionais para as quais não estávamos preparados e, em alguns casos, não desejávamos. Assim, um conjunto de novos e velhos conflitos passa a permear nosso cotidiano e, agora, cobrados sob a alegação de que não há a desculpa de que não temos tempo para tratá-los, mesmo que saibamos que, para algumas dessas questões, não temos respostas.     

O impacto material e emocional gerado pela imposição de uma rotina não planejada e, muitas vezes sem as condições materiais necessárias para enfrentá-la, pode gerar boas surpresas e novas experiências, mas também frustrações, sobrecarga e desgaste emocional e físico. Por isso o período de isolamento social não pode ser considerado: a) férias; b) cotidiano de normalidade e rotina e c) tempo de trabalho regular. 

Sim, é preciso afirmar, não estamos em nosso trabalho regular. O trabalho remoto não substitui plenamente o trabalho presencial, não temos condições de responder às mesmas demandas e assegurar o mesmo desempenho. Quando preparamos aulas na “normalidade” da vida cotidiana, o fazemos sem criança para olhar, sem casa para arrumar, sem comida para fazer, sem idoso para cuidar ou pelo menos com esses elementos já plenamente inseridos em nossa organização cotidiana. Por isso, não acredito que o isolamento social imposto de maneira imediata possa ser comparado com o trabalho regular sem isolamento, daí não ser possível exigir o mesmo “desempenho”. 

Mas por que falar em desempenho? Porque somos cobrados através da lente da eficácia das ações. Assim, acima de tudo, o volume de atividades que nos acomete durante o isolamento faz com que a impossibilidade de estudar, preparar aulas, escrever artigos, ler livros ou mesmo ver filmes ou séries gere frustração. Por isso vemos muitas pessoas, pelas redes sociais, perguntando como outras arrumam tempo para fazer tantas coisas? Como brincam tanto com os filhos, escrevem tantos textos, acessam tanto as redes sociais, assistem a tantos filmes, cozinham tantas coisas, dão conta de tantas atribuições domésticas? Confinadas em suas casas, as pessoas parecem se envolver em um turbilhão de atividades. A sensação é a de que lá na frente estarão esgotadas, estafadas. É tanta demanda que, como dizem alguns, após a pandemia será necessário férias!

Agregado às novas atribuições e às frustrações que a situação provoca, temos o sofrimento dos diferentes distanciamentos que a pandemia nos impõe. Distância de amigos, familiares, amores, atividades físicas, passeios, festas, bares, religião (em especial as que não são neopentecostais e estão seguindo o isolamento social), e até (por curioso que seja) tratamentos de saúde. 

Neste contexto, como conseguir focar no que se é demandado a fazer? Como manter ou quiçá elevar (sério que esperam isso?) o conclamado “desempenho”? Como estar com a cabeça boa para trabalhar?

Mas se nós professore(a)s estamos assim, olhemos para a segunda questão que norteia nosso caminho e questionemos, como estão nosso(a)s aluno(a)s? Estão muito próximos da nossa situação material e emocional no que tange as condições para o processo de ensino-aprendizagem. Alienados, em muitos casos, das condições objetivas materiais por estarem e/ou terem seus parentes desempregados e sem qualquer fonte de renda. 

Nesse sentido, nosso(a)s aluno(a)s, assim como nós, estão agregando trabalho e tendo que se envolver em rotinas de cuidados que antes não eram sua responsabilidade. Para muitos de nosso(a)s aluno(a)s a situação é muito pior que a do(a)s professore(a)s, pois em muitos casos não dispõem de internet e, muitas vezes, nem de computador. Indo além, muitos não têm sequer uma casa ou um cômodo confortável, com espaço silencioso para estudar, até porque, nas favelas as incursões policiais e as guerras entre facções rivais, apesar de terem diminuído, continuam. E nosso(a)s aluno(a)s com deficiência que, em muitos casos, precisam de mediadores e material adaptado, serão atendidos em suas necessidades? 

Há muitas especificidades, há muitas desigualdades, e não se pode nem deve pensar a educação só para alguns, ou em privilégio de alguns. O EaD, nesse contexto, como substituição ao ensino presencial, é uma forma de elitizar a educação e aprofundar a desigualdade, o fosso entre ricos e pobres. Em um país tão desigual, direitos se tornam privilégios. A educação presencial, nas instituições públicas de ensino, garante a possibilidade de amenizar essa desigualdade. Assim, as condições desiguais entre nosso(a)s aluno(a)s, por si só, justificam a impossibilidade do EaD ser assumido como substituto ao presencial. Durante a pandemia, o ensino a distância aprofunda a desigualdade e inviabiliza qualquer possibilidade de isonomia no processo de ensino-aprendizagem. 

Mas há mais elementos. Muito(a)s do(a)s nosso(a)s aluno(a)s estão buscando formas de cadastrar suas famílias para a renda emergencial do governo, pois com a pandemia, uma grande parcela de subempregados/as foi descartada. Nosso(a)s aluno(a)s, filho(a)s de empregadas domésticas, motoristas de Uber, pedreiros, faxineiras, diaristas, cozinheiras, vendedores de hambúrgueres e cachorro-quente, salgadeiras, manicures e de toda a sorte de subempregos que a reforma trabalhista e o capitalismo chamam de empreendedorismo, precisam sobreviver. E a luta não é só contra a Covid-19, mas é também contra a fome e o despejo por não conseguir pagar o aluguel. Parte de nosso(a)s aluno(a)s, em especial aquele(a)s que ingressaram no ensino superior pelas cotas sociais e raciais, hoje estão apreensivo(a)s pela aprovação de medidas que inviabilizem os despejos e o corte de energia, água, luz e gás. Estão atentos às ações do presidente e prontos para criticá-lo, não porque nós, professore(a)s “comunistas e doutrinadore(a)s” ensinamos, como afirma o desgoverno. Assim estão porque essas medidas são condição para sua existência, hoje. Então, poderíamos repetir aqui quase as mesmas perguntas, saídas agora das bocas dos estudantes: Como focar no que se é demandado a fazer? Como manter o “desempenho”? Como estar com a cabeça boa para estudar?

Diante desses elementos que vislumbra as condições em que se encontram professore(a)s e aluno(a)s, temos que ir a nossa terceira questão e nos perguntarmos, qual a dimensão pedagógica neste momento de pandemia? Será necessário o EaD?

Considerando todos os argumentos políticos consistentes que acumulamos nos últimos trinta anos sobre o ensino a distância. Considerando todos os estudos que mostram que vivemos no século XXI uma das principais fases da mercantilização da educação. Considerando a compreensão de educação que permeia uma prática emancipadora. Considerando os elementos que já apontamos, a conclusão que se apresenta nos diz que, por agora, em tempo de isolamento social, a imposição do EaD é a banalização de um instrumento pedagógico, que em certas situações e em determinadas realidades, pode vir a ser um recurso tecnológico importante.  

A banalização do EaD, neste momento, é uma estratégia alinhada à ação voluntarista de administrações que a todo custo querem justificar recursos e garantir o calendário escolar. Nem sabem quanto(a)s estudantes terão após a pandemia, mas querem garantir o fechamento do ciclo escolar de 2020, mesmo que seja sem aluno(a)s e professore(a)s.

Essa tentativa desesperada de buscar manter certa normalidade, em meio a evidente situação de anormalidade; ao ineditismo de uma situação sem precedente para boa parte da humanidade; ao desespero de contar dias e horas aulas para evitar uma possível, quem sabe, reposição; explicita a desvalorização mais profunda do ensino presencial, do processo de ensino-aprendizagem e da condição humana do(a)s professore(a)s e aluno(a)s. As métricas, as aparências e as regularidades são colocadas como referências. Pouco importam, nessa lógica, professore(a)s, aluno(a)s, familiares e demais envolvidos com o processo. Implantar o EaD e, nesse processo, esquecer o elemento humano em prol da tecnicalidade sendo uma inversão que destrói a essência do que é a educação.

Podemos e devemos manter contato com nosso(a)s aluno(a)s nesse momento. Mas não para “passar” conteúdos que depois vão valer como atividade regular. Podemos e devemos ser solidários, sugerir leituras de cultura geral, lives que contribuam para a formação humana, trocar percepções sobre a conjuntura e a pandemia. Mas sem imposição de conteúdos, notas, carga horária. Curiosamente, a pandemia nos oferece a oportunidade de escaparmos do regramento dos calendários letivos e educar no sentido mais amplo do termo. 

E, neste momento de pandemia, o que de mais importante temos a ensinar? Certamente não são os conteúdos de nossos programas de graduação e pós-graduação, por mais maravilhosos, inovadores e geniais que sejam. Educar, então, tem que estar centrado na preocupação com o outro, no respeito à vida, na percepção de que é possível construir um mundo de maior igualdade, de que nossos esforços contam, de que a luta coletiva constrói. Nosso maior ensinamento deve ser o da SOLIDARIEDADE de classe. Nosso esforço deve ser o de dizer que a vida deve estar acima dos lucros e, por isso, nossa solidariedade é de classe. Os empresários e banqueiros, os ricos de forma geral, já contam com a “solidariedade” ativa do Estado, com o dinheiro público arrecadado do(a)s trabalhadore(a)s pronto para lhes “salvar”. Afinal, aquele que se acha o chefe da nação, que nesta crise já liberou mais de um trilhão de reais para o capital rentista, diz e repete que a economia não pode parar. Mas as vidas do(a)s trabalhadore(a)s, podem parar? Quem vai salvar as vidas dos/as moradore(a)s das periferia, do(a)s ribeirinho(a)s, dos povos indígenas? 

Agora é hora, mais uma vez, de demonstrar que a classe trabalhadora pode e deve ser solidária e só com ela pode contar. É hora de arrumar armários e fazer doações, de colaborar nas diversas campanhas de solidariedade com as periferias, de exigir equipamentos para os profissionais da saúde, de bater panelas nas nossas janelas, de exigir um programa emergencial. Isso tudo podemos ensinar para nossos filhos e filhas, em casa, sem que eles ao menos saibam escrever. Afinal, ler e escrever letras e palavras, a escola ensina e terá todo o tempo, após a pandemia, para fazê-lo. Mas nesse momento, estamos tendo uma grande oportunidade de ensinar nosso(a)s filho(a)s a lerem o mundo, como dizia Paulo Freire. Ensinar a ler o mundo é nossa principal tarefa como educadore(a)s, e isso, só podemos fazer presencialmente!

*Publicado originalmente no EOL em 15/04/2020: https://esquerdaonline.com.br/2020/04/15/para-quem-serve-o-ensino-a-distancia-em-tempos-de-pandemia/

**Eblin Farage é assistente Social, professora da Escola de Serviço Social da UFF, mestre e doutora em Serviço Social e militante do movimento sindical docente.

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O bebedouro, o reitor e o governo – parte 3

Cobrar mensalidades dos alunos das universidades federais justamente quando os alunos com maior renda começam a migrar para as entidades privadas (ou no atual discurso do governo, para as públicas não estatais), assim encerramos a parte 2 de O bebedouro, o reitor e o governo. Qual a vantagem e quais os interesses econômicos que levam o Banco Mundial a defender essa proposta?

O interesse maior por trás do Banco Mundial é a geração de renda e lucro. A política de colocar a educação como uma mercadoria e não como direito, gera a capacidade de usar a educação como fonte de recursos para o capital financeiro. Basta visualizarmos o seguinte, nos Estados Unidos, onde o modelo de colocar sobre os ombros da população os custos do ensino superior é mais antigo, o endividamento familiar para que as pessoas possam cursar uma graduação atingiu a astronômica cifra de um trilhão de dólares. Parte dessa dívida já é reconhecida como impagável. No Reino Unido esse valor alcança os duzentos bilhões, dos quais cerca de 40% não serão pagas, pois as famílias não têm condições de sair da inadimplência.

Então, vejamos! Estamos falando que os governos abrem mão de manter a educação como direito, colocam-na como mercadoria, favorecem a iniciativa privada por meio de vários mecanismos (no Brasil, os mais evidentes são FIES e PROUNI), fazem a população endividar-se para ter acesso à educação superior e os bancos que deveriam ganham rios de dinheiro fazendo empréstimos acabam por arcar com os custos da inadimplência, é isso? Não, é claro que não! Os bancos não ficam com os problemas econômicos, apenas com os lucros. Quando esse problema se estabelece, o poder público, ou seja, o governo e, por consequência, todo contribuinte, acaba arcando com a inadimplência para assegurar os ganhos do capital financeiro. A desculpa de que ao incentivar a iniciativa privada a assumir a educação superior, o governo reduziria seus gastos, não se sustenta quando analisada a forma como a financeirização da educação se desenrola. Os lucros ficam com os grandes conglomerados da educação com ativos nas bolsas de valores, gerando renda para os investidores, e com os bancos e seus associados que apostam no endividamento familiar. Os prejuízos, os calotes da inadimplência, recaem sobre os ombros de todos, são pagos pela população, inclusive pelos endividados. Política cruel, não?

Esse movimento não ocorre de uma hora para outra, há um desgaste do modelo. Nesse sentido, este parece ser o momento para olharmos como anda o Chile, país considerado modelo na implantação da proposta do BM. O Brasil está seguindo os mesmos passos, mas em uma velocidade menor. O Chile, apontado no documento do BM como exemplo de avanço no ensino superior, é o que vivencia nos últimos anos a maior crise na educação superior, com as famílias indo às ruas expressar toda sua indignação contra a política implantada. Lá, adotou-se a lógica de endividamento familiar para manutenção do ensino superior, assim as famílias fazem poupança desde (ou mesmo antes de) o nascimento do filho, ou fazem empréstimos, endividando-se ou ao futuro graduado por muitos anos. Os custos do ensino superior tornaram-se proibitivos, gerando inadimplência e sufoco financeiro, portanto, no Chile, que segue à risca a cartilha do BM, a população tem ido às ruas protestar por não mais aguentar os custos da educação superior.

Como alternativa para minimizar esses problemas, o BM propõe que além das cobranças aos estudantes, as instituições de ensino superior diversifiquem sua fonte de financiamento. Primeiro que deixem de ser sustentadas pelo Estado como política. E que busquem mecanismos variados para obter recursos para seu funcionamento. Cobrança de taxas diversas para os alunos que estão estudando, mesmo entendendo que com o atual movimento, uma parcela considerável dos estudantes que permanecerão nas públicas estatais será de alunos com dificuldades financeiras. Outra forma seria buscar apoio financeiro entre os alunos bem sucedidos economicamente, solicitar-lhes que façam doações. Acontece que no Brasil, o sistema de doações não tem as vantagens em termos de redução de imposto que ocorrem nos Estados Unidos, portanto, a menos que a legislação seja mudada, esta estratégia resultará inócua.

Por fim, buscar mecanismos que tragam recursos para o interior das instituições. Nesse caso, incluem-se venda de cursos diversos e serviços de extensão e pesquisa, além do estabelecimento de parcerias público-privadas. Qualquer que seja o mecanismo adotado, isso significa uma perda significativa da autonomia da universidade e de sua preocupação com a estrutura social. Toda a preocupação passa a ser a de busca de recursos financeiros, a sociedade só importa se tiver dinheiro para pagar pelos serviços das universidades. Destruímos assim, de uma só leva, o ensino, a pesquisa e a extensão, modelo interessante, não? Mas não se preocupem, que ainda há mais um pouco de informação para relacionarmos essa política ao problema do bebedouro. A gente se encontra no próximo texto, até lá!

O bebedouro, o reitor e o governo – parte 1, parte 2, parte 4, parte 5.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 469, 22 de agosto de 2015.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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O bebedouro, o reitor e o governo – parte 2

Falávamos, durante a primeira parte deste texto (Ver parte 1), de como os problemas que ora as universidades enfrentam não são questões pontuais, mas que se inserem em um contexto mais amplo que relaciona o bebedouro quebrado com as ações dos reitores, do governo e mesmo com organizações internacionais como o Banco Mundial. Assim, agora buscaremos enxergar como a política apresentada no documento do Banco Mundial (BM) intitulado “La enseñanza superior: las lecciones derivadas de la experiencia” relaciona-se com os problemas do bebedouro e a atual crise que impede o início do semestre nas universidades federais.

Vários elementos são relevantes no processo de análise. Um aspecto central diz respeito ao volume de recursos que pode ser gerado pelo ensino superior. Os interesses, como os recursos, são enormes, assim, uma mudança sugerida pelo documento do BM é a redefinição da função do Estado. Esse deveria abrir mão de exercer um controle direto e passar a ser um gerenciador de políticas e fiscalizador do sistema de ensino fornecido pelas instituições privadas. Praticamente uma reconfiguração do Estado para ser uma agência nacional de ensino superior, como tem sido feito nos últimos anos para outros serviços que antes eram fornecidos pelo governo como água, energia e telecomunicações. O governo seria, então, responsável por instituir um marco político e fiscalizar o serviço prestado pelas instituições de ensino.

Nesse processo de mudança proposto pelo BM é necessário estabelecer mecanismos que permitam às instituições privadas ser vistas sistematicamente como melhores e mais eficientes do que foram até hoje. O Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (ENADE) é parte importante desse processo. Nos últimos anos, o governo federal, independente do partido e do presidente, tem reduzido o montante de recursos por aluno nas universidades federais e alavancado cada vez mais recursos para as instituições privadas. Enquanto as universidades federais perderam mais de 10 bilhões de reais esse ano, políticas que injetam recursos do Estado nas instituições privadas foram ampliadas, mesmo com a crise.

Junto com isso, os mecanismos quantitativos de avaliação das instituições de ensino superior, que muitas particulares burlam de variadas formas, favorecem que estas subam posições, enquanto as federais vão minguando e despencando. Assim, avaliações como o ENADE servem para alavancar o interesse das particulares entre os consumidores do serviço educação. O ENADE, portanto, embora o governo negue, é um mecanismo de ordenação para que as instituições privadas possam vender sua qualidade com lastro, um selo de qualidade fornecido pelo próprio governo. Este, por sua vez, responsável que é pelas instituições federais, sabe quais os problemas e demandas existentes, mas não entra com os recursos financeiros, de infraestrutura ou pessoais para resolvê-los. Assim, é possível identificar como a política adotada sob os ditames do BM tem a finalidade precípua de empurrar as pessoas para o mercado das instituições privadas com apoio de recursos do Estado.

O governo, no afã de facilitar a utilização de recursos estatais para favorecer a ampliação do mercado da iniciativa privada em educação, mudou, inclusive, a nomenclatura utilizada para designar as instituições. Agora, para o governo, não há mais instituições de ensino superior públicas e privadas, o que há são entidades públicas, sendo que dividem-se em estatais e não estatais. Contudo, sendo entidades públicas, ambas passam a ter a mesma condição de receber recursos da união. Não há mais diferenças. O curioso é que no caso das públicas não estatais (antigas privadas) estamos falando de instituições que estão sob controle de grandes conglomerados organizados a partir de megainvestidores, inclusive internacionais. Então, o governo federal estabelece mecanismos que retiram recursos públicos que deveriam atender a população mais pobre e os destina para os investidores do mercado financeiro.

Acoplado à linha de reduzir recursos das instituições públicas e de injetá-los nas privadas, o documento do BM sugere que as instituições públicas devem buscar outras fontes de financiamento. Embora reconheça que em todo o mundo, o ensino superior dependa de financiamento público, o BM indica a diversificação das fontes de recursos. Entre as alternativas estão a cobrança de taxas, venda de serviços de pesquisa e extensão, obtenção de recursos no mercado e, principalmente, colocar o aluno como responsável pela manutenção dos custos. As universidades federais passariam, então, no momento em que os mais abastados migrariam para as particulares, a exigir que os alunos bancassem a manutenção dos serviços de educação superior estatal. Sobre esse processo de colocar os custos da educação superior sobre os ombros do estudante e suas famílias, voltaremos no próximo texto. Momento em que continuaremos a entender a lógica dos interesses do mercado financeiro sobre os problemas do bebedouro da universidade pública. Até lá!

O bebedouro, o reitor e o governo – parte 1

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 468, 15 de agosto de 2015.

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O bebedouro, o reitor e o governo

Eleição para o Diretório dos Estudantes correndo solta. Duas chapas com conformações e pensamentos muito distintos sobre os problemas institucionais rivalizam e buscam apoio entre os universitários. Uma vê no bebedouro quebrado um problema de gestão do reitor, apenas o desconhecimento da situação que tão logo seja informada será solucionada. Ou no máximo um problema pontual de repasse de verbas por parte do governo, algo que será resolvido assim que passar a crise que ora assola o país. A outra chapa parte de uma perspectiva absolutamente diferente. Entende que os problemas que aparecem pontualmente na instituição, como o caso do bebedouro, estão imbricados em uma rede maior de interesses econômicos e disputas políticas. Falam em internacionalização da luta de classes, do apetite voraz do capitalismo e entendem que as questões pontuais só serão realmente solucionadas na medida em que uma forma radicalmente nova de compreender o ensino superior seja estabelecida, embora isso não signifique abrir mão de resolver problemas de gestão e informação. O duelo estende-se e as votações previstas para ocorrer no começo do período letivo.

Passa julho, vem agosto, o segundo semestre nas universidades federais deveria estar começando, deveria, mas… não está! A mídia, quando cobre o assunto, repete a antiga cantilena de prejuízo ao aluno e coloca como razão dessa postergação a greve que alcança quase todas as instituições federais, se consideradas as paralisações de docentes, servidores técnico-administrativos e alunos. O movimento da comunidade acadêmica é parte relevante do processo, mas há outra causa, também relevante, que vem sendo absolutamente desconsiderada no processo, as dificuldades orçamentárias e de pessoal que vinham atingindo as universidades há algum tempo, tornaram-se incontornáveis em 2015. Não é, portanto, algo novo.

As entrevistas concedidas pela esmagadora maioria dos reitores ou de membros da gestão fornecem o material que a mídia tem divulgado, de apontar a greve pelo atraso do início do semestre. Contudo, as entrevistas não fazem críticas ao governo nem relacionam o retardo do calendário com os problemas de recurso e de pessoal existentes. Apontam apenas que há algumas dificuldades operacionais pragmaticamente solucionáveis, embora afirmem sem alarde para a mídia que, se começarem o período letivo, não haverá verba suficiente para a conclusão do mesmo sem que haja suplementação orçamentária. Não enfatizam essa parte das carências conjunturais e estruturais que são centrais para a compreensão do momento pelo qual passam as universidades. Assim, os reitores, os mesmos que deveriam ser os primeiros a denunciar as dificuldades para solucioná-las, escondem-se atrás das greves e as culpam para não se indispor com o governo federal.

Então, resta-nos uma pergunta: como as universidades federais que são referência de ensino e pesquisa de qualidade no Brasil e mesmo internacionalmente chegaram nessa calamitosa situação de não conseguir iniciar o semestre por falta de condições de concluí-lo? Como um serviço público que é estupidamente melhor que a iniciativa privada sob todos os aspectos encontra-se em uma condição dessas? Essas perguntas levam-nos de volta a questão do bebedouro nas eleições do Diretório dos Estudantes apresentados no início do texto. As dificuldades existentes que vão refletir-se, inclusive, no problema do bebedouro e na falta de papel higiênico são elementos de gestão, da crise vigente ou estão relacionadas aos interesses de pessoas e entidades relevantes nos cenários nacional e internacional?

Alguns pensam que é uma questão mais imediata, resultado da crise econômica que atingiu o país com mais força no final de 2014, mas o fato é que as origens desse problema remontam a algo maior e mais longínquo. Se não nos debruçarmos sobre essa questão, acabaremos por não enxergar o quadro geral e ficaremos a buscar soluções pontuais e imediatas que de forma alguma serão capazes de alterar o quadro de penúria e desmonte que vem se estabelecendo.

A educação mostrou-se um mercado excepcional, fonte de lucros estratosféricos. Essa referência fez com que os interesses comerciais e de obtenção de lucros voltassem-se para a educação com um apetite voraz. A ordem liberalizante que norteia o atual momento do capitalismo faz com que o Estado seja criticado em todo e qualquer espaço onde este atua e interfere com a possibilidade de auferir lucros. Elaboram-se proposições e projetos de enxugamento do Estado com transferência dessas atividades para a iniciativa privada. Há um concerto internacional que baliza essas questões e que se faz presente em organizações relevantes. O Banco Mundial, por exemplo, apresenta toda uma conformação de como deve ser a educação no Brasil, América Latina e Caribe. O documento intitulado “La enseñanza superior: las lecciones derivadas de la experiencia” afirma claramente o projeto liberal de redução do Estado.

Curioso para saber como o documento do Banco Mundial se relaciona com os problemas do bebedouro e com a atual crise que impede o início do semestre nas universidades? A gente dialoga sobre essas questões na parte 2 desse texto. Até lá!

O bebedouro, o reitor e o governo – parte 2

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 467, 08 de agosto de 2015.

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