Conhecimento, discriminação, educação, ideologia, saúde

Novembro azul

Outubro rosa, depois… novembro azul. Qual a relação entre meses e cores? Não, isso não tem nada a ver com a trilogia das cores da bandeira francesa do cineasta polonês Krzysztof Kieślowski, mas com campanhas mundiais de combate a certos tipos de câncer. O outubro rosa é dedicado a integrar pessoas, empresas, organizações e Estado à luta contra o câncer de mama por meio de ações direcionadas à conscientização detecção e prevenção precoce. Inicialmente o símbolo era um laço rosa usado nas roupas ou enfeitando locais públicos, depois ganhou outras modalidades de divulgação como corridas, desfiles e eventos esportivos. Recentemente a estratégia envolveu iluminar monumentos e prédios públicos, mas o laço continua sendo o símbolo maior.

Nos mesmos moldes do outubro rosa, há o novembro azul voltado à prevenção e diagnóstico precoce do câncer de próstata, diabete mellitus e outras doenças masculinas. O símbolo é um laço azul e as outras modalidades de divulgação são similares às do outubro rosa. Esse ano, por exemplo, o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, foi iluminado na cor azul em apoio à campanha. O câncer de próstata é o segundo câncer de maior frequência entre os homens, de modo que um em cada seis homens desenvolve a doença em algum momento da vida e um em cada 34 acaba morrendo em decorrência desse câncer. Normalmente quando o câncer é diagnosticado após o surgimento dos sintomas e não por estratégias de detecção precoce, mais de 95% dos casos já se encontram em situação avançada e, portanto, o tratamento torna-se mais difícil e a taxa de mortalidade elevada.

Apesar desses números fatalistas, quando o câncer de próstata é diagnosticado precocemente, há chance de cura em 90% dos casos. Essa informação, aliada ao fato de que a campanha tem aumentado o número de homens que tem feito os exames de forma adequada para efetivar a detecção precoce, indica que o número de mortes em decorrência do câncer de próstata deve ser reduzido significativamente nos próximos anos. Os exames recomendados para o diagnóstico precoce são o exame de sangue conhecido como PSA (sigla em inglês para Antígeno Prostático Específico), ultrassonografia da próstata e o toque retal. Os exames são complementares e não é recomendável que se opte por não fazer o toque retal. Homens acima de 50 anos devem fazer o exame regularmente, mas em caso de histórico familiar é recomendado que a procura pelo urologista ocorra entre 40 e 45 anos.

A próstata é uma glândula do aparelho reprodutor masculino e sua principal função, junto com as vesículas seminais, é a produção de esperma. O acesso à glândula ocorre pelo toque através do reto (ânus) e é aqui que as coisas se complicam para a detecção. Tocar o ânus é tabu entre os homens e isso está vinculado ao machismo e a própria ideia de virilidade e, por essa razão, muitos se recusam a fazer o exame e chegam mesmo a evitar falar sobre o assunto. A campanha do novembro azul tem sido muito efetiva e importante, em promover a conscientização e levar os homens ao exame. Algumas coisas, entretanto, precisam ser levadas em consideração para que os efeitos da campanha sejam significativos e reduzam cada vez mais a ocorrência do câncer de próstata.

Campanhas com esse formato, ajudam ou atrapalham?

É necessário vencer o preconceito e fazer os homens procurarem o médico para fazer o exame. Nas redes sociais, entretanto, são comuns imagens e brincadeiras com relação à introdução do dedo no reto. A sociedade é machista e os homens veem a questão do toque como uma invasão que afeta sua virilidade e masculinidade. É preciso levar isso em consideração, pois isso pode gerar desconforto e, consequentemente, antipatia com a campanha. Se os que reproduzem informações sobre o novembro azul têm como preocupação central reduzir os índices de morte relacionados às doenças masculinas como o câncer de próstata, então não é adequado fazer brincadeiras com esse tom e conteúdo. Alguns alegam que tal estratégia é importante para combater o machismo da sociedade. Claro que combater o machismo é necessário, mas misturar as duas coisas pode não produzir o melhor dos resultados e ainda acabar por não conseguir nem uma coisa nem outra. Uma frase de muito bom tom que defende tanto o exame quanto o combate ao machismo é “Um toque pela vida, um drible no preconceito”.

Novembro é azul, até o Cristo está envolto em azul, a campanha é importante e os homens devem procurar o médico para realizar os exames. E, embora a cor não tenha vínculo com a trilogia das cores de Kieślowski, é bom saber que a realização dos exames de forma periódica e o combate ao machismo de forma a não prejudicar a campanha do novembro azul podem, como no título do filme, nos fazer ver que “A liberdade é azul”.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 437, 22 de novembro de 2014.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos emhttps://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

Padrão
atividade física, ciência, saúde

Em quanto tempo eu correria uma maratona?

Em quanto tempo eu correria 10km? Em quanto tempo eu correria uma meia maratona? Em quanto tempo eu correria uma maratona?

Se você pratica corrida para se manter em forma e esporadicamente participa de provas de 5km, estas são perguntas que provavelmente você já fez. Representam desafios que, como corredor, você começa a olhar com a expectativa de enfrentá-los em breve. Para responder a essa pergunta existem preditores de tempo de corrida que estimam seu tempo de corrida em uma distância a partir do tempo em outra distância. Por exemplo, são capazes de prever seu tempo na maratona, a partir do resultado que você obteve numa prova de 10km.

Curioso? Quer saber a previsão de seu tempo em uma maratona? Clique em PREDITOR DE TEMPO, entre com seus dados e descubra!

Lembre-se que isso é apenas um preditor e são necessários cuidados para correr distâncias maiores do que as que o seu corpo está acostumado. Tome os devidos cuidados e boa corrida em novas distâncias!

Padrão
análise do comportamento, artigo científico, behaviorismo, ciência, Conhecimento, divulgação, divulgação cientifica, pesquisa, psicologia, saúde, universidade

Vídeos de Análise do Comportamento

LINKS PARA VÍDEOS

Sistema Personalizado de Ensino

Visão geral (entrevista com Todorov): https://www.youtube.com/watch?v=PKe_b1LsU4k

 

Behaviorismo

Visão geral (vídeo com Martha Hubner) – dividido em 9 partes:

(Parte 1) https://www.youtube.com/watch?v=0NDK0OmDJ7Q

(Parte 2) https://www.youtube.com/watch?v=Ch0RjRflZ_k

(Parte 3) https://www.youtube.com/watch?v=xMV5Vfq_PQM

(Parte 4) https://www.youtube.com/watch?v=9_X2BZ5dt5Q

(Parte 5) https://www.youtube.com/watch?v=Nq4nSAar-zU

(Parte 6) https://www.youtube.com/watch?v=vFVNsXsXpb8

(Parte 7) https://www.youtube.com/watch?v=MsKYhpBl5io

(Parte 8)  https://www.youtube.com/watch?v=VdRii3-VeNY

(Parte 9) https://www.youtube.com/watch?v=g4_YlQ0NRpc

Em episódio da comédia The Big Bang Theory: https://arleycosta.wordpress.com/2014/11/04/the-big-bang-theory-e-o-behaviorismo/

 

Comportamento e condicionamento respondente

Visão geral: https://www.youtube.com/watch?v=n5dfmEu-y8A

Condicionamento do medo – Experimento Little Albert: https://www.youtube.com/watch?v=g4gmwQ0vw0A&list=PL9A215EC6E7591509&index=2

 

Comportamento e condicionamento operante

Visão geral: https://www.youtube.com/watch?v=aIdckgIwbg8

Contingência: https://www.youtube.com/watch?v=goOkEROVG1w

 

Reforço positivo

(Exemplos): https://www.youtube.com/watch?v=ruZMph7nefU

 

Reforço negativo

(Diferenciando de punição): https://www.facebook.com/video.php?v=712620685485924

Esquemas de reforçamento

Visão geral: https://www.youtube.com/watch?v=N_uc-fzpxvk

 

Extinção

Extinção e dessensibilização (Ex com supernanny): https://www.youtube.com/watch?v=HAClIrU7R4w&list=PLvpLnxNtMEZMqhylZq-QSixorgMgElEai&index=5

Máquina de ensinar

Palestra de Skinner sobre a máquina de ensinar: https://www.youtube.com/watch?v=vmRmBgKQq20&list=PL9A215EC6E7591509&index=13

 

Comportamento Verbal

Visão geral: https://www.youtube.com/watch?v=ZiYhTbCiCaQ

Operantes verbais primários: https://www.youtube.com/watch?v=GjLZMWHTQ6o

Operantes verbais secundários: https://www.youtube.com/watch?v=We_z7n3g93c

Autoclíticos: https://www.youtube.com/watch?v=1BZqDAa-Czg

 

Saúde – Aplicações da Análise do Comportamento

Autismo e AC no Princeton Institute (Parte 1): https://www.youtube.com/watch?v=JNh0JmVv1WM&list=PLvpLnxNtMEZMqhylZq-QSixorgMgElEai&index=8

Caso você tenha visto um vídeo interessante sobre a Análise do Comportamento, informe o link nos comentários (abaixo) para que possamos disponibilizá-lo nessa página.

Se algum link dessa página estiver com problemas, informe também através dos comentários.

Obrigado!

Padrão
democracia, discriminação, Entrelinhas, ideologia, Não categorizado, política, preconceito, saúde

O crack e os megaeventos

O autor deste texto é Andrew Costa, bacharel em Comunicação Social pela UFF, fundador do coletivo antiproibicionista Cultura Verde e membro da coordenação estadual Drogas e Diretos Humanos do Rio de Janeiro.

A política de proibição e repressão aos usuários de drogas, além de não ser eficiente na prática, tem levantado números preocupantes no último período. Em 2011 o tráfico de drogas passou a ocupar o primeiro lugar entre os crimes que mais encarceram pessoas no Brasil. Segundo o Ministério da Justiça essa tipificação penal já corresponde a 24% das prisões no país e o aumento deste foi de 284% só durante a última década.

Mais precisamente, nos últimos 16 anos o Brasil triplicou o seu número de encarceramento e 40% dessa massa (cerca de 500.000 pessoas) são negros, pobres e estão na faixa de 18 a 24 anos. Outro dado contrastante é a escolaridade das pessoas encarceradas: 46% destas não completaram o ensino fundamental enquanto os indivíduos com ensino superior completo correspondem a menos de 0,5% do total de presos.

O Núcleo de Estudos da Violência da USP constatou que o perfil do traficante mais reprimido pela ação policial é o pequeno traficante, o traficante pobre. A partir do estudo de 667 autos de flagrante percebeu-se que mais da metade (57%) não possuíam antecedentes criminais, 87% dos presos foram encarcerados sem qualquer tipo de assistência jurídica e em 55% dos casos foram presas pessoas que não estavam envoltas em nenhum tipo de violência em seu cenário de apreensão. Em resumo, a atual política proibicionista tem prendido prioritariamente os traficantes pobres de maneira arbitrária e sem correlação razoável entre sua atividade real e a pena a que é submetido.

Política de drogas e encarceramento

No período que antecede os Mega-Eventos Esportivos nas principais cidades brasileiras, a política de drogas tem se intensificado e a guerra às drogas já tem legitimado o encarceramento de cerca de 500 moradores em situação de rua na região de Pinheiros em São Paulo e 600 no centro do Rio de Janeiro, só para citar dois exemplos. Sem somar a essa conta as diversas outras cidades onde a problemática também se instala, já contamos mais de 1.000 pessoas presas pelo fato de serem pobres e sob a chancela e legitimação de um processo de proibição seletiva às drogas.

O recorte de classe dado na proibição parece ser claro; basta enxergarmos quem está sendo preso e visualizar um cenário claro de qual é o setor social que está sendo encarcerado em cifras de grande magnitude enquanto o uso de drogas continua sendo prática comum e sem repressão entre as elites de nossa sociedade.

Em meio a este processo é importante destacar o fenômeno de higienização urbana que os grandes centros, em especial as cidades-sede da Copa e Olimpíadas, vêm recebendo e irão receber para os mega-eventos. Além da política proibicionista, a necessidade de “limpar” as cidades de sua população pobre também tem legitimado o retorno de uma política manicomial preocupante: a internação compulsória.

O Rio de Janeiro tem sido pioneiro nesta política de criar estruturas que tem representado a volta da lógica manicomial e um grande retrocesso para a reforma psiquiátrica brasileira conquistada pelos movimentos sociais no campo da saúde, que há anos rompeu com a prática de encarcerar pessoas com problemas psicológicos e consolidou práticas mais humanas em um campo de saúde mental.

Autorizados a apreender e “tratar”

Em síntese, as comunidades terapêuticas e outras organizações não governamentais são organismos de administração privada ligados a grupos religiosos que recebem verbas do Estado para capturar usuários de crack em situação de rua e “tratá-los” em seus abrigos. A relação econômica entre grupos religiosos e o Estado também nos alerta para uma lógica preocupante que é a do lucro com o encarceramento de pessoas.

Um relatório recente do Conselho Federal de Psicologia também afirma que essas comunidades terapêuticas estão recolhendo crianças e jovens e dopando-as com uma mesma dosagem de medicação para todas sem avaliação médica ou qualquer outro tipo de triagem. Vale lembrar ainda que poucas vezes direitos humanos foram tão fortemente violados em fenômenos tão legitimados pela sociedade sob o discurso de que a internação compulsória é um mal necessário.

A internação compulsória não só não é necessária, como a prática manicomial é contraditória com a Política Nacional de Saúde Mental, apoiada na lei 10.216, que busca consolidar um método de atenção à saúde mental aberto e comunitário que garanta a livre circulação dos “doentes mentais” pelos serviços, pela comunidade e pela cidade.

Esse programa conta com o que é o modelo defendido pelos movimentos sociais da saúde mental com Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) ou CAPS – AD (Álcool e Drogas) para casos específicos de usuários com problemas de drogas. Para além desses projetos, as clínicas de rua e a redução de danos também são alternativas à guerra que tem se travado contra os usuários de crack e aos fenômenos das cracolândias.

A ideia dessas medidas é ressocializar usuários a partir de um processo onde o paciente esteja convencido de que precise ser tratado e com a utilização de métodos terapêuticos diversos, sempre voltados a pensar os indivíduos como resultado de anos de desassistência e segregação  por parte do estado e não com a leitura simplista de que apenas a opção pelo uso de drogas é a raiz de todo problema e que podemos resolve-lo apenas obrigando o usuário à abstinência. A violenta política manicomial deve ser respondida com a alternativa da música, da arte e dos direitos humanos.

O “combate” enquanto lógica de guerra
Apesar das experiências de repressão aos usuários de drogas serem falidas e os movimentos sociais apresentarem política de atenção a essas problemáticas pelo viés da saúde, da recuperação dos usuários e respeitando os direitos humanos, a Secretaria Nacional Anti-Drogas parece mesmo estar convencida de que a solução não é acolher e tratar usuários, mas investir em mais repressão e violência junto ao seu tratamento inadequado.

A materialização do que se argumenta é o fato de estar chegando pelo programa do Governo Federal “Crack é possível vencer!” mais de 250 armas taser (pistola de choque que pode chegar a 5 mil volts e que recentemente a polícia utilizou para matar um jovem na Austrália), 750 sprays de pimenta, bases de monitoramento e câmeras de vigilância para combater os usuários de crack no Rio de Janeiro. A política de drogas de nosso país, hoje, dá ordem clara de que a solução para a problemática do tráfico e das cracolândias é mais guerra.

Em meio a todo esse preocupante cenário que está apontado como política federal para o Brasil nos próximos anos, vale lembrar ainda que Felipe Calderón, quando resolveu assumir a postura de guerra ostensiva às drogas como resposta à dinâmica dos narcóticos em seu país, colheu uma das estatísticas mais assombrosas de que se tem notícia em nossa história mundial recente: desde 2006 o México já conta com mais de 50.000 mortos e, hoje, das 10 cidades mais violentas no mundo 5 são mexicanas.

Em São Paulo, a intensificação da repressão policial pela política de repressão seletiva às drogas foi tamanha que a cidade já chega à marca de mais de uma centena de homicídios só no ano de 2012, a pobreza largamente assassinada tem respondido com novos homicídios e ataques a policiais fazendo com que o ciclo vicioso de violência tenha saído do controle do Estado enquanto as mortes não param. Mesmo assim, a guerra proibicionista continua e é reafirmada por autoridades das mais diversas a todo momento.

Posto esses elementos, fica claro compreendermos como a proibição seletiva e a lógica manicomial são políticas que tem se intensificado fortemente em nosso país por meio da política de drogas. A proibição é uma política de Estado que vem legitimando a criminalização da pobreza e a internação compulsória vem limpando a cidade dos pobres que insistem em continuar ocupando os centros urbanos.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 418, 19 de julho de 2014.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

Padrão
deficiência, discriminação, educação, educação especial, Entrelinhas, ideologia, inclusão, movimentos sociais, necessidades especiais, política, preconceito, saúde, síndrome de down

Uma aventura congelante

O medo é congelante. Melhor, talvez, seja dizer paralisante, pois nos deixa muitas vezes inertes quando precisamos correr. Mas o medo também é importante, pois nos preserva ao impedir que ultrapassemos os limites do que seria prudente e seguro. Sentir medo é um traço evolutivo que auxilia na sobrevivência dos organismos. Sem o medo, poderíamos ser impelidos a nos jogar de despenhadeiros, a encarar de frente caminhões em movimento ou quaisquer outras ações que teriam grande chance de resultar em lesão ou morte.

O medo ronda-nos em várias situações. Ficamos repletos dele quando nossa saúde ou a de nossos filhos estão ameaçadas. O mundo parece vir abaixo quando um profissional da área da saúde diz que nossa criança é diferente e que sua vida será cheia de dificuldades, que o melhor a fazer é protegê-la. Pais de crianças com necessidades especiais sempre se deparam com essa vicissitude.

Elsa e seus poderes.

Os pais de Anna e Elsa em “Frozen: uma aventura congelante” também foram alertados dos riscos a que suas filhas estavam propensas. Elsa nascera com necessidades especiais, era detentora de poderes potencialmente perigosos e letais para si e os outros, os quais não podia ou sabia controlar. Elsa é alertada: “Você deve aprender a controlá-lo. O medo será seu inimigo”. Os pais, com medo do futuro, decidem precaver-se e afirmam: “Iremos protegê-la. Ela pode aprender a controlar, tenho certeza! Até lá… trancaremos os portões, reduziremos os empregados, limitaremos o contato dela com as pessoas e manteremos os poderes escondidos de todos”.

Em uma bolha, protegido, mas isolado do mundo.

Apesar de sua importância, o medo quando exacerbado, traz muitos problemas. No afã de proteger sua criança, por não ser igual às outras, os pais decidem “encobrir, não sentir, não deixar saber”. Durante muito tempo, essa foi a postura de muitos pais de crianças com necessidades especiais. Os filhos não viam o mundo e, simultaneamente, o mundo não via essas crianças. Quando, por alguma razão, sociedade e criança se encontravam, os atos e comportamentos desta eram incompreendidos. Não era para menos, a criança sequer tivera a chance de encontrar outras pessoas e aprender a comportar-se como a sociedade na qual deveria estar inserida. Tornava-se, então, um pária, pois uma criança isolada de todos não aprende sobre o mundo e sofrerá muito mais. Uma vida onde não se vê ninguém é solitária e vazia, deixa apenas escorrer o tempo sem que realmente se viva. Estabelecer o isolamento não melhora a situação, ao contrário, gera uma pessoa que não sabe se comportar em sociedade, não por conta de suas necessidades especiais, mas por ter negada a possibilidade de interações, de entrar em contato com a sociedade com a qual deve interagir. O cuidado excessivo construído pelo medo nega as amizades, a possibilidade de brincar, de ter contato e conhecer pessoas, de ter uma vida.

Alguns pais de crianças especiais ainda cometem o mesmo engano que os pais de Elsa e Anna. Recolhem seus filhos dos olhos do mundo e acabam por impedir que vivam em plenitude. Felizmente a lógica da inclusão tem ganhado força e os pais têm levado seus filhos ao encontro do mundo. Por conta desse contato com a sociedade, de pais que não mais escondem os filhos, de intervenções precoces, de profissionais cada vez mais conscientes da importância de sua atuação, de legislações inclusivas, essas crianças estão tendo a chance de explorar suas potencialidades e serem felizes.

Devemos romper a bolha que impede a inclusão.

E já que falamos de experiência paralisante, nada melhor que excertos do filme “Frozen: uma aventura congelante” para retratar a ansiedade de perceber-se diferente e da emoção de poder encontrar o mundo do qual se está isolado. “Aquela janela destrancou / E tudo por aqui já se animou (…) / Vazio é sempre esse lugar / Pra que salão se não dançar / Finalmente vão abrir os portões / Vai ter gente de verdade / Eu vou até estranhar / Mas como eu estou pronta pra mudar / Por uma vez na eternidade / Essas luzes vão brilhar (…) / Não sei se é emoção ou são gases / Mas assim é bem melhor / Por uma vez na eternidade / Eu não vou estar só (…) / Bem do jeito que sonhei / Nada como a vida que eu levei / Por uma vez na eternidade / A magia e diversão (…) / E eu sei que é muita loucura (…) /Mas por uma vez na eternidade / Ao menos vou tentar (…) / A espera é uma aflição (…) / Os meus sonhos ganham cor (…) / Por uma vez na eternidade / Nada vai me deter”.

Gabriel aprendendo a ler.

Lutemos para que nada detenha a inclusão, sejam legisladores, pais ou professores. Enfrentemos essa aventura congelante e rompamos o medo paralisante, pois há muito a se construir e é preciso fazê-lo, pois “amar é colocar a necessidade de alguém acima da sua”.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 413, 14 de junho de 2014.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

Padrão