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Interessado em escrever artigo científico como se o inglês fosse sua língua materna? Leia o texto “Writing scientific articles like a native English speaker: top ten tips for Portuguese speakers” de Mariel A. Marlow. No texto a autora elenca os 10 erros mais comuns que falantes de português cometem ao escrever um texto em inglês.

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Previsões para a copa

A copa 2014 começou e algumas grandes seleções, aquelas que todos previam avançar bem na competição, começaram a cair ainda na fase de grupos. Itália, Inglaterra e Espanha, a badaladíssima campeã de 2010, são alguns dos grandes nomes que já voltaram para casa. Por outro lado, seleções de países das Américas, que muitos anteviam em uma existência de meros coadjuvantes, como Chile e Costa Rica, ganharam passagem, alguns dirão sobrevida, para a fase do mata-mata. Muitos ficaram atônitos com os resultados ocorridos e começaram a buscar argumentos para explicar porque as coisas se desenrolaram com esse enredo considerado atípico ou anormal.

Explicações diversas começaram a surgir. Alguns questionam o fato dos jogos ocorrerem em um ambiente considerado inóspito para os jogadores europeus acostumados a climas temperados. O calor escaldante e a umidade excessiva de algumas cidades que sediaram jogos, como Manaus e Cuiabá, estão entre os argumentos utilizados. De fato, tem sido curioso ver jogadores, que parecem impávidos aos 90 minutos de uma partida de futebol na Liga dos Campeões da UEFA, derreterem aos borbotões já no início das partidas da Copa 2014. Alguém lembra de ter visto esses grandes jogadores, ao participar das ligas europeias, ensopados de suor e com os cabelos desgrenhados, como nas partidas disputadas no Brasil? Cristiano Ronaldo, um exímio jogador que é quase um produto de marketing em campo por seu porte, postura e estética, esteve irreconhecível tanto quanto jogador como quanto modelo. Outros culpam a estrutura escolhida pela FIFA para definir as seleções cabeça de chave, o que fez com que alguns grandes se encontrassem já na primeira fase, que o digam os três campeões mundiais reunidos no chamado grupo da morte, dois dos quais já estão em casa vendo a copa pela televisão.

Há, ainda, os que alegam que a copa já está vendida ao Brasil e que tudo não passa de uma tática de ir eliminando alguns dos grandes nomes o mais rapidamente possível, deixando um caminho suave à seleção anfitriã. Afirmam, para mostrar isso, que nas oitavas o Brasil pega o Chile, nas quartas de final Colômbia ou Uruguai e que apenas nas semifinais, talvez, o Brasil encontre algum adversário de peso ou tradição. Poderia fazer uma fantástica semifinal contra a França que vem dizimando os adversários e… nos deve uma final que lhes foi entregue, também em casa, na última copa do século XX. Mas talvez isso tudo seja especulação, e o Brasil encontre com a Argentina, numa final que muitos desejam e… sem resultados pré-definidos!

Deixando os argumentos de lado, é preciso reconhecer que as previsões ruíram ou, melhor dizendo, viraram pó sob os acontecimentos dos jogos da primeira fase. Por que tantos equívocos na interpretação dos resultados? Por que erramos tanto ao apostar nos bolões? Por que o susto, quando as coisas não aconteceram da forma como prevíramos?

Previsão é ciência. Todo campo cientifico busca compreender, prever e controlar seu objeto de estudo. Em outras palavras, a ciência visa descrever padrões e explicar processos que permitam prever a ocorrência de fenômenos sob determinadas condições. Portanto, é necessário identificar os fatores, ou variáveis, que podem ser importantes na compreensão e previsão de um evento. Bancos e empresas que atuam em bolsas de valores, por exemplo, montaram suas previsões entrando com as variáveis que consideraram relevantes, como qualidade atual da seleção, história do desempenho em copas do mundo, apoio dos fãs, posição no ranking da FIFA ou a economia do país. Os apostadores ou palpiteiros comuns usamos, em geral, uma compreensão mais generalizada sobre os últimos resultados de que temos conhecimento, bem como o peso das seleções, aquelas que ganham títulos, chegam as finais ou semifinais e as que sempre vão bem ou apresentam futebol vistoso. Sejamos nós ou as grandes empresas com seus programas e computadores, a copa não está encaixando em nossas previsões, seria isso suficiente para que alguém se arvore em alegar a ruína da ciência?

Avaliações, mesmo as científicas, consideram os resultados passados, os papéis de cada seleção no futebol mundial e, a partir de tudo isso, apresenta-se o resultado mais provável, o que pode estar certo ou… não! Como? Depois de tudo isso, ainda é possível que a ciência erre? Claro, o sucesso passado não assegura o sucesso futuro, apenas indica a probabilidade dessa ocorrência. Há variáveis relevantes que podem ficar de fora da análise, é possível que existam informações ou variáveis sobre as quais não haja domínio completo e há, também, uma outra discussão que remete ao meio científico: o imponderável. A indeterminação advinda daquele acontecimento absolutamente fortuito sob o qual não há qualquer possibilidade de controle.

A forma de analisar esse imponderável varia segundo a forma de se compreender ciência. Os mecanicistas-deterministas afirmam que o que chamamos de imponderável é a falta de conhecimento absoluto de todas as variáveis envolvidas no processo. Portanto, caso todas as variáveis sejam plenamente conhecidas, a sequência de eventos até o seu final seria absolutamente prevista como em um filme. De outro lado, há o princípio da incerteza ou princípio da desigualdade de Heisenberg, segundo o qual há uma aleatoriedade intrínseca ao comportamento de certos fenômenos e, portanto, alguns resultados não possuem um único resultado, como no filme do determinismo, mas um conjunto de resultados, todos possíveis, embora com diferentes probabilidades de ocorrência.

O imponderável é o milagre estatístico, a incerteza que não nos deixa afirmar o resultado de alguns processos com 100% de certeza e que pode fazer com que uma seleção sem tradição consiga ganhar jogos e, de repente, tornar-se campeã. Assim, na vida como na copa, caso consideremos o indeterminismo derivado do princípio da incerteza, é preciso ficar atento ao imponderável, aquele evento que pode produzir alterações significativas e sobre as quais não há controle. Podemos fazer todos os cálculos possíveis, mas um chute daqueles denominado pombo sem asa, um gol contra, um jogador que escorrega, um segundo de dúvida no artilheiro ou no goleiro, uma interpretação errada do árbitro, o papel da torcida (olha a vantagem de jogar em casa!)… e o resultado pode ser completamente avesso às previsões de bolões e apostas. O imponderável e o indeterminismo existem, mas não tornam a ciência menos adequada, ao contrário, tornam-na ainda mais necessária e… bela!

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 415, 28 de junho de 2014.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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Educação formal ou informal?

Preciso, contundente, perspicaz! Impecável, como sempre! O CuriosoRealista é um blog cuja leitura é obrigatória para quem possui interesse em ciência.

Abaixo está disponível o trecho inicial do artigo. Se quiser lê-lo na íntegra, basta clicar no link para o Blog CuriosoRealista que se encontra no final da página. Boa leitura!

CuriosoRealista

Nem pense nisso!

É provável que você tenha ouvido comentários como “A educação formal mata a criatividade” ou “As grandes mentes não tiveram educação formal“. É possível ainda que você tenha sido convencido sobre a verdade dessas afirmações e as tenha propagado por aí. Aqui pretendo mostrar o quão equivocado é este pensamento e como sua propagação é perniciosa.

Há tantos problemas com esse modo de pensar que é difícil decidir por onde começar a crítica. O primeiro grande erro é pensar que alguém se forma por conta própria, sem qualquer tipo de treinamento. Mesmo os aclamados autodidatas recebem alguma forma de treinamento em alguma fase da vida para aprimorar habilidades, caso contrário não avançam. O segundo problema, e talvez mais perverso, é o alinhamento com o mito do gênio. Muitas pessoas acham que as “grandes mentes” não tiveram educação formal e atribuem à educação formal…

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O que é o Método Científico? É pra comer?

Organograma sobre o método científico

Texto de Marcelo Mazocco publicado neste post com a devida autorização.

Senhores, sentindo um pouco de ausência de conhecimento científico de algumas pessoas nessa tal de internetz, resolvi escrever esse pequeno (juro que a intenção era boa, de ser pequeno mesmo, mas é resumido anyways) manual sobre a importância da base científica na sua argumentação.

Àqueles cujas almas podem ser salvas da ignorância (porque tem uns, que vou te contar…), como diria o Chapolin, sigam-me os bons:

O que é o Método Científico? É pra comer?

Bom, pra começar nossa viagem (inveje-me, Sagan), iremos à Europa da Idade Média. Muita coisa estava mudando, uma quantidade considerável de conhecimento emergia de mentes brilhantes. Descartes, Newton, Kepler, Galilei.

Mas não havia, ainda, uma separação clara, uma demarcação objetiva, do que poderia ser alvo de estudo científico. Newton era alquimista. Kepler tentava provar a inteligência de Deus através das órbitas dos planetas comparando-as a sólidos platônicos. Ainda haviam, misturados, estudos a respeito de almas, fluidos vitais e tudo mais o que se possa imaginar. Qualquer ideia aleatória podia ser igualmente válida.

Foi precisamente nessa época que detectaram uma grande necessidade de separar categoricamente aquilo passível de estudo do que não dava pra ser estudado. Eis que surge o MÉTODO CIENTÍFICO (importante notar que isso não tem nem 400 anos).

Basicamente, tudo que não podia ser testado, tudo que era fundamentado em crenças e opiniões pessoais e tudo que não era sustentado por evidências teve de ser igualmente deixado de lado ao objetivo de estudo.

Então, surgiram diretrizes, pilares do pensamento científico. São elas:

– Princípio da Falseabilidade. Hipóteses científicas devem ser sempre TESTÁVEIS com o objetivo de prová-las falsas (falseá-las). Um único teste é o suficiente pra reprovar toda uma teoria científica e hipóteses só se tornam teorias após aprovações em diversos testes. Segundo Karl Popper, a ciência é um exercício contínuo de refutação. Cada experimento e observação pretende contradizer a teoria aceita. É daí que surge o famoso Problema da demarcação.

– Problema da Demarcação. Dado que ciência só estuda o que pode ser falseado, ela NÃO SE PROPÕE A ESTUDAR O SOBRENATURAL.

– Princípio da generalidade e simplicidade. Também conhecido como Navalha de Occam, ela diz: “se em tudo o mais forem idênticas as várias explicações de um fenômeno, a mais simples é a melhor” (William de Ockham).

Agora que você já sabe o que o método científico faz e em que buraco não enfiá-lo, irei lhe contar o sensacional segredo de como ele funciona: MÁGICA!

Não, pera! Você vai precisar de (momento canal de culinária):

– Uma observação. Sistemática e controlada, de modo a evitar contaminação experimental por qualquer que seja o fator.
– Uma hipótese! Pois é! Uma possível explicação ao fenômeno observado.
– Previsões. A hipótese precisa prever o que acontecerá a seguir. Momento de suspense!
– Um teste controlado e reprodutível. Assim outros cientistas podem verificar os resultados.

Caso a hipótese seja aprovada em diversos desses testes, por cientistas independentes (o que chamamos de revisão por pares), ela pode finalmente ascender ao status de teoria.

Não, teorias não são “apenas” teorias. Elas são explicações que em alguns casos sobreviveram a MILHARES de testes. As vezes são a última palavra em conhecimento científico, dado que esse conhecimento SEMPRE deverá estar aberto a testes.

TEORIA CIENTÍFICA, CORROBORA-SE OU É CONTRADITA, POR FATOS CIENTÍFICOS. JAMAIS SE PROVA UMA TEORIA CIENTÍFICA.

Obviamente, ainda existem fronteiras no conhecimento científico. A curiosidade científica é movida por elas, inclusive. Algumas pessoas, geralmente movidas por suas crenças, costumam explorar essas fronteiras de modo a validar tais crenças com explicações “científicas” cuja ciência jamais se propôs a dar, como vimos por todos os motivos acima. Minha forte recomendação, que um dia ainda vai te fazer muito rico, é que adote a postura científica mais adequada: “Não sabemos. Portanto, nada podemos dizer a partir daqui, por enquanto”.

Mas se quer a resposta definitiva para a vida, o universo e tudo mais, ela já foi fornecida à humanidade:

42.

Para ler (coisa leve. Se quiser ir mais a fundo, tem uma vastidão do espaço virtual acessível através do Google te esperando):
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ciência
http://pt.wikipedia.org/wiki/Método_científico
http://pt.wikipedia.org/wiki/Problema_da_demarcação
http://pt.wikipedia.org/wiki/Navalha_de_Occam
http://pt.wikipedia.org/wiki/Sólido_platónico
http://www.wfsj.org/course/pt/pdf/mod_5.pdf

Por Marcelo Mazocco.

Leia também:  Metodologia de pesquisaComo escrever um artigo para uma revista científica

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Pergunte à formiga!

Como escrever um artigo científico? Essa questão, quase uma angústia, ecoa permanentemente no universo acadêmico. A primeira coisa a fazer é escolher uma boa pergunta a partir do qual construir todo o trabalho científico. Este texto originalmente publicado por Alison Chaves no blog CuriosoRealista tece considerações importantes sobre como construir uma boa pergunta.

Alison permitiu que eu disponibilizasse o texto no meu blog. Então, divirtam-se com:

Pergunte à formiga!

Há um tempo, uma conversa esclarecedora com um amigo me fez pensar se compreendemos o que é uma pergunta científica. A conversa, como de costume, inicia num tom não convencional sobre a relação mutualística entre formigas e plantas. O caso é algo assim:

a) A planta oferece à formiga alimento e local para nidificar, direta ou indiretamente (neste caso, o ninho é na própria planta);
b) Em troca, a formiga defende o ninho e, consequentemente, a planta;

Meu amigo, como o bom naturalista que é, passou algum tempo observando o comportamento dessas formigas e sua relação com a planta hospedeira. Ele notou que aquelas formigas realizavam a ação de poda da planta que lhes fornecia abrigo. Um comportamento estranho, já que diminui a área fotossintética da folha e parecia prejudicar a planta. Poderia este comportamento reduzir o valor adaptativo da planta? É tentadora e quase automática a atitude de lançar a pergunta “Por que esta formiga faz isso?”, “Qual o motivo por trás do comportamento?” Meu amigo tinha algumas hipóteses bastante razoáveis para explicar o evento. Contudo, antes de pô-las à prova, queria testar a força de sua pergunta. Seria a pergunta adequada? Seria uma pergunta formulada corretamente? A resposta a estas perguntas é um categórico “não.” A natureza não faz planos, não possui objetivos ou finalidades. Assim, falar de um motivo por trás de um comportamento só faz algum sentido se estivermos falando de entidades capazes de racionalizar (i. e., tomar decisões complexas baseadas em julgamento prévio).

Você pode pensar que uma formiga ou mesmo um organismo mais simples como um fungo são capazes de responder de maneira “programada” a um estímulo e isto seria tomar uma decisão. Se um fungo produz esporos (uma forma de resistência ao estresse) quando submetido ao tratamento com um agente estressor ele teve que experimentar um evento e tomar uma decisão sobre como agir. É um algoritmo simples de se imaginar. Você recebe um dado de entrada e deve emitir alguma resposta. Independente da resposta emitida, ela é produto de uma decisão, consciente ou não.

Mas este tipo de capacidade de tomar decisões poderia ser chamado de racionalização? A resposta é “não”. Vamos exercitar a imaginação: você projeta um robô simples dentro de um campo com postes de cores distintas. Seu robô está equipado com um sensor de cores e é capaz de tomar a decisão de virar à esquerda ou à direita dependendo da cor do poste com o qual se depara enquanto se move pelo campo. Se o poste é azul ele vira à direita, se é vermelho ele vira à esquerda. Está claro que o algoritmo envolve a tomada de decisão, mas você diria que o robô realizou um julgamento? Em termos objetivos, sim. Ele precisou julgar se o poste era vermelho ou azul para tomar uma decisão.

É claro que você, sabiamente, notou o fato de que projetamos nosso robô com um algoritmo e ferramentas que lhe permitissem distinguir entre as duas cores. Este algoritmo de tomada de decisão é tão simples que parece inimaginável que este robô cometa um erro no julgamento de que poste é azul ou vermelho. Infortunadamente, talvez, na natureza o algoritmo nem sempre é tão eficiente. Erros de julgamento são bem frequentes. Nós, humanos, somos também embutidos de ferramentas que nos permitem distinguir entre cores ou demais características. Estas ferramentas que nos capacitam a tomar decisões também nos fazem cometer erros com bastante frequência, o daltonismo é um exemplo deste tipo de problema com nosso, digamos, algoritmo genético. Assim, está claro que um julgamento não precisa ser sempre correto para gerar uma decisão.

Sabemos que nosso robô projetado é capaz de tomar decisões baseadas em julgamentos, assim como uma formiga ou um fungo. Os dois últimos, por sua vez, se permitem tomar decisões baseadas em erros de julgamento. Mas se você está atento à leitura, notou que tratei o ato de racionalizar como a capacidade de tomar uma decisão complexa. Para explicar, voltemos ao caso da interação formiga-planta. Para admitir que a formiga deve realizar uma ação para atingir um determinado objetivo, teríamos que supor algo como a seguinte ordem de coisas:

1. que a formiga recebe uma dica química da planta;
2. que a dica química a faz podar as folhas;
3. que a formiga perceba algum benefício para si ou para sua colônia no ato de podar;
4. que ela julgue o benefício como digno de perpetuar a ação de poda.

Esta ordem de coisas que se seguem é compatível com um processo de racionalização e envolve uma decisão complexa. Nós somos capazes de tomar decisões complexas baseadas em julgamentos e, por isso, faz sentido dizer que algumas de nossas ações tem propósitos definidos, ainda que ocultos. É mais ou menos como na situação descrita pelo físico Weinberg:

“O romance “Where Angels Fear to Tread”, de E.M. Forster, dá um bom exemplo de teleologia ao traçar a diferença entre descrição e explicação. Philip está tentando descobrir por que sua amiga Caroline ajudou a consumar um casamento entre a irmã de Philip e um jovem italiano a quem a família de Philip não vê com bons olhos. Depois de Caroline relatar todas as conversas que teve com a irmã de Philip, Philip diz: “O que você me deu é uma descrição, não uma explicação”. Todos sabem o que Philip quer dizer com isso: ao pedir uma explicação, ele quer saber dos propósitos de Caroline (Weinberg, 2001).”

É este o sentido de propósito que penso não fazer sentido na natureza, a menos que estejamos falando de seres como Philip, um típico Homo sapiens detentor de capacidades cognitivas notoriamente bem desenvolvidas.

Naturalmente, há um problema que envolve a capacidade de detectar racionalização em indivíduos de outras espécies. Você teria que inquirir a formiga sobre seu propósito (em termos de causa final) ao realizar uma determinada ação. Confesso não ter certezas a respeito da capacidade cognitiva de formigas ou plantas. Contudo, suspeito que este comportamento faça parte de um repertório complexo, o qual é produto de uma mistura genética sob rígido controle epigenético de milhares de anos e não de uma ação deliberada.

Teria a formiga, deliberadamente, decidido podar as folhas para obter algum benefício ou seria o comportamento parte de um repertório mais complexo e não deliberado que garantiria a sobrevivência da colônia? É possível demonstrar experimentalmente se há correlação ou não entre 1. a ação de poda e 2. o aumento do valor adaptativo. Com experimentos auxiliares e alguns controles é possível ainda observar se esta correlação implica causalidade. Contudo, nenhum experimento é capaz de demonstrar que a formiga decidiu realizar a ação de poda para elevar o valor adaptativo de sua planta ninho.

Se algo não pode ser testado, claramente não pode ser objeto de ciência. O que não significa que não possa vir a ser, mas enquanto não o é interessa apenas à filosofia. Richard Dawkins já foi vitimado pelo uso do termo propósito ao falar sobre o que chamou “fenótipo estendido” no capítulo final do livro “O gene egoísta.”

“Não está inteiramente claro qual é o propósito Darwiniano, mas deve haver um, para os castores dispenderem tanto tempo e energia para construir isso. A represa criada por eles provavelmente serve para proteger os castores dos predadores…” (Dawkins em O Gene Egoísta).

Ambos os livros “O fenótipo estendido” e “O gene egoísta” sofreram fortes críticas por conter erros ou confusões conceituais, como a causada pelo termo “propósito Darwiniano“. É uma afirmação forte sobre o comportamento dos castores, tal como seria sobre as formigas. E se o comportamento de poda realizado pelas formigas fosse correlacionado com um aumento do valor adaptativo da planta? Isso autorizaria a conclusão de que a planta, deliberadamente, produz um sinal químico que induz a formiga a elevar seu valor adaptativo? Que a formiga, deliberadamente, poda a planta pela mesma razão? Penso mesmo que ambas as respostas sejam “não.” A planta, possivelmente, produz algum sinal químico. Contudo, não se trata de uma ação deliberada, mas de um evento que acabou por mostrar-se benéfico para a planta ao longo do tempo.

Tal como em Dawkins, falta em muitos pesquisadores a leitura filosófica necessária para discernir entre perguntas científicas e filosóficas. A filosofia permite-nos aventurar em meio a perguntas do tipo “por quê?”, enquanto a ciência valoriza mais perguntas do tipo “como?”. Devemos ser responsáveis quando falamos sobre ciência. A ciência empírica, aquela que exige testes, não é capaz de responder perguntas do tipo “por quê?”. Isso, sem dúvida, retira muito da magia da ciência e revela seus limites. Ao mesmo tempo, é o que nos permite apreender a realidade objetiva e entender mecanismos ou processos que ocorrem na natureza. O motivo pelo qual esses mecanismos se desencadeiam fica por conta de nossa imaginação. Como meu amigo sabiamente percebeu ao analisar a força da pergunta “qual o motivo?”, a natureza não possui motivações.

Referências

Steve Davis. The Extended Phenotype – How Richard Dawkins Got It Wrong Twice. In Science 2.0, February 16th, 2009, 01:44 AM.
Richard Dawkins. O gene egoísta. Companhia das Letras. 1976.
Karl Popper. A lógica da pesquisa científica. Cultrix, 1958.
Steven Weinberg. Os limites da explicação científica. Folha de São Paulo. 24 de junho de 2001.

Agradecimentos

À Paulo Sergio Mendes Pacheco Junior e João Henrique Coelho Campos pela leitura crítica.

Licença Creative Commons
Este texto de Alison Felipe Alencar Chaves, foi licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

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