down syndrom, futebol, inclusão, necessidades especiais, preconceito, síndrome de down

Gabriel no Maracanã

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Flamengo e Vasco no Maracanã, domingo, 22 de março de 2015. Em homenagem ao dia internacional da síndrome de Down que ocorrera na véspera, algumas pessoas com a trissomia do 21 participaram da entrada no campo com os jogadores.

Eu estive entre os convidados e este é um relato da minha visita a um dos clássicos do futebol carioca no Maracanã. Venha participar dessa viagem comigo!

Chegada ao estádio. Final de tarde em um dia nublado e fotos pelo lado externo do Maracanã.

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Este é meu pai que me acompanhou durante o passeio, carregou a mochila e fez as fotos.

 

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Sala de espera onde houve um lanche, os convidados de Vasco e Flamengo foram chegando e confraternizando.

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Entregaram camisas dos times para que pudéssemos entrar no campo com os jogadores.

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Recebi uma camisa oficial do Vasco. Adorei!

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Galera do Vasco depois de uniformizada.

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Os dois times lado a lado!
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Vendo os jogadores do Flamengo chegar, os do Vasco chegaram mais cedo.
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Os ônibus de Flamengo e Vasco no estacionamento.
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Lateral do ônibus do Vasco, o Gigante da Colina.
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Lateral do ônibus do Flamento, um imenso de um escudo.
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Achei até uma homenagem para o Fluminense.
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Posando em frente a placa de entrevista 1.
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Posando em frente a placa de entrevista 2.
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Área de acesso dos times ao interior do Maracanã.
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Depois os jogadores seguem por esse corredor. O segurança é gente fina, mas está ali para impedir que a gente entre. rsrsrsrs
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O Romário chegou e virou… bagunça total!
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Aproveitamos (eu e meu pai) para fazermos uma foto com o Romário ou, como dizem por aí, com o Peixe!
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Mas não foi só o Romário que eu encontrei. Uma amiga torcedora do Flamengo posou para fotos comigo.
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E ganhei um beijo na bochecha!
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Hora de entrar em campo. Estava chovendo um pouco e entrei de capa de chuva azul. É possível ver uma das traves ao fundo. Depois perfilei com os jogadores.
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Hora de assistir o jogo!
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Deu tempo para fazer uma foto com o papai.
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Chovia muito e o gramado virou uma piscina.
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Mas ainda deu para assistir a partida

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Comemorar um gol!
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E meditar!
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Ah, eu até apareci na televisão!
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O dia foi maravilhoso! Quero mais!
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Conhecimento, deficiência, down syndrom, educação especial, inclusão, necessidades especiais, preconceito, síndrome de down

Dia internacional da síndrome de Down – Homenagens

O dia internacional da síndrome de Down é comemorado em 21 de março (3/21 na grafia inglesa) como uma referência à trissomia do cromossomo 21.

Algumas homenagens ao Gabriel, meu filho, foram elaboradas e postadas por pessoas queridas em 2015 e, para não deixá-las dispersas nas redes sociais, decidi reuni-las aqui.

Seguem abaixo as postagens:

ANDRESSA COSTA (irmã) – vídeo

 

Andressa Costa fez o vídeo e o texto. Vou reproduzir literalmente, pois o depoimento da Andressa reflete sua relação de amor com Gabriel Oliveira Costa. E no dia Internacional da síndrome de Down, o essencial é dar visibilidade as relações, as interações, as lutas e acreditar: É POSSÍVEL!” (Comentário de MARINALVA OLIVEIRA -mãe – ao postar o vídeo da Andressa)

Meu príncipe Gabriel , mais um dia em que eu posso te dizer o quanto és especial pra mim, o quanto encanta as pessoas ao seu redor e o quanto faz bem e feliz as pessoas que tem o prazer de fazer parte da sua vida. Você tem um olhar único, um sorriso contagiante, você tem o melhor abraço do mundo, você me faz esquecer de qualquer problema, nem tem como dimensionar o quanto me ajudou a mudar, o quanto me ensinou (mesmo sendo mais novo). Antes do seu nascimento já te amava de um jeito inacreditável meu pequeno, esse amor só cresce a cada dia, você é um guerreiro, sempre pronto a aprender, disposto a tentar coisas novas, não baixa a cabeça na primeira dificuldade e em nenhuma que aparece.Meu pequeno príncipe, meu moreno de Niterói, meu sambista, meu garoto aventureiro e menino do sorriso fácil e contagiante, estarei contigo em todos os momentos, saiba que sempre vai poder contar comigo, porque a gente briga, a gente brinca, a gente dança e desse nosso jeito a gente vai se amando ..rsrs…, TE AMO MUITOOO..
E viva a diversidade…
Porque ser diferente é NORMAL!!

 

MARICÉLIA OLIVEIRA (tia Nélia) – foto

 

MARCIA LUCENA (fonoterapeuta e amiga) – foto

Homenagem Marcia Lucena

 

ROGERS CARVALHO (tio) – foto

TAÍS LARA – Titaís (amiga) – texto

VALTER AVELAR (amigo) – texto

 

MARINALVA OLIVEIRA (mãe) – foto

E, para finalizar, divulgo também minha homenagem (redigida em 2014): É possível ser feliz?

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análise do comportamento, artigo científico, behaviorismo, ciência, Conhecimento, deficiência, discriminação, divulgação cientifica, down syndrom, educação, educação especial, necessidades especiais, preconceito

Políticas de saúde, análise do comportamento e autismo

A Política de Saúde de um país deve ser sustentada em evidências científicas que assegurem sua eficácia e segurança de modo a maximizar as chances de melhoria na qualidade de vida da população atendida. Não atentar para esse fato significa assumir o risco de sacrificar tempo, recursos humanos e financeiros em práticas inócuas ou pouco eficazes. Tal risco, no caso do tratamento do Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), poderia ser especialmente danoso, uma vez que intervir precocemente tem sido um dos componentes essenciais de intervenções bem sucedidas.

A escolha do(s) tratamento(s) deve atender a critérios claros que tenham como norte o bem estar do usuário e seu direito à saúde, à luz dos princípios do SUS e da constituição federal. No que tange ao tratamento do TEA, a ABA (do inglês Applied Behavior Analysis, ou Análise do Comportamento Aplicada) se destaca como a abordagem mais estudada e com grande volume de evidências de eficácia. Diversas entidades de saúde recomendam a inclusão dos princípios da Analise do Comportamento Aplicada (ABA) e estratégias de intervenção comportamentais como parte importante de qualquer programa para crianças autistas.

Em decorrência de tal posicionamento apresentamos o Posicionamento da Associação Brasileira de Análise do Comportamento (ACBr) com relação ao documento “Linha de Cuidado para a atenção às pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo e suas famílias na Rede de Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde”, do Ministério da Saúde.

PS: Esse texto é um excerto do posicionamento da ACBr disponível no link acima.

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atividade física, discriminação, Entrelinhas, ideologia, manifestações, movimentos sociais, política, preconceito

Prisões e previsões

Imagine este fato acontecendo com o seu time do coração. Os campeões das fases classificatórias, após jogos duríssimos, chegaram àquela final para disputar o título. Times em campo, começa o jogo, Pedrinho rola a bola à frente, Diego toca-a e… o árbitro apita. Um sobressalto ocorre entre jogadores, comissões técnicas e torcidas: O que o árbitro estaria marcando antes que decorresse sequer um segundo de partida? Mão no bolso, o árbitro caminha rumo aos dois zagueiros, poucos metros antes de chegar a eles, eleva o cartão vermelho, uma vez, depois outra. Expulsos! Atônitos, questionam junto ao árbitro a expulsão, a eles se juntam o capitão, vários jogadores e a comissão técnica a invadir o campo. Por que expulsar dois jogadores antes que houvesse sequer uma falta? O que justificava aquela ação, se nada ocorrera? Qual a razão para tamanho absurdo?

O árbitro, então, do alto de sua autoridade afirma ser de seu conhecimento que aqueles jogadores fariam faltas, algumas delas violentas. Sabia disso porque em jogos anteriores eles haviam cometido faltas com excesso de vigor, inclusive deixando um ou outro adversário com lesões sérias. Além disso, argumenta, ouvira os dois conversando antes do início da partida. Falavam em levar os filhos para passear em carrinhos de bate-bate até que os moleques cansassem e pedissem para voltar para casa. E marcaram o encontro para as 10 horas. Tudo isso, dizia o árbitro, era claramente um relato de que bateriam no adversário de camisa 10 até que esse saísse do campo. Portanto, concluía o árbitro, sua ação era correta por expulsar preventivamente os zagueiros antes que o pior acontecesse. Fruto dessa decisão, o time com os jogadores expulsos perde o jogo e o título. O esforço e investimento de todo um ano escorreram pelo ralo porque uma autoridade ultrapassou os limites de sua competência e resolveu prever o futuro.

Qualquer torcedor que visse seu time garfado dessa maneira ficaria enlouquecido e clamaria por… Justiça! O curioso é que estão fazendo isso no Brasil, hoje, com a vida de pessoas e uma boa parte da população acha normal, inclusive defendendo tal arbitrariedade e argumentando que manifestantes são criminosos e que é preciso prendê-los antes (isso mesmo, por absurdo que pareça, antes!) que façam qualquer coisa. Na tentativa desesperada de deixar imaculada a imagem da copa, (como se isso fosse possível após remoções, internações compulsórias e descumprimento de princípios constitucionais), vários manifestantes foram presos preventivamente na véspera da final, aquela da qual ficamos de fora porque levamos de 7 a 1 da Alemanha.

As alegações para a prisão dos manifestantes beiram as raias do ridículo e padecem do mesmo mal de nossa historieta inicial, pois também são preventivas, ou seja, pessoas foram presas pela suposição de que pudessem vir a cometer um crime. Nossas leis não permitem esse absurdo, pois enterram, por exemplo, a presunção da inocência. A ilegalidade é enorme e, por isso, várias organizações e pessoas ligadas ao mundo jurídico estão criticando o fato e apontando o risco de enveredarmos definitivamente no estado de exceção que vivenciamos durante a copa.

Já imaginou ser preso sem uma acusação concreta? Ah, mas eu não me meto em crime nem nessas histórias de manifestações! – você diz. Tudo bem, mas imagine que possa ser confundido com alguma outra pessoa, preso sem maiores explicações, ir para a delegacia para só então começar a tomar conhecimento da acusação. Isso não existe em um estado democrático de direito. Isso simplesmente não pode ser tolerado! Distorções da verdade também compõem o cenário atual. O pai (não ativista) de um dos manifestantes possuía uma arma em casa obedecendo toda a legislação nacional. Não há prova de que a arma tenha sido ou de que seria usada em qualquer ação criminosa, mas os responsáveis pelas prisões saíram afirmando haver “armas de fogo” (atenção para o plural) com os “criminosos”. Outras provas consistentes da intenção criminosa foram os computadores, celulares, jornais e bandeiras apreendidos com os manifestantes. Cuidado! A maioria de nós possui esses artefatos criminosos em casa e pode, portanto, ser preso preventivamente por qualquer razão!

Ah, mas havia fogos de artifício! – alguns de nós podemos argumentar numa última tentativa de assegurar que estamos em país que preza pela democracia. Mas o uso de fogos de artifício não é crime. E, se fosse uma infração legal, a população estaria quase toda presa, pois usa fogos em jogos, propaganda política, shows, festas juninas, natal, virada de ano e outras datas comemorativas. O próprio Estado utiliza fogos de artifícios em situações diversas, inclusive ao comemorar a Independência do Brasil. Se, porventura, o uso dos fogos resultar em morte ou for intencionalmente usado para este fim, aqueles que desvirtuaram a função do objeto devem ser, aí sim, penalizados.

Felizmente o Desembargador Siro Darlan concedeu Habeas Corpus aos manifestantes em razão de não haver razão que justifique a detenção. Mas apesar dessa ação que ajuda a recolocar um pouco de justiça em todo esse processo, cabe perguntar: O que fica da copa 2014? Numa análise rápida, violência policial e jurídica para abafar manifestações e calar indignados, ou seja, a implosão do estado democrático de direito e a indicação dos passos iniciais de uma ditadura. Isso respinga diretamente na chefe maior da nação, mas alguns estão se valendo do fato de que a atuação policial diz respeito ao estado para desvincular a presidente de qualquer relação com o fato. Entretanto, a inação da presidente deixa claro que a mesma oferece respaldo para as injustiças perpetradas. Para quem gosta de lembrar que foi vítima da ditadura, assistir calada e inerte todo esse absurdo acontecer, significa, no mínimo, soterrar a própria história e a de todos aqueles que lutaram pela redemocratização do Brasil.

Qual o resultado final do jogo e dessas ações? Perde o time, perde o futebol: a essência do esporte perde o sentido. No dia a dia, perdem as pessoas, perde a justiça: a essência do Estado Democrático de Direito. Rompeu-se a igualdade por pressuposições, definiu-se, pela discrepância de jogadores e atores sociais, o resultado final da partida e da vida. Simplesmente não faz sentido jogar pelas leis ou investir esforços ou recursos, se ações arbitrárias e autoritárias fazem pender injustamente a balança para um dos lados. Esse é um caminho perigoso. Cartão vermelho para quem arbitra “preventivamente”, seja dentro ou fora dos campos de futebol.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 419, 26 de julho de 2014.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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democracia, discriminação, Entrelinhas, ideologia, Não categorizado, política, preconceito, saúde

O crack e os megaeventos

O autor deste texto é Andrew Costa, bacharel em Comunicação Social pela UFF, fundador do coletivo antiproibicionista Cultura Verde e membro da coordenação estadual Drogas e Diretos Humanos do Rio de Janeiro.

A política de proibição e repressão aos usuários de drogas, além de não ser eficiente na prática, tem levantado números preocupantes no último período. Em 2011 o tráfico de drogas passou a ocupar o primeiro lugar entre os crimes que mais encarceram pessoas no Brasil. Segundo o Ministério da Justiça essa tipificação penal já corresponde a 24% das prisões no país e o aumento deste foi de 284% só durante a última década.

Mais precisamente, nos últimos 16 anos o Brasil triplicou o seu número de encarceramento e 40% dessa massa (cerca de 500.000 pessoas) são negros, pobres e estão na faixa de 18 a 24 anos. Outro dado contrastante é a escolaridade das pessoas encarceradas: 46% destas não completaram o ensino fundamental enquanto os indivíduos com ensino superior completo correspondem a menos de 0,5% do total de presos.

O Núcleo de Estudos da Violência da USP constatou que o perfil do traficante mais reprimido pela ação policial é o pequeno traficante, o traficante pobre. A partir do estudo de 667 autos de flagrante percebeu-se que mais da metade (57%) não possuíam antecedentes criminais, 87% dos presos foram encarcerados sem qualquer tipo de assistência jurídica e em 55% dos casos foram presas pessoas que não estavam envoltas em nenhum tipo de violência em seu cenário de apreensão. Em resumo, a atual política proibicionista tem prendido prioritariamente os traficantes pobres de maneira arbitrária e sem correlação razoável entre sua atividade real e a pena a que é submetido.

Política de drogas e encarceramento

No período que antecede os Mega-Eventos Esportivos nas principais cidades brasileiras, a política de drogas tem se intensificado e a guerra às drogas já tem legitimado o encarceramento de cerca de 500 moradores em situação de rua na região de Pinheiros em São Paulo e 600 no centro do Rio de Janeiro, só para citar dois exemplos. Sem somar a essa conta as diversas outras cidades onde a problemática também se instala, já contamos mais de 1.000 pessoas presas pelo fato de serem pobres e sob a chancela e legitimação de um processo de proibição seletiva às drogas.

O recorte de classe dado na proibição parece ser claro; basta enxergarmos quem está sendo preso e visualizar um cenário claro de qual é o setor social que está sendo encarcerado em cifras de grande magnitude enquanto o uso de drogas continua sendo prática comum e sem repressão entre as elites de nossa sociedade.

Em meio a este processo é importante destacar o fenômeno de higienização urbana que os grandes centros, em especial as cidades-sede da Copa e Olimpíadas, vêm recebendo e irão receber para os mega-eventos. Além da política proibicionista, a necessidade de “limpar” as cidades de sua população pobre também tem legitimado o retorno de uma política manicomial preocupante: a internação compulsória.

O Rio de Janeiro tem sido pioneiro nesta política de criar estruturas que tem representado a volta da lógica manicomial e um grande retrocesso para a reforma psiquiátrica brasileira conquistada pelos movimentos sociais no campo da saúde, que há anos rompeu com a prática de encarcerar pessoas com problemas psicológicos e consolidou práticas mais humanas em um campo de saúde mental.

Autorizados a apreender e “tratar”

Em síntese, as comunidades terapêuticas e outras organizações não governamentais são organismos de administração privada ligados a grupos religiosos que recebem verbas do Estado para capturar usuários de crack em situação de rua e “tratá-los” em seus abrigos. A relação econômica entre grupos religiosos e o Estado também nos alerta para uma lógica preocupante que é a do lucro com o encarceramento de pessoas.

Um relatório recente do Conselho Federal de Psicologia também afirma que essas comunidades terapêuticas estão recolhendo crianças e jovens e dopando-as com uma mesma dosagem de medicação para todas sem avaliação médica ou qualquer outro tipo de triagem. Vale lembrar ainda que poucas vezes direitos humanos foram tão fortemente violados em fenômenos tão legitimados pela sociedade sob o discurso de que a internação compulsória é um mal necessário.

A internação compulsória não só não é necessária, como a prática manicomial é contraditória com a Política Nacional de Saúde Mental, apoiada na lei 10.216, que busca consolidar um método de atenção à saúde mental aberto e comunitário que garanta a livre circulação dos “doentes mentais” pelos serviços, pela comunidade e pela cidade.

Esse programa conta com o que é o modelo defendido pelos movimentos sociais da saúde mental com Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) ou CAPS – AD (Álcool e Drogas) para casos específicos de usuários com problemas de drogas. Para além desses projetos, as clínicas de rua e a redução de danos também são alternativas à guerra que tem se travado contra os usuários de crack e aos fenômenos das cracolândias.

A ideia dessas medidas é ressocializar usuários a partir de um processo onde o paciente esteja convencido de que precise ser tratado e com a utilização de métodos terapêuticos diversos, sempre voltados a pensar os indivíduos como resultado de anos de desassistência e segregação  por parte do estado e não com a leitura simplista de que apenas a opção pelo uso de drogas é a raiz de todo problema e que podemos resolve-lo apenas obrigando o usuário à abstinência. A violenta política manicomial deve ser respondida com a alternativa da música, da arte e dos direitos humanos.

O “combate” enquanto lógica de guerra
Apesar das experiências de repressão aos usuários de drogas serem falidas e os movimentos sociais apresentarem política de atenção a essas problemáticas pelo viés da saúde, da recuperação dos usuários e respeitando os direitos humanos, a Secretaria Nacional Anti-Drogas parece mesmo estar convencida de que a solução não é acolher e tratar usuários, mas investir em mais repressão e violência junto ao seu tratamento inadequado.

A materialização do que se argumenta é o fato de estar chegando pelo programa do Governo Federal “Crack é possível vencer!” mais de 250 armas taser (pistola de choque que pode chegar a 5 mil volts e que recentemente a polícia utilizou para matar um jovem na Austrália), 750 sprays de pimenta, bases de monitoramento e câmeras de vigilância para combater os usuários de crack no Rio de Janeiro. A política de drogas de nosso país, hoje, dá ordem clara de que a solução para a problemática do tráfico e das cracolândias é mais guerra.

Em meio a todo esse preocupante cenário que está apontado como política federal para o Brasil nos próximos anos, vale lembrar ainda que Felipe Calderón, quando resolveu assumir a postura de guerra ostensiva às drogas como resposta à dinâmica dos narcóticos em seu país, colheu uma das estatísticas mais assombrosas de que se tem notícia em nossa história mundial recente: desde 2006 o México já conta com mais de 50.000 mortos e, hoje, das 10 cidades mais violentas no mundo 5 são mexicanas.

Em São Paulo, a intensificação da repressão policial pela política de repressão seletiva às drogas foi tamanha que a cidade já chega à marca de mais de uma centena de homicídios só no ano de 2012, a pobreza largamente assassinada tem respondido com novos homicídios e ataques a policiais fazendo com que o ciclo vicioso de violência tenha saído do controle do Estado enquanto as mortes não param. Mesmo assim, a guerra proibicionista continua e é reafirmada por autoridades das mais diversas a todo momento.

Posto esses elementos, fica claro compreendermos como a proibição seletiva e a lógica manicomial são políticas que tem se intensificado fortemente em nosso país por meio da política de drogas. A proibição é uma política de Estado que vem legitimando a criminalização da pobreza e a internação compulsória vem limpando a cidade dos pobres que insistem em continuar ocupando os centros urbanos.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 418, 19 de julho de 2014.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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