Conhecimento, democracia, discriminação, Entrelinhas, ideologia, inclusão, movimentos sociais, política

Da série: “maioridade, prisões ou escolas – estamos sendo enganados”.

 

Prólogo: Texto longo. Se estiver com preguiça, nem perca seu tempo.

Sabe aquele seu amigo “reaça” que posta fotos de menores de 18 anos com armas nas mãos e pergunta se “aquilo” é criança e tem que ir pra “escola”? Ele pode estar certo. E diversos exemplos de menores que cometeram crimes dos mais bizarros podem e provavelmente estão além de qualquer recuperação.

– Pausa –

Sabe aquele seu amigo “vermelho”, que posta fotos de escolas e diz o tempo todo que a gente precisa mais de escolas que de prisões? Ele pode estar certo.

Pior que certo e errado, os amigos “reaça” e “vermelho” podem estar falando das mesmas coisas, mas estão ocupados demais nas mútuas ofensas para uma simples troca de informações.

Como eles podem e estar falando da mesma coisa? Simples: eles estão falando de momentos diferentes. Numa analogia estúpida, se eu quero comer frutas sem ter que pagar preços absurdos por elas, eu preciso de um pomar. E leva tempo para o abacateiro crescer e frutificar. E se ele crescer sem os cuidados adequados, pode vir a ser necessário derrubá-lo, anos depois, porque ele não dá abacates ou porque as “ervas daninhas” consumiram o abacateiro…

Lembra do assassinato do menino que foi arrastado por bandidos no Rio, em 2007? Os assassinos do João Hélio são árvores (muito) estragadas. Mantê-los em sociedade é perigoso (considerando que seja possível). E, para tirá-los da sociedade, precisamos de leis mais rigorosas (e que sejam aplicadas).

Mas nem sempre eles – os assassinos – foram assim. Para ter aquele nível de desprezo à vida, aquele nível de ignorância sobre a vida, você precisa de condições específicas. Você precisa conviver desde a sua mais tenra infância com a morte e com a violência, ao ponto de não entender – de não compreender – o valor que tem a vida. E vivendo nestas circunstâncias, você tem outro desafio: sobreviver. Se sobreviver, provavelmente foi graças a muito ódio. Ódio de tudo. Ódio daquilo que você gostaria de ter tido e não teve. Ódio do mundo. Ódio de si. Ódio puro e simples. Nada disso necessariamente elaborado ou consciente: sentir ódio é relativamente fácil, como você bem deve ter sentido, mesmo sem um milésimo do que vivem estas pessoas.

Se este cenário te pareceu familiar, é porque ele é. É o cenário de um percentual acachapante de brasileiros, entre eles crianças e adolescentes. O crime só é uma opção se você conhece outra opção – é tão óbvio que esquecemos. E se não formos apresentados a outra opção? E se a violência for a única linguagem que conhecemos? Pois é com ela que nos comunicaremos… Se você acha que isso não é verdade ou que é exagero da minha parte, eu peço que você procure visitar “comunidades carentes não pacificadas” próximas a sua residência. No Rio há aos montes. Vá por sua conta e risco.

 

É neste ponto que esquerda e direita se encontram: a gente precisa melhorar as estratégias para que este cenário não crie mais marginais do “quilate” destes monstros que desafiam o conceito do que é humano. Precisamos de cidadania (saúde, escola…). Precisamos de reabilitação e talvez até mesmo de exclusão. Mas não em detrimento uns dos outros. É um “continuum”, onde um sem o outro serão incompletos… Precisamos da esquerda e da direita.

Mas o que tem isso a ver com sermos enganados? Tudo.

Mudar o Estatuto da Criança e do Adolescente (o tal do ECA) é um processo mais fácil do que mudar a constituição. Mudar a constituição tem mais etapas, é mais complicado, demandante e ainda poderá ser invalidada pelo STF ao final, visto que a redução da maioridade penal pode ser considerada cláusula pétrea. Ao mudar o ECA, incluindo “penas” mais duradouras e pesadas, além de ter o efeito desejado sobre o temor quanto a criminalidade, o risco de alterar a legalidade do consumo do álcool e a prostituição de menores seria menor, para “melhorar”. A mudança do ECA teria muito mais vantagens que desvantagens.

E por que estamos tentando alterar a constituição ao invés do ECA? Porque precisamos de palco: é o tal “clamor popular”. Quando quase 80% da população quer algo, nossos políticos fazem teatro. No Brasil (não apenas) não temos projeto político, temos projeto de poder. E isso faz muita diferença. Então temos todo um “misancene” neste sentido, com votos pela madrugada e manobras das mais variadas, algumas até supostamente ilegais. Tudo em nome do show.

Então, não tem nada a ver com torcer para o coleguinha ser esfaqueado por um menor ou achar que todo adolescente é puro e lindo. É sobre uma possibilidade de conversa, troca e monitoramento dos políticos que nos representam, tenha você votado nele ou não.

Eu nem argumentei sobre a viabilidade carcerária de qualquer uma destas mudanças, porque estes argumentos estão muito distantes dos básicos. Eu nem usei do apelo à coerência, quando na época da eleições só líamos e ouvíamos que a “massa” é burra por escolher este ou aquele candidato. “Bando de analfabetos funcionais”, não era assim? Ora, em um pleito que deu praticamente 50% pra cada lado (nas eleições), as duas metades se achavam burras. Agora, com 80% favoráveis à diminuição da maioridade, ficaram (quase) todos inteligentes? Ou é simplesmente nossa coerência indo para o ralo quando concordam com o que pensamos?

O que quer o nosso congresso nacional? O que está acontecendo? Qual o projeto de poder de interesse neste momento?

Menor ideia. Mas sei que temos pelo menos dois “imbróglios” com a Dilma neste momento: alguns no TSE, por conta das denúncias associadas à “doações” indevidas da Petro na campanha eleitoral da Dilma e outra relativa ao relatório do TCU, em relação às pedaladas fiscais. Se o segundo for adiante, pelo que entendo, ela sai e fica o Temer, PMDB (partido do Eduardo Cunha). Se o primeiro for adiante, as eleições seriam anuladas, saem Dilma e Temer – e adivinhem quem assume o Brasil por 90 dias? O presidente da câmara dos deputados, vulgo o Sr. Eduardo Cunha. Se o cara fez o que fez em 24h na votação da maioridade e na doação de campanha, calcule o que acontecerá em 90 dias…

Complicado. Muito complicado.

Epilogo: não sou cientista social, político ou algo do gênero. Podem e devem ter erros. O texto não é uma leitura casuística profissional, nem uma fórmula ou uma verdade absoluta. É apenas um exercício de cidadania individual e esquizofrênico que resolvi compartilhar publicamente.

*Autor do texto: Aydamari Farias Jr. – Professor da Universidade Federal Fluminense.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 463, 11 de julho de 2015.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

Padrão
down syndrom, futebol, inclusão, necessidades especiais, preconceito, síndrome de down

Gabriel no Maracanã

20150322_172022_1

Flamengo e Vasco no Maracanã, domingo, 22 de março de 2015. Em homenagem ao dia internacional da síndrome de Down que ocorrera na véspera, algumas pessoas com a trissomia do 21 participaram da entrada no campo com os jogadores.

Eu estive entre os convidados e este é um relato da minha visita a um dos clássicos do futebol carioca no Maracanã. Venha participar dessa viagem comigo!

Chegada ao estádio. Final de tarde em um dia nublado e fotos pelo lado externo do Maracanã.

20150322_163606_1

Este é meu pai que me acompanhou durante o passeio, carregou a mochila e fez as fotos.

 

20150322_164011_1

Sala de espera onde houve um lanche, os convidados de Vasco e Flamengo foram chegando e confraternizando.

20150322_164710_1

Entregaram camisas dos times para que pudéssemos entrar no campo com os jogadores.

20150322_165402_1

 

Recebi uma camisa oficial do Vasco. Adorei!

20150322_165525_1

 

Galera do Vasco depois de uniformizada.

20150322_170126_1

 

Os dois times lado a lado!
20150322_174300_1

 

Vendo os jogadores do Flamengo chegar, os do Vasco chegaram mais cedo.
20150322_171604_21887_1

 

Os ônibus de Flamengo e Vasco no estacionamento.
20150322_174408_1

 

Lateral do ônibus do Vasco, o Gigante da Colina.
_1

 

Lateral do ônibus do Flamento, um imenso de um escudo.
20150322_173849_1

 

Achei até uma homenagem para o Fluminense.
20150322_172733_1

 

Posando em frente a placa de entrevista 1.
20150322_174117_1

 

Posando em frente a placa de entrevista 2.
20150322_174057_1

 

Área de acesso dos times ao interior do Maracanã.
20150322_174354_1

 

Depois os jogadores seguem por esse corredor. O segurança é gente fina, mas está ali para impedir que a gente entre. rsrsrsrs
20150322_174438_1

 

O Romário chegou e virou… bagunça total!
20150322_180218_1

 

Aproveitamos (eu e meu pai) para fazermos uma foto com o Romário ou, como dizem por aí, com o Peixe!
20150322_180505_1

 

Mas não foi só o Romário que eu encontrei. Uma amiga torcedora do Flamengo posou para fotos comigo.
20150322_183744_1

 

E ganhei um beijo na bochecha!
20150322_183737_1

 

Hora de entrar em campo. Estava chovendo um pouco e entrei de capa de chuva azul. É possível ver uma das traves ao fundo. Depois perfilei com os jogadores.
10408140_798537210199607_6687409870763274163_n

 

Hora de assistir o jogo!
20150322_185751_1

 

Deu tempo para fazer uma foto com o papai.
20150322_192328_1

 

Chovia muito e o gramado virou uma piscina.
20150322_185836_1

 

Mas ainda deu para assistir a partida

20150322_195033_1

 

Comemorar um gol!
20150322_195057_1

 

E meditar!
20150322_203121_1

 

Ah, eu até apareci na televisão!
20150322_182536_47971_1

 

O dia foi maravilhoso! Quero mais!
20150322_190007_1

Padrão
Conhecimento, deficiência, down syndrom, educação especial, inclusão, necessidades especiais, preconceito, síndrome de down

Dia internacional da síndrome de Down – Homenagens

O dia internacional da síndrome de Down é comemorado em 21 de março (3/21 na grafia inglesa) como uma referência à trissomia do cromossomo 21.

Algumas homenagens ao Gabriel, meu filho, foram elaboradas e postadas por pessoas queridas em 2015 e, para não deixá-las dispersas nas redes sociais, decidi reuni-las aqui.

Seguem abaixo as postagens:

ANDRESSA COSTA (irmã) – vídeo

 

Andressa Costa fez o vídeo e o texto. Vou reproduzir literalmente, pois o depoimento da Andressa reflete sua relação de amor com Gabriel Oliveira Costa. E no dia Internacional da síndrome de Down, o essencial é dar visibilidade as relações, as interações, as lutas e acreditar: É POSSÍVEL!” (Comentário de MARINALVA OLIVEIRA -mãe – ao postar o vídeo da Andressa)

Meu príncipe Gabriel , mais um dia em que eu posso te dizer o quanto és especial pra mim, o quanto encanta as pessoas ao seu redor e o quanto faz bem e feliz as pessoas que tem o prazer de fazer parte da sua vida. Você tem um olhar único, um sorriso contagiante, você tem o melhor abraço do mundo, você me faz esquecer de qualquer problema, nem tem como dimensionar o quanto me ajudou a mudar, o quanto me ensinou (mesmo sendo mais novo). Antes do seu nascimento já te amava de um jeito inacreditável meu pequeno, esse amor só cresce a cada dia, você é um guerreiro, sempre pronto a aprender, disposto a tentar coisas novas, não baixa a cabeça na primeira dificuldade e em nenhuma que aparece.Meu pequeno príncipe, meu moreno de Niterói, meu sambista, meu garoto aventureiro e menino do sorriso fácil e contagiante, estarei contigo em todos os momentos, saiba que sempre vai poder contar comigo, porque a gente briga, a gente brinca, a gente dança e desse nosso jeito a gente vai se amando ..rsrs…, TE AMO MUITOOO..
E viva a diversidade…
Porque ser diferente é NORMAL!!

 

MARICÉLIA OLIVEIRA (tia Nélia) – foto

 

MARCIA LUCENA (fonoterapeuta e amiga) – foto

Homenagem Marcia Lucena

 

ROGERS CARVALHO (tio) – foto

TAÍS LARA – Titaís (amiga) – texto

VALTER AVELAR (amigo) – texto

 

MARINALVA OLIVEIRA (mãe) – foto

E, para finalizar, divulgo também minha homenagem (redigida em 2014): É possível ser feliz?

Padrão
deficiência, discriminação, educação, educação especial, Entrelinhas, ideologia, inclusão, movimentos sociais, necessidades especiais, política, preconceito, saúde, síndrome de down

Uma aventura congelante

O medo é congelante. Melhor, talvez, seja dizer paralisante, pois nos deixa muitas vezes inertes quando precisamos correr. Mas o medo também é importante, pois nos preserva ao impedir que ultrapassemos os limites do que seria prudente e seguro. Sentir medo é um traço evolutivo que auxilia na sobrevivência dos organismos. Sem o medo, poderíamos ser impelidos a nos jogar de despenhadeiros, a encarar de frente caminhões em movimento ou quaisquer outras ações que teriam grande chance de resultar em lesão ou morte.

O medo ronda-nos em várias situações. Ficamos repletos dele quando nossa saúde ou a de nossos filhos estão ameaçadas. O mundo parece vir abaixo quando um profissional da área da saúde diz que nossa criança é diferente e que sua vida será cheia de dificuldades, que o melhor a fazer é protegê-la. Pais de crianças com necessidades especiais sempre se deparam com essa vicissitude.

Elsa e seus poderes.

Os pais de Anna e Elsa em “Frozen: uma aventura congelante” também foram alertados dos riscos a que suas filhas estavam propensas. Elsa nascera com necessidades especiais, era detentora de poderes potencialmente perigosos e letais para si e os outros, os quais não podia ou sabia controlar. Elsa é alertada: “Você deve aprender a controlá-lo. O medo será seu inimigo”. Os pais, com medo do futuro, decidem precaver-se e afirmam: “Iremos protegê-la. Ela pode aprender a controlar, tenho certeza! Até lá… trancaremos os portões, reduziremos os empregados, limitaremos o contato dela com as pessoas e manteremos os poderes escondidos de todos”.

Em uma bolha, protegido, mas isolado do mundo.

Apesar de sua importância, o medo quando exacerbado, traz muitos problemas. No afã de proteger sua criança, por não ser igual às outras, os pais decidem “encobrir, não sentir, não deixar saber”. Durante muito tempo, essa foi a postura de muitos pais de crianças com necessidades especiais. Os filhos não viam o mundo e, simultaneamente, o mundo não via essas crianças. Quando, por alguma razão, sociedade e criança se encontravam, os atos e comportamentos desta eram incompreendidos. Não era para menos, a criança sequer tivera a chance de encontrar outras pessoas e aprender a comportar-se como a sociedade na qual deveria estar inserida. Tornava-se, então, um pária, pois uma criança isolada de todos não aprende sobre o mundo e sofrerá muito mais. Uma vida onde não se vê ninguém é solitária e vazia, deixa apenas escorrer o tempo sem que realmente se viva. Estabelecer o isolamento não melhora a situação, ao contrário, gera uma pessoa que não sabe se comportar em sociedade, não por conta de suas necessidades especiais, mas por ter negada a possibilidade de interações, de entrar em contato com a sociedade com a qual deve interagir. O cuidado excessivo construído pelo medo nega as amizades, a possibilidade de brincar, de ter contato e conhecer pessoas, de ter uma vida.

Alguns pais de crianças especiais ainda cometem o mesmo engano que os pais de Elsa e Anna. Recolhem seus filhos dos olhos do mundo e acabam por impedir que vivam em plenitude. Felizmente a lógica da inclusão tem ganhado força e os pais têm levado seus filhos ao encontro do mundo. Por conta desse contato com a sociedade, de pais que não mais escondem os filhos, de intervenções precoces, de profissionais cada vez mais conscientes da importância de sua atuação, de legislações inclusivas, essas crianças estão tendo a chance de explorar suas potencialidades e serem felizes.

Devemos romper a bolha que impede a inclusão.

E já que falamos de experiência paralisante, nada melhor que excertos do filme “Frozen: uma aventura congelante” para retratar a ansiedade de perceber-se diferente e da emoção de poder encontrar o mundo do qual se está isolado. “Aquela janela destrancou / E tudo por aqui já se animou (…) / Vazio é sempre esse lugar / Pra que salão se não dançar / Finalmente vão abrir os portões / Vai ter gente de verdade / Eu vou até estranhar / Mas como eu estou pronta pra mudar / Por uma vez na eternidade / Essas luzes vão brilhar (…) / Não sei se é emoção ou são gases / Mas assim é bem melhor / Por uma vez na eternidade / Eu não vou estar só (…) / Bem do jeito que sonhei / Nada como a vida que eu levei / Por uma vez na eternidade / A magia e diversão (…) / E eu sei que é muita loucura (…) /Mas por uma vez na eternidade / Ao menos vou tentar (…) / A espera é uma aflição (…) / Os meus sonhos ganham cor (…) / Por uma vez na eternidade / Nada vai me deter”.

Gabriel aprendendo a ler.

Lutemos para que nada detenha a inclusão, sejam legisladores, pais ou professores. Enfrentemos essa aventura congelante e rompamos o medo paralisante, pois há muito a se construir e é preciso fazê-lo, pois “amar é colocar a necessidade de alguém acima da sua”.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 413, 14 de junho de 2014.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

Padrão
ciência, Conhecimento, discriminação, educação, Entrelinhas, Evolução, ideologia, inclusão, movimentos sociais, política, preconceito

#eunãosouhumano

Racismo mata! É coisa séria e deve ser tratada como tal. A ação de Daniel Alves de comer uma banana jogada ao campo de futebol seguida da postagem de Neymar com o filho comendo bananas acompanhado da expressão somos todos macacos é emblemática pelas discussões e reações que provocou. A ideia varreu as redes sociais e foi seguida por uma enxurrada de críticas. O ataque aos #somostodosmacacos extrapolou os limites do bom senso. Mas será que a proposta foi tão ofensiva assim? A hashtag era tão avessa aos interesses daqueles que lutam contra o racismo? Por que tanta gente que nunca esteve nem aí para o racismo se posicionou contrário ao uso do #somostodosmacacos como uma estratégia de enfrentamento dessa polêmica?

Choveram críticas, e muitas delas com fundamentações importantes. Sim, a história iniciou com Daniel Alves e Neymar, negros, mas que por sua condição financeira vivenciam o racismo de uma forma particular bem diferente daquela enfrentada por inúmeros Amarildos e Cláudias. É fato que Neymar disse, quando ainda jogava no Santos, que não era negro e que nunca havia sofrido racismo. É verídico que o uso da banana e a #somostodosmacacos foram pensados por uma empresa de publicidade e não algo espontâneo. Mas a partir dessa jogada de marketing houve uma explosão nas redes sociais da hashtag e de fotos com gente famosa ou desconhecida segurando uma banana. Também é verdade que isso ocorreu porque, dentre os que reproduziram a ideia, havia pessoas realmente preocupadas com o racismo, a fim de entrar na febre midiática do momento, visando retorno financeiro, querendo posar de engajado, ou seja, com os mais variados interesses.

Óbvio que se a ideia da campanha estiver limitada à imagem e a hashtag, a proposta é apenas uma gota no deserto quanto à possibilidade real de reverter as causas importantes na geração e perpetuação do racismo. Mas minimamente abriu uma discussão sobre o tema. Em qual momento desse país tanta gente, das mais variadas condições econômicas e culturais, falou sobre racismo em um mesmo período? Não seria o caso de aproveitar a febre e tentar usá-la de forma construtiva para avançar nas discussões mais de fundo das questões étnicas em nossa sociedade? Por que desperdiçar a oportunidade e optar por criticar de forma pesada a construção da #somostodosmacacos?

Algumas pessoas envolvidas com o movimento negro e ativistas pela superação do preconceito apontaram que a ação era, em si mesmo, preconceituosa e que contribuía negativamente na luta contra o racismo. Perfeito, sendo assim, de fato não é possível seguir adiante com a campanha. Infelizmente, a essência da esmagadora maioria das argumentações contrárias à proposta tem outra razão: incompreensão clara e simples e, principalmente, fundamentalismo religioso.

No primeiro caso, por exemplo, apresenta-se a afirmação de que a possibilidade correta para gerar uma consciência de identidade racial seria a #somostodospretos ou #somostodosnegros. Mas, a ideia inicial não era o autorreconhecimento, era afirmar “somos todos iguais, eu e você que atirou a banana”, portanto, incluir todos na condição de macacos, sejam eles negros, brancos, amarelos, vermelhos, racistas ou não. Sendo todos iguais, não há razão para distinção positiva ou negativa. Em nenhum momento a ideia foi afirmar que os negros são macacos como mecanismo de defesa contra o racismo. Outra proposta, a #somostodoshumanos, não surte efeito. O racista vê a si como humano e nega ao negro essa humanidade, ele vai dar de ombros pra isso e continuar a chamar o outro de macaco. Com a #somostodosmacacos, o racista também é chamado de macaco, e isso ele não quererá admitir.

Entretanto, a maioria das críticas sobre o #somostodosmacacos repousa em questões fundamentalistas religiosas. A afirmação principal de seus defensores era “eu não sou um macaco (ou animal), eu sou humano”.  Os que defendem essa ideia partem da premissa de que o homem é um ser especial criado a imagem e semelhança de uma divindade e, como tal, não pode ser comparado a qualquer outro animal. Vociferam contra Darwin e sua construção científica. Dizem que não vale nada porque é uma teoria. Mas tudo em ciência que tem credibilidade é teoria! O termo teoria é utilizado para um conjunto de conhecimentos coesos capazes de explicar, pelo menos até que outra teoria a substitua, a forma como o mundo é organizado. Darwin falou em ancestralidade comum entre homens e macacos, não que aquele tenha derivado deste, muito menos que o homem é o objetivo final da evolução dos primatas. Por falar em ancestralidade comum, os seres humanos partilhamos semelhança genética com primatas (95 a 99% com o chimpanzé, dependendo do modelo utilizado), porcos, ratos, amebas, vegetais… Somos todos resultados da diversificação da vida, de forma que todos os organismos vivos partilham alguma similaridade. A compreensão de como os organismos vivos surgiram e diferenciaram-se no mundo é fantástica, pena que nas escolas encontre dificuldades em razão do fundamentalismo. As crianças já chegam fechadas a esta informação. Pior, há alunos de graduação em biologia que se negam a compreender o fio de Ariadne da ciência que escolheram como profissão. Por conta do fundamentalismo, a teoria de Darwin, apesar de toda sua relevância, é uma das mais incompreendidas na ciência.

Macaco com cartaz eu não sou humano

Lamentavelmente, esse fundamentalismo tende a aumentar e a transformar em inferno na Terra, a existência daqueles que não se dobram a ele. A tendência, entretanto, é piorar, o texto bem humorado de Eliane Brum mostra isso. (http://glo.bo/1iFFIBw). Em meio a toda essa incompreensão e resistência, que inclusive afeta a discussão sobre o racismo, vale a ironia da charge de um macaco segurando um cartaz com a inscrição: “Eu não sou ‘humano’. Resolvam suas diferenças sozinhos”.

 

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 407, 03 de maio de 2014.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

Padrão