Conhecimento, democracia, discriminação, educação, ideologia, política, universidade

Para quem serve o Ensino a Distância em tempos de pandemia?*

Eblin Farage**, de Niterói, RJ

EaD na USP

As razões que nos levam a apontar críticas ao ensino a distância (EaD), quando proposto em substituição ao ensino presencial, emergem das análises realizadas sobre o projeto de educação sugerido pelos organismos internacionais e executado pelos governos a serviço do capital. Como aponta o Banco Mundial (BM), esse projeto tem por objetivo a implantação de uma educação terciária aligeirada e, exatamente por isso, vem sendo debatido e criticado pelas entidades e profissionais da educação há pelo menos três décadas. Embora os contrapontos a essa proposta de ensino tenham sido já longamente debatido, neste momento em que vivemos o distanciamento social, o EaD aparece, novamente, como a alternativa capaz de proporcionar educação àqueles que se encontram impedidos de ir ao espaço formal da escola/ Universidade. Assim, neste momento, o que queremos e debater os motivos para defender a EaD em tempos de pandemia.

Para debater o EaD neste momento de pandemia, escolhi um caminho orientado por três perguntas:

  • O que este momento da pandemia gera para o(a)s professore(a)s?
  • O que este momento gera para o(a)s aluno(a)s?
  • Qual a dimensão pedagógica deste momento de pandemia?

Ao nos debruçarmos sobre a primeira questão, é necessário atentar para o fato de que vivemos um isolamento social imposto. Sim, imposto! E a dimensão da imposição gera duas grandes questões para refletirmos sobre nossa realidade cotidiana. Primeiro, a imposição não nos permitiu preparo prévio. Sendo inesperada, não abriu lacuna temporal para que realizássemos qualquer planejamento. Resulta desta imediaticidade de demanda uma segunda dimensão, que é a absorção de novas tarefas em nossos trabalhos cotidianos. Atividades não previstas, muitas vezes para as quais não possuímos formação nem estamos preparados, e as quais somos, de uma hora para outra, demandados a responder. E, em adendo, há uma leitura de que temos tempo para nos dedicar a estas atividades e às aprendizagens necessárias, pois, como estamos em casa, estamos de férias curtindo um repouso.

Não, não estamos de férias! Não planejamentos viagens e divertimentos, assim como não planejamos acumular ao trabalho doméstico, o cuidado com crianças, idosos e pessoas com deficiência. O isolamento, sem preparação prévia, nos colocou frente a limitações materiais as mais variadas e a imposições de demandas emocionais e organizacionais para as quais não estávamos preparados e, em alguns casos, não desejávamos. Assim, um conjunto de novos e velhos conflitos passa a permear nosso cotidiano e, agora, cobrados sob a alegação de que não há a desculpa de que não temos tempo para tratá-los, mesmo que saibamos que, para algumas dessas questões, não temos respostas.     

O impacto material e emocional gerado pela imposição de uma rotina não planejada e, muitas vezes sem as condições materiais necessárias para enfrentá-la, pode gerar boas surpresas e novas experiências, mas também frustrações, sobrecarga e desgaste emocional e físico. Por isso o período de isolamento social não pode ser considerado: a) férias; b) cotidiano de normalidade e rotina e c) tempo de trabalho regular. 

Sim, é preciso afirmar, não estamos em nosso trabalho regular. O trabalho remoto não substitui plenamente o trabalho presencial, não temos condições de responder às mesmas demandas e assegurar o mesmo desempenho. Quando preparamos aulas na “normalidade” da vida cotidiana, o fazemos sem criança para olhar, sem casa para arrumar, sem comida para fazer, sem idoso para cuidar ou pelo menos com esses elementos já plenamente inseridos em nossa organização cotidiana. Por isso, não acredito que o isolamento social imposto de maneira imediata possa ser comparado com o trabalho regular sem isolamento, daí não ser possível exigir o mesmo “desempenho”. 

Mas por que falar em desempenho? Porque somos cobrados através da lente da eficácia das ações. Assim, acima de tudo, o volume de atividades que nos acomete durante o isolamento faz com que a impossibilidade de estudar, preparar aulas, escrever artigos, ler livros ou mesmo ver filmes ou séries gere frustração. Por isso vemos muitas pessoas, pelas redes sociais, perguntando como outras arrumam tempo para fazer tantas coisas? Como brincam tanto com os filhos, escrevem tantos textos, acessam tanto as redes sociais, assistem a tantos filmes, cozinham tantas coisas, dão conta de tantas atribuições domésticas? Confinadas em suas casas, as pessoas parecem se envolver em um turbilhão de atividades. A sensação é a de que lá na frente estarão esgotadas, estafadas. É tanta demanda que, como dizem alguns, após a pandemia será necessário férias!

Agregado às novas atribuições e às frustrações que a situação provoca, temos o sofrimento dos diferentes distanciamentos que a pandemia nos impõe. Distância de amigos, familiares, amores, atividades físicas, passeios, festas, bares, religião (em especial as que não são neopentecostais e estão seguindo o isolamento social), e até (por curioso que seja) tratamentos de saúde. 

Neste contexto, como conseguir focar no que se é demandado a fazer? Como manter ou quiçá elevar (sério que esperam isso?) o conclamado “desempenho”? Como estar com a cabeça boa para trabalhar?

Mas se nós professore(a)s estamos assim, olhemos para a segunda questão que norteia nosso caminho e questionemos, como estão nosso(a)s aluno(a)s? Estão muito próximos da nossa situação material e emocional no que tange as condições para o processo de ensino-aprendizagem. Alienados, em muitos casos, das condições objetivas materiais por estarem e/ou terem seus parentes desempregados e sem qualquer fonte de renda. 

Nesse sentido, nosso(a)s aluno(a)s, assim como nós, estão agregando trabalho e tendo que se envolver em rotinas de cuidados que antes não eram sua responsabilidade. Para muitos de nosso(a)s aluno(a)s a situação é muito pior que a do(a)s professore(a)s, pois em muitos casos não dispõem de internet e, muitas vezes, nem de computador. Indo além, muitos não têm sequer uma casa ou um cômodo confortável, com espaço silencioso para estudar, até porque, nas favelas as incursões policiais e as guerras entre facções rivais, apesar de terem diminuído, continuam. E nosso(a)s aluno(a)s com deficiência que, em muitos casos, precisam de mediadores e material adaptado, serão atendidos em suas necessidades? 

Há muitas especificidades, há muitas desigualdades, e não se pode nem deve pensar a educação só para alguns, ou em privilégio de alguns. O EaD, nesse contexto, como substituição ao ensino presencial, é uma forma de elitizar a educação e aprofundar a desigualdade, o fosso entre ricos e pobres. Em um país tão desigual, direitos se tornam privilégios. A educação presencial, nas instituições públicas de ensino, garante a possibilidade de amenizar essa desigualdade. Assim, as condições desiguais entre nosso(a)s aluno(a)s, por si só, justificam a impossibilidade do EaD ser assumido como substituto ao presencial. Durante a pandemia, o ensino a distância aprofunda a desigualdade e inviabiliza qualquer possibilidade de isonomia no processo de ensino-aprendizagem. 

Mas há mais elementos. Muito(a)s do(a)s nosso(a)s aluno(a)s estão buscando formas de cadastrar suas famílias para a renda emergencial do governo, pois com a pandemia, uma grande parcela de subempregados/as foi descartada. Nosso(a)s aluno(a)s, filho(a)s de empregadas domésticas, motoristas de Uber, pedreiros, faxineiras, diaristas, cozinheiras, vendedores de hambúrgueres e cachorro-quente, salgadeiras, manicures e de toda a sorte de subempregos que a reforma trabalhista e o capitalismo chamam de empreendedorismo, precisam sobreviver. E a luta não é só contra a Covid-19, mas é também contra a fome e o despejo por não conseguir pagar o aluguel. Parte de nosso(a)s aluno(a)s, em especial aquele(a)s que ingressaram no ensino superior pelas cotas sociais e raciais, hoje estão apreensivo(a)s pela aprovação de medidas que inviabilizem os despejos e o corte de energia, água, luz e gás. Estão atentos às ações do presidente e prontos para criticá-lo, não porque nós, professore(a)s “comunistas e doutrinadore(a)s” ensinamos, como afirma o desgoverno. Assim estão porque essas medidas são condição para sua existência, hoje. Então, poderíamos repetir aqui quase as mesmas perguntas, saídas agora das bocas dos estudantes: Como focar no que se é demandado a fazer? Como manter o “desempenho”? Como estar com a cabeça boa para estudar?

Diante desses elementos que vislumbra as condições em que se encontram professore(a)s e aluno(a)s, temos que ir a nossa terceira questão e nos perguntarmos, qual a dimensão pedagógica neste momento de pandemia? Será necessário o EaD?

Considerando todos os argumentos políticos consistentes que acumulamos nos últimos trinta anos sobre o ensino a distância. Considerando todos os estudos que mostram que vivemos no século XXI uma das principais fases da mercantilização da educação. Considerando a compreensão de educação que permeia uma prática emancipadora. Considerando os elementos que já apontamos, a conclusão que se apresenta nos diz que, por agora, em tempo de isolamento social, a imposição do EaD é a banalização de um instrumento pedagógico, que em certas situações e em determinadas realidades, pode vir a ser um recurso tecnológico importante.  

A banalização do EaD, neste momento, é uma estratégia alinhada à ação voluntarista de administrações que a todo custo querem justificar recursos e garantir o calendário escolar. Nem sabem quanto(a)s estudantes terão após a pandemia, mas querem garantir o fechamento do ciclo escolar de 2020, mesmo que seja sem aluno(a)s e professore(a)s.

Essa tentativa desesperada de buscar manter certa normalidade, em meio a evidente situação de anormalidade; ao ineditismo de uma situação sem precedente para boa parte da humanidade; ao desespero de contar dias e horas aulas para evitar uma possível, quem sabe, reposição; explicita a desvalorização mais profunda do ensino presencial, do processo de ensino-aprendizagem e da condição humana do(a)s professore(a)s e aluno(a)s. As métricas, as aparências e as regularidades são colocadas como referências. Pouco importam, nessa lógica, professore(a)s, aluno(a)s, familiares e demais envolvidos com o processo. Implantar o EaD e, nesse processo, esquecer o elemento humano em prol da tecnicalidade sendo uma inversão que destrói a essência do que é a educação.

Podemos e devemos manter contato com nosso(a)s aluno(a)s nesse momento. Mas não para “passar” conteúdos que depois vão valer como atividade regular. Podemos e devemos ser solidários, sugerir leituras de cultura geral, lives que contribuam para a formação humana, trocar percepções sobre a conjuntura e a pandemia. Mas sem imposição de conteúdos, notas, carga horária. Curiosamente, a pandemia nos oferece a oportunidade de escaparmos do regramento dos calendários letivos e educar no sentido mais amplo do termo. 

E, neste momento de pandemia, o que de mais importante temos a ensinar? Certamente não são os conteúdos de nossos programas de graduação e pós-graduação, por mais maravilhosos, inovadores e geniais que sejam. Educar, então, tem que estar centrado na preocupação com o outro, no respeito à vida, na percepção de que é possível construir um mundo de maior igualdade, de que nossos esforços contam, de que a luta coletiva constrói. Nosso maior ensinamento deve ser o da SOLIDARIEDADE de classe. Nosso esforço deve ser o de dizer que a vida deve estar acima dos lucros e, por isso, nossa solidariedade é de classe. Os empresários e banqueiros, os ricos de forma geral, já contam com a “solidariedade” ativa do Estado, com o dinheiro público arrecadado do(a)s trabalhadore(a)s pronto para lhes “salvar”. Afinal, aquele que se acha o chefe da nação, que nesta crise já liberou mais de um trilhão de reais para o capital rentista, diz e repete que a economia não pode parar. Mas as vidas do(a)s trabalhadore(a)s, podem parar? Quem vai salvar as vidas dos/as moradore(a)s das periferia, do(a)s ribeirinho(a)s, dos povos indígenas? 

Agora é hora, mais uma vez, de demonstrar que a classe trabalhadora pode e deve ser solidária e só com ela pode contar. É hora de arrumar armários e fazer doações, de colaborar nas diversas campanhas de solidariedade com as periferias, de exigir equipamentos para os profissionais da saúde, de bater panelas nas nossas janelas, de exigir um programa emergencial. Isso tudo podemos ensinar para nossos filhos e filhas, em casa, sem que eles ao menos saibam escrever. Afinal, ler e escrever letras e palavras, a escola ensina e terá todo o tempo, após a pandemia, para fazê-lo. Mas nesse momento, estamos tendo uma grande oportunidade de ensinar nosso(a)s filho(a)s a lerem o mundo, como dizia Paulo Freire. Ensinar a ler o mundo é nossa principal tarefa como educadore(a)s, e isso, só podemos fazer presencialmente!

*Publicado originalmente no EOL em 15/04/2020: https://esquerdaonline.com.br/2020/04/15/para-quem-serve-o-ensino-a-distancia-em-tempos-de-pandemia/

**Eblin Farage é assistente Social, professora da Escola de Serviço Social da UFF, mestre e doutora em Serviço Social e militante do movimento sindical docente.

Padrão
ciência, Conhecimento, democracia, discriminação, divulgação, divulgação cientifica, movimentos sociais, pesquisa, política

De quem é a ciência?

Autor: Phillipe Linhares[i]

Quero comentar uma frase aparentemente despretensiosa que vi no meu Facebook outro dia (original na imagem abaixo). Confesso que a atual conjuntura e meu cansaço não me permitiram naquele momento fazer mais do que entender aquela frase como um meme, soltar muitas risadas no mural da pessoa que a tinha escrito e fazê-la uma piada com alguns amigos, no entanto…

No entanto quero poder dar uma nova oportunidade pra mim mesmo e tentar rever aquela frase com o máximo de seriedade com que posso refletir e tentar avaliar o que pode ser retirado dessa mensagem, ainda que talvez seja mais referente a conteúdos de fora do que necessariamente algum conhecimento da própria mensagem.

Eu não vou me furtar a comentar a polarização política exprimida nesse comentário que diz mais sobre pra qual time alguém torce do que quanto e como esta pessoa se preocupa com alguns problemas que nem sempre vão ter resolução aparente. Essa questão acima aparece na segunda sentença e sozinha já poderia ilustrar o governo atual, mas não vou retirá-la do contexto (apesar de ser perfeita e gramaticalmente possível que isso seja feito) e ela não é o foco desse texto.

O foco desse texto é sobre a frase – e a ideia que a fundamenta – que o governo de uma ou outra pessoa faria uma descoberta científica. Pra começar é importante comentar que o governo investiu menos de 1,3% do PIB em desenvolvimento da ciência através de pesquisas em 2017 (segundo o relatório mais recente disponível [ii]). Isso faz com que não seja Bolsonaro o vilão da história (ao menos nesse caso ele  só acompanhou – e deu uma mãozinha – ao corte à ciência). 

Não vou analisar o porquê e os contextos para o início do corte, mas o fato que temos é que agora estamos colhendo o plantio dessa colheita maldita (com o perdão do trocadilho com o filme de terror, que a bem da verdade dá menos medo que a nossa vida real) e já com esse atual cenário digno de Stephen King não adianta mais incitar a população contra qualquer “demônio” que nossa história possa nos mostrar. O factual é que devemos tomar alguma atitude em relação a isso. Mas o que fazer?

A pandemia dá uma característica singular – a cereja do bolo, como se diz no popular – e ela traz à tona o que de pior poderia se ver com relação aos cortes. As desigualdades que estruturam nossas relações sociais estão completamente nuas e somos forçados a relembrar desde a promulgação da lei 8080/1990 (lei que consolida o SUS mas que também deixa clara a posição que nossos pais, avós ou alguns de vocês tinham sobre o fenômeno) que um vírus pode não fazer mais distinções do que genes, células e moléculas, mas que a doença, essa sim, é um fenômeno social assim como a saúde. 

Estão mais expostas as trabalhadoras que tem que sustentar o lar sozinhas na ocupação da sobrevivência. As pessoas, em sua “esmagada” maioria negras que vivem em condições precárias de oferta de assistência a saúde, condições básicas de higiene e garantia de acesso a serviços básicos[iii] (importante usar esmagada e não esmagadora já que é constituinte desse cenário a frase de que “as ‘minorias’ têm que se curvar à maioria”[iv] – atente aqui pro uso da palavra curvar). Tudo isso explicita que gênero, raça e classe ainda são determinantes e condicionantes em saúde – e portanto indicadores de que o Brasil é um país doente – e o tratamento seriam políticas econômicas e sociais que garantiriam equidade à população.

Outra coisa a ser considerada é o desequilíbrio trabalhista desse cenário em que pessoas devem fazer jornadas duplas, triplas e algumas vezes quádruplas de trabalho onde são pesquisadoras-professoras (condição indissociável no Brasil), trabalham informalmente em prol de uma renda extra e ainda cuidam dos espaços familiares – não vou refletir sobre o fato de professores terem de ser pesquisadores mas deixo aqui registrado o questionamento do porquê pesquisadores tem de ser necessariamente professores dentro do sistema público. Isso aliado ao fato de que não conseguimos consolidar políticas públicas em esfera federal que sejam regularmente respeitadas faz com que o Brasil seja um país instável à educação, tendo flutuações relativas a esse ou aquele governo.

Por último, o ambiente e a prática científica, longe de um purismo que já fora anteriormente defendido, guarda uma certa distância do que infelizmente hoje nós vemos e nomeamos como partidarismo. Veja bem, a ciência que é estudada hoje tem uma característica diferente da maior parte daquela que todo o estudante de início de graduação vê com os gregos clássicos. Ela é ativa, não contemplativa. Ela visa resolver problemas cotidianos e não refletir sobre o sentido deles no cosmos. Isso tudo faz com que ela se distancie de uma política da morte e da exploração que se vê hoje no Brasil e que alguns autores nomeiam como necropolítica. No entanto ela não se distancia da concepção clássica da política como o agir com relação ao outro e nesse campo se faz importante convocar todos para reocupar esse espaço e tomá-lo de volta para que possamos utilizar a ciência de forma ética para resolver desigualdades e promover direitos humanos, assim como tinha sido proposto na lei de 1990. A ciência é feita por pessoas e deve ser feita para pessoas.


[i] Phillipe Linhares é psicólogo de formação. Trabalhador da saúde mental no município do Rio de Janeiro, acredita que toda a saúde só pode ser pública. Atua como divulgador de saúde e práticas de cuidado em grupo com a iniciativa Hashtag Psi. https://linktr.ee/hashtagpsi

[ii] https://www.mctic.gov.br/mctic/opencms/indicadores/detalhe/recursos_aplicados/RecursosAplicados-CeT.html, em 04/05/2020;

[iii] https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/04/11/coronavirus-e-mais-letal-entre-negros-no-brasil-apontam-dados-do-ministerio-da-saude.ghtml, em 04/05/2020;

[iv] https://youtu.be/BCkEwP8TeZY,  em 04/05/2020.

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democracia, discriminação, ideologia, movimentos sociais, política

Patriota ou Patriotagem?

Autores: Edson Teixeira[i], Marco Lamarão[ii].

            Tem sido uma constante a autoproclamação do patriotismo, sobretudo pelos setores vinculados ao “bolsonarismo”. Embora reverenciem a bandeira norte-americana com indisfarçável submissão. Entre nós, alguns setores ostentam o verde-amarelo nas suas manifestações. Fato que esteve presente nas mobilizações antipetistas, que culminaram no impeachment. Muitos parlamentares legitimaram o golpe evocando a pátria e outras ridicularidades bestiais. Serão, todos eles, patriotas ou exercem uma espécie de “patriotagem”?

            Um dos pilares do anticomunismo, ou seja, uma das formas de atacar quem tem simpatia pelo comunismo sempre foi o estigma de “traidor”. Patto Sá explica essa perseguição: “os comunistas seriam agentes de uma potência estrangeira, a URSS, sua pátria real, o que os tornava traidores da pátria” [iii]. Como se sabe, os comunistas – ou todo aquele e aquela que se opõe as desigualdades sociais de forma crítica e contundente – não têm fronteiras. Partilham de uma concepção de mundo internacionalista. Dialogam com uma carta de despedida que um médico deixou aos seus filhos: “sobretudo, sejam capazes sempre de sentir profundamente qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte lugar do mundo. É a qualidade mais bela de um revolucionário” [iv]. No entanto, e sobretudo, os internacionalistas não descuidam daquilo que denominam de “questão nacional”, em especial, naqueles países que sofrem mais agudamente as agruras do imperialismo dos países centrais e, neste sentido, são legítimos patriotas.

            No Brasil, o patriotismo sempre foi um recurso para legitimar atrocidades. Em defesa da pátria, mais de 20 mil seguidores de Antônio Conselheiro foram trucidados pelo Exército[v], na Guerra de Canudos (1893-1897), na Bahia. Em defesa da pátria, militares ceifaram mais de 15 mil vidas dos que se revoltaram na Guerra do Contestado (1912-1916), na divisa entre o Paraná e Santa Catarina. É bom lembrar que os camponeses de Canudos e do Contestado não conheciam nada dessa coisa de comunismo. Desejavam igualdade social, fortemente influenciados pela religiosidade.

            Em 1917, em São Paulo, milhares de trabalhadores e trabalhadoras – sobretudo do setor de tecelagem – construíram um movimento grevista de grandes proporções. Suas reivindicações, entre outros pontos, eram: a carga horária diária de 8h de trabalho (a carga horária era, em média, de 12h/dia); a abolição do trabalho noturno das mulheres; a abolição do trabalho de menores de 14 anos; além de melhorais salariais e o direito de se organizarem, politicamente. Foram reprimidos pelas forças policiais daquele estado. Segundo José Luiz Del Roio: “há indícios de várias covas, as quais estariam sepultados mais de uma centena de corpos, levados clandestinamente pelas forças de segurança ao cemitério do Araçá, um dos mais tradicionais de São Paulo” [vi]. Esta repressão também fora feita “em nome da pátria”.

É Importante lembrar que, no Brasil, um nacionalismo de esquerda sempre fora um importante elemento na luta anti-imperialista, luta esta encampada, inclusive, pelo “partidão” quando em meados do século passado auxiliava, dentre erros e acertos, a construção de um projeto nacional-desenvolvimentista. Isso ocorria mesmo quando este partido se encontrava na ilegalidade, o que na nossa história não foi nada incomum.

            A lista de truculências é longa. Abreviaremos. Durante a Ditadura Empresarial Militar (1964-1985), foram “anos de chumbo” para quem resistiu: houve tortura, assassinato, ocultação de cadáveres, censura, banimento de cidadãos ao exílio, cassação de mandatos e registros políticos, a suspensão do habeas corpus, até a pena de morte foi implantada no país. “Anos de glória” para empresários – nacionais e estrangeiros -, militares das Forças Armadas, agentes policiais civis/militares e setores expressivos da grande mídia, que implantaram um terrorismo de estado mantido intacto na redemocratização. Basta lembrar o assassinato – pelo Exército – de três operários na greve metalúrgica, em Volta Redonda (1988); o Massacre do Carandiru (1992), o Massacre da Candelária (1993), o Massacre de Eldorado dos Carajás (1996) e o recente assassinato da vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes, entre outras barbaridades perpetradas.

            Para “os de cima” e seus aliados, defender a pátria é implantar uma autêntica guerra psicológica manipuladora. Nessa guerra, o alvo são os inimigos internos ou os sobrantes do mercado: “a carne mais barata do mercado é a carne negra”. Nessa guerra, disseminam o ódio, impulsionam comportamentos coletivos possessivos e fundamentalistas. Muitas vezes associados a consigna: deus, pátria e família.   Em nada coexiste fé, nem patriotismo e muito menos modelo familiar decente. Instaura-se a “patriotagem”. Muitas vezes associadas as passeatas e carreatas da morte. Por detrás da máscara, esta “defesa da pátria” encobre, na realidade, a submissão dos interesses nacionais aos ditames dos países centrais, algo do tipo “um patriotismo em defesa da pátria alheia”

É preciso desconstruir e ressignificar a narrativa do patriotismo. Implodir as suas amarras. Esse fenômeno insuflou a xenofobia, legitimou a dominação imperialista, gerou guerras fraticidas e horrendas, corroborou a emergência de regimes tirânicos – como o fascismo e o nazismo – e é um recurso de explícita violência política nas frágeis democracias. A rigor, a cultura de um povo e seu caráter nacional não são opostos aos valores universais, a diversidade e a convivência com o contraditório.

Nesse sentido, há um legado dos quilombolas do passado e do presente, entre mocambos, favelas e periferias; dos camponeses que lutaram e lutam por terra livre; dos que desenvolveram e irão desenvolver inúmeras greves; dos que lutam por moradia digna; dos que ousaram enfrentar a Ditadura Empresarial Militar, entre outras contendas. Tais formas de luta conjugam valores nacionais e universais, enfatizando a defesa dos direitos humanos no seu sentido mais amplo.

Afinal, aqueles que labutam de sol a sol, os invisíveis do nosso país, os trabalhadores informais, os pretos e pobres, a classe trabalhadora em geral carregam consigo a insígnia da pátria, construindo-a dia-a-dia, sem a necessidade de se autoproclamar patriota. Pois que, em tempos tão turvos, os verdadeiros patriotas não soerguem a camisa da CBF.

Como cantou o poeta [vii], é possível acreditar “na rapaziada, que segue em frente e segura o rojão”. Na “fé da moçada, que não foge da fera e enfrenta o leão”. É imperativo “ir à luta com essa juventude, que não foge da raia a troco de nada”. Seguir “o bloco dessa mocidade, que não está na saudade e constrói a manhã desejada”. Partilhar com “aquele que sabe o sufoco de um jogo tão duro”, que “apesar dos pesares ainda se orgulha de ser brasileiro”. É imprescindível acompanhar “a batucada com a cerva gelada”. Afinal, “o resto é besteira”.


[i] Professor Dr. da Faculdade de Serviço Social do CURO- UFF- Rio das Ostras.

[ii] Professor Dr. da Faculdade de Licenciatura em História IFF-Macaé

[iii] MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Em Guarda contra o perigo vermelho: o anticomunismo no Brasil. São Paulo: Perspectiva: FAPESP, 2002. URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, extinta em 1991).

[iv] GUEVARA, Che. Cartas. São Paulo: Edições Populares, 1980.

[vi] ROIO, José Luiz Del. A greve de 1917: os trabalhadores entram em cena. São Paulo: Alameda, 2017. Ver também: BANDEIRA, Moniz. MELO, Clovis. ANDRADE, A.T. A Revolução Russa e seus reflexos no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.

[vii] Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, o Gonzaguinha: “E vamos à luta” (1980).

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Conhecimento, democracia, discriminação, Entrelinhas, ideologia, inclusão, movimentos sociais, política

Da série: “maioridade, prisões ou escolas – estamos sendo enganados”.

 

Prólogo: Texto longo. Se estiver com preguiça, nem perca seu tempo.

Sabe aquele seu amigo “reaça” que posta fotos de menores de 18 anos com armas nas mãos e pergunta se “aquilo” é criança e tem que ir pra “escola”? Ele pode estar certo. E diversos exemplos de menores que cometeram crimes dos mais bizarros podem e provavelmente estão além de qualquer recuperação.

– Pausa –

Sabe aquele seu amigo “vermelho”, que posta fotos de escolas e diz o tempo todo que a gente precisa mais de escolas que de prisões? Ele pode estar certo.

Pior que certo e errado, os amigos “reaça” e “vermelho” podem estar falando das mesmas coisas, mas estão ocupados demais nas mútuas ofensas para uma simples troca de informações.

Como eles podem e estar falando da mesma coisa? Simples: eles estão falando de momentos diferentes. Numa analogia estúpida, se eu quero comer frutas sem ter que pagar preços absurdos por elas, eu preciso de um pomar. E leva tempo para o abacateiro crescer e frutificar. E se ele crescer sem os cuidados adequados, pode vir a ser necessário derrubá-lo, anos depois, porque ele não dá abacates ou porque as “ervas daninhas” consumiram o abacateiro…

Lembra do assassinato do menino que foi arrastado por bandidos no Rio, em 2007? Os assassinos do João Hélio são árvores (muito) estragadas. Mantê-los em sociedade é perigoso (considerando que seja possível). E, para tirá-los da sociedade, precisamos de leis mais rigorosas (e que sejam aplicadas).

Mas nem sempre eles – os assassinos – foram assim. Para ter aquele nível de desprezo à vida, aquele nível de ignorância sobre a vida, você precisa de condições específicas. Você precisa conviver desde a sua mais tenra infância com a morte e com a violência, ao ponto de não entender – de não compreender – o valor que tem a vida. E vivendo nestas circunstâncias, você tem outro desafio: sobreviver. Se sobreviver, provavelmente foi graças a muito ódio. Ódio de tudo. Ódio daquilo que você gostaria de ter tido e não teve. Ódio do mundo. Ódio de si. Ódio puro e simples. Nada disso necessariamente elaborado ou consciente: sentir ódio é relativamente fácil, como você bem deve ter sentido, mesmo sem um milésimo do que vivem estas pessoas.

Se este cenário te pareceu familiar, é porque ele é. É o cenário de um percentual acachapante de brasileiros, entre eles crianças e adolescentes. O crime só é uma opção se você conhece outra opção – é tão óbvio que esquecemos. E se não formos apresentados a outra opção? E se a violência for a única linguagem que conhecemos? Pois é com ela que nos comunicaremos… Se você acha que isso não é verdade ou que é exagero da minha parte, eu peço que você procure visitar “comunidades carentes não pacificadas” próximas a sua residência. No Rio há aos montes. Vá por sua conta e risco.

 

É neste ponto que esquerda e direita se encontram: a gente precisa melhorar as estratégias para que este cenário não crie mais marginais do “quilate” destes monstros que desafiam o conceito do que é humano. Precisamos de cidadania (saúde, escola…). Precisamos de reabilitação e talvez até mesmo de exclusão. Mas não em detrimento uns dos outros. É um “continuum”, onde um sem o outro serão incompletos… Precisamos da esquerda e da direita.

Mas o que tem isso a ver com sermos enganados? Tudo.

Mudar o Estatuto da Criança e do Adolescente (o tal do ECA) é um processo mais fácil do que mudar a constituição. Mudar a constituição tem mais etapas, é mais complicado, demandante e ainda poderá ser invalidada pelo STF ao final, visto que a redução da maioridade penal pode ser considerada cláusula pétrea. Ao mudar o ECA, incluindo “penas” mais duradouras e pesadas, além de ter o efeito desejado sobre o temor quanto a criminalidade, o risco de alterar a legalidade do consumo do álcool e a prostituição de menores seria menor, para “melhorar”. A mudança do ECA teria muito mais vantagens que desvantagens.

E por que estamos tentando alterar a constituição ao invés do ECA? Porque precisamos de palco: é o tal “clamor popular”. Quando quase 80% da população quer algo, nossos políticos fazem teatro. No Brasil (não apenas) não temos projeto político, temos projeto de poder. E isso faz muita diferença. Então temos todo um “misancene” neste sentido, com votos pela madrugada e manobras das mais variadas, algumas até supostamente ilegais. Tudo em nome do show.

Então, não tem nada a ver com torcer para o coleguinha ser esfaqueado por um menor ou achar que todo adolescente é puro e lindo. É sobre uma possibilidade de conversa, troca e monitoramento dos políticos que nos representam, tenha você votado nele ou não.

Eu nem argumentei sobre a viabilidade carcerária de qualquer uma destas mudanças, porque estes argumentos estão muito distantes dos básicos. Eu nem usei do apelo à coerência, quando na época da eleições só líamos e ouvíamos que a “massa” é burra por escolher este ou aquele candidato. “Bando de analfabetos funcionais”, não era assim? Ora, em um pleito que deu praticamente 50% pra cada lado (nas eleições), as duas metades se achavam burras. Agora, com 80% favoráveis à diminuição da maioridade, ficaram (quase) todos inteligentes? Ou é simplesmente nossa coerência indo para o ralo quando concordam com o que pensamos?

O que quer o nosso congresso nacional? O que está acontecendo? Qual o projeto de poder de interesse neste momento?

Menor ideia. Mas sei que temos pelo menos dois “imbróglios” com a Dilma neste momento: alguns no TSE, por conta das denúncias associadas à “doações” indevidas da Petro na campanha eleitoral da Dilma e outra relativa ao relatório do TCU, em relação às pedaladas fiscais. Se o segundo for adiante, pelo que entendo, ela sai e fica o Temer, PMDB (partido do Eduardo Cunha). Se o primeiro for adiante, as eleições seriam anuladas, saem Dilma e Temer – e adivinhem quem assume o Brasil por 90 dias? O presidente da câmara dos deputados, vulgo o Sr. Eduardo Cunha. Se o cara fez o que fez em 24h na votação da maioridade e na doação de campanha, calcule o que acontecerá em 90 dias…

Complicado. Muito complicado.

Epilogo: não sou cientista social, político ou algo do gênero. Podem e devem ter erros. O texto não é uma leitura casuística profissional, nem uma fórmula ou uma verdade absoluta. É apenas um exercício de cidadania individual e esquizofrênico que resolvi compartilhar publicamente.

*Autor do texto: Aydamari Farias Jr. – Professor da Universidade Federal Fluminense.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 463, 11 de julho de 2015.

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Conhecimento, discriminação, educação, ideologia, saúde

Novembro azul

Outubro rosa, depois… novembro azul. Qual a relação entre meses e cores? Não, isso não tem nada a ver com a trilogia das cores da bandeira francesa do cineasta polonês Krzysztof Kieślowski, mas com campanhas mundiais de combate a certos tipos de câncer. O outubro rosa é dedicado a integrar pessoas, empresas, organizações e Estado à luta contra o câncer de mama por meio de ações direcionadas à conscientização detecção e prevenção precoce. Inicialmente o símbolo era um laço rosa usado nas roupas ou enfeitando locais públicos, depois ganhou outras modalidades de divulgação como corridas, desfiles e eventos esportivos. Recentemente a estratégia envolveu iluminar monumentos e prédios públicos, mas o laço continua sendo o símbolo maior.

Nos mesmos moldes do outubro rosa, há o novembro azul voltado à prevenção e diagnóstico precoce do câncer de próstata, diabete mellitus e outras doenças masculinas. O símbolo é um laço azul e as outras modalidades de divulgação são similares às do outubro rosa. Esse ano, por exemplo, o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, foi iluminado na cor azul em apoio à campanha. O câncer de próstata é o segundo câncer de maior frequência entre os homens, de modo que um em cada seis homens desenvolve a doença em algum momento da vida e um em cada 34 acaba morrendo em decorrência desse câncer. Normalmente quando o câncer é diagnosticado após o surgimento dos sintomas e não por estratégias de detecção precoce, mais de 95% dos casos já se encontram em situação avançada e, portanto, o tratamento torna-se mais difícil e a taxa de mortalidade elevada.

Apesar desses números fatalistas, quando o câncer de próstata é diagnosticado precocemente, há chance de cura em 90% dos casos. Essa informação, aliada ao fato de que a campanha tem aumentado o número de homens que tem feito os exames de forma adequada para efetivar a detecção precoce, indica que o número de mortes em decorrência do câncer de próstata deve ser reduzido significativamente nos próximos anos. Os exames recomendados para o diagnóstico precoce são o exame de sangue conhecido como PSA (sigla em inglês para Antígeno Prostático Específico), ultrassonografia da próstata e o toque retal. Os exames são complementares e não é recomendável que se opte por não fazer o toque retal. Homens acima de 50 anos devem fazer o exame regularmente, mas em caso de histórico familiar é recomendado que a procura pelo urologista ocorra entre 40 e 45 anos.

A próstata é uma glândula do aparelho reprodutor masculino e sua principal função, junto com as vesículas seminais, é a produção de esperma. O acesso à glândula ocorre pelo toque através do reto (ânus) e é aqui que as coisas se complicam para a detecção. Tocar o ânus é tabu entre os homens e isso está vinculado ao machismo e a própria ideia de virilidade e, por essa razão, muitos se recusam a fazer o exame e chegam mesmo a evitar falar sobre o assunto. A campanha do novembro azul tem sido muito efetiva e importante, em promover a conscientização e levar os homens ao exame. Algumas coisas, entretanto, precisam ser levadas em consideração para que os efeitos da campanha sejam significativos e reduzam cada vez mais a ocorrência do câncer de próstata.

Campanhas com esse formato, ajudam ou atrapalham?

É necessário vencer o preconceito e fazer os homens procurarem o médico para fazer o exame. Nas redes sociais, entretanto, são comuns imagens e brincadeiras com relação à introdução do dedo no reto. A sociedade é machista e os homens veem a questão do toque como uma invasão que afeta sua virilidade e masculinidade. É preciso levar isso em consideração, pois isso pode gerar desconforto e, consequentemente, antipatia com a campanha. Se os que reproduzem informações sobre o novembro azul têm como preocupação central reduzir os índices de morte relacionados às doenças masculinas como o câncer de próstata, então não é adequado fazer brincadeiras com esse tom e conteúdo. Alguns alegam que tal estratégia é importante para combater o machismo da sociedade. Claro que combater o machismo é necessário, mas misturar as duas coisas pode não produzir o melhor dos resultados e ainda acabar por não conseguir nem uma coisa nem outra. Uma frase de muito bom tom que defende tanto o exame quanto o combate ao machismo é “Um toque pela vida, um drible no preconceito”.

Novembro é azul, até o Cristo está envolto em azul, a campanha é importante e os homens devem procurar o médico para realizar os exames. E, embora a cor não tenha vínculo com a trilogia das cores de Kieślowski, é bom saber que a realização dos exames de forma periódica e o combate ao machismo de forma a não prejudicar a campanha do novembro azul podem, como no título do filme, nos fazer ver que “A liberdade é azul”.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 437, 22 de novembro de 2014.

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