Conhecimento, democracia, discriminação, educação, ideologia, política, universidade

Para quem serve o Ensino a Distância em tempos de pandemia?*

Eblin Farage**, de Niterói, RJ

EaD na USP

As razões que nos levam a apontar críticas ao ensino a distância (EaD), quando proposto em substituição ao ensino presencial, emergem das análises realizadas sobre o projeto de educação sugerido pelos organismos internacionais e executado pelos governos a serviço do capital. Como aponta o Banco Mundial (BM), esse projeto tem por objetivo a implantação de uma educação terciária aligeirada e, exatamente por isso, vem sendo debatido e criticado pelas entidades e profissionais da educação há pelo menos três décadas. Embora os contrapontos a essa proposta de ensino tenham sido já longamente debatido, neste momento em que vivemos o distanciamento social, o EaD aparece, novamente, como a alternativa capaz de proporcionar educação àqueles que se encontram impedidos de ir ao espaço formal da escola/ Universidade. Assim, neste momento, o que queremos e debater os motivos para defender a EaD em tempos de pandemia.

Para debater o EaD neste momento de pandemia, escolhi um caminho orientado por três perguntas:

  • O que este momento da pandemia gera para o(a)s professore(a)s?
  • O que este momento gera para o(a)s aluno(a)s?
  • Qual a dimensão pedagógica deste momento de pandemia?

Ao nos debruçarmos sobre a primeira questão, é necessário atentar para o fato de que vivemos um isolamento social imposto. Sim, imposto! E a dimensão da imposição gera duas grandes questões para refletirmos sobre nossa realidade cotidiana. Primeiro, a imposição não nos permitiu preparo prévio. Sendo inesperada, não abriu lacuna temporal para que realizássemos qualquer planejamento. Resulta desta imediaticidade de demanda uma segunda dimensão, que é a absorção de novas tarefas em nossos trabalhos cotidianos. Atividades não previstas, muitas vezes para as quais não possuímos formação nem estamos preparados, e as quais somos, de uma hora para outra, demandados a responder. E, em adendo, há uma leitura de que temos tempo para nos dedicar a estas atividades e às aprendizagens necessárias, pois, como estamos em casa, estamos de férias curtindo um repouso.

Não, não estamos de férias! Não planejamentos viagens e divertimentos, assim como não planejamos acumular ao trabalho doméstico, o cuidado com crianças, idosos e pessoas com deficiência. O isolamento, sem preparação prévia, nos colocou frente a limitações materiais as mais variadas e a imposições de demandas emocionais e organizacionais para as quais não estávamos preparados e, em alguns casos, não desejávamos. Assim, um conjunto de novos e velhos conflitos passa a permear nosso cotidiano e, agora, cobrados sob a alegação de que não há a desculpa de que não temos tempo para tratá-los, mesmo que saibamos que, para algumas dessas questões, não temos respostas.     

O impacto material e emocional gerado pela imposição de uma rotina não planejada e, muitas vezes sem as condições materiais necessárias para enfrentá-la, pode gerar boas surpresas e novas experiências, mas também frustrações, sobrecarga e desgaste emocional e físico. Por isso o período de isolamento social não pode ser considerado: a) férias; b) cotidiano de normalidade e rotina e c) tempo de trabalho regular. 

Sim, é preciso afirmar, não estamos em nosso trabalho regular. O trabalho remoto não substitui plenamente o trabalho presencial, não temos condições de responder às mesmas demandas e assegurar o mesmo desempenho. Quando preparamos aulas na “normalidade” da vida cotidiana, o fazemos sem criança para olhar, sem casa para arrumar, sem comida para fazer, sem idoso para cuidar ou pelo menos com esses elementos já plenamente inseridos em nossa organização cotidiana. Por isso, não acredito que o isolamento social imposto de maneira imediata possa ser comparado com o trabalho regular sem isolamento, daí não ser possível exigir o mesmo “desempenho”. 

Mas por que falar em desempenho? Porque somos cobrados através da lente da eficácia das ações. Assim, acima de tudo, o volume de atividades que nos acomete durante o isolamento faz com que a impossibilidade de estudar, preparar aulas, escrever artigos, ler livros ou mesmo ver filmes ou séries gere frustração. Por isso vemos muitas pessoas, pelas redes sociais, perguntando como outras arrumam tempo para fazer tantas coisas? Como brincam tanto com os filhos, escrevem tantos textos, acessam tanto as redes sociais, assistem a tantos filmes, cozinham tantas coisas, dão conta de tantas atribuições domésticas? Confinadas em suas casas, as pessoas parecem se envolver em um turbilhão de atividades. A sensação é a de que lá na frente estarão esgotadas, estafadas. É tanta demanda que, como dizem alguns, após a pandemia será necessário férias!

Agregado às novas atribuições e às frustrações que a situação provoca, temos o sofrimento dos diferentes distanciamentos que a pandemia nos impõe. Distância de amigos, familiares, amores, atividades físicas, passeios, festas, bares, religião (em especial as que não são neopentecostais e estão seguindo o isolamento social), e até (por curioso que seja) tratamentos de saúde. 

Neste contexto, como conseguir focar no que se é demandado a fazer? Como manter ou quiçá elevar (sério que esperam isso?) o conclamado “desempenho”? Como estar com a cabeça boa para trabalhar?

Mas se nós professore(a)s estamos assim, olhemos para a segunda questão que norteia nosso caminho e questionemos, como estão nosso(a)s aluno(a)s? Estão muito próximos da nossa situação material e emocional no que tange as condições para o processo de ensino-aprendizagem. Alienados, em muitos casos, das condições objetivas materiais por estarem e/ou terem seus parentes desempregados e sem qualquer fonte de renda. 

Nesse sentido, nosso(a)s aluno(a)s, assim como nós, estão agregando trabalho e tendo que se envolver em rotinas de cuidados que antes não eram sua responsabilidade. Para muitos de nosso(a)s aluno(a)s a situação é muito pior que a do(a)s professore(a)s, pois em muitos casos não dispõem de internet e, muitas vezes, nem de computador. Indo além, muitos não têm sequer uma casa ou um cômodo confortável, com espaço silencioso para estudar, até porque, nas favelas as incursões policiais e as guerras entre facções rivais, apesar de terem diminuído, continuam. E nosso(a)s aluno(a)s com deficiência que, em muitos casos, precisam de mediadores e material adaptado, serão atendidos em suas necessidades? 

Há muitas especificidades, há muitas desigualdades, e não se pode nem deve pensar a educação só para alguns, ou em privilégio de alguns. O EaD, nesse contexto, como substituição ao ensino presencial, é uma forma de elitizar a educação e aprofundar a desigualdade, o fosso entre ricos e pobres. Em um país tão desigual, direitos se tornam privilégios. A educação presencial, nas instituições públicas de ensino, garante a possibilidade de amenizar essa desigualdade. Assim, as condições desiguais entre nosso(a)s aluno(a)s, por si só, justificam a impossibilidade do EaD ser assumido como substituto ao presencial. Durante a pandemia, o ensino a distância aprofunda a desigualdade e inviabiliza qualquer possibilidade de isonomia no processo de ensino-aprendizagem. 

Mas há mais elementos. Muito(a)s do(a)s nosso(a)s aluno(a)s estão buscando formas de cadastrar suas famílias para a renda emergencial do governo, pois com a pandemia, uma grande parcela de subempregados/as foi descartada. Nosso(a)s aluno(a)s, filho(a)s de empregadas domésticas, motoristas de Uber, pedreiros, faxineiras, diaristas, cozinheiras, vendedores de hambúrgueres e cachorro-quente, salgadeiras, manicures e de toda a sorte de subempregos que a reforma trabalhista e o capitalismo chamam de empreendedorismo, precisam sobreviver. E a luta não é só contra a Covid-19, mas é também contra a fome e o despejo por não conseguir pagar o aluguel. Parte de nosso(a)s aluno(a)s, em especial aquele(a)s que ingressaram no ensino superior pelas cotas sociais e raciais, hoje estão apreensivo(a)s pela aprovação de medidas que inviabilizem os despejos e o corte de energia, água, luz e gás. Estão atentos às ações do presidente e prontos para criticá-lo, não porque nós, professore(a)s “comunistas e doutrinadore(a)s” ensinamos, como afirma o desgoverno. Assim estão porque essas medidas são condição para sua existência, hoje. Então, poderíamos repetir aqui quase as mesmas perguntas, saídas agora das bocas dos estudantes: Como focar no que se é demandado a fazer? Como manter o “desempenho”? Como estar com a cabeça boa para estudar?

Diante desses elementos que vislumbra as condições em que se encontram professore(a)s e aluno(a)s, temos que ir a nossa terceira questão e nos perguntarmos, qual a dimensão pedagógica neste momento de pandemia? Será necessário o EaD?

Considerando todos os argumentos políticos consistentes que acumulamos nos últimos trinta anos sobre o ensino a distância. Considerando todos os estudos que mostram que vivemos no século XXI uma das principais fases da mercantilização da educação. Considerando a compreensão de educação que permeia uma prática emancipadora. Considerando os elementos que já apontamos, a conclusão que se apresenta nos diz que, por agora, em tempo de isolamento social, a imposição do EaD é a banalização de um instrumento pedagógico, que em certas situações e em determinadas realidades, pode vir a ser um recurso tecnológico importante.  

A banalização do EaD, neste momento, é uma estratégia alinhada à ação voluntarista de administrações que a todo custo querem justificar recursos e garantir o calendário escolar. Nem sabem quanto(a)s estudantes terão após a pandemia, mas querem garantir o fechamento do ciclo escolar de 2020, mesmo que seja sem aluno(a)s e professore(a)s.

Essa tentativa desesperada de buscar manter certa normalidade, em meio a evidente situação de anormalidade; ao ineditismo de uma situação sem precedente para boa parte da humanidade; ao desespero de contar dias e horas aulas para evitar uma possível, quem sabe, reposição; explicita a desvalorização mais profunda do ensino presencial, do processo de ensino-aprendizagem e da condição humana do(a)s professore(a)s e aluno(a)s. As métricas, as aparências e as regularidades são colocadas como referências. Pouco importam, nessa lógica, professore(a)s, aluno(a)s, familiares e demais envolvidos com o processo. Implantar o EaD e, nesse processo, esquecer o elemento humano em prol da tecnicalidade sendo uma inversão que destrói a essência do que é a educação.

Podemos e devemos manter contato com nosso(a)s aluno(a)s nesse momento. Mas não para “passar” conteúdos que depois vão valer como atividade regular. Podemos e devemos ser solidários, sugerir leituras de cultura geral, lives que contribuam para a formação humana, trocar percepções sobre a conjuntura e a pandemia. Mas sem imposição de conteúdos, notas, carga horária. Curiosamente, a pandemia nos oferece a oportunidade de escaparmos do regramento dos calendários letivos e educar no sentido mais amplo do termo. 

E, neste momento de pandemia, o que de mais importante temos a ensinar? Certamente não são os conteúdos de nossos programas de graduação e pós-graduação, por mais maravilhosos, inovadores e geniais que sejam. Educar, então, tem que estar centrado na preocupação com o outro, no respeito à vida, na percepção de que é possível construir um mundo de maior igualdade, de que nossos esforços contam, de que a luta coletiva constrói. Nosso maior ensinamento deve ser o da SOLIDARIEDADE de classe. Nosso esforço deve ser o de dizer que a vida deve estar acima dos lucros e, por isso, nossa solidariedade é de classe. Os empresários e banqueiros, os ricos de forma geral, já contam com a “solidariedade” ativa do Estado, com o dinheiro público arrecadado do(a)s trabalhadore(a)s pronto para lhes “salvar”. Afinal, aquele que se acha o chefe da nação, que nesta crise já liberou mais de um trilhão de reais para o capital rentista, diz e repete que a economia não pode parar. Mas as vidas do(a)s trabalhadore(a)s, podem parar? Quem vai salvar as vidas dos/as moradore(a)s das periferia, do(a)s ribeirinho(a)s, dos povos indígenas? 

Agora é hora, mais uma vez, de demonstrar que a classe trabalhadora pode e deve ser solidária e só com ela pode contar. É hora de arrumar armários e fazer doações, de colaborar nas diversas campanhas de solidariedade com as periferias, de exigir equipamentos para os profissionais da saúde, de bater panelas nas nossas janelas, de exigir um programa emergencial. Isso tudo podemos ensinar para nossos filhos e filhas, em casa, sem que eles ao menos saibam escrever. Afinal, ler e escrever letras e palavras, a escola ensina e terá todo o tempo, após a pandemia, para fazê-lo. Mas nesse momento, estamos tendo uma grande oportunidade de ensinar nosso(a)s filho(a)s a lerem o mundo, como dizia Paulo Freire. Ensinar a ler o mundo é nossa principal tarefa como educadore(a)s, e isso, só podemos fazer presencialmente!

*Publicado originalmente no EOL em 15/04/2020: https://esquerdaonline.com.br/2020/04/15/para-quem-serve-o-ensino-a-distancia-em-tempos-de-pandemia/

**Eblin Farage é assistente Social, professora da Escola de Serviço Social da UFF, mestre e doutora em Serviço Social e militante do movimento sindical docente.

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De quem é a ciência?

Autor: Phillipe Linhares[i]

Quero comentar uma frase aparentemente despretensiosa que vi no meu Facebook outro dia (original na imagem abaixo). Confesso que a atual conjuntura e meu cansaço não me permitiram naquele momento fazer mais do que entender aquela frase como um meme, soltar muitas risadas no mural da pessoa que a tinha escrito e fazê-la uma piada com alguns amigos, no entanto…

No entanto quero poder dar uma nova oportunidade pra mim mesmo e tentar rever aquela frase com o máximo de seriedade com que posso refletir e tentar avaliar o que pode ser retirado dessa mensagem, ainda que talvez seja mais referente a conteúdos de fora do que necessariamente algum conhecimento da própria mensagem.

Eu não vou me furtar a comentar a polarização política exprimida nesse comentário que diz mais sobre pra qual time alguém torce do que quanto e como esta pessoa se preocupa com alguns problemas que nem sempre vão ter resolução aparente. Essa questão acima aparece na segunda sentença e sozinha já poderia ilustrar o governo atual, mas não vou retirá-la do contexto (apesar de ser perfeita e gramaticalmente possível que isso seja feito) e ela não é o foco desse texto.

O foco desse texto é sobre a frase – e a ideia que a fundamenta – que o governo de uma ou outra pessoa faria uma descoberta científica. Pra começar é importante comentar que o governo investiu menos de 1,3% do PIB em desenvolvimento da ciência através de pesquisas em 2017 (segundo o relatório mais recente disponível [ii]). Isso faz com que não seja Bolsonaro o vilão da história (ao menos nesse caso ele  só acompanhou – e deu uma mãozinha – ao corte à ciência). 

Não vou analisar o porquê e os contextos para o início do corte, mas o fato que temos é que agora estamos colhendo o plantio dessa colheita maldita (com o perdão do trocadilho com o filme de terror, que a bem da verdade dá menos medo que a nossa vida real) e já com esse atual cenário digno de Stephen King não adianta mais incitar a população contra qualquer “demônio” que nossa história possa nos mostrar. O factual é que devemos tomar alguma atitude em relação a isso. Mas o que fazer?

A pandemia dá uma característica singular – a cereja do bolo, como se diz no popular – e ela traz à tona o que de pior poderia se ver com relação aos cortes. As desigualdades que estruturam nossas relações sociais estão completamente nuas e somos forçados a relembrar desde a promulgação da lei 8080/1990 (lei que consolida o SUS mas que também deixa clara a posição que nossos pais, avós ou alguns de vocês tinham sobre o fenômeno) que um vírus pode não fazer mais distinções do que genes, células e moléculas, mas que a doença, essa sim, é um fenômeno social assim como a saúde. 

Estão mais expostas as trabalhadoras que tem que sustentar o lar sozinhas na ocupação da sobrevivência. As pessoas, em sua “esmagada” maioria negras que vivem em condições precárias de oferta de assistência a saúde, condições básicas de higiene e garantia de acesso a serviços básicos[iii] (importante usar esmagada e não esmagadora já que é constituinte desse cenário a frase de que “as ‘minorias’ têm que se curvar à maioria”[iv] – atente aqui pro uso da palavra curvar). Tudo isso explicita que gênero, raça e classe ainda são determinantes e condicionantes em saúde – e portanto indicadores de que o Brasil é um país doente – e o tratamento seriam políticas econômicas e sociais que garantiriam equidade à população.

Outra coisa a ser considerada é o desequilíbrio trabalhista desse cenário em que pessoas devem fazer jornadas duplas, triplas e algumas vezes quádruplas de trabalho onde são pesquisadoras-professoras (condição indissociável no Brasil), trabalham informalmente em prol de uma renda extra e ainda cuidam dos espaços familiares – não vou refletir sobre o fato de professores terem de ser pesquisadores mas deixo aqui registrado o questionamento do porquê pesquisadores tem de ser necessariamente professores dentro do sistema público. Isso aliado ao fato de que não conseguimos consolidar políticas públicas em esfera federal que sejam regularmente respeitadas faz com que o Brasil seja um país instável à educação, tendo flutuações relativas a esse ou aquele governo.

Por último, o ambiente e a prática científica, longe de um purismo que já fora anteriormente defendido, guarda uma certa distância do que infelizmente hoje nós vemos e nomeamos como partidarismo. Veja bem, a ciência que é estudada hoje tem uma característica diferente da maior parte daquela que todo o estudante de início de graduação vê com os gregos clássicos. Ela é ativa, não contemplativa. Ela visa resolver problemas cotidianos e não refletir sobre o sentido deles no cosmos. Isso tudo faz com que ela se distancie de uma política da morte e da exploração que se vê hoje no Brasil e que alguns autores nomeiam como necropolítica. No entanto ela não se distancia da concepção clássica da política como o agir com relação ao outro e nesse campo se faz importante convocar todos para reocupar esse espaço e tomá-lo de volta para que possamos utilizar a ciência de forma ética para resolver desigualdades e promover direitos humanos, assim como tinha sido proposto na lei de 1990. A ciência é feita por pessoas e deve ser feita para pessoas.


[i] Phillipe Linhares é psicólogo de formação. Trabalhador da saúde mental no município do Rio de Janeiro, acredita que toda a saúde só pode ser pública. Atua como divulgador de saúde e práticas de cuidado em grupo com a iniciativa Hashtag Psi. https://linktr.ee/hashtagpsi

[ii] https://www.mctic.gov.br/mctic/opencms/indicadores/detalhe/recursos_aplicados/RecursosAplicados-CeT.html, em 04/05/2020;

[iii] https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/04/11/coronavirus-e-mais-letal-entre-negros-no-brasil-apontam-dados-do-ministerio-da-saude.ghtml, em 04/05/2020;

[iv] https://youtu.be/BCkEwP8TeZY,  em 04/05/2020.

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Ficar em casa? Isolamento social?

O texto e o vídeo abaixo são extremamente elucidativos quanto à importância do isolamento social para combater o avanço da pandemia do Covid-19.

O vídeo é muito didático em mostrar porque devemos fazer o isolamento muito antes da curva de crescimento de contágio começar a verticalizar. Não dá para esperar para depois, a hora de agir é agora!

O texto aponta que Niterói, apesar da proximidade com a capital do Rio de Janeiro (apenas a ponte Rio-Niterói nos separa) e de ter sido um dos primeiros locais a aparecer contaminados com a Covid-19 no Brasil, tem uma curva de contágio que cresce lentamente (comparado com a de outros municípios brasileiros) em razão das ações que estão sendo desenvolvidas pela prefeitura e pelo cuidado da população. Goste-se ou não do prefeito e de sua política, é preciso reconhecer que no caso do Covid-19 as ações de rapidamente propor isolamento social, restringir os acessos aos locais públicos, determinar a abertura apenas de serviços essenciais, espargir produtos que combatem a propagação do vírus, entre outras, aliadas ao isolamento social que a população vem seguindo, tem produzido a redução (achatamento) da curva de contágio. Por outro lado, é preciso ligar o alerta para o fato de que, nos últimos dias (principalmente depois que falaram no uso da máscara de forma mais contínua e pelo interesse em comprar ovos de páscoa), a população tem colocado a máscara e saído em uma frequência maior. Essa atitude pode colocar em risco tudo o que foi conquistado até agora.

Fiquem com o texto e o vídeo abaixo:

(Texto: autoria desconhecida): Vejam esse vídeo explicação sobre a curva exponencial do coronavírus e entendam porque em Niterói os casos e óbitos crescem, mas crescem lentamente, pelas ações de isolamento social, higiene da população e sanitização que realizamos no momento certo, enquanto em outras cidades a situação se aproximará do caos nos próximos dias. Ajudem a divulgar para moradores de cidades limítrofes. Infelizmente muitos governantes desprezam a ciência e aí é tarde demais como estamos vendo agora em alguns países. Divulguem! A situação é grave! FIQUEM EM CASA nos próximos dias e em caso de necessidade extrema utilizem máscaras, mesmo as de tecido!

(Autor do vídeo: Maurício Féo – Engenheiro e PhD. em Física de partículas)

Voltando a frase dita anteriormente: A hora de agir (que curiosamente nesse caso significa isolar-se em casa o máximo possível) é agora!

Se você tem a possibilidade, acompanhe a mensagem do desenho de João Silveira e…

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Bolsonaro, coronavírus e o programa espacial – parte 1

Três, dois, um… decolar! Acesos os motores, a Challenger avança rumo ao céu. É a partida de mais uma aeronave no glorioso histórico das viagens ao espaço. Viagens em que astronautas americanos e cosmonautas russos galgaram, sob acirrada disputa, o sonho humano de conquistar as estrelas. Olhos e câmeras registram a ascensão da nave por exatos 73 segundos, até que… labaredas reluzem no ar, chamas consomem a Challenger, rastros de fogo e fumaça imprimem, no contraste com o azul do céu, os derradeiros sinais do que outrora fora uma espaçonave. Milhões de pessoas testemunham ao vivo, o pior acidente das viagens espaciais. Sob a explosão da Challenger, explode também a pergunta: por quê?

O acidente da Challenger, que fez estacionar o programa espacial americano, é um exemplo clássico de pensamento de grupo. Embora o nome pareça indicar uma coletividade que se organiza de forma a obter os melhores resultados, pensamento de grupo é algo que se tenta evitar. No caso da espaçonave, os estudos mostraram que a explosão ocorreu por pensamento de grupo e pela falha nos anéis de borracha que fazem a vedação no tanque de combustível. Sim, uma pequena peça de borracha e um mecanismo psicológico foram os responsáveis pela explosão da nave, a morte dos astronautas e por imensos estragos no programa espacial.

A equipe responsável pela Challenger possuía dúvidas quanto ao funcionamento dos anéis de vedação naquela ocasião e deveria ter cancelado o voo. A NASA (agência espacial americana), para evitar acidentes, tem por princípio não realizar qualquer lançamento caso haja dúvidas quanto à segurança. Sendo esse o princípio, por que a Challenger foi lançada quando havia incertezas? Segundo Irving Janis, professor de Psicologia de Yale, o grupo de especialistas foi afetado pelo pensamento de grupo, uma busca por coesão grupal tão intensa que suprime qualquer fala ou posicionamento dissonante entre os integrantes. Grupos com figuras das quais não se pode discordar, com alta coesão grupal e pressionados de fora em sua tomada de decisão, costumam enveredar por pensamento de grupo.

Sintomas do pensamento de grupo envolvem assumir riscos extremos; ignorar informações que contradigam as crenças do grupo; crer que seus valores são superiores aos dos demais e assumir que os fins justificam os meios, ignorando a ética e a moral em suas decisões; membros externos são vistos de forma estereotipada ou como inimigos a serem eliminados, e com os quais não há negociação possível; o grupo é levado a pensar e agir em uníssono, com os membros internos sendo pressionados para que não haja discordâncias; os integrantes se autocensuram para que suas dúvidas e divergências não sejam percebidas e criticadas; há uma falsa ideia de que as decisões são unânimes, pois impera a censura e a autocensura; e a presença dos autodesignados vigilantes mentais que protegem o grupo de qualquer informação problemática ou contrária às posições do grupo.

Em suma, os membros do grupo se acham acima de tudo e de todos, de modo que qualquer divergente, interno ou externo, é um inimigo a ser destruído, e qualquer divergência é assumida como empecilho. Assim, as ideias passam a ser conservadoras, pois toda informação nova ou oriunda de outra fonte é perigosa e precisa ser recusada. Sob essa lógica, há pouca busca por informação, pois o grupo se basta; não se consideram alternativas; a análise das opções é tendenciosa, enviesada às posturas do grupo; há incapacidade de reconhecer erros e, portanto, de fazer ajustes; e não se elaboram planos de contingência, uma vez que, sendo perfeitos, estão sempre certos. O resultado: baixa probabilidade de que as ações sejam bem sucedidas. Sendo mais contundente: pavimenta-se o caminho para o desastre.

O caminho para o desastre sob a presidência de Bolsonaro “no que tange ao coronavírus” está mais que bem pavimentado. Por quê? Porque desde o início da sua organização, o agrupamento que dá sustentação ao capitão, como no caso da Challenger, organiza-se sob uma lógica que constrói o pensamento de grupo. Nascido em uma composição que alinhavou antipetismo, liberalismo econômico, neopentecostalismo fundamentalista, comportamento conservador, patriotismo, milícia e crítica à corrupção, o bolsonarismo assentou-se na lógica de que seus membros eram os ungidos para salvar o Brasil dos males que o afligiam. Fizeram uma cruzada (santa, segundo alguns de seus integrantes) contra o PT para retirá-lo do governo e para a eleição de Bolsonaro. Cruzada que, alimentada à custa de mentiras (sob o eufemismo fake news) e baseada em sistemas automatizados nas redes sociais, detratava todo e qualquer oponente, enquanto hiperestimava os feitos e competências do capitão.   

Qualquer um que tenha visto debates políticos recentes na internet ou tenha vislumbrado os grupos de WhatsApp bolsonaristas se deparou com mensagens repletas de bandeiras do Brasil; autoalegações de patriotismo e nacionalismo; expressões que revelam a autopercepção de que são os escolhidos e ungidos a combater e se possível eliminar (morte física) os opositores; ataques ferozes a todo aquele que discorda do grupo ou do presidente; exaltação do capitão como o líder que se sacrificou pelos brasileiros, o mito que está lutando sozinho contra o sistema; e a apresentação ininterrupta de inimigos que precisam ser enfrentados e derrotados, afinal sem superinimigo, não há super-herói!

Então, para dar sustentação ao mito do super-herói que chegara para salvar o Brasil de todos os males, várias foram as pessoas e entidades inseridas como inimigos do grupo bolsonarista e merecedores de ataques. Primeiro aqueles que lhe eram oposição direta como petistas (apelidados de petralhas), militantes do campo progressista (esquerdistas/comunistas) e ativistas de direitos humanos; depois as entidades cuja atuação de alguma forma pode limitar as ações totalitárias de Bolsonaro como o Legislativo (Congresso), o Judiciário (Supremo Tribunal Federal) e a imprensa livre (qualquer jornalismo que não se atenha a bajular o presidente); vieram então aqueles que eram próximos, mas que discordaram em algum momento como Alexandre Frota, Lobão, Janaína Paschoal, Kim Kataguiri e o MBL, bem como os governadores que se opuseram durante a pandemia, entre os quais, Caiado, Dória e Witzel; e não poderiam faltar as organizações internacionais, todas taxadas de anti-Bolsonaro e “comunistas” como a Organização Panamericana de Saúde (OPAS), Organização Munidal da Saúde (OMS) e mesmo a Organização das Nações Unidas (ONU). É realmente impressionante como a lista de opositores ao mito (leia-se inimigos mortais ou “comunistas” na visão bolsonarista) só cresce. Todos estes, colocados no rol de inimigos, receberam ataques raivosos e mentirosos de forma virulenta nos espaços onde atua a claque bolsonarista.

Mas, se para fora o ataque é evidente e raivoso, internamente aos grupos, outro tipo de política é adotada. Os vigilantes mentais protegem o grupo e o presidente de toda informação contrária às ações e decisões do governo. Toda e qualquer notícia ou informação apresentada contra o mito é seguida de um bombardeio de mensagens e imagens (normalmente distorcidas, mentirosas e ofensivas) contra a fonte, seja ela organização, empresa da mídia ou pessoa. A ideia central dos ataques é desacreditar a fonte para que ela não seja vista como merecedora de qualquer confiança. A destruição da imagem da fonte é seguida de outro bombardeio de imagens e mensagens (também distorcidas e mentirosas, mas agora elogiosas) à figura de Bolsonaro, suas falas e ações. O capitão é alçado à condição da divindade, o mito que não possui máculas, que não erra, aquele que, como Cristo, se sacrifica por todos. Esse, portanto, é aquele a quem se deve acreditar, defender, exaltar, glorificar.

A vigilância, contudo, é tão impiedosa que acaba por se voltar contra os interesses do próprio grupo. Os membros internos que apresentam argumentos contrários ou que apenas levantam suas inquietações com relação a algum elemento do bolsonarismo é prontamente coagido. Uma enxurrada de críticas despenca sobre o argumentador e a insistência é prontamente seguida de questionamentos de sua fidelidade e de alegações de que teria virado “comunista” (considerado o inimigo-mor pelos bolsonaristas). A insistência em pensar diferente faz com que o discordante seja eivado de críticas, defenestrado do grupo e, obviamente, seja atacado com o desmonte de sua imagem. Além disso, o defenestrado perde a condição messiânica que sustenta a crença na moralidade e na justeza da causa que é inerente ao grupo. Por conta dessas pressões objetivas e subjetivas, a maioria dos que têm dúvidas ou dissidências, mesmo que pontuais, se autocensura e não expõe suas posições. O receio de ser “comunista”, de ser defenestrado e de ser atacado faz com que apenas as posições sintonizadas ao grupamento sejam apresentadas, construindo a ilusão de conformidade e unanimidade. Esse conjunto de fatores ajuda a alimentar o pensamento de grupo que ocorre no interior dos aglomerados bolsonaristas, sendo mais evidente nos grupos de WhatsApp.

A compreensão do que é o pensamento de grupo está explicitado e foi possível ter um vislumbre de como se desenrola nos grupos bolsonaristas, mas ainda falta relacionar estes elementos com o coronavírus e retornar ao programa espacial. Fica o convite para darmos seguimento a estes elementos na parte 2 deste texto. Até lá!

Clique aqui para ler a parte 2

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O bebedouro, o reitor e o governo – parte 3

Cobrar mensalidades dos alunos das universidades federais justamente quando os alunos com maior renda começam a migrar para as entidades privadas (ou no atual discurso do governo, para as públicas não estatais), assim encerramos a parte 2 de O bebedouro, o reitor e o governo. Qual a vantagem e quais os interesses econômicos que levam o Banco Mundial a defender essa proposta?

O interesse maior por trás do Banco Mundial é a geração de renda e lucro. A política de colocar a educação como uma mercadoria e não como direito, gera a capacidade de usar a educação como fonte de recursos para o capital financeiro. Basta visualizarmos o seguinte, nos Estados Unidos, onde o modelo de colocar sobre os ombros da população os custos do ensino superior é mais antigo, o endividamento familiar para que as pessoas possam cursar uma graduação atingiu a astronômica cifra de um trilhão de dólares. Parte dessa dívida já é reconhecida como impagável. No Reino Unido esse valor alcança os duzentos bilhões, dos quais cerca de 40% não serão pagas, pois as famílias não têm condições de sair da inadimplência.

Então, vejamos! Estamos falando que os governos abrem mão de manter a educação como direito, colocam-na como mercadoria, favorecem a iniciativa privada por meio de vários mecanismos (no Brasil, os mais evidentes são FIES e PROUNI), fazem a população endividar-se para ter acesso à educação superior e os bancos que deveriam ganham rios de dinheiro fazendo empréstimos acabam por arcar com os custos da inadimplência, é isso? Não, é claro que não! Os bancos não ficam com os problemas econômicos, apenas com os lucros. Quando esse problema se estabelece, o poder público, ou seja, o governo e, por consequência, todo contribuinte, acaba arcando com a inadimplência para assegurar os ganhos do capital financeiro. A desculpa de que ao incentivar a iniciativa privada a assumir a educação superior, o governo reduziria seus gastos, não se sustenta quando analisada a forma como a financeirização da educação se desenrola. Os lucros ficam com os grandes conglomerados da educação com ativos nas bolsas de valores, gerando renda para os investidores, e com os bancos e seus associados que apostam no endividamento familiar. Os prejuízos, os calotes da inadimplência, recaem sobre os ombros de todos, são pagos pela população, inclusive pelos endividados. Política cruel, não?

Esse movimento não ocorre de uma hora para outra, há um desgaste do modelo. Nesse sentido, este parece ser o momento para olharmos como anda o Chile, país considerado modelo na implantação da proposta do BM. O Brasil está seguindo os mesmos passos, mas em uma velocidade menor. O Chile, apontado no documento do BM como exemplo de avanço no ensino superior, é o que vivencia nos últimos anos a maior crise na educação superior, com as famílias indo às ruas expressar toda sua indignação contra a política implantada. Lá, adotou-se a lógica de endividamento familiar para manutenção do ensino superior, assim as famílias fazem poupança desde (ou mesmo antes de) o nascimento do filho, ou fazem empréstimos, endividando-se ou ao futuro graduado por muitos anos. Os custos do ensino superior tornaram-se proibitivos, gerando inadimplência e sufoco financeiro, portanto, no Chile, que segue à risca a cartilha do BM, a população tem ido às ruas protestar por não mais aguentar os custos da educação superior.

Como alternativa para minimizar esses problemas, o BM propõe que além das cobranças aos estudantes, as instituições de ensino superior diversifiquem sua fonte de financiamento. Primeiro que deixem de ser sustentadas pelo Estado como política. E que busquem mecanismos variados para obter recursos para seu funcionamento. Cobrança de taxas diversas para os alunos que estão estudando, mesmo entendendo que com o atual movimento, uma parcela considerável dos estudantes que permanecerão nas públicas estatais será de alunos com dificuldades financeiras. Outra forma seria buscar apoio financeiro entre os alunos bem sucedidos economicamente, solicitar-lhes que façam doações. Acontece que no Brasil, o sistema de doações não tem as vantagens em termos de redução de imposto que ocorrem nos Estados Unidos, portanto, a menos que a legislação seja mudada, esta estratégia resultará inócua.

Por fim, buscar mecanismos que tragam recursos para o interior das instituições. Nesse caso, incluem-se venda de cursos diversos e serviços de extensão e pesquisa, além do estabelecimento de parcerias público-privadas. Qualquer que seja o mecanismo adotado, isso significa uma perda significativa da autonomia da universidade e de sua preocupação com a estrutura social. Toda a preocupação passa a ser a de busca de recursos financeiros, a sociedade só importa se tiver dinheiro para pagar pelos serviços das universidades. Destruímos assim, de uma só leva, o ensino, a pesquisa e a extensão, modelo interessante, não? Mas não se preocupem, que ainda há mais um pouco de informação para relacionarmos essa política ao problema do bebedouro. A gente se encontra no próximo texto, até lá!

O bebedouro, o reitor e o governo – parte 1, parte 2, parte 4, parte 5.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 469, 22 de agosto de 2015.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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