democracia, futebol, ideologia, política

Coronavírus, futebol e a saída do técnico

O craque de tempos passados, reverenciado como mito por parcela da torcida, é colocado como técnico do clube de históricas conquistas. Ao chegar, contrata certo jogador, exímio driblador, para ser o homem do meio de campo, responsável por toda a criação; e completa a equipe com outros jogadores. Encerrada a pré-temporada, começa o campeonato. O time, como clube de várzea mal treinado, não se encontra em campo. Os jogadores, atônitos, não sabem o que fazer. O meio-campista driblador, faz maravilhas com a bola, dá canetas, chapéus e dribles desconcertantes. Pensando em seus próprios interesses, brilha individualmente. Mas a bola não sai de seus pés para alimentar o ataque e, quando a perde, propicia contra-ataques perigosos. As derrotas se sucedem, mas o técnico arrota que está tudo bem, que a culpa é do treinador anterior, da mídia que só faz atrapalhar, da parte da torcida que discorda dele. Tudo e todos são culpados, menos sua falta de experiência como técnico, suas contratações, a forma como organiza a equipe, sua pachorra, sua incúria. A crise se agrava, o medo de cair de divisão aparece e explode a pergunta: é hora de trocar de técnico?

O futebol brasileiro tem um histórico de substituir técnicos antes mesmo que tenham a chance de demonstrar seu trabalho. Algumas derrotas em início de trabalho e prontamente começa a pressão para que o treinador deixe o cargo. Por um lado, demiti-lo significa negar ao profissional a possibilidade de que faça um trabalho de longo prazo. Por outro, pode impedir o rebaixamento do time pela inépcia de seu treinador. Como decidir? Para além das paixões, inerentes aos torcedores, analisar os elementos postos é um bom caminho.

E quando o clube é um país? E quando o técnico é um presidente? O caminho da análise novamente parece ser o mais adequado. Para a presidência do país, uma parte dos eleitores também apostou em um mito para a condução da nação.  Chegou com pompa, apresentou Paulo Guedes como o homem a organizar a economia do país e escolheu outros tantos ministros e secretários para fazer o Brasil andar e, segundo seu próprio bordão, colocá-lo acima de tudo.

As perspectivas para seus eleitores não poderiam ser melhores. Guedes, um neoliberal convicto, era o homem a acabar com as apostas “comunistas” na economia. Enxugar o Estado, diminuir os gastos com servidores e serviços públicos, fazer as reformas da previdência, trabalhista e tributária retirando direitos dos trabalhadores e liberando o capital financeiro para ampliar seus lucros. Assim, o dólar cairia, a bolsa dispararia, o emprego aumentaria, em suma, a economia brasileira tornar-se-ia um prodígio, um colosso.

Passado um ano comandando o ministério, o todo-poderoso da economia vê suas ações tornarem-se inócuas, apesar do congresso aprovar praticamente tudo que lhe fora solicitado pelo governo (e ainda assim ser criticado pelos eleitores de Bolsonaro). Depois de conseguir retirar um trilhão das mãos de aposentados e trabalhadores, a economia segue de mal a pior, mesmo segundo os parâmetros especificados pelo próprio Guedes: PIB diminuto, real desvalorizado, desemprego em valores elevadíssimos, muitos trabalhando na informalidade, sem direitos e sem assistência. O craque do governo, aquele a quem o presidente dera carta branca, joga para si, consegue fazer crescer os lucros do capital especulativo (de onde Guedes faz parte e ganha sua renda), mas em nada melhora a condição do Brasil e dos brasileiros.

Criador:Marcos Corrêa/PR
Direitos autorais:Creative Commons

Os demais ministros e secretários, obstúpidos, lutavam em suas posições e, imitavam o comportamento do comandante em chefe: quando não souber o que fazer, fale ou faça algo esdrúxulo e, sob críticas, acuse a imprensa, a oposição, os “comunistas” (qualquer um que discorde deste governo é automaticamente taxado de comunista). Assim foi na educação, no meio ambiente, nos direitos humanos e em outras tantas áreas. O insucesso crescendo e o governo, em especial o presidente, culpando todos: os governos anteriores, o congresso – em especial os presidentes da Câmara e do Senado –, o Supremo Tribunal Federal, a imprensa livre, bem como seus opositores – todos obviamente “comunistas” em sua visão simplista e primitiva. Afinal, segundo sua autopercepção, difundida para seus correligionários, o mito, a quase divindade, não erra e, portanto, não lhe podem ser imputados os problemas que grassam pelo país.

E como o mito, na condição de chefe do poder executivo, busca resolver os problemas que não consegue por meio de suas atabalhoadas decisões? Convoca, antidemocraticamente, atos de seus apoiadores para tentar acuar os outros poderes. Em um país sério, com uma democracia robusta e um real equilíbrio entre os três poderes, esta convocação seria mais que suficiente para que o inepto presidente fosse afastado de suas funções. No Brasil, como ainda precisamos caminhar muito para chegarmos a ser uma democracia sólida, o aparvalhado presidente segue governando a república, mas a pergunta principia a ribombar: é hora de trocar de presidente?

A chegada do coronavírus e as atrocidades cometidas pelo presidente fazem crer que sim. Afinal, enquanto outros presidentes e primeiros-ministros mostram-se líderes e com serenidade tentam organizar seus países para enfrentar uma pandemia, o chefe do executivo brasileiro faz o contrário. Agarra-se a ideia de que o coronavírus é uma gripezinha, fomenta as pessoas a participarem de atos quando a pandemia já estava se disseminando, entra em contato com pessoas quando ele é um possível contaminado, retarda ações do governo federal que poderiam auxiliar no combate ao vírus e ainda baixa medidas e decretos que dificultam as ações que governadores e prefeitos têm implantado.

Em suma, a única preocupação de Bolsonaro (ou do Bananinha, segundo o General Mourão) é que a economia dê certo, afinal esta é sua grande e única aposta, é onde está o seu craque. Mas o craque tem falhado e não consegue fazer o país crescer. Com a chegada do vírus os efeitos negativos sobre a economia serão potencializados, deixando Bolsonaro sem nada além de bravatas contra o congresso, a mídia e os “comunistas”. O mito, aparentemente forte, embora frágil em toda sua composição, ruirá de vez. Para o bem do nosso país, já passou da hora de Bolsonaro sair.

Ele poderia altruística e honradamente desapegar do cargo, mas todos sabemos que atos de altivez não são seu forte. Um impeachment, nesse momento, poderia trazer consequências desastrosas ao termos que lidar com um furor político em paralelo à pandemia. Alguns, inclusive dentre os que apoiaram Bolsonaro, creem que deve ocorrer um afastamento formal ou informal do presidente para que não se prejudique o país. Pelo visto, para essa temporada, como não podemos ir às ruas em razão da quarentena, nos resta torcer para que não sejamos rebaixados! O que não nos impede de expor nosso descontentamento de várias formas e construir formas de oposição aos desmandos deste desgoverno. Podemos, por exemplo, de nossas janelas, como se nosso time se sagrasse campeão, gritar a plenos pulmões: Fora Bolsonaro!

Criador: Nando Motta
Padrão

6 comentários sobre “Coronavírus, futebol e a saída do técnico

  1. Rodrigo Silva Lima disse:

    Seu texto é um bálsamo. Criativo e dialoga com todos. Minha preocupação é se o Fora Bozo é à vera ou apenas um mecanismo de pressão para não perdermos mais direitos. Ele pode ficar magoadinho e fechar o sistema, caso um impeachment esteja no horizonte.

    • Rodrigo, esse é um sério risco que corremos. Ele possui delírios totalitários e não lhe custa nada fechar o sistema, caso fique magoadinho. Mas vejamos como a frágil estrutura democrática de nosso país responde a esses desvarios. Para nosso bem, é importante que as instituições se mostrem à altura do desafio!

  2. Waleska Barros disse:

    Ótima análise meu primo! Parabéns pelo texto! Quero este indivíduo o mais rápido possível fora da presidência tanto quanto você, e espero que ocorra logo! Mas vamos logo começar a pensar em como nos livrar também de uma ditadura militar quando o vice assumir! 😱😱😱

  3. Arley tem uma outra variável a se considerar, na minha opinião: a relação com os Estados Unidos e, mais especificamente, com a ambição (pessoal) de Donald Trump de romper com o multilateralismo a fim de reconstruir o Império norte-americano e, assim, “emparedar” a China. Eu sempre vejo as movimentações de Bolsonaro a partir desta perspectiva menos local e mais geopolítica. O vocabulário de Bolsonaro parece obedecer à esse emparedamento: “comunista” é o Partido Comunista Chinês (conhecido como “Moderno Príncipe”), de acordo com Trump. Digo isso só para puxar um debate em que possamos considerar essa variável geopolítica, representada pela relação Bolsonaro-Trump.

    • Sim, há um conjunto de outras variáveis. Escrevo os textos dentro de um limite de tamanho, mas quem sabe em um próximo possamos dar conta dessas questões. Um abraço!

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