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The Big Bang Theory e o Behaviorismo

A série The Big Bang Theory, no episódio The Gothowitz Deviation (3º episódio da 3ª temporada – compacto acima), inseriu em sua temática elementos da ciência denominada Análise do Comportamento (AC), mais conhecida por sua filosofia da ciência, o Behaviorismo (Comportamentalismo). A AC busca compreender por que nos comportamos da forma como o fazemos e para isso estuda “qualquer condição ou evento que tenha algum efeito demonstrável sobre o comportamento” (Skinner, 2007, p. 24).

O corpo teórico da AC inclui conceitos como comportamento respondente e operante, reforço, punição, extinção, discriminação, generalização, modelagem, encadeamento, controle de estímulos e comportamento verbal. A partir desses e outros conceitos, o Behaviorismo estuda o indivíduo e questões como autocontrole, pensamento e o eu, comportamento social, importância do grupo e agências controladoras como governo, religião, psicoterapia, economia e educação, bem como aspectos de ordem cultural.

A comédia The Big Bang Theory nos brinda com a oportunidade de vislumbrar alguns desses conceitos em ação. No episódio, vemos Sheldon reforçando os comportamentos aceitáveis de Penny com chocolate (reforço positivo) para que ela volte a exibi-los posteriormente. Ele reforça os comportamentos de remover a louça suja da sala (0:02 min), a sair de seu assento predileto (0:15 min), não gargalhar (0:27 min) ou tagarelar (0:35 min), entre outros. Quando Leonard o contesta, Sheldon utiliza spray de água sobre o rosto do amigo como punição positiva (2:33 min). Óbvio que essa é uma ilustração caricata, embora instrutiva, dos conceitos defendidos pela AC que não servem apenas para fazer alguém pular na piscina como uma bola de praia no nariz, como propõe Sheldon (1:53 min), mas para estabelecer uma infinidade de comportamentos.

Contudo, podemos aprender sobre esses mecanismos de forma não caricata observando o mesmo episódio. Quando Leonard contesta Sheldon (1:30 min), reclamando de seu comportamento e usando expressões de desagrado, ele está apresentando estimulações aversivas sociais em resposta ao comportamento de Sheldon. As ações de Leonard podem ser entendidas como punição positiva se reduzem a probabilidade de ocorrência do comportamento de Sheldon pela apresentação de estimulação aversiva (discordância, confronto, caretas e agitação). Outro exemplo, agora de reforço positivo, pode ser visto quando Penny convence Leonard a ir para sua casa montar a cama que havia chegado (4:20 min) usando como reforçador a possibilidade de estarem na casa dela e fazer sexo sem a necessidade de ficarem quietos. A mera possibilidade é, em si mesma, reforçadora na medida em que está vinculada aos eventos na história do indivíduo em que promessas de reforço no futuro, apresentadas como possibilidades, foram efetivamente seguidas de liberação de reforço (funciona, portanto, como reforçador condicionado). Se atentarmos para todos os diálogos do episódio, veremos que há ainda muitos outros exemplos de punição positiva como a careta que Sheldon faz quando Penny atende ao telefone (0:48 min) e de reforço positivo quando ele fala “Obrigado! Que gentileza!” em retribuição à remoção da louça suja (0:03 min).

É bom ressaltar que o controle não ocorre apenas em uma direção e que, portanto, somos todos permanentemente controladores e controlados. Toda vez que Penny agradece ao chocolate ofertado com um “Obrigado!”, ela está reforçando e, assim, controlando, o comportamento de Sheldon. Notamos que os “pretensos controlados” também controlam o “pretenso controlador” quando comparamos o comportamento de Penny com o de Leonard, que rejeita a mesma oferta de chocolate com um “Não, eu não quero!” (1:25 min). A diferença das respostas de Penny e Leonard promovem diferentes comportamentos em Sheldon. Embora permaneça oferecendo chocolate à loira, ele para de ofertar o chocolate e passa a tentar modificar o comportamento do companheiro por meio de argumentações verbais. Ou seja, embora Sheldon tenha colocado a si como controlador, seu comportamento está, também, sob o controle de seus amigos. Reforçado por Penny, continua a ofertar o chocolate, punido por Leonard, muda de comportamento. Por isso Skinner sempre deixou claro que a melhor forma de contracontrole é fazer com que todos sejam capazes de perceber as estratégias de controle que estão vigentes. A solução não passa por mascarar ou negar a existência de controle, mas de reconhecê-lo e buscar mecanismos de contracontrole.

Controlamos e somos controlados por nossos amigos (como Leonard e Sheldon), por nossos parceiros (Leonard e Penny) ou por qualquer pessoa com quem entramos em contato, além obviamente do ambiente físico e das agências de controle. Nossos filhos, por exemplo, aprendem a falar por meio de reforço positivo e modelagem, embora não o percebamos. E isso nos deixa com uma questão importante: Se utilizamos, mesmo sem conhecer ou dominar as técnicas, e conseguimos estabelecer comportamentos complexos como a fala, quanto não poderíamos fazer em prol de nós e de nossa sociedade se utilizássemos de forma programada e com o devido conhecimento as estratégias da AC? Ou nas palavras de Sheldon: “Não diga que você não está intrigado com a possibilidade de construir uma namorada melhor?” (3:00 min).

Claro que falar em controle e em modificar o comportamento de outros sempre levanta dúvidas e sobressaltos, mas mesmo isso não ficou fora do episódio de The Big Bang Theory. Questões sobre controle e contracontrole são relevantes para o Behaviorismo e são apresentadas quando Leonard diz: “Sheldon, você não pode treinar minha namorada como um rato de laboratório!” (1:32 min). Skinner (2007), ao escrever Ciência e Comportamento Humano em 1953 já apresenta suas preocupações com as agências de controle, com quem controlará o controlador e com o mau uso que possa derivar da aplicação da ciência do comportamento. Ele afirma que essa “Não é apenas uma questão intrigante, é assustadora; pois há uma boa razão para temer aqueles que, com maior probabilidade usurparão o controle” (Skinner, 2007, p. 476). Mas deixa claro que recusar-se a aceitar o controle não resolve o problema, pois isso significa “meramente deixar o controle em outras mãos”. Ou alguém duvida que estamos sendo controlados a cada momento? Se há dúvidas, basta lembrar a existência de agências de controle e do permanente controle que exercemos em nossa vida social como vimos no comportamento de Leonard ao discordar de Sheldon ou no de Penny ao conseguir que Leonard monte sua cama!

No final do episódio, ao observar o controle que Penny exerce sobre Leonard, Sheldon diz: “Interessante. Sexo funciona melhor que chocolate para modificar o comportamento. Será que alguém já percebeu isso?” (4:38 min). A resposta seria: Sim, Sheldon, já perceberam a importância do sexo como estímulo reforçador! Sexo, assim como outros estímulos que atuam como reforçadores, estão sob estudo dos analistas do comportamento. Sendo uma ciência, a AC está constantemente questionando seus próprios conceitos e responde, cada vez mais, a um número maior de problemas. Essa postura de indagação contínua sobre a AC é importantíssima, pois nas palavras de Baum (2006, p. 303): “Quanto mais experimentarmos e coletarmos dados, quanto mais consultarmos especialistas bem treinados, quanto mais cidadãos bem informados clamarem por práticas culturais mais adequadas, mais provável é que tenhamos sucesso”. Aparentemente o pessoal do The Big Bang  Theory gostou de trabalhar com a Análise do Comportamento, pois no episódio intitulado The focus attenuation (8ª sessão, 5º episódio) voltaram a abordar a ciência do comportamento.

Por fim, vale discutir uma curiosidade. Há no episódio uma indecisão conceitual, que alguns podem entender como equívoco, quando Sheldon denomina de reforço negativo o uso de choques elétricos amenos para alterar certo comportamento de Penny  (2:43 min). O compacto não deixa claro qual efeito ele busca produzir sobre o comportamento utilizando esse estímulo. Se a ideia for usar o choque para reduzir a frequência de um comportamento, então a técnica seria corretamente classificada como punição positiva, pois diz respeito à apresentação de estimulação aversiva que reduz o comportamento. Por outro lado, se Sheldon pretende usar o choque de maneira não contingente e aumentar a frequência do comportamento desejado vinculando-o à remoção do choque, então teríamos reforço negativo. Entretanto, é bem provável que tenha sido um equívoco conceitual, uma vez que muitos vislumbram a palavra negativo (em reforço negativo) como algo obrigatoriamente ruim, quando na realidade está apenas informando que o aumento na frequência do comportamento ocorre, nesse caso, pela remoção do estímulo aversivo.

Baum, W.M. (2006). Compreender o Behaviorismo: comportamento, cultura e evolução. Porto Alegre: Artmed.

Skinner, B.F. (2007). Ciência e comportamento humano. São Paulo: Martins Fontes.

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8 comentários sobre “The Big Bang Theory e o Behaviorismo

  1. Uédio Silva disse:

    Embora não tenha assistido o episódio, a explicação é fantástica sobre dois aspectos: uma pela elucidação muito didática do conceito de behaviorismo, e a outra aplicação do mesmo a uma situação do cotidiano.

  2. Maria Célia disse:

    Super legal a matéria
    Fica interessante a compreensão dos conceitos no contexto de uma série televisiva. A abordagem desperta ainda mais o interesse quando vista desta maneira. Legal teacher

  3. Excelente explanação sobre o assunto, parabenizo o autor por esse texto e disseminar boas informacoes e explicacoes em uma internet muitas vezes extremamente ma utilizada.
    Eu sou estudante de Direito, entretanto, nao posso deixar de sucumbir a beleza, importancia e aos sublimes estudos e textos sobre/da psicologia.
    Como fa de The big bang theory e alguem que sempre tira ensinamentos da serie, admiro o belo trabalho, parabens.

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