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Redes sociais, tolerância e um mundo melhor

Redes sociais são espaços fantásticos para expressão e observação do comportamento humano. Muitos de nós expomo-nos no mundo virtual como não o fazemos em nenhum outro espaço de nossas vidas. Disponibilizamos fotos com familiares e amigos, relatamos sentimentos, onde vamos, do que gostamos, de quem gostamos e outras coisas mais. Estamos, também, cada dia mais propensos a expressar nossas opiniões. E essas não precisam ser fundamentadas, escrevemos o que achamos e… pronto! No máximo uma palavra ou frase que sirva como justificativa. E a frase nem precisa ser nossa. Podemos pegar uma das milhares de frases de diversos autores disponíveis na rede, se estiver associada a uma imagem melhor (porque só lemos os textos apensos às imagens), lascamos abaixo de nossa afirmação e… está justificado! E que venham os comentários, pois sem comentários não há razões para que nos desnudemos de nossas salvaguardas e nos expressemos nas redes. Mas é nesse momento que a coisa muitas vezes se complica!

Embora ocupemos determinados nichos e guetos nas redes sociais, da mesma forma como ocorre em nossa vida física, o que postamos fica perpetuado na esfera virtual. E as relações entre amigos, amigos dos amigos, amigos dos amigos dos amigos e assim sucessivamente em um entrelaçamento praticamente infindável de pontos de contato fazem com que pessoas divergentes de nós possam ver o que escrevemos e posicionar-se com relação àquela afirmação. Uma pessoa pode elogiar o autor ou o texto escrito e ficamos embevecidos com a referência positiva, de forma que talvez respondamos com outro comentário, seja de agradecimento ou de elogio recíproco, felicitando-o por defender ideias e posicionamentos tão corretos e perfeitos. Afinal, ele defende exatamente o mesmo que nós! E nós, quase sempre, julgamo-nos perfeitos!

O problema é que, em razão da intrincada teia de contatos sociais, a pessoa que visualiza nosso texto pode ter concepções absolutamente distintas das nossas e posicionar-se criticando-nos ou as nossas postagens. Em raras exceções, o debate e o diálogo mantém-se em um nível de respeito e tolerância mútua. Mas, via de regra, os comentários e posições divergentes são seguidos de desqualificação do outro e de suas ideias. A rapidez dessa digressão rumo às afrontas e desacatos, muitas vezes, beira à velocidade da luz. Nossa intolerância com o diferente emerge e fica estampada no mundo virtual para quem quiser ver. E como não há mecanismos de enfrentamento outro que não o da própria afronta, muitos chegam a ficar satisfeitos por terem feito o outro calar-se com as agressões. Afinal, indiferente às ofensas exaradas, enxergam-se como responsáveis por ter proferido a última palavra. Mesmo que a última palavra seja um sonoro e nada construtivo palavrão.

Alguns teóricos separam claramente os termos notícia e informação, cuja diferença pode ser resumidamente sistematizada na seguinte sentença: notícia é o que chama a atenção e informação o que leva à compreensão, ao conhecimento. A comunicação social em rede que ora vivenciamos é marcada pela efemeridade do conteúdo e pouco aprofundamento, seguindo a lógica “fast-food”. A pessoa posta um selfie, lê uma nota sobre um assalto no centro, rola a página para baixo, curte a foto de seus amigos, rola novamente, passa os olhos sobre um assassinato na periferia e solta um comentário sobre segurança pública. Óbvio que todos têm direito aos seus comentários, mas debates lastreados em muita notícia e pouca informação, como estamos nos acostumando a fazer cada dia mais, são o estopim de muitos embates e insultos desnecessários.

Os debates na rede com a leitura apenas da manchete da postagem sem acessar a completude do texto acabam por gerar a falsa sensação de informação pelo excesso de notícia. Quando apegamo-nos as nossas ideias sem permitir que sejam confrontadas com aquelas que dela divergem, rompemos com qualquer chance de realizar a dialética rumo ao conhecimento. Em tempo de eleições, onde interesses e posicionamentos ficam mais aflorados, os embates ocorrem com recorrência ainda maior. Defendamos nossas ideias e nossos candidatos, mas cabe a nós fazer um exercício em busca de mais tolerância, informação e conhecimento. Tal esforço, dentro e fora do período eleitoral pode ser significativo em produzir um mundo melhor, seja virtual ou real.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 426, 13 de setembro de 2014.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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