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Cavalos de Troia para a universidade

“A USP não é problema, é solução!” é um texto escrito por João Whitaker sobre a crise na Universidade de São Paulo. De início afirma que a instituição agigantou-se lastreada em irresponsabilidade financeira, autoritarismo e populismo. Obras de grande visibilidade, bolsas de todos os tipos e “embaixadas” no exterior, entre outras coisas, chamavam a atenção, até que a gestão percebeu que os gastos estavam elevados e apontou como culpados para o “engessamento” da universidade, os salários e aposentadorias de professores e técnicos. As soluções: atacar os “supersalários”, implantar “choque de privatização” e os estudantes pagarem mensalidades de quatro mil reais!

 

Whitaker segue, então, a desmontar os mitos que permitem tais acusações e soluções. Mito 1: A folha de pagamento é culpada pela crise. Mito 2: Os professores ganham demais. Mito 3: Alunos são elite privilegiada que pode pagar por seus estudos. Mito 4: A universidade pública é ineficaz.  Após desmontar os mitos um a um, conclui que “a contribuição da universidade pública (…) para o desenvolvimento do país, é fenomenal. A USP vem cumprindo com louvor seu papel (…) mantendo-se em destaque (…) nas mais diversas classificações internacionais (…). O gigantismo da sua folha de pagamentos é decorrente do seu crescimento e de seus bons resultados, e não o contrário”.

 

Dadas as semelhanças, é previsível que se compare o ocorrido nas estaduais paulistas, cuja faceta mais visível é a crise da USP, com os eventos das universidades federais. Na hora em que isso acontece, principalmente por estarmos em período eleitoral, partidários de PSDB (USP) e PT (Federais) saltam a defender suas políticas e gestões.

 

Quem recusa um aumento de quase 50%? Clique na imagem e entenda!

No caso das universidades federais, afirmam um crescimento vertiginoso do investimento e, para isso, usam os dados fornecidos pelos órgãos do próprio governo. Mas se a fonte dos “dados”, no caso o governo do PT, é a mesma que em 2012 alegava com “dados” que não havia necessidade dos professores reivindicarem aumento salarial, pois o governo (fonte dos “dados”) havia concedido um aumento de quase 50% para a categoria, é impossível crer em qualquer afirmação oriunda dessa fonte!

 

Clique na imagem para acessar o dossiê sobre o REUNI.

Depois vêm as alegações de que a educação superior está melhor por conta de PROUNI, FIES e REUNI. Pois bem, PROUNI e FIES, conforme vários estudos, são estratégias para injetar dinheiro na iniciativa privada em detrimento da universidade pública. O REUNI, por sua vez, piorou consideravelmente a relação professor/aluno e servidor/aluno nas federais. Fazer mais com menos, significa maior exploração dos profissionais e, por isso, os índices de adoecimento nas federais têm crescido significativamente. Além disso, o montante de recursos por aluno vem diminuindo ano após ano. Isso significa que as universidades estão tendo que manter mais alunos com menos dinheiro. Se há redução do valor investido por aluno, pra onde foi o aumento de recursos alegado inicialmente?

 

Ah… mas novas universidades foram criadas! Novas universidades foram criadas… é quase verdade! A maioria foi simplesmente desmembramento de universidades já existentes. A UFPA, por exemplo, virou três! Assim é fácil criar universidades! E a condição de funcionamento da maioria das novas instituições ou dos campi de interior é, pra dizer o mínimo, lamentável. Citando apenas algumas: UFOPA funciona em espaço precário, UFF (Rio das Ostras) em uma escola com apoio de containers, UNIFAP (Oiapoque) e vários cursos espalhados pelo país com apenas 3 ou 4 professores tentando manter um curso em funcionamento. E as reitorias, a mando do MEC e governo federal, já avisaram que não há previsão de novas vagas.

 

Falando em vagas, os concursos realizados para as federais a partir de 2012 só ocorreram porque pressionado pelo ANDES Sindicato Nacional, Mercadante, ministro da educação à época, disponibilizou as vagas como tentativa de impedir a greve. Não fosse por isso, a relação professor aluno e a carência de professores estariam ainda piores!

 

E não falemos de salário! Se compararmos o que ganha um professor com seus equivalentes no serviço público, veremos facilmente a discrepância. Principalmente se fizermos a análise sob os mesmos termos, ou seja, 40h sem DE e apenas com a graduação, como é exigido para a maioria dos cargos do serviço público.

 

Está em curso o desmonte da universidade pública! Nas federais, o PSDB atuou na lógica do estrangulamento, impediu novas contratações e estagnou os recursos. O PT, também optou pelo desmonte como proposta, mas… disfarçado de melhorias e investimentos – um verdadeiro Cavalo de Troia! Ao ampliar a base de alunos mais do que a de professores e técnicos e aumentar o número de alunos sem elevar o volume de recursos na mesma proporção, criou dificuldades que se tornarão mais evidentes em breve. Estratégias diferentes com resultados iguais, ou seja, precarização da estrutura e sobrecarga de trabalho para os profissionais. Mas isso não ocorre por acaso. Simplesmente PT e PSDB seguem a cartilha do Banco Mundial para a educação intitulada “La enseñanza superior: lecciones derivadas de la experiencia”. Mas adotar esse caminho é perfeito, afinal a preocupação do BM é democratizar o acesso à educação e não privilegiar o capital, não é mesmo?

 

Em suma, salvo algumas diferenças de estratégia, a política de PT e PSDB para as universidades públicas é a mesma: destruí-la ou destituí-la de sua relevância (assim como foi feito com a escola pública). É lamentável que assim seja, pois segundo Alfredo Bosi (vou finalizar citando-o, assim como fez Whitaker): “É indispensável lembrar, ainda e sobretudo, que a universidade pública brasileira não é uma utopia, mas uma realidade duramente construída com o trabalho de gerações de brasileiros, um imenso patrimônio da nação a ser preservado com o devido cuidado. Uma verdadeira universidade demora décadas para ser construída, uma reforma mal conduzida pode destruí-la em muito pouco tempo”.
 
Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 423, 30 de agosto de 2014.
 
Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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