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Quais medos você está ensinando aos seus filhos?

Sussurrada, a voz escorre dos microfones do aeroporto e chama para o embarque. Documentos em mãos, Alberto singra as plataformas até o avião, responde ao bom dia das comissárias de bordo e dirige-se a sua poltrona. Senta, olha o passageiro ao lado e, para seu espanto, descobre-se vizinho de seu ídolo do MMA. O homem é uma massa de músculos e domina o octógono como ninguém, por isso mantém o cinturão mesmo após várias defesas. Antes que Alberto possa iniciar uma conversa o avião começa a taxiar e, para seu assombro, o lutador impassível diante de adversários poderosos está crispado de terror. Rosto contorcido, respiração ofegante, suor escorrendo e mãos crispadas nos braços dos assentos denunciam o medo de voar. O fã tenta explicar que o receio é irracional, mas suas afirmações resultam inócuas. De repente uma ideia torna-se cristalina para Alberto: se lutassem agora, enquanto embarcados, o campeão do MMA quedaria derrotado por ele, pois a fera dos octógnos encontra-se absolutamente incapaz de reagir.

O medo, embora não pareça, é importante para os organismos, inclusive para Alberto e o campeão. As repostas fisiológicas produzidas, como aumentar a atividade respiratória e inundar os músculos com sangue, nos preparam para enfrentar adversários e adversidades. Ao entrar no octógono, os lutadores apresentam essas e outras alterações e, deste modo, encontram-se em condições de responder com agilidade e força ao adversário. Algumas vezes, é verdade, essas modificações parecem alcançar níveis estratoféricos e colocam o indivíduo fora de combate, como é o caso do guerreiro ao encarar o vôo da aeronave.

Mas, se não nascemos com medo de voar em aviões, como um comportamento como esse se estabelece? O organismo traz consigo algumas respostas inatas que o habilita a responder ao mundo que o cerca, é assim com o medo de ruídos altos, as contrações pupilares sob incidência de luz e a sudorese em ambientes com elevada temperatura. A relação entre um estímulo, como o ruído alto, e uma resposta, como o medo, é chamada reflexo. Muitas dessas relações, desses reflexos, estão presentes no organismo desde o nascimento.

Representação pictórica do experimento de Watson intitulado “Little Albert”.

Alguns reflexos, entretanto, não nascem com o indivíduo e são aprendidos por condicionamento quando associados a outros estímulos. Em um experimento clássico do Behaviorismo, uma escola da Psicologia, Watson ensinou uma criança a ter medo de ratos. Primeiro ele demonstrou que a criança tinha medo de ruídos altos. Toda vez que ele acionava um som estridente a criança contraía os músculos do corpo e do rosto e começava a chorar. Portanto, o estímulo som produz uma resposta que chamamos de medo. Depois, mostrou que a criança não tinha medo de ratos e que inclusive buscava tocá-los. Por fim, associou o reflexo (som alto → medo) com a presença do estímulo rato. Estabeleceu essa associação acionando o som estridente que produzia o medo e o choro sempre que a criança visualizava o rato. Após algumas repetições desse procedimento, bastava a presença do rato para que a criança começasse a chorar, dizemos então que condicionamos o medo à presença do rato. Nesse procedimento foram necessárias algumas repetições para estabelecer o condicionamento, mas em algumas situações, dependendo dos estímulos e reflexos envolvidos um único pareamento entre o estímulo e reflexo pode ser suficiente.

Watson condicionou o medo à presença do estímulo rato e, se pensarmos bem, fazemos o mesmo com nossas crianças, condicionamo-las a ter medo de várias coisas e situações, embora façamo-lo sem perceber ou desejar. Quando entramos em um ambiente e identificamos algum risco para nossos filhos, muitas vezes gritamos para impedi-los de entrar em contato com o que julgamos perigoso. Um grito nosso, como o ruído alto no experimento de Watson, pode ser capaz de desenvolver uma resposta de medo a um estímulo presente no ambiente. Esse estímulo pode ser algo danoso como um rato, uma barata ou uma cobra ou inofensivo como um ursinho de pelúcia ou uma dentadura.

Além de gritos, podemos ensinar nossos filhos a temer as mesmas coisas que nós por outros meios. Quando o medo nos domina em situações como escuridão, lugares fechados ou a decolagem do avião, apertamos fortemente a mão de nossos filhos, fazemo-los ver nosso desespero frente àquela situação e assustamo-los. Ao comportarmo-nos assim, desencadeamos neles reações de medo que serão associadas às situações que desencadeiam nossos próprios medos. Esse pavor, caso não seja extinto, estender-se-á por toda a vida do indivíduo e fará com que, mesmo sendo campeões de MMA, nossos filhos tremam de medo frente às situações que antes nos apavoravam. E então, já pensou sobre quais medos você está ensinando aos seus filhos?

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 422, 16 de agosto de 2014.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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