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Como treinar o seu marido (namorado)

A jornalista Amy Sutherland escreveu para o New York Times o artigo “O que Shamu me ensinou sobre um casamento feliz” que, em decorrência do sucesso, foi a base para o livro “O que a baleia Shamu me ensinou sobre a vida, amor e casamento”. O relato é autobiográfico e realmente envolve uma orca (a baleia assassina), assim como elefantes, leões marinhos, golfinhos, babuínos e outros animais. Amy pesquisava o treinamento de animais para escrever um livro sobre o assunto e, impressionada com o que viu, decidiu utilizar as técnicas empregadas pelos treinadores para modificar os comportamentos do próprio marido que, segundo ela, faz parte da teimosa e amável espécie American husband (Marido americano).

No artigo, Amy relata como a relação de ambos sofria com alguns comportamentos do marido como esquecer coisas importantes, atrasar para buscá-la ou largar roupas pelo chão do quarto. Ela relata também que suas tentativas anteriores, inclusive a de reclamar ou dizer o que ela queria que o marido fizesse, resultaram não na melhora, mas na piora dos comportamentos indesejados. Acabaram em um conselheiro matrimonial, do qual saíram com a resignação de viver com sarcamos e ressentimentos ocasionais, embora partilhando um bom relacionamento e conversação.

É nesse momento que Amy começa a utilizar no comportamento do marido as técnicas aprendidas com os instrutores de animais. Abandonou as reclamações e as punições e passou a recompensar os comportamentos de que gostava e a ignorar aqueles de que não gostava. Passou a agradecer e elogiar quando o marido colocava uma roupa suja no cesto e a beijá-lo se colocava duas ou mais. Como consequência as roupas sujas espalhadas pelo quarto diminuíram sensívelmente. Quando ele reclamava das chaves perdidas, ela simplesmente não respondia (o que exigia considerável esforço), após um tempo ele passou a procurar as chaves sem enlouquecê-la no processo. Estabeleceu também comportamentos novos como chegar na hora para buscá-la. Nesse caso, precisou fazer aproximações do comportamento desejado, Amy passou a elogiar cada redução nos atrasos usuais do marido, de modo que estes tornaram-se significativamente menores. Após dois anos e várias técnicas utilizadas, a jornalista afirmou que seu casamento estava mais suave e seu marido muito mais fácil de amar.

João Cláudio Todorov, no prefácio do livro “Princípios básicos de análise do comportamento”, cita o texto de Amy e afirma que o “artigo seria um excelente marketing para psicólogos analistas do comportamento não fosse por um pormenor: simplesmente não menciona de onde veio o conhecimento”. As estratégias utilizadas pela jornalista dizem respeito a uma abordagem psicológica denominada Análise do Comportamento de onde originam-se conceitos como reforço (recompensar o que se gosta, nos termos de Amy), extinção (ignorar o que não se gosta), modelagem (estabelecer comportamento novo por aproximações sucessivas do comportamento desejado). A Análise do Comportamento ao buscar compreender o comportamento dos organismos, (incluindo o ser humano) a partir de sua interação com o ambiente, vai muito além desses conceitos e se debruça sobre temas como o eu, autocontrole, pensamento, comportamento social e controle pelo grupo, agências controladoras (de governos e leis à educação passando por religião, psicoterapia, economia…), cultura e seu planejamento. Esses temas estão presentes no livro “Ciência e comportamento humano” escrito por B.F. Skinner, o maior expoente do Behaviorismo, e publicado em 1953.

A Análise do Comportamento, cujas bases filosóficas residem no Behaviorismo Radical, é uma área em ativo desenvolvimento, sua abordagem defende que os comportamentos atuais são controlados pelas interações anteriores. Ao identificar a relação do comportamento com os estímulos antecedentes e consequentes, as análises funcionais permitem compreender e prever como e por que as pessoas comportam-se como o fazem em determinadas situações. Ao compreendermos o comportamento e seus determinantes, é possível mudar o comportamento do marido ou do namorado. Entretanto, Amy também percebeu que alterar o comportamento de outros, implica em perceber como os comportamentos dos envolvidos, inclusive o seu próprio, estão relacionados. Desta forma, o controlado também controla o controlador, o que fez com que a jornalista tivesse que modificar muitos de seus próprios comportamentos.

Além disso, é bom estar ciente que o conhecimento está disponível para quem decidir usá-lo. O marido da jornalista, por exemplo, após conhecer as técnicas (Amy mostrou-as para ele), passou a utilizá-las para controlar o comportamento da esposa, ou seja, ele começou a treinar a espécie American wife (Esposa americana). Ao considerarmos essa virada, o título desse texto bem que poderia ter sido “Como treinar a sua esposa (namorada)”. Óbvio que as coisas não são tão simples assim. Realizar avaliações funcionais, compreender comportamentos e suas determinações e modificar comportamentos envolvem um esforço considerável. Mas é bom saber que existe uma ciência do comportamento, cujos conhecimentos podem ser empregados em você e por você. Assim, se você está considerando utilizar o mesmo conhecimento que Amy, então conheça mais a Análise do Comportamento e… bom relacionamento!

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 421, 09 de agosto de 2014.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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2 comentários sobre “Como treinar o seu marido (namorado)

  1. Maria Célia disse:

    Adorei este texto. Sei que não algo assim tão simples. Mas, ter acesso a esses conhecimentos é um bom começo. Vamos tentar?

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