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Copa do mundo, xingamentos e intolerância

Abertura da segunda copa do mundo no Brasil, o país do futebol. A figura que representa o poder executivo da nação encontra-se encolhida no fundo da tribuna de honra ao lado da companhia do presidente da FIFA. Esquiva-se de fazer o discurso de abertura do evento que é substituído pela liberação de duas pombas simbolizando a paz. A esquiva, entretanto, foi insuficiente para evitar o que já se sabia que ocorreria, confronto com uma parcela da população que ocupava a arena São Paulo, embora o estádio pertença ao Corinthians e seja vulgarmente denominado Itaquerão. O rechaço à presidente ocorreu na forma de vaias e, em alguns momentos, xingamentos.

Há explicações diversas sobre quem vaiou e xingou a presidente, a chefe de Estado da nação brasileira. Alguns afirmam ser o povo insatisfeito com os desmandos do executivo federal que arrecada muito em impostos e devolve pouco na forma de serviços. Outros, ecoando os brados oriundos do próprio governo e do PT, dizem que era a elite burguesa de São Paulo atrelada ao PSDB que controla o governo do estado e faz oposição ferrenha às ações do executivo federal, a quem denominam Petralhas, na tentativa de aumentar as chances de seu candidato nas eleições de outubro próximo. Entre essas possibilidades polarizadas, há os que supõem ser autora das ofensas a classe média composta de empreendedores que enlouquecem na tentativa de construir uma condição econômica que lhes assegure os privilégios ora negados, enquanto veem o governo afagar outros grupos. Seja a parcela da população que está na miséria, com auxílios como o bolsa família, ou os grandes detentores do capital como banqueiros, investidores e megaempresários, que recebem na forma de benesses, uma parte considerável de todo o esforço fiscal feito pela população.

A origem dos palavrões dentro do estádio parece uma incógnita, pois a resposta tende ora para um lado ora para outro segundo quem faz a análise. Muitos criticam como intolerantes os que estavam na Arena São Paulo por terem criado dissabores e sido ofensivos com a presidente. Ofensas e uso de palavras de baixo calão devem ser sempre evitados, mas algumas vezes acontecem. Embora pareça contraditório com a frase anterior, é necessário dizer que ainda bem que pelo menos esses puderam gritar, pois a repressão encontrada pelos manifestantes na frente da sede dos metroviários foi digna da ditadura.

Ainda no processo de organização da manifestação, na frente do sindicato dos metroviários, a polícia militar iniciou o cerco do quarteirão e o comando da PM informou que o acesso dos sindicalistas à Radial Leste, avenida que dá acesso ao Itaquerão, estava vetado e que qualquer tentativa de acesso resultaria em confronto e prisão. Ainda durante essa conversa, a polícia começou a reduzir o espaço dos manifestantes e a soltar bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e as conhecidas balas de borracha. Os sindicalistas, para evitar o confronto, foram para dentro da sede dos metroviários e a polícia, após cercar a instituição, lançou, sob ameaça de invasão do sindicato, a imposição de que a manifestação fosse encerrada, embora nada houvesse ocorrido. Como o processo ainda estava na fase da organização, a única razão evidente para a ação policial que afronta o estado democrático de direito é a de impedir que houvesse manifestação contra os gastos da copa, e não contra a copa como insistem alguns.

O grito no estádio do Corinthians contra a presidente, embora desrespeitoso, foi o que pôde ecoar em época de Copa do Mundo. E ecoou porque era impossível massacrar as pessoas que estavam na arena São Paulo, em frente à imprensa de todo mundo, da mesma forma que o foram os trabalhadores organizados em sindicatos que estavam na sede dos metroviários querendo gritar suas insatisfações e desejos. Quando observamos a partir de um foco mais macro, fica claro que o grito está ecoando das elites, mas também de outros grupos sociais, inclusive de grande parte destes milhões que, alegam alguns, saíram da pobreza. Os gritos e as razões de cada grupo são diferentes, mas mostra que há insatisfações de pessoas com visões e posicionamentos políticos distintos.

Por fim, alguns alegam que as ofensas à presidente eram machistas. Acontece que o grito não foi direcionado à Dilma por ela ser mulher, mas por ela ser uma figura política. Fosse Lula, FHC, Collor ou qualquer outro, o grito seria o mesmo, apenas o nome do político seria modificado. Portanto, colocar o fato como uma questão de gênero é apenas outro discurso ideológico para mascarar o óbvio, qual seja, calar o grito de manifestantes pacíficos com policiamento exacerbado e ameaças de prisão dentro da sede de um sindicato à revelia da estrutura do estado democrático de direito é uma intolerância muito, mas muito maior, que os xingamentos reverberados.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 414, 21 de junho de 2014.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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