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Cadê o fair play, governador?*

O jogo está disputadíssimo! É fase de mata-mata na copa do mundo e ninguém quer perder. Ser derrotado significa tristeza, choro, arrumar a mala e esperar mais quatro anos para, talvez, estar novamente em uma copa. Por isso, todos jogam de forma aguerrida com os nervos à flor da pele. Cada pedaço do campo é disputado palmo a palmo, chuteira a chuteira. Os olhos, arregalados, não deixam escapar nada, o deslocamento de um parceiro, o movimento de um adversário, o posicionamento do árbitro, a trajetória descrita pela bola. O peito arde em agonia ao requisitar o oxigênio que chega em parcas doses. Os músculos, retesados, são exigidos ao máximo em cada disputa. Embora sem maldade, em uma dividida mais forte um dos jogadores fica estirado no solo. O adversário, em um gesto de gentileza, rola a bola pela lateral cedendo ao outro time a posse da bola e a oportunidade de que o jogador caído seja atendido pelo médico. Em geral, após o atendimento, o time do jogador que esteve caído devolve a bola ao time adversário e o jogo recomeça.

Alguns pensam que a devolução da bola é tudo o que significa o fair play, mas a ideia desse conceito vai muito além. Em 2012, Miroslav Klose, jogador alemão que está disputando a Copa do Mundo de 2014 e ao lado de Ronaldo é o maior artilheiro de todas as copas (15 gols), assumiu ao árbitro ter usado as mãos para fazer o gol e pediu a anulação do mesmo durante uma partida do campeonato italiano. Mas há um exemplo que chega a ser surreal nas devoluções de bolas. Vertonghen, jogador do Ajax (time holandês), ao fazer a devolução, chutou do meio do campo rumo ao goleiro adversário, este, desatento e adiantado, acabou por sofrer o gol. Um gol de placa, diga-se de passagem! Os adversários ficaram irritadíssimos, enquanto Vertonghem e os demais jogadores do Ajax entreolhavam-se atônitos e desconcertados, pois o árbitro, corretamente, valida o gol. Entretanto, ao reiniciar a partida, todo o time do Ajax permanece imóvel e aguarda o time do Cambuur fazer um gol para remover a vantagem indevidamente obtida (http://www.youtube.com/watch?v=WFlPfaS-znA).

O fair play, essa gentileza em campo, é baseada na ideia de praticar o jogo limpo, obedecendo ao princípio da justiça e renunciando a obter vantagens ilícitas. A filosofia do fair play estende-se para além do mundo esportivo e significa apresentar conduta baseada em preceitos éticos, sociais e morais. De forma geral, representa os valores morais do praticante que defende honra, lealdade e o respeito pelos outros e por si próprio enquanto fortalece os preceitos de ética, dignidade e cidadania. Mais do que seguir explicitamente a legalidade, a jurisprudência das leis escritas, o ideal do fair play baseia-se na noção do cavalheirismo e de aceitar tanto as regras escritas quanto as não escritas. Atuar lealmente sem procurar iludir seu adversário e, ao fazê-lo, buscar construir espaços de liberdade e responsabilidade, além de estratégias mais humanas.

Lamentavelmente, vivemos em uma sociedade onde existem estratégias discordantes de obtenção da vitória e, algumas delas, embora de caráter dúbio e sem nenhum fair play, são exaltadas. Muitos vibram com as vitórias ilícitas de seus times e chegam, inclusive, a exaltar o ato. Há vários casos no futebol brasileiro, mas é exemplar o caso argentino em que Maradona, após fazer o gol com a mão na copa de 1986, afirmou ter marcado “un poco con la cabeza y un poco con la mano de Dios”.

O Amapá teve seu caso recente de falta de fair play. A UEAP elegeu pela primeira vez o seu Reitor em 2014. As eleições envolveram toda a comunidade acadêmica universitária e foram, em seguida, homologadas pelo Conselho Superior, o órgão máximo da instituição. Embora eleitos para Reitor e Vice-reitor, respectivamente, os professores Luciano Araújo Pereira e Daímio Chaves Brito, o governador Camilo Capiberibe empossou o candidato menos votado. Ao proceder assim, desconsiderou os interesses e a vontade da comunidade acadêmica da UEAP, bem como desrespeitou a autonomia universitária e os princípios democráticos. É fato, que o governador tem o direito legal de optar pelo segundo ou terceiro mais votado, mas ao fazê-lo, rompe com o fair play, o cavalheirismo, as regras não escritas da autonomia e democracia que vigoram na relação com as universidades. Raríssimas vezes um governo, na história das universidades públicas, decidiu afrontar os interesses do cidadão. Camilo alia-se aos pouquíssimos que, autoritariamente, tomaram decisões diametralmente contrárias às eleições democráticas das universidades.

Como o time que rola a bola pela lateral para que o adversário seja atendido, a comunidade da UEAP esperava que o governador respondesse com altivez e devolvesse a bola, o que significava atender aos interesses expressos nas urnas e no conselho. Mas Camilo preferiu ater-se ao frio texto da lei e fazer uma jogada legal, embora pouco adequada moral e eticamente. O governador poderia ser magnânimo e, como os jogadores do Ajax, devolver a vantagem indevidamente obtida. A pergunta é: O governador tem disposição e ímpeto para ser magnânimo? No mundo pós-moderno atual, o efêmero e a busca incessante por aparência, lucro e poder se sobrepõem ao fair play e à beleza do gesto, pois tudo que importa é o inebriante sabor da vitória. Camilo seguirá por esse caminho ou terá hombridade para rever suas decisões? Se rever seu ato, o governador dará um ótimo exemplo de fair play, dignidade, ética e respeito aos interesses sociais. Se não voltar atrás e decida manter o egotismo que lhe foi peculiar durante toda a gestão, uma vez mais o atual governador terá espezinhado a educação amapaense, seus profissionais e estudantes. Nesse caso, só caberá perguntar: Cadê o fair play, governador?

*Publicado originalmente com o título “Cadê o fair play?” no jornal Tribuna Amapaense, Nº 416, 05 de julho de 2014.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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