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Uma aventura congelante

O medo é congelante. Melhor, talvez, seja dizer paralisante, pois nos deixa muitas vezes inertes quando precisamos correr. Mas o medo também é importante, pois nos preserva ao impedir que ultrapassemos os limites do que seria prudente e seguro. Sentir medo é um traço evolutivo que auxilia na sobrevivência dos organismos. Sem o medo, poderíamos ser impelidos a nos jogar de despenhadeiros, a encarar de frente caminhões em movimento ou quaisquer outras ações que teriam grande chance de resultar em lesão ou morte.

O medo ronda-nos em várias situações. Ficamos repletos dele quando nossa saúde ou a de nossos filhos estão ameaçadas. O mundo parece vir abaixo quando um profissional da área da saúde diz que nossa criança é diferente e que sua vida será cheia de dificuldades, que o melhor a fazer é protegê-la. Pais de crianças com necessidades especiais sempre se deparam com essa vicissitude.

Elsa e seus poderes.

Os pais de Anna e Elsa em “Frozen: uma aventura congelante” também foram alertados dos riscos a que suas filhas estavam propensas. Elsa nascera com necessidades especiais, era detentora de poderes potencialmente perigosos e letais para si e os outros, os quais não podia ou sabia controlar. Elsa é alertada: “Você deve aprender a controlá-lo. O medo será seu inimigo”. Os pais, com medo do futuro, decidem precaver-se e afirmam: “Iremos protegê-la. Ela pode aprender a controlar, tenho certeza! Até lá… trancaremos os portões, reduziremos os empregados, limitaremos o contato dela com as pessoas e manteremos os poderes escondidos de todos”.

Em uma bolha, protegido, mas isolado do mundo.

Apesar de sua importância, o medo quando exacerbado, traz muitos problemas. No afã de proteger sua criança, por não ser igual às outras, os pais decidem “encobrir, não sentir, não deixar saber”. Durante muito tempo, essa foi a postura de muitos pais de crianças com necessidades especiais. Os filhos não viam o mundo e, simultaneamente, o mundo não via essas crianças. Quando, por alguma razão, sociedade e criança se encontravam, os atos e comportamentos desta eram incompreendidos. Não era para menos, a criança sequer tivera a chance de encontrar outras pessoas e aprender a comportar-se como a sociedade na qual deveria estar inserida. Tornava-se, então, um pária, pois uma criança isolada de todos não aprende sobre o mundo e sofrerá muito mais. Uma vida onde não se vê ninguém é solitária e vazia, deixa apenas escorrer o tempo sem que realmente se viva. Estabelecer o isolamento não melhora a situação, ao contrário, gera uma pessoa que não sabe se comportar em sociedade, não por conta de suas necessidades especiais, mas por ter negada a possibilidade de interações, de entrar em contato com a sociedade com a qual deve interagir. O cuidado excessivo construído pelo medo nega as amizades, a possibilidade de brincar, de ter contato e conhecer pessoas, de ter uma vida.

Alguns pais de crianças especiais ainda cometem o mesmo engano que os pais de Elsa e Anna. Recolhem seus filhos dos olhos do mundo e acabam por impedir que vivam em plenitude. Felizmente a lógica da inclusão tem ganhado força e os pais têm levado seus filhos ao encontro do mundo. Por conta desse contato com a sociedade, de pais que não mais escondem os filhos, de intervenções precoces, de profissionais cada vez mais conscientes da importância de sua atuação, de legislações inclusivas, essas crianças estão tendo a chance de explorar suas potencialidades e serem felizes.

Devemos romper a bolha que impede a inclusão.

E já que falamos de experiência paralisante, nada melhor que excertos do filme “Frozen: uma aventura congelante” para retratar a ansiedade de perceber-se diferente e da emoção de poder encontrar o mundo do qual se está isolado. “Aquela janela destrancou / E tudo por aqui já se animou (…) / Vazio é sempre esse lugar / Pra que salão se não dançar / Finalmente vão abrir os portões / Vai ter gente de verdade / Eu vou até estranhar / Mas como eu estou pronta pra mudar / Por uma vez na eternidade / Essas luzes vão brilhar (…) / Não sei se é emoção ou são gases / Mas assim é bem melhor / Por uma vez na eternidade / Eu não vou estar só (…) / Bem do jeito que sonhei / Nada como a vida que eu levei / Por uma vez na eternidade / A magia e diversão (…) / E eu sei que é muita loucura (…) /Mas por uma vez na eternidade / Ao menos vou tentar (…) / A espera é uma aflição (…) / Os meus sonhos ganham cor (…) / Por uma vez na eternidade / Nada vai me deter”.

Gabriel aprendendo a ler.

Lutemos para que nada detenha a inclusão, sejam legisladores, pais ou professores. Enfrentemos essa aventura congelante e rompamos o medo paralisante, pois há muito a se construir e é preciso fazê-lo, pois “amar é colocar a necessidade de alguém acima da sua”.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 413, 14 de junho de 2014.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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