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Uma copa diferente

Vai ter copa! Os humanos somos naturalmente competidores. Em um experimento, observadores que não tinham qualquer relação com crianças disputando uma gincana passaram a torcer por uma das equipes, apenas baseados na informação de que as crianças foram dividas segundo o semestre de nascimento. Óbvio que cada observador decidiu torcer pela equipe de nascidos no mesmo semestre que ele próprio. Gostamos de torcer e tomar partido e se isso envolve a paixão nacional, o futebol, é claro que haverá muita torcida. Um país que ama futebol não deixará de se envolver com o maior evento futebolístico do planeta, ainda mais considerando que a copa só ocorre de quatro em quatro anos e que dessa vez será no Brasil. Portanto, vai ter copa.

Fulecar: Perder, ao jogo, todo o dinheiro que se leva. Fonte: Dicionário Priberam da Língua Portuguesa http://www.priberam.pt/dlpo/fulecar

Os brasileiros vamos torcer pela copa, mas a festa não engrenou rapidamente. Apesar da publicidade massiva na mídia, faltando uma semana para o início do evento, quase não há bandeirolas penduradas ou ruas pintadas em verde e amarelo. Mesmo com uma seleção que agrada a maioria, a população não abraçou a copa, como normalmente ocorre. Mas o país vai se empolgar pouco a pouco à medida que a seleção for avançando. Passada a fase de grupos, o país incendiar-se-á e, se o Brasil for campeão, dissipar-se-á no ar o maracanaço infligido pelo Uruguai, e haverá uma festa como nunca se viu.

Mas mesmo que a festa venha, e a maioria deseja que assim seja, esta copa será diferente. O retardo em iniciar as festividades ocorre porque a população percebeu a política de pão e circo que impera nesse país há décadas, séculos dirão alguns. Os brasileiros, apesar da ignorância forçada pela péssima educação, sabemos cada vez mais! Sabemos que apesar do país ser penta e estar buscando o hexa, somos lanternas em questão de direitos sociais. Sabemos que educação, moradia, segurança e transporte estão mal e não melhorarão, mesmo que a seleção ganhe a copa. Sabemos que bilhões entrarão no país para a realização da copa, mas que isso não chegará à população porque é sempre uma pequena minoria que fica com tudo.

Então vai ter copa, mas copa para quem? Para quem ganha salário mínimo e se espreme cotidianamente em ônibus lotados? Para as comunidades “pacificadas”? Para quem foi expulso de uma residência por conta de obras faraônicas que não melhorarão a vida da população? Para aqueles que esperam por obras de mobilidade que são insuficientes ou simplesmente não aconteceram? Embora muito dinheiro tenha sido gasto, os benefícios não chegarão à população. Houve, por exemplo, um não cumprimento seletivo da Matriz de Responsabilidades da Copa. Obras consideradas relevantes para a melhoria da mobilidade como o monotrilho de Brasília e São Paulo e o metrô de Salvador, simplesmente não aconteceram. Além disso, quase todas as obras, incluindo os estádios, foram erguidas basicamente com o uso de recursos públicos, quando o prometido fora o investimento privado.  E a transparência dos custos… questionadíssima!

Os principais beneficiários desta copa são os empreiteiros e outros megaempresários. Aeroportos estão sendo reformados para serem, em seguida, privatizados. Construiu-se desnecessariamente um terceiro grande estádio em São Paulo e em localidades sem tradição no futebol nacional como Manaus e Brasília. Estádios, agora chamados arenas, onde os preços exorbitantes estão afastando as pessoas que tradicionalmente assistiam ao futebol à beira do campo. Exclusão que ocorre não apenas nas arenas, mas em todos os locais. Há assepsia das cidades por meio de intervenções e remodelagens nada preocupadas com o cidadão. Pessoas despejadas, manifestantes tratados com balas de borracha e gás lacrimogêneo em profusão, reclusão forçada de mendigos e usuários de drogas, entre outros considerados indesejáveis. Unidades de Polícia Pacificadora que, segundo muitos, existe menos para proteger a comunidade e mais para restringir o acesso da comunidade aos espaços “mais nobres” da cidade. O acesso em algumas comunidades, outrora denominadas favelas, está mais difícil e controlado, praticamente estabelecendo guetos, a exemplo da Alemanha nazista.

Essa será a copa das manifestações. A sensação de que algo está errado e de que é preciso fazer algo paira no ar. Se o Brasil jogar mal ou sair cedo da copa… pode haver uma insatisfação avassaladora a gerar manifestações e alterar resultados eleitorais. Talvez por isso, alguns falem que essa copa já é do Brasil, tendo sido definida a priori nos bastidores para evitar maiores problemas. Entretanto, independente de qual país venha a sagrar-se campeão, os brasileiros entenderam que o Brasil é o país do futebol porque até hoje não foi o da educação, saúde, justiça social…A copa correr bem ou não, o Brasil ganhar a copa ou não, por si não mudará o Brasil, mas o que fizermos com essa noção de que chegou a hora de parar de engolir nossos problemas sem fazer nada é que poderá fazer do Brasil um país melhor. As pessoas estão cansadas, querem outro tipo de sociedade e querem já! Por isso, vai ter copa, mas na copa… vai ter luta!

Chutes diferentes dentro e fora do gramado.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 412, 07 de junho de 2014.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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