atividade física, ciência, Conhecimento, Entrelinhas, saúde

Famintos por toque

Imagens de pessoas manuseando gadgets tecnológicos como tablets, celulares e computadores enquanto partilham em silêncio um mesmo ambiente têm sido recorrentes nos dias atuais. Vivenciamos isso em reuniões familiares e de amigos e as visualizamos em charges nas redes sociais. Os saudosistas, criticando a situação, afirmam que as pessoas interagiam mais entre si antigamente, pois não estavam separadas pelos aparelhos eletrônicos. Segundo estes, nas infâncias de períodos anteriores, como havia mais contato pessoal, o passado era não apenas diferente, mas melhor.

Em oposição aos saudosistas, há uma compreensão de que cada período tem suas verdades e apresenta relações sociais estabelecidas segundo o contexto vigente. Ainda assim cabem algumas perguntas: Será que o uso de celulares, tablets e computadores está realmente diminuindo nosso contato social? Considerando que algumas pessoas afirmam ter mais amigos nas redes sociais do que jamais teriam fora delas, podemos realmente falar em redução de contato social? Até que ponto a redução do contato face a face pode ser de fato algo importante na forma como nos relacionamos? Precisamos ficar atentos ao tipo de situação que pode emergir das estruturas de relacionamento que ora presenciamos? Em um período de exacerbado contato virtual, vivemos uma demanda não atendida por contato humano ou, como alguns denominam, estamos com fome de toque?

A pele é o maior dos nossos órgãos dos sentidos e um importante portão de acesso de cada indivíduo ao mundo físico. Claro que há outros aferentes, mas a nossa relação interpessoal é muito conectada através da derme. Nos romances, a mão na mão ou o contato de um corpo no outro é essencial para a conexão dos amantes. Mas há também o contato materno. A importância que as mães atribuem ao momento em que recebem o filho pela primeira vez no colo, poder senti-lo colado ao corpo, perceber seu peso e calor, receber o contato da boca da criança no seio e a satisfação de perceber o leite escorrendo para alimentar o filho recém-nascido são importantíssimos na construção dos laços afetivos e, portanto, de todo o nosso desenvolvimento posterior.

A pele é um órgão social repleto de sensores táteis que nos conectam com o mundo a nossa volta. Relações estreitas aumentam nossa sensação de bem-estar, aquelas insuficientes ou inadequadas conduzem a comportamentos sociais considerados desviantes dos padrões de normalidade. Mães com sintomas de depressão tocam mais seus filhos e de uma forma mais invasiva e superestimulada como com cutucões e cócegas. Filhos tocados dessa forma responderam com evitação do contato e aversão ao olhar dificultando o estabelecimento de laços afetivos. Por outro lado, um contato físico próximo entre pais e crianças desempenha um importante papel na comunicação e estabelece laços sociais mais seguros, aumenta o ganho de peso e a ingestão calórica em prematuros, controla o estado de excitação e aumenta o desenvolvimento de habilidades visomotoras em crianças. Adultos também mostram maior aquiescência e boa vontade quando há toque intersubjetivo. O toque permite a emergência de ressonância somatovisceral entre indivíduos em interação, que é a base para o contágio emocional e empatia.

A integração ao mundo social é primordial para a nossa sobrevivência e deriva daí a necessidade de compreender nossa habilidade de estabelecer e manter relações sociais próximas. Em primatas o toque é importante no estabelecimento de laços afetivos e possui uma forte correlação com o tamanho do grupo social. Na espécie humana, o tamanho dos nossos grupos nas imensas cidades modernas tornou inviável a solidificação de laços afetivos através do toque e, assim, as redes sociais parecem estabelecer-se como uma estratégia alternativa de manutenção de contato social. Mas um aspecto importante deve ser levado em consideração. Há propriedades emocionais do toque que são mediadas pelos nervos aferentes C-táteis. Esses nervos respondem especificamente bem ao toque suave, lento e delicado que ocorrem em relações sociais mais íntimas como no contato entre pais e filhos ou entre parceiros românticos.

C-táteis (slow nerve fibers)

Nervos C-táteis possuem um papel chave nos aspectos sociais e emocionais do toque intersubjetivo que permitem o estabelecimento de vínculos afetivos. Assim, apesar do elevado número de amigos que alguns possuem nas redes sociais, o volume de contato pessoal que estabelece os vínculos parece de fato estar em redução. Considerando que os vínculos são importantes para nosso desenvolvimento pessoal e social, mesmo sem sermos saudosistas, é bom ficarmos atentos para perceber se o uso de gadgets, considerado abusivo por alguns, não está nos conduzindo a uma sociedade não apenas com fome, mas faminta, também, de toque.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 411, 31 de maio de 2014.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s