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Reitores ou gestores?

As eleições para os reitores das universidades ainda são momentos importantes na definição da vida universitária. Ênfase deve ser indicada no termo ainda, pois os últimos governos conseguiram retirar das reitorias o poder de ser um dos instrumentos responsáveis pelo pensar a instituição para a comunidade acadêmica e a sociedade. Os reitores atuais são basicamente gestores, cuja ação central é ajustar a universidade dentro da métrica indicada pelo Ministério da Educação de forma a trazer para a instituição um pouco mais dos parcos recursos disponibilizados.

Sob a ótica da gestão, o reitor tornou-se um indivíduo que segue passivamente a política definida pelos organismos internacionais e ratificada pelos sucessivos governos nacionais. Uma figura que não critica o modelo, não aponta falhas e alternativas, não discute as especificidades de sua universidade, não ousa falar da necessidade de maiores investimentos ou defender um projeto institucional que se estenda além do pré-estabelecido pelo governo federal. No máximo, sob esse modelo, o reitor solicita alterações nas métricas e matrizes para que um pouco mais de recurso seja destinado a sua instituição.

Embora restrito em suas ações político-sociais, os reitores têm assumido ferozmente a figura de feitores, de modo que aplicam e cobram com veemência as exigências da métrica, definida externamente à universidade, de professores, técnico-administrativos, alunos, cursos, departamentos, institutos… Pró-reitores, diretores e mesmo alguns professores reproduzem esse papel no âmbito de suas atuações, o que tem feito com que o adoecimento, o estresse e as reclamações de burnout e assédio moral entre os servidores das instituições de ensino superior tenham crescido vertiginosamente nos últimos tempos.

Um reitor-gestor, lamentavelmente, significa um processo de esvaziamento de sentido da própria essência do que significa universidade. Isso não deixa de ser parte de um processo em que as universidades têm perdido cotidianamente, em razão das políticas implantadas, sua capacidade de intervenção social. Dentro desta nova lógica, muitos professores não pensam mais a realidade do entorno social e não se propõem a intervir na sociedade, apenas focam suas ações em obter recursos via editais ou outras formas de financiamento para manter suas pesquisas.

Apesar do esvaziamento da universidade e da desconfiguração da figura do reitor, as comunidades esperam que os reitores eleitos sejam capazes de minimamente produzir modificações nas instituições que governarão por quatro anos. Por isso, as comunidades universitárias esperam que as eleições sejam momentos em que haja debate não entre modelos de gestão, mas entre projetos de universidade. Espera-se que os candidatos apresentem mais que uma lista de ações que serão desenvolvidas, mas que mostrem claramente seu posicionamento com relação aos elementos centrais da vida acadêmica.

Há várias questões que merecem ser abordadas em um processo de escolha do reitor. Quais as concepções de educação e universidade que os candidatos defendem e pretendem implantar? Os alunos devem ser formados para o mercado de trabalho apenas ou devem ser dotados de pensamento crítico? Se este último é o caso, como pretendem lidar com as divergências internas? Debaterá com as instâncias participativas, sindicatos, movimento estudantil ou simplesmente chamará instrumentos repressivos para “tratar” com professores, estudantes e técnico-admistrativos? Será favorável à luta pela ampliação das verbas públicas para manutenção, custeio e expansão da universidade ou entende que a estrutura de métrica atual e a lógica de editais, onde a instituição fica com o pires na mão, são a melhor solução porque geram competição interna? Com relação ao financiamento, defende os 10% do PIB para a educação pública já, ou acha que o atual montante investido em educação é suficiente e o que falta é gestão? Como entende e se posiciona com relação ao Reuni, Ebserh, Funpresp e outros ataques à autonomia e existência da universidade? Defende uma instituição de ensino superior que se paute em democracia, autonomia e liberdade de pensamento e expressão? Propõe uma universidade voltada às questões internas e concentrada apenas em busca de financiamento e número de publicações ou que objetiva interagir com a sociedade em que está inserida e ser um agente de transformação? Uma universidade que não apenas dita normas e regras de ação, mas que de fato envolve-se com a sociedade transformando-a e sendo transformada por esta?

Há inúmeras questões importantes e não existem respostas simples!  A universidade deve ser defendida nas condições materiais de sua existência e não apenas em abstrato por dentro do modelo governamental. Em uma eleição é preciso reconhecer que podem surgir candidaturas distintas defendendo um mesmo projeto e apresentando apenas nuances de divergência. Neste caso, seriam alternativas de um mesmo modelo, de uma mesma proposta. É preciso identificar aquela candidatura que se proponha a atuar junto com docentes, técnico-administrativos e estudantes, pois “só a ação integrada da chamada comunidade universitária (…) é capaz de manter viva a força que pode gerar transformações concretas e condizentes com a universidade pública, gratuita, autônoma, democrática, laica, de qualidade socialmente referenciada – uma universidade comprometida com o desenvolvimento nacional e os interesses da maioria da população brasileira”. Afinal, as universidades não precisam de um gestor-feitor, mas de alguém que seja, na acepção da palavra, um reitor, ou seja, aquele que rege, governa e guia preocupado com a sociedade a quem serve.

Sobre o mesmo tema, ler o texto Eleições universitárias.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 406, 26 de abril de 2014.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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