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Memória aos 50

O filho, ainda enfrentando as dificuldades da primeira história de amor, busca auxílio no pai. Pede-lhe conselhos sobre como abordar a menina que povoa seus sonhos e como fazer sua paixão platônica transformar-se em namoro. O pai rememora o passado. Paqueras, namoros, beijos vêm à mente. Em suas recordações tudo foi simples, tranquilo e livre de dificuldades. Esquece-se dos problemas que enfrentou, da insegurança típica da adolescência, das recusas, do receio de ser rejeitado e do temor de perder o amor do momento. Ancorado apenas nas boas memórias, diz ao filho que não há mistérios, que a conquista é fácil e começa a narrar estratégias, que acredita, infalíveis.

A memória do brasileiro sobre sua história recente parece vivenciar esse mesmo apagão de lembranças desagradáveis do passado. Em 2014 completaram-se 50 anos do golpe que retirou João Goulart da presidência e deu origem a uma ditadura empresarial-militar no Brasil. Uma sequência de gestões de caráter nacional desenvolvimentista estendeu-se até 1985 e teve seus acertos e erros na forma de conduzir o país. Cada um pode fazer sua avaliação das políticas de Estado e governo desenvolvidas durante o intervalo entre o golpe e a redemocratização. Mas independente da leitura política e econômica que se faça, não é possível esquecer-se das retiradas de direitos humanos e civis, cuja expressão jurídica mais evidente foi o Ato Institucional Nº 5, nem dos casos de tortura, desaparecimento e morte daqueles que ousaram se opor ao regime ditatorial.

Enganam-se aqueles que acham que isso é imaginação ou teoria da conspiração, pois o Coronel Paulo Malhães, reformado do Exército, assumiu em depoimento à Comissão Nacional da Verdade que houve tortura, mortes e ocultação de cadáver durante o período dos governos militares. Aqueles que sofreram diretamente ou por meio de seus parentes as agressões do Estado trazem ainda frescas nas recordações as dores e angústias vivenciadas. A memória, entretanto, minimizou os problemas nas lembranças daqueles que não se colocaram como opositores ao regime. Estes, esquecidos de todos os problemas ocorridos na ditadura e relembrando saudosamente dos eventos que recordam agradáveis daqueles tempos, reeditaram em 2014 a Marcha da Família com Deus pela Liberdade.

A marcha original, ocorrida em 1964, foi um dos estopins para a derrubada do presidente e contou com mais de 500.000 pessoas nas ruas em São Paulo. A reedição em 2014, embora um fiasco em termos numéricos, serve para nos fazer atentar em algumas questões. Primeiro, há um grupo disposto a se organizar contra os avanços das minorias que na luta conseguiram modificar um pouco a situação de discriminação e exclusão existentes em nosso país. Não há de se menosprezar o fato da marcha ter baixo volume de participantes, pois essas pessoas aceitaram expor suas ideias nas ruas mesmo em pequeno número, o que significa um interesse no enfrentamento. Em um país eminentemente conservador, onde a democracia é incipiente e parece se resumir à possibilidade de votar em representações, o colorido do passado trazido pela ausência de memória pode fazer com que grupos reacionários ganhem força rapidamente. É importante ter cuidado com isso!

Segundo, precisamos de uma reforma política real para que as pessoas possam realmente ter capacidade de intervenção nos rumos do país. É preciso resgatar a crença nos partidos políticos e no sistema representativo, sob pena da ideia de democracia ser considerada descartável e criarmos a condição de surgimento de regimes ditatoriais, totalitários, fascistas ou qualquer outro regime de exceção que entenda ser possível suprimir direitos humanos em benefício de alguns. Do mesmo modo, é inadmissível que um governo pretensamente democrático, como o atual, se utilize de recursos jurídicos como o Decreto nº 8135/2013 que fortalece a criminalização de manifestante e movimentos sociais e que claramente visa suprimir a luta por direitos por parte de populares e da classe trabalhadora.

Terceiro, é necessário reforçar o trabalho de resgate e publicização da memória do que ocorreu na ditadura empresarial-militar. Existem alguns trabalhos sendo desenvolvidos nesse sentido como a Comissão Nacional da Verdade e suas vertentes estaduais que foram instituídas com o intuito de identificar violações dos direitos humanos. Outras entidades como o ANDES-SN, sindicato que congrega os professores universitários brasileiros, também possuem sua versão da comissão da verdade com o objetivo de revelar os acontecimentos que instauraram uma ditadura, suprimiram liberdades individuais e instituíram formas de repressão, perseguição política e tortura, muitas vezes resultando em morte, que foram aplicados contra movimentos sociais, organizações sindicais, universidades e trabalhadores.

O resgate de todos esses eventos é importante para que mantenhamos vivas as memórias dos infortúnios de um regime de exceção onde pessoas e seus direitos não são dignos de valor. Precisamos fazer isso porque as pessoas tendem a preservar na memória as lembranças boas de seu passado e a apagar aquelas não tão agradáveis. O passado é sempre lembrado como mais belo e colorido do que realmente vivenciamos e tendemos a achar que nossas infância e adolescência foram maravilhosas, sem problemas, preocupações ou dificuldades. Se cairmos nesse engodo, correremos sérios riscos de estar criando as condições para o ovo da serpente. Devemos todos ficar atentos, pois é inadmissível que atrás de palavras fortes e belas como família, deus e liberdade estejam sendo gestadas formas de repressão e morte. Nossa memória, mesmo aos 50, tem que funcionar!

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 402, 29 de março de 2014.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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