democracia, discriminação, educação, Entrelinhas, greve, ideologia, manifestações, mídia, movimentos sociais, sindicato, trabalho

Pedagogia do oprimido em ação

Caricatura e frase de Paulo Freire sobre o ensinar como intervenção no mundo

“A única coisa que está fazendo sentido nesse carnaval é a greve dos garis. Os garis sacam muito de intervenção urbana e instalações sensoriais. Instalação viva, onipresente que se multiplica com a interação do público! Olha que incrível! E nem precisam estar presentes para a performance acontecer. Aliás, a potência da performance está justamente no invisível. Performers do invisível! Olha que máximo! Garis dando aula aberta de performance urbana!! Estão mandando muito bem na composição da paisagem da cidade. A não-arte é mais arte que a arte-arte, já dizia Kaprow. Garis, amo vocês!”

O trecho acima, de autoria de Raphael Arah, com a qual encerrei o texto “Não tem gari no samba!” é também apropriado para a abertura deste, por dois motivos. De um lado por revelar a intervenção provocada na sociedade e, de outro, porque atribui aos garis um papel com o qual eles aparentemente não possuem qualquer vínculo: o educar. A greve dos garis, ora encerrada com uma estrepitosa vitória, é uma das mais importantes lições que alguém poderia aprender em um mundo de exploração. Uma aula de cidadania e luta por direitos, onde pessoas cuja profissão é uma das mais exploradas, humilhadas e invisíveis, simplesmente ousaram. Ousaram não agradecer as migalhas que lhes são lançadas. Ousaram não se subjugar aos desmandos e desaforos dos governantes. Ousaram não se dobrar às mentiras e deturpações da grande mídia. Ousaram lutar por salários e direitos. Ousaram, enchendo a cidade de lixo, angariar apoio da população. Ousaram sair da invisibilidade e mostrar-se importantes. Ousaram tornar vitoriosa uma greve. Ousaram ir além dos direitos e conquistar dignidade e respeito.

Toda essa ousadia traduziu-se em um forte poder de intervenção social. Além da performance do invisível, os garis alteraram a representação social que existe sobre o trabalho e o trabalhador de atividades consideradas braçais, bem como sobre a importância da luta. Sua ação mostrou que as pessoas com menores remunerações, aquelas que vivem de salário mínimo, não são lixo nem invisíveis. Que apesar de desenvolverem atividades que a maioria procura evitar, são benquistos pela população. Que mesmo com a ameaça de desemprego é possível ir às ruas lutar por direitos e contra a exploração. Com sua intervenção, os garis ensinaram, ou lembraram, para alguns de nós, que  com a luta é que se conquista e se muda a vida!

Decididamente os garis, com sua greve, deram uma aula de poder popular, uma aula sobre a força oriunda de trabalhadores unidos e organizados. O poder instituído, entretanto, não suporta que os dominados se expressem e busca sempre minimizar esses ensinamentos. Corre nas redes sociais que na tentativa de ironizar e desgastar a luta dos trabalhadores, via greves e paralisações, o prefeito atribuiu a greve dos garis aos professores. Nas palavras de Eduardo Paes, “A culpa é dos professores que estão fazendo escola com esse negócio de greve”. Se era para ser uma crítica, não funcionou. Os professores realmente comprometidos com a educação assumiram a afirmação como um elogio.

Os grandes teóricos da educação ensinam que os professores devem ir além dos conteúdos e ensinar para a vida e que, portanto, é papel da docência desvelar ideologias, revelar processos de exploração humana e auxiliar as pessoas a combater a opressão. Se os professores estão ensinando que há algo errado em alguém ganhar um salário miserável e que os trabalhadores devem lutar contra isso, então a educação está no caminho certo. Se o fato dos professores irem às ruas reclamar por seus salários está ensinando outros a fazer o mesmo, significa que esses, de fato, estão educando, pois educar é mediatizar a relação das pessoas com o mundo para que vejam além das aparências e transformem suas existências.

O pensar sobre a realidade envolve o estabelecimento de juízos, identificar o certo e o errado, discriminar o que se gosta e o que não se gosta, compreender as relações estabelecidas e invisíveis que asseguram o processo de exploração. O pensar, diferente do que muitos possam imaginar, não é passivo, é uma ação reflexiva sobre o mundo. O compromisso de todo educador está vinculado a essa reflexão dialógica que rompe com a estrutura de dominação e leva a agir, a lutar. Decorre desse vínculo uma famosa frase de Paulo Freire: Ser educador e não lutar é uma contradição pedagógica.

Os professores buscam ser os protagonistas de uma transformação social libertadora a partir de sua prática pedagógica. Construir sujeitos capazes de pensar e falar por si mesmos, donos de suas próprias ações, emancipados em um mundo de subjugações é o ápice e o objetivo dessa atuação. A prática e a luta de professores compromissados tem sido importante em desvelar vários processos ideológicos e transformar muitas realidades, mas dessa vez, é necessário admitir, foram os garis que, sobre esse tema, deram uma aula magistral. Paulo Freire ficaria orgulhoso ao olhar a greve dos garis e ver sua Pedagogia do Oprimido em ação.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 400, 15 de março de 2014.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

Padrão

2 comentários sobre “Pedagogia do oprimido em ação

  1. Lucia de Fatima disse:

    Sou feliz com minha Laviny,portadora da síndrome de Down.Tenho aprendido muito com ela,inclusive amar mais as outras pessoas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s