democracia, Entrelinhas, ideologia, manifestações, mídia, movimentos sociais, política

Quem matou o cinegrafista?

Walcyr enchera o copo até a borda, até o limite em que nenhuma gota poderia ser incluída sem que a água extravasasse, antes de esquecê-lo sobre o tampo do móvel de madeira. Antonio, o irmão, apressado e sedento, vê o copo e decide beber dele para não perder tempo. Cheio, o copo, foi impossível levá-lo à boca sem que a água respingasse no tampo. A mãe vê a poça e brada com Antonio por molhar seu adorado mobiliário. A culpa, não há como negar, mesmo não intencionalmente, é tanto de Antonio quanto de Walcyr, pois em razão da ação deste, seria impossível àquele manusear o copo sem provocar o transbordo sobre o móvel.

Como se vê, nem sempre é fácil identificar culpas mais distantes do fato. Em fato recente, acusam um jovem de intencionalmente assassinar o cinegrafista Santiago Andrade e aproveitam para criminalizar ainda mais os movimentos sociais. É óbvio que o rapaz não mirou no cinegrafista com um rojão de fogos de artifícios e o acertou. Para quem entende minimamente de balística, sabe que para a munição seguir em trajetória retilínea rumo ao alvo, há ranhuras no cano da arma. Não é o cano que faz com que a munição siga reta, mas as ranhuras. Um rojão não possui ranhuras e, portanto, peca pela ausência de pontaria. Assim, fica claro que ninguém consegue precisão para intencionalmente alvejar alguém com um rojão. O fato, portanto, foi uma fatalidade, como tantas outras que ocorrem. Quando se dirige um carro e por alguma razão há um atropelamento, também é uma fatalidade. Claro que se pode questionar o fato de disparar o conteúdo do rojão na direção de pessoas, mas derivar daí o interesse de assassinar alguém só é possível com certa dose de má-fé ou de interesses escusos.

Mas, então, quem matou o cinegrafista?

Não intencionalmente, mas como causalidade, matou o jornalista, o rapaz que disparou o rojão.

Não intencionalmente, mas em razão do descaso, a imprensa que encaminha seus profissionais para áreas de conflito sem a proteção adequada. Donos da mídia que, segundo a concepção do próprio cinegrafista nas palavras da filha, faz do jornalismo uma “profissão ingrata, salário baixo e muita ralação”. Grande imprensa que não intenta discutir as reais causas do ocorrido, pois o modelo assegura seus interesses de acumular mais e mais capital. Mídia que, a serviço dos governos e do capitalismo, aproveita o lamentável episódio para transformar em bandidos, marginais e assassinos, os manifestantes de um país em descalabro.

Não intencionalmente, mas em razão da forma como tem combatido os movimentos sociais, as forças repressivas do Estado, mais precisamente a Polícia Militar que, inclusive, matou e cegou diversos jornalistas ao longo dos confrontos com os manifestantes desde junho de 2013. Mortes e lesões que, como era de se esperar, pois não é interesse da mídia, dos governos e do capital, não ganharam grande dimensão na cobertura jornalística.

Não intencionalmente, mas em razão de estar imerso no sistema, o legislativo que aprova leis para atender aos interesses do grande capital. Nesse momento, por exemplo, se apropriam da morte do cinegrafista para acelerar a aprovação do projeto de lei sobre terrorismo (PL 728/2011) com a finalidade de impedir que as pessoas tenham direito à manifestação no Brasil.

O ovo da serpente – Lei antiterrorismo – Charge do Latuff

Não intencionalmente, mas em razão de suas deliberações, o governo do estado do Rio de Janeiro, que recomenda às forças repressivas atuar inicialmente de forma distante, mas recrudescer o enfrentamento contra as manifestações quando essas estão próximas do fim. Assim, criando conflitos muitas vezes desnecessários, mas importantes na geração de imagens que apresentem as manifestações como criminosas.

Não intencionalmente, mas em razão de seus vínculos com os interesses do capitalismo nacional e internacional, o governo federal que utiliza mais de 50% do orçamento da união para pagar uma dívida ilegal (para informações ver o site da auditoria cidadã da dívida) e defende a elaboração de leis que permitem ao país acumular mais e mais milionários, enquanto deixa desassistida a população em itens como saúde, educação, segurança, transporte, moradia entre tantos outros. Um governo que, como a rainha, agora decapitada (Te cuida, Dilma!), fica a dizer “Se não tem pão, que comam brioches!”.

Não intencionalmente, mas por culpa de sua ideologia de exploração, o capitalismo nacional e internacional que com sua voracidade atropela os interesses dos países e coopta governos que se rendem e passam a defender interesses que não são aqueles emanados de sua população.

Não intencionalmente, mas sem ser menos culpados, cada um de nós que achamos que é tudo normal e que toda e qualquer reivindicação é obrigatoriamente desnecessária e ilegal e que deve ser massacrada pela força do Estado, de preferência, com manifestantes sendo presos e, quiçá, mortos. Esquecemos que o modelo de sociedade que hoje temos e defendemos foi construído e consolidado com a tomada da Bastilha. Momento em que a população foi às ruas e se sagrou vitoriosa no enfrentamento com as forças instituídas. E por que se foi às ruas naquele momento? Porque a população estava sufocada, sem direitos, sendo massacrada cotidianamente, enquanto a monarquia realizava festas e banquetes em seus castelos. Exatamente como hoje, certo?

Segundo Arlita, companheira de Santiago, “O que falta é amor pelo ser humano. Peço que essas pessoas não sejam violentas, que não façam isso. Isso não vai levar a nada. Eles destruíram uma família que era muito unida”. Ao falar sobre a morte do companheiro, Anita está parcialmente correta, pois acha que apenas o rapaz com o rojão na mão é culpado. Mas muitos são os culpados pela morte do cinegrafista e não dá para culpar apenas o jovem com o rojão. Claro que é difícil apontar a origem da violência com vários envolvidos e questões em aberto. Afinal, a violência é apenas o acidente do rojão atingir o cinegrafista ou é todo o massacre perpetrado pelo interesse do capitalismo sob a égide da justiça, do legislativo e dos governos? A violência tem, portanto, múltiplas ocorrências, mas suas raízes estão todas encravadas no sistema de exploração capitalista sob o qual vivemos.

Por fim, é preciso dizer, concordando com Anita, que nesse sistema falta amor pelo ser humano e que ele, junto com todas as forças que o integram destruíram uma família que era muito unida. Para impedir que muitas outras famílias continuem sendo destruídas, é preciso que combatamos esse modelo e que nossa sociedade seja mais justa e igualitária. Não podemos aceitar que o PL 728/2011 que transforma manifestação em terrorismo seja aprovado, caso contrário, cada vez mais o jornalismo, assim como várias outras profissões continuarão sendo “profissão ingrata, salário baixo e muita ralação” e muitas pessoas permanecerão vivendo em condições indignas da vida humana. Não podemos aceitar que consideremos culpados apenas quem derrama a água, precisamos desesperadamente compreender que os reais culpados são aqueles que enchem os copos até o limite e, então, combatê-los!

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 396, 15 de fevereiro de 2014.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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