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Beijos e cadeados

Um casal conversa trivialmente em casa. Um deles se levanta e diz que precisa sair. Caminha rumo à porta, fala uma frase romântica, volta rumo ao outro, corpos e rostos se aproximam, lábios se encontram e um beijo sutil acontece. O beijo, comemorado ostensivamente por muitos, era uma cena de novela e, salvo por um pequeno detalhe, não tinha nada de especial para chamar a atenção. A novidade, que deu excepcionalidade à cena, reside no fato do casal ser composto por pessoas do mesmo gênero.

Sequência do beijo da novela

O festejado beijo é uma conquista dos movimentos homossexuais que há anos militam para que seus direitos sejam reconhecidos e que as relações homoafetivas sejam tratadas com naturalidade, assim como as heteroafetivas. Esses militantes lutam cotidianamente pelo direito de andar de mãos dadas e de beijar em público sem sofrer agressões ou ser assassinados em razão do gênero da pessoa com quem estabeleceram um relacionamento.

Apesar da repercussão envolvida, se engana quem julga que o beijo televisionado vai mudar substancialmente a sociedade. O beijo só apareceu no horário nobre porque o povo brasileiro mudou ao ponto de aceitar que o mesmo fosse transmitido. A emissora que veiculava o folhetim, assim como todas as outras no Brasil, é conservadora e trabalha de olho na audiência e em pesquisas de opinião. Se o diretor e a emissora decidiram pela transmissão do beijo, a pesquisa deve ter apontado que uma parcela considerável da população aceitava ou queria que ele ocorresse. A transmissão do beijo não significa a inexistência de pessoas rançosas e fundamentalistas vociferando ofensas, instilando discriminações e ferindo ou mesmo matando homossexuais. Por outro lado, e isso é muito importante, significa que o número dos que são contra as relações homoafetivas está em franca diminuição. Aparentemente nossa sociedade começa a acolher de forma menos preconceituosa a homossexualidade.

Em nota sobre o episódio do beijo, a emissora destacou que “É importante lembrar que o relacionamento homossexual sempre esteve presente nas nossas novelas e séries de maneira constante, responsável e natural.” De fato, o tema da homossexualidade é abordado sistematicamente há algum tempo, mas os casais homoafetivos, masculinos ou femininos, sempre foram minimizados ou mesmo removidos da trama quando se percebia a rejeição da população. Ao longo do tempo, houve um exercício de avaliar se era possível apresentar a questão da homoafetividade de forma aberta. Como a sociedade agora está mais permissiva ao tema, o beijo foi ao ar. Apesar de todo esse cuidado, não são poucos os comentários em favor da família e dos bons costumes. Ou, talvez seja mais apropriado dizer, nesse caso, em defesa da arrogância e do fundamentalismo.

Outros temas importantes que envolvem preconceito e discriminação mereceram menos ênfase por parte das emissoras televisivas como o racismo, o machismo, as pessoas com necessidades especiais e a pobreza. Em todos esses casos há relações de poder em que um grupo se julga superior a outro. O grupo que detém o poder acha natural que as coisas sejam exatamente como se apresentam e coloca sobre os ombros daqueles que estão fora do círculo, as razões de suas dificuldades e a necessidade de se adequar e de buscar superar os problemas e limitações que se lhe impõem. Como estão em posição de conforto, não enxergam como as escolhas que fazemos, como sociedade, marginalizam e excluem pessoas e grupos.

Por exemplo, é considerado natural, embora não seja, enxergarmos nos pretos e pobres o vínculo com o crime. Entretanto, a real conexão da criminalidade é com a desigualdade social. Países que conseguiram diminuir a marginalidade foram exatamente aqueles que reduziram a desigualdade e tornaram a vida mais aprazível para a maioria de sua população. Por sua vez, países que possuem justiceiros ou que implantaram pena de morte para vários delitos não reduziram seus índices. Essas informações deixam claro que estamos no caminho errado. Em vez de trabalharmos para reduzir a desigualdade no Brasil e, consequentemente, a pobreza e os crimes, estamos nos tornando uma sociedade cada vez mais desigual, reacionária e nazifascista. Clamamos por implantação da pena de morte, cancelamento dos direitos humanos aos criminosos e redução da maioridade penal. Além disso, aplaudimos os justiceiros que andam pelas ruas a pegar qualquer um que julguem criminosos para torturar e, quiçá, matar.

Cena recente, desta vez na vida real, mostrou como avançamos nessa direção lamentável. No Aterro do Flamengo, um rapaz, com marcas de espancamento e um corte na orelha, apareceu nu e preso a um poste por um cadeado, para ser mais exato, uma trava de bicicleta em volta do pescoço. Embora chocante, a cena foi considerada normal por muitos transeuntes que passaram no local e seguiram tranquilamente com suas atividades, afinal caminhar, correr e pedalar é mais importante que auxiliar um ser humano em dificuldades.

Conheça as charges do Latuff

A barbárie cotidiana no Rio de Janeiro – Charge do Latuff.

Observar como reagimos às cenas que temos vislumbrado é esclarecedor. É evidente que há algo errado em nossa sociedade, pois enquanto agressões e tortura às pessoas, mesmo criminosas, forem consideradas normais e beijos simplórios causem furor e sejam razão para espraiar discriminação, rancor e ódio, podemos ter certeza que nossos valores estão absolutamente equivocados!

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 395, 08 de fevereiro de 2014.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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