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Rolezinho da capina

Aberta a temporada de rolezinhos no Brasil. Como alternativa aos passeios dos jovens da periferia pelos shoppings, as mais variadas atividades têm sido ofertadas. Rolezinhos para ir atrás de emprego, capinar quintal, desentupir bueiro e uma série de outros trabalhos que a maioria das pessoas evita realizar. Rolezinho para ler, ir à biblioteca, ao museu, e outras tantas atividades que denotem estudar ou adquirir cultura. E, os mais divulgados, os rolezinhos de atividades caritativas como doar sangue, coletar lixo, visitar orfanatos e asilos, entre várias possibilidades. As rodas de conversas e as redes sociais têm sido profícuas em apresentar sugestões para que essas jovens almas tenham algo digno a fazer. Em geral, as sugestões vêm seguidas da expressão: “Mas esse rolezinho neguinho não quer!”.

Qual o motivo para tanta oferta de estudo, trabalho e atividades de voluntariado como alternativa ao rolé no shopping? Mas antes disso, pensemos, quem tem feito essas sugestões? Por algumas das pessoas que vão ao shopping! Mas por que os donos dessas sugestões vão ao shopping se há tanto a ser feito? Opa! Ao fazermos essa pergunta é possível perceber que há dois pesos e duas medidas! Quem sugere trabalho como alternativa ao shopping são as mesmas pessoas que vão ao shopping nos intervalos do trabalho. Em resumo a sugestão que fazem é: Quando você parar de estudar e trabalhar, não vá se divertir como eu, vá estudar e trabalhar. Mas por qual razão se oferta trabalho como alternativa ao descanso e ao lazer?

Os donos das sugestões são amplos defensores da ideia de que o trabalho dignifica o homem. Concepção que está presente na maioria de nós. Mas será verdade essa ideia na sociedade em que estamos inseridos? A pessoa vale pelo seu esforço, seu labor e seu suor? Ou haverá outra coisa que realmente é importante? Façamos um exercício de imaginação. Se um indivíduo batalhar a vida inteira em um trabalho digno, mas não conseguir juntar dinheiro, ele será reconhecido, valorizado e bem recebido nos locais mais nobres da cidade? A resposta é… não! Mas se esse mesmo indivíduo, sem trabalhar honestamente, ganhar muito dinheiro por meio de jogatinas ou de ilícitos como roubos, fraudes ou corrupção, ele será tratado com todo o respeito e mesuras. Sim, esse indivíduo que fez fortuna pela via da marginalidade será reverenciado, bajulado e tratado como VIP.

Portanto, é preciso dizer que em nossa sociedade atual, partir da premissa que o trabalho dignifica o homem significa tomar como referência uma proposição que não está em voga. Nossa sociedade dignifica as pessoas em razão de seu poder, posses e status. Os novos ricos são um exemplo disso. Antigamente, quando conquistava algum dinheiro, o indivíduo fazia cursos de etiqueta e buscava se ajustar aos padrões de comportamento da alta sociedade na busca por algum reconhecimento. Hoje, os que conseguem se tornar ricos perceberam que não importa cultura, etiqueta ou polidez, mas o quanto sua conta bancária está recheada. Até por isso, há tantos emergentes que expõem suas conquistas sem quaisquer ajustes culturais e aquele quadro de comédia em que a “nova rica” berra o bordão “Eu tô pagaaaaando!”

Seria bom se valorizássemos o trabalho, a virtude e tantas outras atitudes nobres, mas não é o que temos. Hoje, o trabalho não vale como elemento que estabelece a dignidade e o valor de um homem. Assim, essa história de mandar estudar, trabalhar ou fazer caridade é apenas estratégia para esconder o medo de que o oásis dos que possuem alguma coisa seja invadido pelos pobres. Na nossa cabeça, mesmo sem muita clareza, sempre esteve a ideia de que shopping não é lugar de pobre. Mas os Mamonas Assassinas atiçaram a turma dizendo que “Esse tal ‘Chópis Cêntis’ é muicho legalzinho pra levar as namoradas e dar uns rolezinhos”. Os excluídos perceberam isso, se deram ao luxo de acreditar que o shopping é um lugar que podem visitar e, por isso, a desigualdade social está invadindo a Meca do consumismo.

A invasão ocorre porque o poder público não tem sido capaz de oferecer espaços de lazer dignos e porque as pessoas da periferia começaram a conceber que querem e podem mais. A turma dos excluídos descobriu que tem direito a expressar seus desejos, necessidades e vontades em novos espaços, e o shopping é um deles. O rolezinho, como qualquer lazer, é para os momentos de pausa do estudo e trabalho. A maioria das pessoas que vai aos rolés estuda e trabalha, portanto, as sugestões de pegar na enxada e ir estudar são inócuas e, é preciso dizer, preconceituosas.

A questão que se apresenta é a de que precisamos aprender a conviver com uma parcela da população historicamente excluída que, recentemente, começou a existir, a aparecer, a exigir direitos, a ocupar espaços e a vociferar como na música dos Titãs que: A gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e arte. A gente quer saída para qualquer parte. A gente quer a vida, como a vida quer. A gente quer comer e quer fazer amor. A gente quer prazer pra aliviar a dor. A gente não quer só dinheiro. A gente quer dinheiro e felicidade. A gente quer inteiro e não pela metade.

Por querer inteiro e não pela metade, os excluídos romperam o silencioso apartheid social e étnico que existe em nossa sociedade. As consequências virão. Ou recrudescerão as formas de segregação por meio de violência e criminalização ou construiremos uma sociedade sobre novos patamares de igualdade. A segunda alternativa é mais justa e capaz de reduzir índices de pobreza, homicídios e criminalidade. Lamentavelmente esse caminho é mais difícil. Mas independente da rota que venhamos a adotar, uma coisa é certa, há uma nova dinâmica a pressionar por mudanças e não será possível ficar se escondendo atrás do discurso do rolezinho da capina.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 393, 25 de janeiro de 2014.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

 

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