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Miss bumbum e o preconceito

Vencera o concurso de beleza disputado por concorrentes de vários estados, pois seus atributos chegavam bem antes. Ou melhor, chegavam depois dela, em virtude de sua voluptuosa silhueta. Campeã do concurso Miss Bumbum, ela passou a exibir os dotes em programas de entrevistas e em eventos país afora. Com os contornos de seu corpo e a vitória obtida, ela se tornara digna de notícia, os paparazzi a seguiam onde quer que fosse – marcavam presença. As notícias eram invariavelmente elogiosas, mas eis que em um dos eventos, ela aparece com o namorado. Fotos são capturadas e seguem para magazines e tabloides. As imagens invadem as redes sociais, e as críticas das mais variadas recaem sobre o casal, principalmente sobre ele – o namorado. Um único fato fora a causa de tanto espanto e a base para a infinidade de comentários preconceituosos que passaram a ser emitidos: o namorado da beldade era um cadeirante.

Miss Bubum 2013 e o namorado cadeirante

Por que causa estranheza uma moça de corpo escultural ser namorada de uma pessoa com deficiência? Por que essa infinidade de comentários pejorativos e maliciosos, afirmativas maledicentes e ofensas desmesuradas e desnecessárias? Por que a masculinidade e a capacidade do cadeirante em fazer sexo e satisfazer a parceira eram apresentadas como impossibilidades dignas de pena e relacionadas à posse de recursos, golpes de baú e traição sistemática? Quais os motivos para que a relação entre duas pessoas seja recebida de forma tão negativa?

A primeira coisa que salta aos olhos, ao lermos os comentários é perceber que há um desconhecimento completo sobre o mundo das pessoas com deficiência. Como nossa sociedade ainda não é inclusiva, é compreensível que haja ausência de informação. Entretanto, essa não é aceitável como justificativa para a expressão de preconceitos. As críticas empregadas, além de descabidas, são imorais e ilegais, pois ferem em um único movimento a maioria dos princípios fundamentais do Estatuto da pessoa com deficiência como respeito à dignidade inerente, autonomia individual, incluindo a liberdade de fazer suas próprias escolhas, e à independência das pessoas; não discriminação; inclusão e participação plena e efetiva na sociedade; respeito pela diferença e aceitação da deficiência como parte da diversidade e da condição humana; igualdade de oportunidades e igualdade entre homens e mulheres.

As pessoas não nascem com preconceitos, elas aprendem em sociedade, na relação com os pais, professores e amigos. Na maioria dos casos, as crianças não estranham a novidade, haja vista que em sua vida quase tudo é novidade. Nas raras vezes em que algo causa espanto, cabe aos adultos mostrar que não há razão para o distanciamento. Mas, na maioria dos casos, não é o que fazemos. Afastamos nossos filhos de pessoas com deficiências físicas aparentes, assim como o fazemos ao ver pessoas miseráveis, de grupos étnicos diferentes ou com comportamentos que destoam do padrão geral. Impedimos de contato, criamos o distanciamento, o desconhecimento e fazemo-las ficar com medo ou ojeriza daquele grupo de pessoas. Somos nós que ensinamos as novas gerações a serem intolerantes com o diferente. Somos nós que criamos os futuros preconceituosos, vociferadores de impropérios e agressores ignóbeis.

Nós, sob o aspecto de sociedade, devemos aprender a aceitar a diferença e acolher aqueles que pelo desconhecimento nos causam estranheza. Precisamos aprender a olhar para as pessoas com deficiências e ver suas potencialidades, ver as pessoas que são para além das limitações expressas. Há um exemplo histórico de que é possível mudar nossa concepção. Antigamente as pessoas que usavam óculos eram dignas desse tratamento excludente, eram vistos como inferiores, tanto que se usava a expressão “Não se bate em quem usa óculos”. Hoje, os óculos foram incorporados ao nosso universo, as pessoas que os usam deixaram de ser desconhecidas e, portanto, somos capazes de entender suas limitações e compreender as lentes em si como um mecanismo que os auxilia a superar as limitações. Apenas para registrar, muitos lutadores de MMA, o esporte de combate do momento, usam óculos. Portanto, os usuários de óculos da atualidade são como qualquer um, até passíveis de ingressar em uma luta para bater ou apanhar.

Assim como olhamos para os óculos, devemos olhar para as cadeiras de rodas, as próteses e todo equipamento utilizado por qualquer um que apresente uma deficiência seja ela física ou intelectual. A parafernália utilizada é tão somente o recurso disponível para superar a limitação decorrente da deficiência. E as pessoas que as estão usando são pessoas como nós com direitos e deveres, limitações e possibilidades, capazes de viver, sonhar e amar. Se a beldade se envolveu com o cadeirante é porque algo nele a atraiu. Essas pessoas como quaisquer outras, podem ter inúmeras razões para ser um par, um casal com muito amor e reciprocidade. E isso não deve nos escandalizar como não ocorre quando vemos outros casais que não nos causam estranheza. Temos que aprender a lidar com isso e ponto. Afinal, uma sociedade que não permite que todos seus integrantes tenham acesso aos mesmos recursos e direitos disponíveis, trata-se de uma sociedade carente de justiça, igualdade e amor. E essa, sim, é digna de pena!

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 394, 01 de fevereiro de 2014.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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4 comentários sobre “Miss bumbum e o preconceito

  1. Socorro Mota disse:

    Bela reflexão Arley. É necessário revermos nossa postura, libertarmos de nossos preconceitos e assim construirmos uma sociedade mais inclusiva.

  2. Sylmara disse:

    Falou tudo! Devemos quebrar esse círculo vicioso e malicioso que é criar esteriótipos padrões impostos pela sociedade e temos que começar educando nossos filhos a respeito disso!!! Parabéns pelo texto!

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