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Que tal um rolé no shopping?

A Meca das compras ficava em frente ao hotel em que estavam hospedados e resolveram dar um rolé. A família caminhava pelas ruas e tudo estava tranquilo até perceberem que um morador de rua se aproximava. A presença da figura causava incômodo e insegurança uma vez que poderia estar ali para pedir ou roubar. Apertaram o passo e antes que fossem alcançados atravessaram as portas vítreas do empreendimento. Dentro do shopping suspiraram aliviados.

Qual a razão para nos sentimos seguros ao entrar em shoppings? Embora não percebamos claramente, são ambientes que nos protegem da pobreza e dos riscos da sociedade desigual que existe na sociedade brasileira para além das portas vítreas. Dentro do shopping a sociedade é menos desigual, pois aqueles com menos recursos não apresentam condições de vivenciar os valores de consumo ali praticados e normalmente evitam tais espaços. Com a exclusão dos mais pobres, criamos artificialmente uma sociedade mais igual, onde nos sentimos confortáveis e não esperamos que outros venham retirar o que possuímos ou nos importunar com suas demandas. Dentro dos shoppings, suspiramos de alívio por termos deixado a pobreza do lado de fora.

O problema para os que sempre se sentiram aliviados nos shoppings, condomínios luxuosos, planos de saúde, escolas particulares, carros, camarotes VIP e em vários outros ambientes que segregam pelo viés econômico, é que os excluídos resolveram se tornar visíveis e se fazer presentes em ambientes que sempre lhes foram negados. Os menos favorecidos, ou os pobres para quem assim preferir, decidiram dar rolés nos shoppings e, com auxílio das redes sociais apareceram em número massivo. Suas vestes, linguajar, músicas, atitudes e cor de pele contrastaram com a homogênea sobriedade plastificada que encontramos em qualquer shopping. Com a chegada dos rolés, a diferença econômica e a desigualdade social passaram a imperar e, com elas, a insegurança de quem aprendeu a resolver na esfera privada e não na melhoria dos serviços públicos a solução para as dificuldades de nosso modelo social.

Tais invasão e afronta não poderiam passar incólumes. Os tradicionais usuários dos shoppings foram às redes sociais criticar os intrusos com alegações as mais diversas. Em uma das críticas, o autor escreve que rolezinho para carpir mato e auxiliar idosos estão disponíveis, mas ninguém quer! E amplia o pacote de preconceitos ao afirmar que durante a realização dos rolés não será permitido fumar maconha e ouvir funk. Em suma, o autor da postagem que provavelmente nunca fez nenhuma das coisas que sugere aos outros que façam, afirma que os frequentadores dos rolés são todos vagabundos, drogados e dotados de gostos repreensíveis.

Obviamente que o poderio econômico demandou o auxílio do braço do Estado para impedir o que entendem ser o desvario dos descamisados. A polícia foi acionada e usou de balas de borracha e gás lacrimogênio dentro do shopping para expulsar esses intrusos que ousam ocupar ambientes que não lhes pertencem. Ah, mas houve arrastão, destruição e roubos generalizados, dirão alguns. Não é verdade! O delegado responsável pelo caso no Shopping Metrô Itaquera afirmou que durante o rolé, apesar da perturbação do sossego e do trabalho dado o volume de participantes, apenas um furto foi registrado. A mídia tradicional, para variar, cumpriu seu papel e apresentou o rolé com sensacionalismo, enfatizando caos, crimes e ampliando a insegurança. A justiça concedeu liminar ao Shopping JK Iguatemi para impedir a realização do rolé em suas imediações e já antecipou em dez mil reais o valor da multa diária para os que se decidissem participar. De uma só canetada, atentou contra a legislação, oficializou a discriminação e criminalizou o rolé sem que crimes tivessem acontecido! Surreal, não?

É fantástico enxergarmos como a simples ida de certas pessoas ao shopping causa tanta comoção e movimentação social. Felizmente é possível ir além das aparências e questionarmos o que está posto. Nesse caso, há um grupo de pessoas cotidianamente excluídas, vilipendiadas e invisíveis começando uma luta por se tornar visíveis e serem reconhecidas com seus ideais, valores, desejos e gostos. Mesmo que os participantes dos rolés não percebam, há em suas ações uma contestação dos limites da nossa sociedade com sua estrutura e desigualdade. Os excluídos estão retomando espaços, direitos e dignidade que lhes foram tomados. Os que sempre ficaram com tudo não vão querer que as coisas mudem, isso significa resistência, tensão e luta. Aparentemente temos o início de um confronto pelo modelo de sociedade que vivenciamos e vivenciaremos. A pessoa tem que valer mais que a propriedade. A ampliação das mobilizações sociais deixam evidente a necessidade da valorização do público, do coletivo e do social em detrimento do capital, da propriedade privada e do lucro. As tensões estão apenas começando e não será mais possível suspirar aliviado em determinados ambientes, pelo menos por algum tempo. Vamos manter a exclusão nos isolando em guetos ou construir uma sociedade mais justa e igual que reconheça o valor e o direito de todos? Enquanto decidimos o mundo que queremos, que tal um rolé no shopping?

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 392, 18 de janeiro de 2013.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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