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Natal, presentes e manifestações

Véspera de Natal e Noel sobrevoa as casas com suas renas. O trenó pousa em cada residência para entregar presentes, não sem antes saber se as pessoas que ali habitam foram merecedoras. Foram boas? Fizeram tudo direitinho? Aquelas que atravessam de forma positiva a análise são agraciadas com a visita do bom velhinho e o recebimento de presentes. Mas o Brasil, se fosse uma pessoa, receberia em 2013 a visita do Papai Noel?

Ano de grandes manifestações esse 2013 que ora se encerra. Uma explosão de pessoas nas ruas expressando suas insatisfações e vontades de transformação. Sob uma propaganda maciça de indicadores positivos alardeados por governo e mídia, a população foi às ruas dizer que o bem estar tão propalado não estava chegando ao dia-a-dia, pois se perdia em algum vão entre os informes oficiais e a realidade cotidiana.

As manifestações não surgiram do nada, das redes sociais ou de uma entidade específica como alardeiam alguns. É verdade que a questão específica da passagem do transporte público organizada pelo Movimento Passe Livre (MPL) coligiu todos os anseios e reivindicações das mais variadas pessoas e posicionamentos, mas tudo o que aconteceu vem sendo gestado há anos. Milhares, melhor dizer milhões, de militantes atuam cotidianamente em sindicatos, associações, organizações, movimentos sociais e mesmo em alguns partidos políticos para que as pessoas se conscientizem, enxerguem as razões de sua exploração e lutem por seus direitos e por uma vida digna e feliz. É verdade também que esses militantes foram atropelados pela velocidade e forma como insatisfação e indignação se esparramaram pelas ruas, mas isso não lhes retira a primazia.

Reivindicações nas ruas, a grande mídia foi contra, depois fingiu ser a favor. Mas insistia em mostrar agressões e violências com o intuito de que as manifestações ficassem no imaginário popular agregadas ao quebra-quebra sob o termo vandalismo. Tudo realizado no intuito de defender os interesses das grandes empresas, grupo do qual fazem parte. Não saíram incólumes desse posicionamento. A imagem dos grandes meios de comunicação saiu arranhada e desgastada dessa empreitada. Muita gente, mas principalmente, a nova geração passou a olhar com desconfiança para as informações exaradas pela mídia.

Uma vez formada essa onda de manifestações é necessário entender suas peculiaridades para colocarmo-nos todos a serviço desse mundaréu de gente que foi às ruas. O pontapé desse processo é a crise do capitalismo que se externou com a perda do valor de papéis na bolsa e criou um efeito cascata em que os governos tentavam desesperadamente sustentar os ganhos dos investidores. O atendimento aos interesses desse grupo, só foi possível retirando recursos que antes se direcionam aos serviços sociais e ao conjunto da população. O resultado veio na forma de indignação e de ruas lotadas por pessoas que entenderam não ser mais apropriado que seus direitos fossem vilipendiados para atender aqueles que detêm uma parcela significativa dos recursos do mundo. Em vários países as manifestações encheram as ruas com pessoas gritando que eles importam e que merecem uma vida melhor.

No Brasil, o aparato de repressão do Estado foi colocado à serviço das grandes corporações e as pessoas nas ruas passaram a ser olhadas e tratadas como criminosas. Muitos manifestantes, quer trabalhadores ou estudantes, foram agredidos sob a ordem dos governantes de plantão. Mas quando as agressões se voltaram contra a PM, a Presidente se arvorou em defender que a agressão era inaceitável. Usando a Copa e as Olimpíadas como desculpa, leis foram aprovadas tornando a possibilidade de enquadrar manifestações como atos terroristas em uma clara tentativa de evitar o levante dos excluídos e prejudicados. Na medida em que reclamar é crime, só restaria baixar a cabeça e seguir como gado. Felizmente os brasileiros não estão aceitando isso passivamente. O ano de 2014 com Copa do Mundo e eleições promete um fervilhar de manifestações em defesa de direitos. Que o Brasil seja outro quando os brasileiros se fizerem ouvidos ao gritar seus desejos e inquietudes!

Bem, voltemos ao velho Noel e ao natal. Pelo visto, o Brasil não seria visitado em 2013 se olharmos apenas nossos governantes voltados para o capital, envoltos em corrupção e pouco preocupados com o povo. A grande mídia atuando como um partido ao defender e difundir uma linha ideológica e de ação atrelada aos interesses dos poderosos, auxiliando a subjugar a população e criminalizando movimentos sociais e manifestantes também não seria uma razão para o país receber presentes. Felizmente tivemos um povo que começou a mostrar sua cara, sua indignação e a entender que pode fazer a mídia recuar e governos mudarem de posição. Claro que ainda temos que dar um rumo mais concreto a nossas manifestações por meio de pautas e organicidade bem estruturadas, mas o caminho foi aberto para construirmos na luta cotidiana um país mais justo, igualitário e fraterno. Talvez em virtude das manifestações e lutas desse 2013 Noel visite e deixe um presente ao Brasil. Que esse presente seja a semente de um povo ainda mais aguerrido na luta por seus direitos, de um brasileiro que encha as ruas com manifestações e façam com que governos e mídias mudem seus discursos e ações, de um Brasil livre de todas as formas de exclusão para que todos além de brasileiros sejamos irmãos.

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 389, 21 de dezembro de 2013.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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