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O que é o Método Científico? É pra comer?

Organograma sobre o método científico

Texto de Marcelo Mazocco publicado neste post com a devida autorização.

Senhores, sentindo um pouco de ausência de conhecimento científico de algumas pessoas nessa tal de internetz, resolvi escrever esse pequeno (juro que a intenção era boa, de ser pequeno mesmo, mas é resumido anyways) manual sobre a importância da base científica na sua argumentação.

Àqueles cujas almas podem ser salvas da ignorância (porque tem uns, que vou te contar…), como diria o Chapolin, sigam-me os bons:

O que é o Método Científico? É pra comer?

Bom, pra começar nossa viagem (inveje-me, Sagan), iremos à Europa da Idade Média. Muita coisa estava mudando, uma quantidade considerável de conhecimento emergia de mentes brilhantes. Descartes, Newton, Kepler, Galilei.

Mas não havia, ainda, uma separação clara, uma demarcação objetiva, do que poderia ser alvo de estudo científico. Newton era alquimista. Kepler tentava provar a inteligência de Deus através das órbitas dos planetas comparando-as a sólidos platônicos. Ainda haviam, misturados, estudos a respeito de almas, fluidos vitais e tudo mais o que se possa imaginar. Qualquer ideia aleatória podia ser igualmente válida.

Foi precisamente nessa época que detectaram uma grande necessidade de separar categoricamente aquilo passível de estudo do que não dava pra ser estudado. Eis que surge o MÉTODO CIENTÍFICO (importante notar que isso não tem nem 400 anos).

Basicamente, tudo que não podia ser testado, tudo que era fundamentado em crenças e opiniões pessoais e tudo que não era sustentado por evidências teve de ser igualmente deixado de lado ao objetivo de estudo.

Então, surgiram diretrizes, pilares do pensamento científico. São elas:

– Princípio da Falseabilidade. Hipóteses científicas devem ser sempre TESTÁVEIS com o objetivo de prová-las falsas (falseá-las). Um único teste é o suficiente pra reprovar toda uma teoria científica e hipóteses só se tornam teorias após aprovações em diversos testes. Segundo Karl Popper, a ciência é um exercício contínuo de refutação. Cada experimento e observação pretende contradizer a teoria aceita. É daí que surge o famoso Problema da demarcação.

– Problema da Demarcação. Dado que ciência só estuda o que pode ser falseado, ela NÃO SE PROPÕE A ESTUDAR O SOBRENATURAL.

– Princípio da generalidade e simplicidade. Também conhecido como Navalha de Occam, ela diz: “se em tudo o mais forem idênticas as várias explicações de um fenômeno, a mais simples é a melhor” (William de Ockham).

Agora que você já sabe o que o método científico faz e em que buraco não enfiá-lo, irei lhe contar o sensacional segredo de como ele funciona: MÁGICA!

Não, pera! Você vai precisar de (momento canal de culinária):

– Uma observação. Sistemática e controlada, de modo a evitar contaminação experimental por qualquer que seja o fator.
– Uma hipótese! Pois é! Uma possível explicação ao fenômeno observado.
– Previsões. A hipótese precisa prever o que acontecerá a seguir. Momento de suspense!
– Um teste controlado e reprodutível. Assim outros cientistas podem verificar os resultados.

Caso a hipótese seja aprovada em diversos desses testes, por cientistas independentes (o que chamamos de revisão por pares), ela pode finalmente ascender ao status de teoria.

Não, teorias não são “apenas” teorias. Elas são explicações que em alguns casos sobreviveram a MILHARES de testes. As vezes são a última palavra em conhecimento científico, dado que esse conhecimento SEMPRE deverá estar aberto a testes.

TEORIA CIENTÍFICA, CORROBORA-SE OU É CONTRADITA, POR FATOS CIENTÍFICOS. JAMAIS SE PROVA UMA TEORIA CIENTÍFICA.

Obviamente, ainda existem fronteiras no conhecimento científico. A curiosidade científica é movida por elas, inclusive. Algumas pessoas, geralmente movidas por suas crenças, costumam explorar essas fronteiras de modo a validar tais crenças com explicações “científicas” cuja ciência jamais se propôs a dar, como vimos por todos os motivos acima. Minha forte recomendação, que um dia ainda vai te fazer muito rico, é que adote a postura científica mais adequada: “Não sabemos. Portanto, nada podemos dizer a partir daqui, por enquanto”.

Mas se quer a resposta definitiva para a vida, o universo e tudo mais, ela já foi fornecida à humanidade:

42.

Para ler (coisa leve. Se quiser ir mais a fundo, tem uma vastidão do espaço virtual acessível através do Google te esperando):
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ciência
http://pt.wikipedia.org/wiki/Método_científico
http://pt.wikipedia.org/wiki/Problema_da_demarcação
http://pt.wikipedia.org/wiki/Navalha_de_Occam
http://pt.wikipedia.org/wiki/Sólido_platónico
http://www.wfsj.org/course/pt/pdf/mod_5.pdf

Por Marcelo Mazocco.

Leia também:  Metodologia de pesquisaComo escrever um artigo para uma revista científica

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