Entrelinhas, ideologia, manifestações, mídia, movimentos sociais

Antecipações e manchetes de jornal!

Muitos de nós passamos por situações em que ficamos com a impressão de já as termos vivenciado. Algumas vezes advém a sensação de que as pessoas nos antecedem em dizer ou fazer aquilo que ainda estamos elaborando. Em outras mais comuns, temos a convicção de sabermos o que farão ou falarão, a cada momento, os que nos rodeiam.  Nessa semana vivenciei tal impressão! Algumas das coisas que me vieram à mente foram ditas por outros antes de mim. Enquanto acessava a rede social e pensava sobre como a mídia tem superestimado a questão do vandalismo e se recusado a apresentar as causas das manifestações, encontro um texto de Andrew Costa afirmando: ‘Hoje, quando voltava pra casa, ouvi 5 minutos de cobertura “ao vivo” da manifestação na Avenida Paulista. Foram 5 minutos de muito “mascarados”, “violência”, “confronto”, “ruas fechadas” e “trânsito caótico”. “Vandalismo” parece que virou vírgula. Ao fim dos 5 minutos a repórter termina a passagem dizendo que nenhum patrimônio público foi depredado, embora todos sejam “vândalos”, “mascarados” e “violentos”. Os motivos da manifestação? Cinco minutos deve ter sido pouco no rádio, esqueceram de noticiar’.

O texto casava com meus pensamentos de forma tão imbricada que poderia ter sido escrito por mim. Ainda entretido com tamanha similaridade, passeei os olhos por outras informações e me defrontei com a notícia de manifestações populares na Itália. Um canal de notícias que sempre reporta as manifestações no Brasil como vandalismo (a esmagadora maioria da mídia brasileira faz isso) noticiou o fato com a seguinte manchete: “Jovens descontentes com governo enfrentam polícia em Roma”. Imediatamente me coloquei a pensar sobre como a mídia trata eventos equivalentes de forma distinta segundo seus interesses e sobre como a notícia é usada como processo ideológico. É preciso dizer que se enganam aqueles que teimam em acreditar que a grande mídia é objetiva e imparcial.

Manchete: Jovens descontentes com governo enfrentam a polícia em Roma

Manchete: Jovens descontentes com governo enfrentam a polícia em Roma

Os processos de manifestações no Brasil, Europa e mundo árabe, embora tenham particularidades, seguem o mesmo padrão em suas causas e formas de atuação. As imagens do evento em Roma mostram, como no Brasil, pessoas mascaradas, quebrando vidraças e enfrentando a polícia. Entretanto, a manchete e a forma de tratar a notícia cria a impressão de que lá fora há pessoas cultas e engajadas em questões sociais, enquanto aqui temos vândalos cuja diversão é destruir o patrimônio público e privado. Essa manipulação na forma de noticiar os fatos gera a ideia de que no Brasil não vale a pena participar de nenhuma ação reivindicatória e o status quo segue mantido. Aqueles que absorvem acriticamente o material da grande mídia assumem uma postura de inércia local enquanto enfatizam a criticidade, a politização e o envolvimento das pessoas de “nações desenvolvidas”.

À reportagem do jornal com as imagens dos confrontos e destruição foi apensada uma pergunta: “Como seria a manchete se a manifestação fosse no Brasil?” Passei adiante a imagem em minha rede social e pensava em discutir a ideia. Mas pouco depois vi que não precisava me preocupar em responder, pois minhas compreensões foram novamente antecipadas por outra pessoa. Assim em vez de escrever o que estava formulando, vou simplesmente dar voz ao Maurício Araújo, aluno da UNIFAP crítico e dono de uma pena articulada, como cabe a um universitário e futuro profissional das Letras. Segundo Maurício, a manchete se o evento fosse no Brasil:

Como seria a manchete do dia?

Como seria a manchete do dia?

‘Seria “Vândalos Mascarados Destroem Patrimônio Público e Privado e Enfrentam a PM”! De fato, professor, muito curiosa (embora nem de longe surpreenda) a forma diferenciada de tratamento para manifestações equivalentes contra o Capital (neste caso, em Roma) por parte das emissoras de televisão, estações de rádio e internet. Isso não ocorre por acaso, a intenção é continuar a manipulação da opinião pública contra qualquer movimento popular reivindicatório por parte da elite conservadora dos meios de comunicação, tendo como objetivo a manutenção da criminosa política neoliberal dos atuais governos que intensificam cada vez mais os ataques contra o povo pobre e a classe trabalhadora, assim como intensificam (e isso ainda é possível) as transferências descaradas de recursos públicos para os grandes capitalistas, entre os quais se incluem os monopolistas da comunicação no Brasil através das grandes emissoras de televisão, estações de rádio e portais da internet. Sendo estes grupos tão beneficiados pelo Estado através de subsídios, empréstimos a juros quase inexistentes de bancos públicos, isenções fiscais, entre outras espécies de transferências de recursos e patrimônios públicos, não é de se admirar que se coloquem tão diretamente contra a população manifestante dado que a falta das ditas benesses questionada pela população trabalhadora levaria esses capitalistas à inevitável bancarrota! É necessário fortalecer cada vez mais a luta da classe trabalhadora contra toda a espécie de repressão, censura e criminalização dos direitos promovida, acima de tudo, pelo grande capital representado pela burguesia nacional através do Estado Neoliberal! Essa luta é nossa!’

Publicado originalmente no jornal Tribuna Amapaense, Nº 384, 9 de novembro de 2013.

Outros textos de Arley Costa podem ser lidos em https://arleycosta.wordpress.com/entrelinhas/

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2 comentários sobre “Antecipações e manchetes de jornal!

  1. andréia disse:

    Polidez linguítica para as manchetes internacionias e para as nacionais o bom e velho sensacionalismo.
    A grande mídia não nos representa! Será? em junho vimos todas as instituicões serem questionadas ou quase todas, inclusive as grandes emissoras de tv, mas o que percebo é que ela depois desses questionamentos assumiu de vez sua parcialidade a ponto de não procurar mais os eufemísmos para noticiar opiniões tendenciosas que vão de encontro a verdade sobre os reais motivos das manifestações, nem mesmo aqueles parêntes que se abriam para a opinião pública, uma entrevistinha bem editada para se colocar apenas o que interessava-os e para, lógico, conferir credibilidade as suas matérias. Percebo bem isso no discursso de alguns repórteres, que com orgulho ferido, sim, acho que eles pensavam estar acima do bem e do mal e que por isso não seriam tbm questionados, atacam com os mais diversos adjetivos ofensivos os manifestantes. Essa mídia não nos representa, mas ela tá pouco se importando, afinal não somos nós que estamos pagando!

    • Não nos representa é verdade, mas não creio que não esteja se importando. As grandes corporações midiáticas sofreram um arranhão em sua imagem que, mesmo pequeno, é sem igual na história brasileira. Pela primeira vez se falou abertamente para a grande massa que a mídia deturpava as informações segundo o seu interesse. O efeito pode não ser tão visível ou tão imediato, mas que os grandes donos da mídia não estão confortáveis, não estão. Talvez por isso, assumiram uma parcialidade mais evidente e atacam as manifestações com uma ferocidade que não se revelara ate então. Provavelmente uma tentativa de dizimar quem ousou confrontá-los e de jogar para baixo do tapete e o limbo do esquecimento esse arranhão. Espero que o golpe tenha sido profundo o suficiente para que a grande mídia tenha uma cicatriz como lembrança de que não podem desvirtuar as coisas ao seu bel-prazer. Grande abraço.

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